Costumes Madrilenos

S. de Magalhães Lima · Capítulo 16 de 20

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Costumes Madrilenos

XVI o Prado e o Retiro

XVI

 

O PRADO E O RETIRO

 

Dizem os physiologistas que o calor é a vida; e por isso é, creio, que os cafés, assim como as soirées, assim como os clubs, assim como os boulevards se tornam hoje uma verdadeira e insubstituivel necessidade social.

Que o homem nasceu para a sociedade—escrevem-o philosophos abalisados e tem-o repetido ha um seculo, e ininterruptamente, o corpo cathedratico da nossa universidade.

Esta verdade passou, porém, da metaphysica á pratica; e assim é que, ao contrario{134} de Rousseau—que na natureza fundava todo o pacto entre os homens—se elevaram, como por encanto, o Bois de Boulogne, em Paris, o Hyde Park, em Londres, e o Central Park, em New-York.

A não ser Lisboa, a velha fanatica do passeio publico, poucas cidades ha agora na Europa, que não tenham o seu pequeno boulevard, especie de rendez-vous do mundo elegante e da fina sociedade do bom tom.

E necessario é que isto assim seja. O boulevard não é simplesmente uma ostentação de capital, mas ainda mais uma parte indispensavel á educação de um povo, que não é só intellectual e moral, senão tambem physica e social.

Em Paris qualquer creança aprende mais pelos olhos e pelo ouvido do que nós nas nossas escolas. E o motivo é facil. Habituados desde a infancia a frequentar os differentes jardins— botanico, zoologico, etc.—quando chegam a uma edade razoavel, quasi se póde dizer que são dotadas de uma vasta e profunda educação.

Praticamente aprendem os nomes aos{135} animaes; ouvem-lhes a historia; assistem-lhes ao desenvolvimento e acompanham-lhes os movimentos e os instinctos. E tudo isto, porque desde pequenos frequentam os boulevards, onde brincam e onde muitas vezes arranjam os meios de ganhar a vida no futuro.

Mas o boulevard tambem é hygiene, pelo bom ar que lá se respira, pelos exercicios a que convida, e pela facilidade com que se passeia. Depois nem só isto. Ha ali campo para largas observações e assumpto para profundos estudos. Muitos romances conheço eu que tiveram lá a sua origem, além de muitas mulheres que lá foram procurar a sua felicidade e a sua riqueza.

O Prado é um dos mais celebres e um dos mais concorridos passeios da sociedade elegante de Madrid. Diz-se que a sua origem, tal qual se acha presentemente, data do reinado de Carlos III. Rodeado de fontes, de lagos, de arvores, de estatuas, de restaurantes, de praças, o seu espaço é enorme, extendendo-se da fonte de Cybele quasi em linha recta até encontrar{136} o passeio de Atocha, formado pela prolongação da rua do mesmo nome.

É raro o dia em que ali não passeiam de quinhentas a mil carruagens, vendo-se frequentemente dentro d'ellas rostos formosissimos, adornados de bellos olhos, profundos e escuros, como só os sabem ser os olhos hespanhoes.

Com dois ou tres passeios ao Prado quasi se fica conhecendo toda a sociedade madrilena, nas suas distincções e nos seus vicios, nas suas virtudes e nos seus erros.

E depois—que mulheres!

A uma historieta assisti eu, divertidissima por signal e extremamente curiosa.

Um amigo meu, amoroso e simples, encontrou-se um dia profundamente apaixonado por uma gentilissima menina, que todas as tardes ali costumava expôr-se á admiração geral dos passeiantes e dos leões da moda.

Até aqui, já se vê, nada de extraordinario.

O ingenuo rapaz, porém, não se podendo mais conter, entrou-se tristemente na{137} desgraçada usança portugueza, e abeirando-se da mulher, fez-lhe a seguinte declaração:

—Deponho aos seus pés, minha senhora, a mais pura e sincera homenagem dos meus respeitos e do meu amor...

Ao que a deusa respondeu:

—Ai! que graça!... Se o cavalheiro soubesse em que eu agora estava a pensar?!...

