Costumes Madrilenos
XIX D. Benigno Joaquim Martinez e Antonio Romero Ortiz
XIX
D. BENIGNO JOAQUIM MARTINEZ E
ANTONIO ROMERO ORTIZ
Só em Madrid o numero de jornalistas sobe talvez a mais de duzentos. Ainda ha pouco, por occasião de se installar o Casino de la Prensa na calle Mayôr, orçaram por 160 as adherencias da parte do jornalismo madrileno.
Entre os mais sympathicos periodicistas hespanhoes podemos citar: Escobar, Perez de Guzman, José Ortega, Ulloa, Sagasta, Garcia Ruiz, Pi y Margall, Figueras, Navarro, Blasco, Molina, L. Rubio, Palacio, Alcalá Galliano, dr. Galdo,{172} Tubino, Diaz Perez, Quintero, Escosura, Soriano Fuestes, Ruti, Rivera, Calvo Ascencio, Leon Serrano, Benigno Martinez, Romero Ortiz e mil outras illustrações que nos seria impossivel enumerar em opusculo de tão limitadas proporções.
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D. Benigno Joaquim Martinez é conhecido pelo doce appellido de amigo dos portuguezes. A sua casa e a sua bolsa estão sempre á disposição dos nossos patricios e conterraneos. Nada ha que possa retribuir tamanho affecto e tão devotada abnegação. Dir-se-ia que D. Benigno é, de facto, mais portuguez do que hespanhol.
Martinez foi por muito tempo empregado superior no ministerio da justiça. Até ahi advogara e vivera do jornalismo. As suas convicções radicaes não lhe permittiram, porém, que continuasse a servir um governo que desde muito lhe era{173} antipathico. Então sem mais recursos, deliberou entregar-se exclusivamente á imprensa, tanto nacional como estrangeira. Tem sido correspondente de jornaes inglezes, italianos e francezes. A sua vida mal se descreve. Ha dias em que se senta á meza desde a madrugada até ao jantar e desde o jantar até á madrugada. A honra e a dignidade são a sua divisa. Nunca transigiu. Em Portugal já 11 jornaes lhe confiaram as correspondencias de Madrid, as quaes elle tem cumprido com uma pontualidade rigorosamente britannica. Tambem collaborou no periodico Italia e Popolo de José Mazzini. Redigiu em Madrid seis folhas politicas. Escreveu a biographia de 45 vultos portuguezes, e sempre, desde 1846 até hoje, se tem occupado, com verdadeiro fervor, das cousas, da politica e dos homens do nosso paiz. Por isso tambem quasi todas as sociedades portuguezas o têm distinguido com os seus diplomas e honrarias.
D. Benigno é casado com uma senhora distinctissima, de quem teve tres filhos: uma menina, já casada, e dois rapazes,{174} um dos quaes é Frutos Martinez y Lumbreras, estudante classificado na universidade central e escriptor já conhecido pelas Bandeiras de Portugal e Hespanha.
Em casa de Martinez tivemos a honra de travar relações com dois notaveis talentos, de quem não deixaremos de fallar; e são elles D. Manoel Maria José de Galdo e Antonio Hesse.
Do primeiro escreveu um periodico portuguez o seguinte:
«Pela nomeação do sr. Rivero para ministro de la gobernacion em Hespanha ficou vaga a presidencia da municipalidade de Madrid. Neste logar foi provido por eleição o sr. D. Manoel Maria José de Galdo, cavalheiro distincto de cujos precedentes diremos algumas palavras. O sr. Galdo é cathedratico proprietario na universidade de Madrid, e além de regente de 1.ª classe de sciencias, lecciona mineralogia e noções de zoologia e botanica. É licenciado em medicina e cirurgia, doutor na faculdade de philosophia, licenciado em direito civil, administrativo e canonico. É membro honorario de muitas sociedades{175} e institutos scientificos de Hespanha, França e Portugal. É em resumo um cavalheiro muito illustrado, e em extremo laborioso e modesto.»
Em seguida á revolução de setembro foi o dr. Galdo feito 1.º alcaide da capital de Hespanha e commandante geral de 20.000 voluntarios de Madrid. Nestes dois importantes e difficeis cargos mereceu sempre os applausos de toda a imprensa sem distincção de côres politicas. O que prova exuberantemente o espirito de justiça e a alta prudencia que dirigem todos os actos d'aquelle cavalheiro. Ultimamente a sua eleição para presidente da municipalidade de Madrid, em substituição de um homem de tão reconhecido merito como o sr. Rivero, é mais um titulo honroso que vem juntar-se aos muitos, que já recommendavam ao partido radical da Hespanha, e em geral a toda a nação vizinha, um honrado filho da peninsula, que ao seu talento, ao trabalho e ás suas qualidades pessoaes deve a estima de nacionaes e estrangeiros.
