Costumes Madrilenos

S. de Magalhães Lima · Capítulo 2 de 20

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Costumes Madrilenos

II Nós e Elles

II

 

 

NÓS E ELLES

 

Não ha duvida que nós não somos elles, nem elles são nós.

Não obstante, elles querem ser nós, mas nós é que não queremos ser elles.

Coisas d'este mundo!

Nós, não nos fartamos de elogiar Madrid; e elles não se cançam nunca de exaltar Lisboa.

Mutatis mutandis, ninguem está bem senão onde não está.

A verdade, porém, é que nem a patria do sr. Fontes é má, nem as terras do sr. Canovas são detestaveis.{16}

Lisboa tem, como Madrid, as suas pequenas corrupções, os seus ministros ociosos, a sua realeza inutil, o seu credito abastardado, a sua administração vacillante, os seus empregados preguiçosos, a sua fama em decadencia e o seu futuro compromettido.

Tudo isto temos nós, e tudo isto têm elles—mercê de Deus.

Por cá, como por lá, multiplicam-se os bailes, rangem as sêdas, reluzem as toilettes, scintillam os chrystaes, refervem os vinhos nas suas taças preciosas, adelgaça-se o corpo, polvilham-se os cabellos, tingem-se as faces, alarga-se a consciencia, confundem-se os factos, adora-se a elegancia, e todos—ó céus! sem mesmo o presentirem—caminham para o bom tom, impellidos pela magreza, que os devora, arrastados pela falta de hygiene e seduzidos pela eterna sereia das humanas velleidades.

D'onde se conclue que cá e lá más fadas ha.

Mas Lisboa, com franqueza, não é de todo má: as suas ruas estão povoadas de{17} bellos e formosissimos edificios; os seus jantares, embora sem dinheiro, são abundantes; os seus hospedes vestem-se bem, não obstante faltar-lhes para isso o corpo e o sangue; as suas filhas de aguarella sabem calçar uma bota á Benoiton; Aline, a sua modista, tem algum gosto; Stellpflug e Manuel Lourenço, os seus sapateiros predilectos, contentam os seus freguezes; Barral tem bons remedios; o café, em geral, não é mau; os charutos satisfazem; os assassinos não tem sido demais; quem quizer tambem póde deixar de se suicidar; emfim, ella não é despiciente, acreditem:—unicamente o que lhe falta é o espirito, isto é, o tic nervoso, que dá o bom senso; o enthusiasmo, que eleva as gerações; o fanatismo scientifico, que torna os homens celebres e audazes; o que lhe falta verdadeiramente é isso—essa primeira parte da humanidade a que Shakespeare chamaria, talvez, o to be da humana existencia—o caracter.

Emile Péreire, no tempo em que escrevia no Nacional, sob as ordens de Armand Carrel, tão pobre era que longe estava{18} de imaginar o futuro de riqueza que o esperava.

Foi, recordando-se d'esse passado de miseria, que elle pronunciou aquella esplendida phrase, de que Charlet fez uma caricatura:

—Aos trinta annos tinha dentes e não tinha pão; aos sessenta tenho pão e não tenho dentes.

Pois assim está a nossa capital—quando tinha caracter e dinheiro faltava-lhe o espirito e o desenvolvimento intellectual; agora que naturalmente está mais desinvolvida e mais apta para as concepções do mundo moderno, escasseia-lhe o caracter e a franqueza.

Façamos como Paulo Vernet, o pintor realista—abramos a janella, e olhemos serenamente o que se passa.

Em Madrid vive-se no café e pelo café. Quando se quer procurar qualquer pessoa importante, não se pergunta nunca pela casa onde reside, mas sim pelo café que costuma frequentar. E ahi está tambem o motivo, porque, na capital da Hespanha, os cafés, que quasi se podem dizer{19} pequenas aldeias pela extensão e pelo comprimento, estão cheios, perfeitamente cheios, durante a noite e durante o dia. É ahi que se faz a politica, e é ahi tambem que se preparam os futuros acontecimentos do paiz.

Dizia madame de Grirardin que um dos primeiros deveres da mulher era ser bonita. Pois o hespanhol tem para si, que um dos primeiros deveres do homem, em geral, é ser fallador, ruidoso, amante das revoltas e sinceramente admirador do extraordinario.

Lembro-me que, numa noite, no theatro da zarzuella, um meu companheiro de viagem havia sido apresentado a uma distincta familia de Madrid, com quem travou estreitas relações de amizade e de quem recebeu os mais inequivocos testemunhos de affecto.

Eram pae, mãe e duas filhas.

No dia immediato ao da apresentação um grande acontecimento echoou na cidade. Dizia-se que uma senhora havia sido ferida na cabeça por um tiro de rewolver, desfechado á queima roupa por seu{20} marido, o qual, julgando-a morta, se suicidára logo em seguida.

Este facto, importante em qualquer outro paiz, ali mal despertou a curiosidade publica. Quasi que passou desapercebido.

Averiguado, porém, o caso, soube-se effectivamente que a heroina era nem mais nem menos do que a tal senhora, que, na vespera, pela sua attenciosa bizarria confundira o meu amigo, com attenções e delicadezas. Ella exigira do esposo dinheiros avultados, que elle asseverava abertamente não ter em casa, naquella occasião. Então a mulher, enfurecida, gritou, fingiu-se morta, até que emfim se atirou ao marido, o qual, não constando que fosse santo, se atirou por seu turno a ella.

E assim, travados de razões, armaram aquella tragedia, digno exemplo de duas filhas menores e edificante monumento da civilisação de um povo.

Madrid tem, sobretudo, um vicio de origem—a falta de agua. O caracter hespanhol, tão contradictorio em si e nas suas manifestações, é todavia secco, aspero{21} ás vezes, e irreflectido quasi sempre.

A escassez de agua, além de escurecer toda a paisagem da Estremadura, faz ainda, porém, com que as flores sejam raras na cidade, e de todo o ponto destituidas de gosto.

Ora todos sabem que a flôr entra hoje na vida do ménage como uma necessidade, insubstituivel. Muitas senhoras têm nella uma companheira e uma amiga. A aridez da vida domestica é muitas vezes compensada pela existencia de um jardim, ao qual a dona da casa consagra todos os seus ocios e em virtude do qual ella cura todos os seus tedios.

A mulher hespanhola, como não tem flores nem jardim, procura naturalmente os cafés e o mundo exterior, de que aliás precisa para conviver e para se entreter; cousa que, em nosso juizo, ninguem, em verdade, lhe poderá levar a mal.

E, no meio de tudo isto, não ha povo que sinceramente comprehenda melhor as leis da hospitalidade e que melhor e{22} mais bizarramente saiba attrahir a si os estrangeiros.

Mas, embora elles queiram ser nós,—nós é que, em boa logica, não podemos ser elles.

Elles, por exemplo, empregam o adjectivo larga—esta calle es muy larga—para significar o comprimento, ao passo que nós o empregamos para exprimir a largura.

Antithese completa!

Oh! não—decididamente nós não podemos ser elles..

Mas, se ellas quizessem ser nós!...

Se nós fossemos ellas!...{23}