O galã aproximando-se mais:

—Em que estava a pensar?!...

—Sim, pois não adivinha? aflautou a ingenua.

—Certamente que não.

—Pois olhe estava a pensar num bonito vestido de riscas...

Ó illusões! ó facadas!

No dia immediato o apaixonado moço pegou num lapis, e escreveu á pressa num bilhete de visita as seguintes e doces palavras:

«Pepa (era o nome da heroina)—«Pepa—aborreço-me, e adoro-te».

A resposta, porém, não veio. Pegou noutro bilhete, e tornou a escrever:{138}

«Quem a adora, onde a poderá encontrar?»

Então o coração de Pepa pulsou violentamente dando de si uma tremenda explosão que em seguida passamos a transcrever fielmente.

«Cavalheiro—Recebi o seu primeiro e o seu segundo bilhete. Não respondi ao primeiro, porque não quiz, e ao segundo apenas tenho a dizer que o acho de um arrojo extraordinario e nunca visto».

Assignado por um nome supposto que não era o de Pepa.

Assim continuaram as cousas. Os episodios succederam-se uns após outros. Numa noite, comtudo, ás tristezas do costume seguiram-se no meu amigo umas alegrias estranhas. Interroguei-me a mim e interroguei-o a elle. Reparei-lhe nos olhos, e reconheci-os mortiços; olhei-lhe as narinas, e vi-lh'as extraordinariamente dilatadas. Então a minha consciencia deixou o estado de duvida em que se achava, e entrou serenamente na estrada da certeza. A conquista havia-se effectivamente realisado. Pepa, a sublime actriz, depois de{139} varias piruetas, de varios zig-zagues, de varias fórmulas, concluira emfim por se render. Não era praça inexpugnavel. Presentiu metralha, e caiu. Cumpriu religiosamente o dever que a sua condição lhe impunha.

E nada mais. O meu patricio, o indigena, sahia todos os dias de casa, alegre e bem disposto, e entrava altas horas da noite com algumas libras de menos na algibeira e com algumas desillusões a mais no espirito, até que por fim se saciou.

Ao deixar Madrid, elle vinha menos ingenuo e mais pratico. Lições do boulevard!

Na hora da partida escreveu á sua amada uma carta frisante, que bem nos póde revelar a transformação que no seu caracter se operára ultimamente.

«Minha menina—Um negocio urgente me chama a Lisboa. Digo-lhe adeus. A menina é formosa, elegante e distincta. Com duas ou tres horas de janella por dia, estou convencido, encontrará um digno substituto á minha pessoa. Sem mais. O seu...»{140}

E assim é, de facto, o boulevard:—a vida, o amor, a formosura—e tambem a lição aos ingenuos e a practica aos inexperientes.

 

*

* *

 

Agora, marqueza, tenha paciencia, caminhemos para o Retiro.

Dizem que o sol é o pae da vida—approveitemos o sol. Bras-dessus, bras-dessous, conversemos. Que lindo tempo! É verdade!— sabe a marqueza de um facto que hontem se deu na cidade? Não sabe? Pois eu lhe conto. Conhecia a Dolores, a formosissima cocotte da rua de Alcalá? Que elegante mulher! Tinha uns cabellos louros, que pareciam estrellas do céo. Os amantes, que eram aos centos, querendo comparar a côr do seu cabello com a côr do ouro, por mais de uma vez tinham ficado sem o dinheiro, e, o que é peior ainda, privados tambem do proprio cabello de tão gentil señorita. Que ferro, minha amiga, que ferro!{141}

Ha de haver seis mezes, Dolores appareceu, como de costume, no Prado. Seriam quatro horas, quando eu a vi chegar. Trajava um elegante vestido de seda escarlate, cuja fimbria recebia quotidianamente os beijos dos amantes e os suspiros do solo, que muito ao de leve pisava e quasi sem mesmo se aperceber. Porque Dolores, a vaidosita, não era mulher que por ahi se gastasse em qualquer passeio solitario. Ella tinha a sua carruagem—uma bonita carruagem moderna e commoda—e tinha tambem, além de muitos escravos, de que o seu coração por vezes escarnecia, os seus creados e as suas governantas.