Na inauguração do canal Suez coube{176} ao sr. dr. Galdo a honra de representar a Hespanha.
A sua integridade de caracter e a sua modestia, conservaram-no muito tempo afastado das lides politicas, ás quaes voltou cheio, como d'antes, de dedicação e amor aos principios liberaes, apenas a Hespanha sacudiu o jugo que a opprimia. Nos ultimos arrancos da monarchia deposta, mais de uma vez fôra tão illustre e inoffensivo cidadão apontado á vindicta do poder.»
Antonio Hesse é advogado de nome; possue excellentes dotes oratorios e d'elle corre impresso um ajuizado opusculo sobre critica religiosa.
Para rematar, porém, o que dissemos, ácerca de D. Benigno Joaquim Martinez, basta ainda accrescentar que é elle um modelo de amor de familia, um ousadissimo e infatigavel trabalhador, uma consciencia recta e uma intelligencia sã.{177}
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Antonio Romero Ortiz é um outro amigo dos portuguezes. Nascido na Gallisa, onde fundou differentes jornaes liberaes e onde organisou um nobre batalhão de voluntarios, só em 1843 se inscreveu como advogado em Santiago, terra da sua naturalidade. Em 1856, quando mais accesa andava a lucta entre miguelistas e liberaes, veiu ao Porto, e ahi foi pronunciado e levado prisioneiro para bordo do Serra do Pilar, que o conduziu para Peniche.
Em 1848 Narvaez, um covilheiro infame do absolutismo, descobriu uma conspiração de liberaes, capitaneada por Romero Ortiz. Sem mais averiguações, o carrasco ordenou a prisão do chefe dos revolucionarios, mandando-o para as masmorras de Santo Anton, perto da Corunha. O processo foi instaurado; duas cartas existiam de grave compromisso para o encarcerado. No momento, porém, em que o escrivão estava distrahido Romero{178} Ortiz, pegando nas cartas, arremessou-as pela janella. Este arrojo salvou-o do patibulo.
Em 1849 veiu para Madrid, onde, entre outras obras interessantes, publicou o Diccionario da politica, de collaboração com dois amigos.
Chegou o anno de 1854, e desde então para cá, ora na imprensa, ora na tribuna, têm sido assignalados os seus feitos em pro da patria e da liberdade. Foi elle que, sendo ministro da justiça, instituiu o matrimonio civil e aboliu a companhia de Jesus. Por diversas vezes foi nomeado governador civil; e quando em Hespanha se constituiu a União liberal, o sr. Rios Rosas dispensou-lhe a maior consideração e os maiores respeitos. Foi deputado pela primeira vez em 1854 pela Corunha. Tomou parte activa na revolução de 1868, e no governo provisional foi elle um dos ministros.
O seu mais notavel discurso, que versava sobre uma concessão de direitos aos portuguezes, foi pronunciado no congresso em 29 de março de 1859; e a sua mais{179} afamada publicação intitula-se: «La historia de la literatura portuguesa em el siglo XIX.»
É obra que denota boas intenções a nosso respeito. Conhece o periodo contemporaneo, e é seguro o estudo sobre Filinto, dos mais conscienciosos que conhecemos. Mas, no momento actual em que nos considerou, dá mostra de recebimento de más informações. Guinda a certa altura quem não merecia ir tão alto, e esquece nomes, em todas as pretendidas escholas, dos que, á parte rivalidades de que nós nos não fazemos echo, são de primeira plana em todos os campos.
Com o golpe de 3 de janeiro de 1873 foi Romero Ortiz nomeado ministro do ultramar.
Ultimamente vive um pouco doente e retirado das cousas politicas, quasi que exclusivamente entregue ao seu museu, que é curiosissimo, e aos seus estudos.
No seu museu, de que já fallámos mais atraz, encontram-se muitas curiosidades do nosso paiz, e entre ellas uma luvas do marquez de Sá da Bandeira, a caixa de{180} rapé do visconde de Castilho, e uma lembrança de D. Pedro V, e outra do visconde de Paiva Manso, etc.
Tambem alli se póde vêr a camisa de Santa Thereza de Jesus, a casaca de Cabrera, um crucifixo feito pela rainha Isabel II e muitas outras reliquias dignas da maior attenção e de estudo.{181}