Costumes Madrilenos
V Edificios Publicos e Outras Curiosidades Historicas
V
EDIFICIOS PUBLICOS E OUTRAS
CURIOSIDADES HISTORICAS
Dizia um celebre escriptor allemão que a vida era uma viagem em caminho de ferro: o casamento um choque de trens; o somno a passagem de um tunel; um negocio a passagem de uma ponte; o destino um machinista que nos leva silencioso ao termo da viagem.
Nestas circumstancias, e a ser verdade o que nos diz tão excentrico pensador, parece, de facto, que ao homem nada mais resta neste mundo do que uma vida de sensações rapidas e imprudentes, sem um{42} unico pensamento, que o preoccupe, sem repouso, sem ligações, sem familia, sem crenças, sem humanidade.
E apesar de tudo, e sem embargo do auctor citado, o universo apresenta-nos um aspecto perfeitamente em contrario do que acima transcrevemos.
Por toda a parte a fixidez se nos antólha como elemento essencialissimo na vida dos povos. Na evolução das sociedades a primeira cousa que o homem teve em vista foi certamente fixar-se, construir a cabana onde tinha de pernoitar e estabelecer definitivamente a séde dos seus trabalhos e operações.
Imagine-se o leitor, em Madrid, no meio de uma praça irregular, que se chama Puerta del Sol. É o coração da cidade. Conta-se que em 1520 houvera alli um castello, sobre a porta do qual se encontrava uma pintura representando o sol. Desde então para cá póde dizer-se que é aquelle o logar destinado, aos despreoccupados do mundo, aos flaneurs do bom tom e á fina èlite dos salões madrilenos.
Que contraste! Na propria sociedade{43} hespanhola, que mais pensa na vida externa do que na vida interna, pacifica, de casa, nessa mesma nos foi dado admirar a impretrerivel tendencia da natureza humana para o viver confortavel, commodo, alegre e quasi poderiamos tambem dizer luxuoso.
Poucas familias ha, em Madrid, que não tenham a sua casa, excellentemente mobilada, e que, pelo menos, não possuam o modesto segredo do savoir-vivre, isto é, o segredo da conservação e da hygiene individual.
Sem sahir da Puerta del sol, o viajante poderá, se quizer, fazer um telegramma aos seus amigos, dirigindo-se áquelle magnifico predio onde actualmente se acha o ministerio da governação, e poderá, tambem, se assim lhe aprouver, tomar uma chavena de chocolate no magnifico café Imperial ou subir mesmo ao primeiro andar d'esse mesmo edificio, e ordenar que lhe reservem um quarto no Hotel de Paris.
Sahindo da Puerta del sol encontramos duas ruas quasi parallelas —a rua Alcalá{44} e a Carrera S. Jeronymo. Na primeira d'estas ruas eleva-se um soberbo arco triumphal, erecto no reinado de Carlos III, a fim de perpetuar a memoria da sua vinda á côrte de Hespanha. Consta de cinco entradas, sendo tres eguaes, no meio, e em fórma de arco, e uma quadrada em cada extremo. A Puerta de Alcalá, a primeira de Madrid, conta 70 pés de altura, com a seguinte inscripção:
REGE CAROLO III
ANNO MDCCLXXVIII.
Além d'esta ha ainda a Puerta de Toledo, situada no fim da rua do mesmo nome, consagrada, no anno de 1827, a Fernando VII, o desejado.
E, visto estarmos fallando nas maravilhas da arte hespanhola, bom será que não esqueçamos as duas principaes praças da cidade —la plaza de Oriente e la plaza Mayor.
A primeira tem fórma circular, e é circumdada exteriormente por um formosissimo passeio, onde estão collocadas quarenta{45} e quatro magnificas estatuas, destinadas a representar os monarchas hespanhoes.
No centro da praça ergue-se a estatua de Filippe IV, symbolisando o seu disvelo pela arte nacional, e dando-nos em allegoria o solemnissimo momento em que tão generoso monarcha se dignava condecorar o celebre pintor Velasques com a cruz de Sant'Iago.