Dolores era, no fim de contas, como todas as mulheres do boulevard, um espirito risonho, attrahente, leviano,—nem Rigolboche, nem Magdalena. Ella alimentava em seu seio o sublime sentimento da familia, educára suas irmãs; e conduzia seu pae—um triste cego!—pelo braço. Não amava porque não queria; tambem não odeiava; mas, se fugia do amor era simplesmente porque lhe reconhecia os{142} perigos. Afóra isto, como se encontrou só e desamparada no mundo, destituida de prendas e de educação, fez vida pela sua formosura, e caminhou rectamente, serenamente, desassombradamente, sem attrictos, sem desvios, sem atalhos pela estrada dos assalariados da terra.

No subir para este calvario, ella, que não queria passar por santa, sentiu que a cruz lhe era demasiadamente pesada e quiz descarregar-se d'ella. Mas ao olhar para traz viu que a sua familia— uma pobrissima e desgraçada familia—carecia, para não morrer de fome, de comer e de se alimentar.

Então chorou. Pobre Dolores! Quantas mulheres como tu não terão passado pelo mesmo desespero e pela mesma agonia!...

Um raio de esperança, porém, penetrou-lhe no coração. A passo lento approximou-se do espelho. O espelho reflectiu-lhe a gentileza sem par. Que alegria, meu Deus!—exclamava ella. Finalmente... finalmente...

E foi-se para a rua nuns impetos estranhos, nervosos, incomprehensiveis...{143}

D'ahi a um mez, Dolores, trajando sedas e veludos, era uma das mil e perigosissimas rainhas do Prado.

Mas vamos ao escandalo. Havia um mez seguramente que em redor d'ella como que tentava esvoaçar um ingenuo da provincia— bom rapaz, é verdade, mas algum tanto lorpa. Dolores não gostava d'elle. Mas, emfim, ou por dó ou por capricho permittiu-lhe um dia a approximação. Effectuou-se o rendez-vous, que durou meia hora. Ella fallou sempre; elle, porém,—ó pudor!—apenas a comprimentou á entrada e á saída.

Muito bem.

No dia immediato, ao de semilhante encontro, recebia Dolores a seguinte carta:

 

«Minha senhora,

 

«Pretendo ardentemente o seu coração. Amo como nunca amei. Exijo que me attenda. No caso contrario, suicidar-me-hei.»{144}

 

—Curioso, curioso!—exclamava ella, rindo e correndo pela sala.

—Original, original!... Tinha graça... ficar sem o meu chacho... elle que me póde render ainda tão boas, tão santas libras... Oh! pois não... attendel-o-hei... Cahirei aos pés d'elle, que não falla... aos pés d'elle... não, não te suicidarás, formoso!....

E, e sem mais, Dolores tomou a penna e escreveu laconicamente:

 

CONTA CORRENTE

«Deve o sr. F. por meia hora de conversação commigo, no dia 1.º do corrente, a simples quantia de 1:000$000 réis, que pagará em oiro ou prata, dentro de vinte e quatro horas a contar de hoje das 11 da manhã.

 

Assignada—DOLORES.»{145}

 

E assim foi. O rapaz, ao receber o bilhete, sentiu-se quasi allucinado. Depois, porém, recobrou animo e serenidade. Pensando que seria aquelle o unico meio de a conquistar, volvidas duas horas, após a recepção da carta, respondeu com a mesma singeleza:

 

«Minha senhora,

 

«Por si darei tudo, a minha vida e o meu futuro. Póde, quando quizer, mandar receber o dinheiro que pede no banqueiro C., rua de ***, n.º....»

