Costumes Madrilenos

S. de Magalhães Lima · Capítulo 14 de 20

Páginas do PDF

Costumes Madrilenos

XIV os Patinadores

XIV

 

OS PATINADORES

 

Princeza, o seu braço! Vossa alteza é morena, viva, alegre; tem uns bellos olhos rasgados, profundos, negros, como os abysmos do inferno. Pois bem: que a sua alma ardente e expansiva, como este bello sol da peninsula, que nos aquece e anima, se digne, por um pouco, acompanhar-me a aspirar o ar bom da natureza.

Quero tel-a ao meu lado, rainha. Bem vê—eu não sou fidalgo, nem conde, nem barão. Á fé que o não sou. Mas emfim, se é verdade que a um democrata nunca ficou mal beijar a mão de uma aristocrata,{118} conceda-me a indiscripção. Os meus labios tocarão delicadamente á superficie d'essa meiga flôr de liz, mais bella e mais transparente do que uma renda de Bruxellas. Depois, e só depois, o paraizo...

Antes de mais, porém, tomemos um fiacre, um commodo fiacre, ligeiro, com duas molas flexiveis, dois nobres cavallos, briosos, e um valoroso cocheiro de mão certa e pulso firme. É verdade que as rainhas hoje nem sempre estão prevenidas. No entretanto, tu, minha velha amiga, tu, que não tens nenhum reino a perder; tu, que nunca passaste do boulevard com todos os seus perigos e attracções; tu, com certeza, tens ainda os cem luizes que hontem á noite te deixou aquelle inglez excentrico de suissa loura e ar grave.

É para elles que eu appello, para esses cem luizes honestos, puros, serenos, capazes de encher a historia do mundo, e incapazes de concitar em redor de si odios republicanos ou raivas demagogicas. Não! os cem luizes são de todos—de todos os tempos e de todos os logares—reinando{119} sempre, e sempre bem: irresponsaveis, sem exercitos, sem côrte, sem apparato, mas valentes, com consciencia de si, e valendo pelo silencio, aquillo que os mais abalisados do mundo não podem conquistar pela palavra.

Que magnificos sujeitos!

E agora reparo que nestas conversas iamos perdendo o tempo. Aqui está a carruagem. Entremos para a carruagem.

Da Puerta del Sol ao Prado são dois passos. Olhe a princeza: vê aquelle cavalheiro de bigode e pera alourados, estatura regular, pallido de rosto e expressivo no olhar?—é o general Pavia, o celebre assassino da republica em Hespanha.

Mais além, repare: aquella morenita, leve como uma penna, e adoravel como uma fada, é Pepa—uma heroina de amores e uma actriz de corações humanos. Mas, que nobre vulto, este agora? É o duque de Abrantes, por sangue descendente de Portugal, antigo possuidor da quinta das Laranjeiras, senador e conselheiro de Isabel II. É homem baixo, magro, secco e decidido nos seus gestos, o{120} que indica uma vontade firme e um caracter recto.

Mas chegámos, finalmente. Uma vez que estamos em Recoletos, entremos num d'estes circos.

Que magnifico sol e que supremas alegrias! A neve é pouca; e por isso nós, que queremos patinar, recorreremos ao artificio.

A praça está encerada. Muito bem. Patinemos na praça.

O seu pé, minha doce amiga. Não tenha medo. Por Deus, não trema. Não trema, que não morrerá, asseguro-lh'o eu. Nunca leu a admiravel historia dos patinadores descripta por Alexandre Dumas no Colar da Rainha?

Olhe, é um encanto! Por exemplo, eu quero patinar, mesmo no circo, colloco debaixo de cada pé um pequeno carrinho, composto de tres rodellas de ferro.

Dê-me o seu pé, e verá.

Agora firme, sem attrictos, serenamente, imperturbavel; deixe-se escorregar, como uma pequena gondola veneziana; unicamente, para não cahir, imprima um{121} leve movimento aos joelhos, alternando-os, por causa da lei do equilibrio.

Depois, oh! depois, o infinito, o ideal, o amor, as azas, mais velozes do que as de uma ave, as pernas mais ligeiras que as de uma corça; uma estranha mão apertando-nos a nossa; é o paraiso a sorrir-nos num beijo que ninguem vê, e a gloria a mirar-nos num céo, que nos allucina, que nos embriaga, que nos absorve.

Correr, voar, amar!—tal é o triplice fim de um patinador.

Mas, antes que se chegue a ser um bom patinador, intrepido e valente—que trabalhos, que luta e que risota! Que risota, sobretudo!

Vai um portuguez a Madrid, e mesmo nisto começa por conhecer a sua inferioridade. Que poltrão! Aluga dois carrinhos, e vem para o circo: olha; vê, sorri-se, anedia as guias do bigode, dá um geito ao cabello, e toma ares de Bayard de papellão; deseja tomar a posição perpendicular, e vacilla. Dou-lhe um, dou-lhe dois, dou-lhe tres; por fim o heroe parte; horror! não parte, porque a inhabilidade o torna{122} pesado, refractario á gymnastica, e ao desenvolvimento de musculos. Risota geral—Ah! Ah! Ah... Hic jacet infelix patinator...

A victima levanta-se, desconfia d'aquelles comprimentos improvisados, e conclue por detestar os sabios de qualquer natureza que elles sejam.

Mais uma tentativa. Vejamos. Talvez fosse defeito das rodas, talvez dos pés, talvez da falta de agilidade... Experimentemos. Novo impulso. Ah! Ah! Ah! Nova queda.

E, entretanto, em quanto isto se dá, alguns milhares de cavalheiros vão seguindo o seu rumo, sem interrupção, olhando de soslaio os principiantes, e mostrando naquelle modo de correr que até a andar se póde ter consciencia de si e vaidade dos outros.

Duas senhoras inglezas vi eu, um tanto esquivas ás ironias do amor, que mais pareciam, patinando, sonhos aéreos, visões romanticas do que realidades terrenas.

Nós a tentarmos a approximação, e ellas a fugir, a fugir, como sombras longinquas,{123} que só por escarneo se approximam de nós, para novamente nos escapar, fazendo-nos umas tristes e desoladas figas.

Que horror! E Frutos Martinez, o patinador illustre, avisado naquelles assumptos, collocando, cheio de raiva os seus carrinhos, lá se ia, inconscientemente, atraz d'aquellas borboletas de olhos azues e cabellos louros.

Mas, certamente, meus caros concidadãos—a patinação não e simplesmente um espectaculo agradavel, rodeado de peripecias curiosas e movido por generosos impulsos de espirito. Não! na patinação ha ainda mais o desenvolvimento physico, que muito conviria á nossa mocidade enfesada, e o interesse moral, que, de certo, aproveitaria mais aos nossos rapazes do que uma facada dada no Bairro Alto, em pleno dia.

Em todo o caso, uma vez que assim queremos ser, sejamos assim, sem graça, sem espirito, e sem a elegancia, que naturalmente se exige nas existencias modernas.

Honra soit qui mal y pense...{124} {125}