Costumes Madrilenos
XVII Historia Inedita
XVII
HISTORIA INEDITA
Ha de haver nove mezes que isto succedeu. Ia eu de Madrid para o Escurial. O unico companheiro de viagem que a fortuna me concedeu, durante o trajecto que vae da cidade do sr. D. Affonso XII ao Versailles hespanhol, era uma senhora alta, de cabello louro, de olhos azues e de uma distincção profundamente aristocratica.
Mudos, por muito tempo, foi ella, afinal, quem rompeu o silencio.
—Es usted español?—perguntou-me a minha amavel companheira.{156}
—Não, minha senhora, sou portuguez—respondi.
—Ah! portuguez.... conheço perfeitamente Lisboa; já lá estive tres mezes. É uma cidade bonita, mas muito monotona. A natureza é admiravel, mas a sociedade é demasiadamente ficticia. Não tem uma vida propria, e vive do que os outros lhe querem dar...
—E posso eu ter a honra de saber a quem me dirijo?
—Ora! por Deus! sou muito modesta para que deseje saber quem sou. Nasci na America, em Nova-York. Depois meus paes mandaram-me para Paris, onde fui educada. De Paris passei á Suissa, onde residi alguns annos, e da Suissa vim para Madrid, onde vivo ha dez annos com meu marido e um unico filho que tenho.
—E a opinião de v. ex.ª ácerca de Madrid?
—Um magnifico centro com muita vida propria e alguma corrupção. Detesto muito a politica hespanhola, e amo do coração a sua litteratura. Gosto muito dos seus poetas e dos seus litteratos. São enthusiastas{157} ardentes e mais que tudo fanaticos à outrance.
—E a respeito das litteratas hespanholas, que me diz v. ex.ª?
—Uns verdadeiros talentos. Conheci de perto D. Carolina Coronado. Tem uma historia engraçada. Um dia ella, a caprichosa, que tanto e tão a peito defendia a emancipação da mulher, arrojou para longe de si o trajo feminino, e fez-se rapaz. Engraçadissima! Entrou na universidade ao mesmo tempo que seu marido, formou-se em direito, e já escreveu sobre direito penal. Hoje é uma distinctissima poetisa, e ainda uma deslumbrante mulher.
—Admiravel!
—Tambem tive relações intimas com a melhor novellista hespanhola, que usava do pseudonymo Fernand Caballero. Havia sido perceptora dos filhos do duque de Montpensier, e presentemente pouco escreve, creio eu.
—E a baroneza de Wilson, conheceu?
—Perfeitamente. D'essa senhora conta-se tambem uma anecdota curiosa. Diz-se que Zorrilla estivera doente, e que, na{158} sua enfermidade, fôra tratado desveladamente por uma senhora, sua vizinha. Ao cabo da doença, elle, querendo ser grato, esposou a sua enfermeira, a qual, então, vivia com uma sobrinha, mulher de um grande talento, que mais tarde casou com um inglez e que por isso se chamou baroneza de Wilson. E tambem vivi muito de perto com D. Maria Pilar Sinués de Marco. É romancista afamada. Vem-lhe de seu marido o nome de Marco, e por isso os hespanhoes dizem d'elle —se le conoce porque és marido de la Sinués, (similhança de Cabeza e Calabazas).
—Nunca fallou em Lisboa com uma distinctissima senhora, que usa do pseudonymo Leon de la Vega?
—Pois não! Sei que é esposa de um engraçado escriptor chamado D. Thomaz de Mello.
—Exactamente.
—Além d'estas, convivi com Angela Grassi, mulher, talvez não muito formosa mas de muito talento; com D. Antonia de Arciniega e Martinez, que cultivou um genero de poesia quasi pastoril; com D. {159} Josepha Estevez del Canto, admiradora em excesso das fabulas de Lafontaine, com D. Emilia Cale Torres de Quintero, com D. Sofia Tartilau e com muitas outras. Bem vê que seria impossivel recordar-me agora de todas as minhas relações. Unicamente lhe affianço que em Hespanha as mulheres que escrevem, embora não sejam muitas, são todas dotadas de um immenso talento.
—Mas, minha senhora, permitta-me que lhe manifeste os meus mais ardentes desejos de a conhecer...
—Perdão... isso é que não está no contracto. Tenho respondido a todas as suas perguntas e isso me basta... O meu nome, não lh'o posso por ora revelar. É possivel que mais tarde o saiba. Por agora desculpe-me.
—Escurial! Escurial!...—gritaram os guardas do caminho de ferro.
A minha companheira apeou-se, e, estendendo-me a mão, nem sequer me deu tempo para me despedir d'ella.{160}
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Dois dias depois, o creado do hotel, em Madrid, entregava-me um bilhete concebido nos seguintes dizeres:
D. Maria del Sarto
pede-lhe a fineza da sua companhia para o jantar de hoje, ás 6 horas da tarde, na Calle de Alcalá—
8.
—Maria del Sarto! Quem será Maria del Sarto?—exclamei.
E ás 6 horas da tarde, em ponto, dirigi-me para a rua de Alcalá.
Qual foi, porém, o meu espanto, quando, ao entrar na sala dei de rosto com a minha formosa amiga de viagem.{161}
—Sente-se aqui—disse-me ella, apontando para uma cadeira.
E foi nessa occasião, e nesse jantar, que me foi dado formar um juizo seguro ácerca das cousas e dos homens de Hespanha.
Devo-o principalmente áquella affectuosissima senhora, a quem d'aqui envio os meus respeitos e a minha gratidão.
Uma vez, porém, que fallamos em celebridades, conversemos um pouco sobre ellas.{162}
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