 

Dolores passou, então, pela primeira impressão forte na sua vida. Esta resposta laconica e expressiva, como era, agitou-lhe violentamente as fibras da sua alma, d'ella. Reflectindo bem no caso e na dedicação, com que fôra brindada, ella a orphã, ella, a desdichada, ella, a meiga,{146} ella—a preciosissima joia, engastada numa sociedade de meras apparencias e de meras formalidades, ella, a Dolores, ella chorou sinceramente.

—Não!—dizia ella—Eu não receberei este dinheiro. Nunca! Mas em vez do seu dinheiro—oh, sim!—eu receberei o seu amor, que deve ser sublime com a sua generosidade; o seu amor, a pura expressão de um coração honesto e simples.

E escrevendo, ella disse-lhe a chorar:

 

Meu amigo,

 

«Renuncio ao seu desinteresse. Sinto que o amo doidamente. Desejo vel-o. Venha quando quizer.

 

«Dolores.»

 

Assim se encadearam os acontecimentos. Dolores, sem ser Margarida arrependida,{147} tornou-se, todavia, mulher séria e grave. O nosso provinciano, sem ser Armando, adquiriu pelo amor de Dolores a consciencia de si e a elevação da sua dignidade abatida.

Mas, quando menos a gente as espera, é quando o diabo as arma.

Dizem-me que hontem, tanto Dolores como o seu amante, foram encontrados mortos, na propria casa em que desde muito habitavam.

Oh! os boulevards, minha querida marqueza...

Mas, por Deus, entremos no Retiro.

O seu braço, minha amiga, o seu braço!...

*

* *

O passeio do Retiro, um dos mais afamados da Europa, foi fundado no reinado de Filippe IV, sob a inspiração do conde duque de Olivares, especie de marquez de Pombal na Hespanha.

Quasi todos os despotas gostam de deixar{148} assignalada a sua passagem na terra com monumentos immorredouros, por via de regra attestados de inepcia, de orgulho e de mau gosto.

Foi assim que, entre nós, no tempo de D. João V se originou o celebre convento de Mafra. E foi assim que nasceu o Escurial, embora de melhor gosto e de mais elevação artistica.

Durante o reinado do seu fundador, o Buen-Retiro, pelos seus passeios, pela sua magnificencia, pelos seus jardins, pelos seus palacios, pelos seus theatros, quasi se podia dizer um Eden, entreaberto aos sorrisos das morenas feiticeiras e um paraiso entresonhado pelos cavalleiros desde aquelles periodos aventurosos.

Tudo, porém, neste mundo tem a sua decadencia. Filippe V, querendo guindar-se á altura do monarcha francez, virou-se para os jardins de Aranjuez, onde lhe pareceu divisar competencias, embora longinquas, com Versailles, de todos os passeios actuaes da Europa o mais célebre e o mais sumptuoso, ainda quando mais não fosse senão pelo jogo das aguas, as quaes,{149} na sua ascensão phantastica e miraculosa, se alteiam muitas vezes, numa extensão de cincoenta metros acima do nivel do lago.

Assim foi decaindo tão rara maravilha. Fernando VII tentou restituil-a á vida. E o facto é que o Retiro, mercê das grandes e enormissimas quantias nelle sepultadas, atravessou incolume até nós, a salvo das revoluções e em plenos sorrisos de felicidade.

Leitora amiga—se realmente ama o passeio, percorra a Carreira de S. Jeronymo e entre no Retiro. Levante-se cedo, tome o seu chaile, calce as suas luvas, e prepare-se afoitamente para banhar-se numa boa atmosphera, salutar e agradavel. Esta pequena digressão ha de fazer-lhe bem, porque é hygienica e variada. Em casa póde dispensar o seu chocolate; ha de saboreal-o lá, depois de ter passeado, depois de ter ido ao lago, depois de ter visto as feras, emfim, depois de estar cançada. E verá que a não engano. Lá encontrará um bom restaurant aceiadissimo e commodo. Á cautella, porque o almoço{150} é tarde, sempre lhe aconselho que mande vir duas ou tres bolachas.

Como queira. Perto de nós temos a montanha artificial e o salão oriental. Já lá foi? Que soberbo panorama! D'ali, d'aquella eminencia, apparece-nos Madrid, em toda a sua vida e em toda a florescencia. Que magnifica cidade, e sobretudo, que cidade tão moderna!