O theatro real faz tambem com que este logar seja um dos que melhor perspectiva apresentam na cidade.
A segunda—a plaza Mayor—foi construida em 1619, sob a direcção do architecto D. Juam Gomes de Mora. É o logar destinado ás festas da côrte hespanhola. Antigamente a fidalguia armada costumava, em actos solemnes, esperar ali a sahida dos touros, que eram picados com a maxima destreza e pericia por parte dos amadores da arte de Pepe-Híllo. Já por duas vezes o incendio tentou destruir tão formoso recinto. No seu centro está collocada a estatua equestre de Philippe III, obra começada pelo architecto{46} Juan Bologna e terminada por Pedro Tacca.
Presentemente a plaza Mayor acha-se reduzida ás condições de um deliciosissimo jardim e pouco mais.
Passemos, porém, ao Palacio Real. É uma das obras de arte, que mais particular attenção merece da parte dos entendedores.
Foi construido este palacio em meados do seculo passado. Situado no extremo occidental da povoação, precisamente no logar onde outr'ora se erguia o famoso alcaçar de Madrid, a sua origem remonta, segundo uns, ao reinado de Affonso VI, e segundo outros ao reinado de Pedro I. No cimo da escada, que é de marmore, existe uma estatua de Carlos III, o qual, parece, concorrêra bastante para a melhoria d'aquelle edificio.
Começando pela fachada do Oriente, a pintura, que se vê na primeira sala, representa o Tempo descobrindo a Verdade; na segunda encontra-se Apollo premiando o talento; na terceira a queda dos gigantes, que uma vez tiveram a ousadia{47} de attentar contra os céus; na quinta a apotheose de Hercules; e na sexta, septima, oitava e nona a representação da philosophia, da pintura, da musica e da poesia.
Além do que aqui deixamos mencionado, muito mais, porém, poderiamos accrescentar. O Palacio real é uma das maravilhas da capital de Hespanha, já pela sua riqueza, já pelos seus valiosissimos quadros, já, emfim, pela sua vasta opulencia.
Não pára, comtudo, aqui a nossa admiração. Cumpre egualmente não esquecer outras maravilhas da cidade, taes como o Palacio do Senado, onde pela primeira vez se reuniram as côrtes hespanholas em 1820: o palacio do congresso, edificio muito moderno, principiado a construir em 1834, os ministerios publicos, as reaes cavallariças situadas ao norte do palacio, e ainda como reliquias de architectura dos seculos XVI, XVII e XVIII até nós, os palacios particulares de Medinacellí, de Liria, do duque de Abrantes, do marquez de Salamanca, etc.{48}
E ainda, se o leitor fôr poeta e se interessar pelos grandes homens, não deixarei de recommendar-lhe a visita ás casas de Cervantes, de Lope de Vega, de Torrijós, de Cisneros e da beata Maria Anna.
A casa de Cervantes, edificada na rua do mesmo nome, tem, por cima do portal da entrada, em marmore branco, a seguinte inscripção:
«Aqui vivió y murió Miguel de Cervantes Saavedra; cuyo ingenio admira el mundo. Falleció em MDCXVI».
Na parte superior está o busto do poeta.
A casa de Lope de Vega foi recentemente restaurada, e a de Torrijós, celebre general, tem tambem um distico, em que se lê pouco mais ou menos o seguinte:
«Aqui nació el general D. José Maria Torrijós; defendia la independencia e libertad de la patria e murió em 11 de deciembro de 1831, arcabuceado em Malaga por haber intentado restabelecer con las armas la Constituicion».{49}
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Agora, permitta-me o leitor que lhe offereça um charuto. Emquanto se espera entremos aqui neste café, no café de Sevilha. Uma chavena de chocolate não lhe fará de certo mal.
—Rapaz!—Chocolate!...{50}
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