Costumes Madrilenos

S. de Magalhães Lima · Capítulo 18 de 20

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Costumes Madrilenos

XVIII Homens Illustres

XVIII

 

HOMENS ILLUSTRES

 

Em Hespanha é extraordinario o numero dos homens illustres.

Poucos são os talentos naquelle paiz que não possuam uma feição eminentemente litteraria. Os proprios politicos resentem-se d'este defeito, se defeito se lhe póde chamar.

Do romance são innumeros os cultores. A Hespanha, como paiz de mais aventuras, presta-se a elle. Entre nós são já muito conhecidos os nomes dos srs. Manuel Fernandez y Gonzalez, homonymo do celebre ministro republicano, ultimamente{164} mandado sahir de Lisboa pelo governo portuguez, Henrique Peres Escrich, Ortega y Frias, Tarrago e Mateos, etc.

O sr. Fernandez y Gonzalez é uma especie de Ponson du Terrail hespanhol. É escriptor fecundo e de muita força concepcional.

Peres Escrich é quasi mystico. Os assumptos dos seus romances são quasi sempre religiosos. É um romancista catholico, mas são puras as suas intenções sem as sacrificar á seita.

Ortega y Frias, Tarrago y Mateos, Piedro Antonio Alarcon, Peres Gadosh, Antonio Hurtado, Varella, Vilhoslava, Ricardo Sepulveda são os que mais se aproximam do romance moderno na descripção e no entrecho dos assumptos.

Eusebio Blasco é um humorista de grande merecimento, e José Castro e Serrano é, em nosso juizo, talvez o primeiro novellista hespanhol.

A estes podemos, de certo, juntar D. Manoel Silvella, Asmodeu, pseudonymo, Antonio Trueba, auctor de uns famosos{165} contos, sobejamente conhecidos na litteratura da Europa.

Na poesia avultam Zorrilla, um lyrico surprehendente; Campoamor; Garcia Gutierres, de quem se diz que nasceu com o Trovador e que morreu com D. Urraca; Ventura Ruiz Aguillera, auctor de um famoso livro de satyras; José Martinez Villergas, egualmente satyrico: Roberto Robert, espécie de Voltaire no arrojo da palavra e do conceito; Grillo, Gaspar Nunes de Arse, Espronceda, José Eshegarai, Hartzenbusch, Antonio Arnao, Antonio Hurtado, José Selgas, tambem prosador, Trueba, Carlos Frontaura, Carlos Rubio, Larra e outros.

Passando da poesia para a politica, são tantos os nomes, que difficilmente seria possivel recordal-os a todos.

Quando estive em Hespanha, contava-se uma anecdota curiosa de Emilio Castelar.

Dois estudantes da escola medico-cirurgica de Lisboa tinham ido a Madrid assistir á entrada de D. Affonso XII na cidade, depois de concluida a guerra carlista.{166} Era dia de sessão no congresso. Fallava Castelar. Nas tribunas agglomerava-se o povo. Difficilmente se obtinha um logar.

Um dos estudantes, porém, reflectindo no caso, entrou numa mercearia, e escreveu a Emilio Castelar as seguintes linhas:

«Estão aqui dois portuguezes, seus admiradores, que desejam ouvil-o.»

O merceeiro, que viu que a carta era subscriptada para o insigne orador, não lhes levou nada, nem pelo papel, nem pela tinta.

Castelar leu o bilhete, e immediatamente sahiu do congresso, a fim de introduzir os dois estudantes na tribuna, reservada á diplomacia.

Quando acabou de fallar foi ter de novo com os dois estrangeiros, e offereceu-lhes os seus serviços e a sua pessoa n'aquella cidade.

Este traço revela bem as brilhantes qualidades, que caracterisam Emilio Castelar.

E, uma vez que fallámos em Castelar, não esqueceremos tambem de mencionar{167} um distincto talento, seu amigo intimo, director do jornal, o Globo, e auctor de um famoso livro sobre o movimento operario na Europa no seculo XIX. Este cavalheiro chama-se D. Joaquim Martin de Olias.

Francisco Pi y Margall é um outro vulto que trouxe na memoria. Estive em sua casa perto de duas horas, e precisamente na mesma sala onde aquelle célebre padre tresloucado tentou assassinal-o. É um caracter magestoso e um talento deslumbrante. Fui encontral-o a brincar com dois filhinhos menores. Que contraste entre aquella scena puramente domestica e a dos seus actos publicos! O homem vigoroso da tribuna e da imprensa é um anjo de paz e de amor no seio dos seus! Foi-me realmente agradavel esta visita.

Salmeron, o erudito publicista, que resignou gloriosamente o poder por não querer assignar a pena de morte para o exercito, vivia exclusivamente do professorado. Regia uma cadeira de ensino livre no Atheneu, retribuida pelos discipulos.

Zorrilla, que atravessou os transes mais{168} dolorosos da vida, e que além de um grande poeta é tambem politico de notavel bom-senso, vê-se hoje expatriado e longe dos seus.

O mesmo succede a talentos notaveis como Fernandez de los Rios, Fernando Garrido, Ramon de Cala, Estevanez, Gonzalez e outros.

José Maria Orense, o decano da democracia hespanhola, está quasi afastado da politica.

Sagasta póde talvez ser classificado entre os radicaes. Passa por excellente caracter e por conservador sympathico.

Canovas del Castillo, embora defensor de uma má causa, é todavia um eminente orador e um notavel poeta.

Que a dizer a verdade, abaixo de Castelar, os dois oradores mais afamados são Figueras e Martos.

O verdadeiro enthusiasmo hespanhol está, porém, no exercito. Entre Olozaga e Martinez Campos, prefere-se este justamente pela espada, que traz á cinta. E a prova é que, terminada a luta com os carlistas, as acclamações da cidade dirigiram-se{169} mais a Martinez Campos do que a D. Affonso XII.

De modo que em Hespanha o militarismo é um vicio galante, de que as mulheres não desdenham e que os politicos temem soberanamente.

Fallando, porém, de homens illustres, não deveremos de modo algum omittir dois nomes, que, por mais do que um lado, nos devem ser sympathicos e affectuosos.

Esses nomes são os dos srs. D. Benigno Joaquim Martinez e Antonio Romero Ortiz, de quem em seguida nos vamos occupar.{170} {171}