É verdade—e o jardim botanico? É logo no passeio do Prado. Dizem que só está aberto desde 30 de maio até 30 de setembro. Mas é um famoso recinto, bem cultivado, com excellentes plantas e situado num magnifico local. Possue, além disso, este jardim uma notavel variedade de plantas e uma curiosissima secção zoologica, cujo objecto é alimentar e propagar, na Hespanha, toda a especie de animaes.

E a Recoletos—já foi a leitora?—E á fuente Castellana?

O primeiro tem, como o Prado, oito lindissimas fontes, todas ellas no meio de praças, de arvores, e de mil outros attractivos, que dão ao nacional o supremo{151} consolo de poder passar bem duas ou tres horas por dia.

Porque estes passeios não servem apenas de meras distracções. Outros são os seus fins e outras são tambem as suas vantagens.

Os boulevards, em geral, além de possuirem no seu seio mil cousas dignas de um estudo especial, são por outro lado um espectaculo que as municipalidades offerecem á pobreza, tão curiosa como digna de divertir-se.

No nosso paiz os operarios não encontram um espectaculo gratuito. Por isso, á falta de entretenimentos, entram nas tabernas, e embriagam-se. Tivessem elles uma boa musica, um bom passeio, um exercicio attrahente e o amor do vinho desapparecera. Tivessem elles, sobretudo, municipalidades desinteressadas e independentes, e as suas doenças, assim como o seu mal estar não teriam mais razão alguma de ser.

O artista tem no boulevard, uma formosa galeria, especialmente merecedora de analyse e de critica. Nos museus encontram-se{152} os quadros pintados. Pois o boulevard é um museu—ao vivo, já se entende.

Dizia Richelieu que costumava esmagar o amor debaixo do tacão da sua bota. D'onde se vê que nem o illustre cardeal se pôde eximir ás influencias do mundo exterior e dos boulevardiers.

O boulevard é ainda mais o figurino, a moda, o chic. Quem fôr á fuente castellana, que começa na casa da moeda e termina na fonte do mesmo nome, encontra ali o mais selecto da sociedade madrilena—toilletes finissimas, aristocracia elegante e burguezia desempenada.

Foi na fuente castellana que se originou uma elegantissima paixão ainda hoje inedita nos annaes da historia hespanhola.

Conta-se que um notavel tribuno, escriptor e poeta, andando um dia a recrear-se neste passeio, fôra apanhado de surpreza pelos olhos abrasadores de uma sevilhana gentil; e por tal fórma se deu este facto que elle, hoje politico illustre no seu paiz, nunca mais pôde subtrahir-se ás influencias d'aquelle dominio.{153}

A menina foi, passado um mez, pedida á familia em casamento. Ella acceitou, e o matrimonio ficou assim solemnemente tratado.

Demorou-se, porém o negocio. A noiva pretextava desculpas, que ninguem sabia a que attribuir. Em casa, além da familia, só entrava um padre. O noivo, furioso, tratou de indagar. Sabendo finalmente, que fôra o padre o motor de similhante desordem, elle, com a maxima serenidade, procurou-o em casa, e disse-lhe expressivamente:

—Entre o insulto e o assassinio prefiro o segundo. Queira fazer o acto de contricção.

O padre ajoelhou.

—Agora levante-se, e peça perdão a Deus.

E zás, sem mais tir-te nem guar-te, ouviu-se a detonação de um tiro. Uma bala havia atravessado o peito do hypocrita.

—Finalmente—exclamou o tribuno.—Para os frades bacamarte, para a batina clavina.

E fugiu.{154}

Volvidos annos, este mesmo cavalheiro voltava á patria, casava com a mesma menina que em tempos namorára, e preparava-se para ser ministro, o que já foi ha muitos annos.

Oh! os boulevards, minha querida marqueza, os boulevards...

Mas, a proposito, quer a marqueza jantar commigo?{155}