Costumes Madrilenos
III a Cidade
III
A CIDADE
No centro de uma extensa planicie, acompanhando a margem esquerda do Manzanares e alteada sobre differentes collinas de arêa de pequena elevação, ergue-se a cidade de Madrid, a formosissima villa coronada, prodigiosa de encantos, opulenta de prazeres e esplendida de vida.
Data do reinado de Philippe II, em 1560, a mudança da capital do reino hespanhol de Toledo para Madrid.
Perde-se na bruma dos tempos a origem etymologica d'esta cidade. No entretanto{24} julga um illustrado escriptor que a verdadeira derivação de Madrid é Magerit, palavra arabe, que na nossa lingua significa corrente de agua.
Muitas foram, e successivas, as invasões por que passou a cidade. Não vem para aqui, por deslocada, uma resenha historica de todos esses tempos de agitação, mais ou menos intimamente ligados com as coisas do nosso Portugal.
Philippe IV foi para a Hespanha o mesmo que Luiz XIV foi para a França. No seu reinado brilharam as artes, as sciencias e a litteratura. Quiz, porém, a fatalidade, como que para realçar o dominio dos contrastes do mundo, que o seu herdeiro Carlos II fosse um rei pusillanime, fraco, fomentador da intriga e iniciador d'uma crise, que cessou com a assolação d'uma tremendissima guerra civil no tempo de Filippe V.
Madrid soffreu immensamente nestas lutas intestinas. Sem embargo, os sacrificios compensaram as perdas. E quando depois Carlos III subio ao throno de Hespanha, a um sorriso do monarcha privilegiado{25} desabroxou a paz, e as reformas brotaram por completo naquelle paiz.
Este estado foi, porém, de curta duração. Napoleão I, senhor da França, põe a Hespanha novamente em tumulto e deixa-a entregue á fome e ao saque das hordas estrangeiras.
Expulsos os francezes de Madrid, começou então a luta entre realistas e liberaes, os quaes depois se subdividiram ainda em progressistas e moderados, dando assim logar a uma infinidade de fracções, que só deviam abortar na mallograda revolução de 1854.
Foi d'aqui que se originaram os partidos unionista, o democrata e mais tarde o neo-catholico; e foi d'aqui tambem que nasceu a Hespanha revolucionaria moderna, de todos conhecida, desde 1868 até nós.
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Madrid é, pois, uma cidade pequena, não talvez muito maior que o Porto, com um clima excessivamente regular, comportando na sua área 360:000 habitantes,{26} cuja indole póde naturalmente e com o maximo rigor ser observada á luz do gaz e durante a noite em qualquer dos principaes cafés.
Conta-se que um alcaide hespanhol se compromettera certo dia a fazer tres discursos numa dada povoação.
Chegou o primeiro dia, e perguntou á turba:
—Entenderão o que lhes vou dizer?
Ninguem respondeu.
—Pois se não têm de entender-me é escusado pregar no deserto.
No segundo dia voltou, e repetiu a mesma pergunta.
—Sim! responderam todos, já zangados com a occorrencia do dia anterior e desejosos por saber o que tão illustre orador d'elles queria.
—Nesse caso, se comprehendem, são inuteis as explicações.
Chegou, porém, o dia da terceira e ultima prelecção, e o povo concordou em responder indistinctamente.
—Serão capazes de perceber qual é o fim do meu discurso?{27}
Sim! Não! conclamou a turba em dois córos.
—Então aquelle que percebeu que explique ao que não entendeu.
E assim é, na verdade, o caracter hespanhol. Todos se entendem, e ninguem se entende. De modo que, no seio de tão estranha confusão, a vida domestica de Madrid, toda anarchica, toda exterior, toda ficticia, vai naturalmente reflectir-se nas coisas publicas—no commercio, na industria, na arte, na litteratura, na politica—pondo a cidade em continuo alvoroço, e deixando o viajante profundamente assombrado de tão fortes e repetidas contradicções.
E tudo isto, o que mais é ainda para estranhar, num paiz onde os grupos dissidentes são quasi tantos como os talentos politicos, e onde o caracter de cada individuo varia e se modifica em justa proporção com a sua leviandade de espirito e seguindo naturalmente as differentes oscillações da opinião publica, sempre precipitada e louca.
Obedecendo á influencia do meio que{28} os domina, os estadistas hespanhoes são mais theoricos do que practicos, mais litteratos do que politicos, e, sem duvida alguma, mais poetas do que observadores.
D'aqui a impossibilidade de uma união séria, progressista e trabalhadora. As subdivisões prolongam-se até ao infinito. Antes de 30 de dezembro de 1875, os moderados formavam um unico partido. Agora, porém, avultam os moderados transigentes, tendo por orgão o jornal El Tiempo: os moderados intransigentes com La España e os moderados de estola com El Siglo Futuro.
O mesmo com o partido constitucional, que hoje se acha subdividido em constitucional do sr. Sagasta, representado na imprensa pela Iberia; em constitucional dissidente do sr. Santa Cruz, representado pela Patria e em constitucional do sr. Ulloa, representado outr'ora pelo periodico El Constitucional, que já não se publica.
As celebridades não escasseiam. Antes, pelo contrario: ao passo que em França{29} quasi todos os homens illustrados são escriptores, em Hespanha quasi todos são oradores.
Abstrahindo mesmo de Emilio Castellar, o luminosissimo vulto do seculo XIX, que só em Gambetta encontraria um rival condigno, e porventura, como politico, mais pratico, mais accentuadamente positivo do que elle; abstrahindo do sympathico materialista Figueras e do advogado Martos, poucos ha, naquella adoravel nacionalidade, que não possuam o fogo sagrado dos sublimes enthusiasmos patrioticos e a brilhantissima scentelha dos grandes espiritos revolucionarios.
Numa palavra, a Hespanha é o paiz solemne das occasiões, o paiz do à propos, o paiz do momento.
Os generaes Prim e O'Donnel andam ainda hoje apregoados pela fama publica. Pois bem. Muitos annos não se haviam passado depois do seu regresso da Africa, e concluida a guerra de Marrocos, que Prim, collocado numa das janellas do Hotel de Paris, recebera a mais enthusiastica ovação que humanamente era licito dispensar{30} a um idolo. Uma noite regressava o illustre general do congresso, quando, subito, uma detonação acordou a cidade. Correram todos. Duas balas haviam-lhe destruido a emoplata, o ante-braço e a mão direita. Estava morto o heroe de tantas victorias e o deus de tamanhos enthusiasmos. A policia não apparecera. Ainda presentemente nas cadeias de Madrid se conservam presos, por suspeitos, seis homens. O resto, sabem-n'o os seus inimigos, d'elle.
Madrid, a cidade imperial e coronada, a mui nobre, mui leal e mui heroica cidade, como em 1814 lhe chamou Fernando VII, tem, porém, ainda uma outra face, que realmente não deve esquecer ao historiador; e essa face, esse lado immensamente grande e extraordinario, que a Cervantes valeu uma reputação e uma immortalidade, é a anecdota, o delirio da bagatella e do ridiculo.
Sim! a Hespanha, como bandoleira que é, tem uma lenda—a lenda do bandido.
Estudando essa lenda, melhor e mais facilmente poderemos fazer uma idéa do{31} que é e do que foi a Hespanha nos seus movimentos, nas suas idéas, na sua politica, no seu commercio, na sua industria, no seu progresso e na sua civilisação.
Voltemos, portanto, a pagina.{32} {33}