Costumes Madrilenos
XV Touradas
XV
TOURADAS
A los toros! a los toros!...
E a populaça, ebria de sangue e sedenta de prazer, empoleirava-se no cimo das carruagens, comprava camarotes pelo dobro do preço, corria pelas ruas como um possesso, gritava, ria-se, atirava ao ar os seus chapeus emplumados, cortejava a realeza que passava, dava vivas á Marselhesa, e fugia, fugia nas azas do phrenesi irrequieto, em demanda do mais barbaro de todos os espectaculos do mundo.
Ó Hespanha, minha querida amiga, doce{126} filha dos cafés e da volupia, tu, que possues museus que te são um legitimo patrimonio de orgulho e de riqueza; tu, que amamentaste ao teu seio os maiores oradores da Europa contemporanea; tu, que tiveste artistas como Murillo, Velasques, e Goya; tu, que és o amor, a contradicção, o mysterio; tu, minha perola, tu não devias ser torera.
Emfim, eu sei que tu tens defeitos; e o teu primeiro defeito, acredita-me bem, é ser militar. Os teus rapazes, porque são novos, desejam agradar ás mulheres: pegam numa arma com a mesma sem-ceremonia com que nós aqui bebemos um copo de agua. Que valentões! O campo de batalha sorri-lhes, o inimigo revolta-lhes as iras concentradas, e são leões, atiram-se, atiram-se ferozmente sobre a metralha adversa. Nem sua magestade o canhão Krupp os intimida, nem os joelhos lhes tremem á vista do adversario.
Que valentões! que valentões...
Ai! querida minha, que se não fossem as mulheres, tu serias mais feliz e respeitada. Mas, que diabo! para que tens tu{127} filhas tão formosas?—para que? Não te bastava já o chocolate, para, á semelhança de um vulcão, trazeres sempre dentro de ti o fermento da revolta? Ainda, por cima, olhos scintillantes, rostos abrasadores e salero atrevido? Ora pois, nada mais te faltava...
Tem paciencia; mas tu, Hespanha, tu o que tens é excesso de calor, de sensualidade, de veneno, de corrupção. Os estrangeiros acham a tua cosinha demasiadamente apimentada; nós encontramos as tuas mulheres sempre como uma braza—a ferver; nos teus cafés toma-se pouca soda; o proprio sr. Canovas del Castillo, quando falla no congresso, não é muito atreito aos gólos de agua; o teu rio é semsaborão, estreito, pouco abundante e superficial. Ao que parece, um poucochinho de agoa de mais, um poucochinho de lume de menos não deixaria de fazer-te bem. Numa palavra, minha querida amiga, se queres viver independente, feliz, alegre, satisfeita comtigo mesmo—purga-te, manda vir da botica duzentas grammas de bom senso politico, que será a tua magnesia{128} calcinada;—fóra, fóra com essa bilis que te devora o organismo: estomago limpo e menos... chocolate aos srs. politicos.
Mas os touros, os touros! por vida minha, que nunca assisti a espectaculo mais curioso, mais terrivel, mais seductor. Até as proprias mulheres se tornam viris, musculosas, corpulentas—ellas, que uma hora antes tinham acceitado a côrte a um gentil militar imberbe; ellas, que são um puro mysterio, uma alta excentricidade; ellas, emfim, que têm o dom mythologico de nos apparecer sob o duplo aspecto da força e da fraqueza, do repente e do meditado, do meigo e do energico.
Inundára-se de povo a Calle de Alcalá. Os char-á-bancs eram sem numero; os guisos telintavam nos classicos muares; por toda a parte a corrida infrene, as subitas allucinações, os risos infernaes; as vertigens, que referviam em desejos ardentes; a loucura, que volitava em nuvens de enthusiasmo; a alegria, que trasbordava em ondas de amor; a vida, a mulher, o fumo, o chocolate, os touros emfim.{129}
Que delirio para aquella gente! que devoção! que irresistencia!
Chega o primeiro touro: os leques agitam-se; no olhar ha mais irradiação; scintillam as moedas de prata; aos pés do bandarilheiro audaz cahem as dezenas de charutos.
—A elle, meu valente, a elle...
E o cavalleiro aponta-lhe a lança ao pescoço, e o animal investe com o cavallo. Com uma das pontas rasga-lhe o ventre; a multidão, embriagada, applaude o sangue; mais uma investida e o misero cavallo lazarento succumbirá; assim; mais uma; até que, emfim, vem a morte dulcificar este pandemonio infernal!
Agora Lagartijo que se approxime; elle traz uma pequena espada na mão direita; para elle está reservada a mais garbosa moña, que nunca mão de mulher se lembrou de fazer. Deante do touro o heroe não trepida; lá estão ambos que parecem dois tigres: alfim o animal cança: Lagartijo investe; mais uma volta, e o touro cahirá.
As bandas marciaes rompem em hymnos estridentes; a populaça agita os lenços{130} de côr; em todos os olhos se lê o phrenesi irrequieto, nervoso, indomavel: Lagartijo venceu, Lagartijo é o heroe da festa; triumpho a Lagartijo...
Otro toro! otro toro!...
Quasi que nem chega a haver tempo para arrastar para fóra da praça os derradeiros restos d'aquella barbara batalha, tão audazmente pelejada entre um homem e um animal, que, em vez de joguete de circo, muito bem podia ser a felicidade da agricultura e o alimento da miseria.
Touro, cavallo, farpas, lanças,—tudo á uma é arrastado em padiolas para fóra do amphitheatro.
Depois, esperando, faz-se sempre votos para que o outro touro seja melhor do que o seu antecessor; como se para saciar a avidez dos espectadores fosse pouco todo o sangue derramado.
É que a Hespanha é realmente assim, em meio da sua vida tumultuosa e larga. Pouco lhe importa a morte de dez, vinte, trinta homens; a questão é que o enthusiasmo não decresça nunca, e que a vida não deixe jámais de ser uma terna e doce{131} folgança, onde os risos e as lagrimas, as alegrias e as tristezas crescem e augmentam, temperados na mesma proporção.
E, no entanto, nenhum paiz existe de mais vastos recursos do que a Hespanha, onde as minas de cobre, de ouro, de prata são quasi tantas como as suas provincias e os seus concelhos.
Nas suas planicies, por igual risonhas e productivas, medra e desenvolve-se toda a especie de productos agricolas; as suas paizagens, se bem que aridas na Extremadura, pela escacez de agoa, tomam todavia um aspecto deliciosissimo na Andaluzia, onde as mulheres e os horisontes se disputam a palma e o amor.
Abençoado paiz! Nem as guerras, nem as dissidencias civis, nem as revoltas populares poderam ainda prostral-o.
Uma nação que tão sinceramente ama as touradas, não poderá nunca deixar de ser guerreira e sanguinosa.
Ai de nós, no momento em que a Hespanha deixasse de ser o que é—lutadora, torera e ruidosa.
A los toros! a los toros!{132}
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