Destemida

Jessica Watson · Capítulo 3 de 20 · parte 2/4

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Destemida

Parte um - O Ponto de Partida

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Mesmo se meus pais tivessem o dinheiro (e eles não tinham), não teriam comprado um barco para mim. Àquela altura, os dois até tinham aceitado a

ideia e estavam me ajudando como podiam, mas aquilo era uma coisa

minha. Se eu tinha alguma esperança de que continuassem me apoiando,

precisaria antes resolver tudo e mostrar para eles que era capaz.

Muitas pessoas me apoiaram e ajudaram a ir para a água, mas uma delas

foi fundamental para me deixar pronta para a viagem: Bruce Arms. Bruce

navegava desde o início de sua vida: ele tinha começado em pequenos botes

e barcos a remo e então passou para barcos de quilha e multicascos. Ele é um navegante solitário que competiu em três regatas Tasman individuais e

duas regatas Tasmanian ree Peaks, além de ter vencido em 2007 e 2010 a

regata de veleiros Solo Tasman, que partia de New Plymouth, na Nova

Zelândia, e terminava em Mooloolaba, em Queensland. Bruce tem uma experiência enorme de navegação e também constrói barcos. Por isso, foi

perfeito aprender com ele. Bruce e sua mulher, Suzanne, são amigos de Pat e

Judy Gannon, um casal que conhecemos quando navegávamos por Lizard

Island em nosso barco de família. Mantivemos contato com Pat e Judy e quando eles caram sabendo da viagem que eu pretendia fazer,

apresentaram-me a Bruce em meados de 2008.

No início, Bruce achou que eu era apenas uma garotinha com grandes pretensões, mas depois que nos encontramos ele concluiu que eu tinha todo o necessário para realizar aquela viagem. Antes de qualquer coisa, ele se

reuniu com meus pais para ter certeza de que eu estava fazendo aquilo pelo

motivo certo e não como marionete dos meus pais. Não demorou muito

para Bruce notar que meu pai de nitivamente não estava por trás daquilo e que, embora me apoiasse, minha mãe tampouco estava me usando para

realizar um sonho seu.

Bruce e eu somos muito diferentes. Bruce é um homem muito metódico

que pensa tudo de antemão e veri ca para ter certeza de que tudo dará certo. Ele era o mentor perfeito para mim, porque no começo eu havia visto

algumas coisas muito por cima e não percebi as melhores opções (minha

família chama isso de “ser um pouco loira”). Aprendi a frear o meu ritmo e a

ser mais contida, em grande parte graças a Bruce.

Depois de conversar a respeito, Bruce e Suzanne decidiram que fariam

todo o possível para me ajudar. Foi uma grande aposta deles, mas alguns

amigos de Bruce tinham medo de que ele fosse responsabilizado de alguma

maneira se algo desse errado durante a viagem. Bruce sabia que havia críticas direcionadas a mim e aos meus pais por causa do que eu estava

tentando fazer e sabia que qualquer pessoa que decidisse me ajudar também

se tornaria um alvo. Ele não se importou. Bruce se identi cava com algo que

via em mim e não deixaria que os outros o impedissem de me ajudar tanto quanto pudesse.

Bruce e Suzanne têm um catamarã multicasco Chamberlin de 46 pés

chamado Big Wave Rider – um barco lindo de se navegar. Após decidir me

ajudar, Bruce se manteve el à sua palavra: levou-me em várias viagens para reforçar minha experiência e avaliar se eu tinha as habilidades necessárias

para navegar ao redor do mundo. Uma das viagens foi de Mooloolaba a

Hobart, e quando minha mãe perguntou a Bruce o que ele achara das minhas habilidades ele disse:

– Ela tem talento para navegar e aprende rápido.

Quando alguém pergunta a Bruce o que é necessário para ser um

navegante solitário, ele diz que a pessoa precisa ser um navegante completo,

de mente forte e capaz de fazer tudo por conta própria: cozinhar, navegar, realizar reparos elétricos ou mecânicos, cuidar dos canos e dos cabos,

observar o clima... A lista não acaba nunca. O que ele não menciona é idade

ou sexo, e desde que nos vimos pela primeira vez nunca me senti

inadequada ou julgada por ser uma garota adolescente. O mundo dos navegantes é bastante dominado pelos homens, mas para Bruce e muito dos

incríveis apoiadores que tive só o que importava era minha habilidade, meu

foco e minha dedicação. Ao contrário dos marinheiros que não me jogavam

os cabos para que eu amarrasse seus barcos, eles achavam irrelevante o fato de eu ser uma adolescente. Eu me pergunto se o ultraje gerado por minha

tentativa de navegar ao redor do mundo teria sido tão forte caso eu fosse um

garoto adolescente. Mas sei que Jesse Martin e seus pais tiveram que

aguentar muitas críticas durante a preparação dele, então é possível que tivesse sido a mesma coisa.

Estava bem claro que a primeira coisa que eu precisaria fazer (além de

encontrar um barco) seria adquirir experiência considerável com navegação

em mar aberto, o que não é uma tarefa fácil para uma garota de catorze anos. Digamos que eu não era exatamente a primeira escolha de um

comandante. Eu já estava navegando uma ou duas vezes por semana com

um barco da região, o Soraya, e trabalhava às vezes como assistente na escola

local de navegação, onde ensinava crianças e adultos a velejar em botes. Ensinar crianças a velejar era bem divertido, mas percebi que alguns dos

adultos não gostavam de receber ordens de alguém muito mais nova do que

eles, e muitas vezes acabávamos todos molhados por causa disso! Esse tipo de postura me deixou ainda mais determinada a realizar meu sonho.

Acho que ninguém esperava que eu casse por muito tempo no Fish on

Parkyn quando consegui o emprego de lavar louça. Era um trabalho duro,

que exigia que eu casse muitas vezes até tarde da noite, mas eu adorava o

desa o. As noites ruins eram compensadas pelo pudim de tâmaras delicioso que eles serviam e alguém precisava comer os que não eram vendidos! O

dinheiro que eu ganhava ia para voos e coisas como roupas impermeáveis

para dias chuvosos.

Não consigo expressar como quei empolgada quando o resultado do meu trabalho duro começou a aparecer. Organizei meu primeiro trecho de

oceano, de Vanuatu a Brisbane, no barco de 42 pés Elegant Gipsy. Havíamos

conhecido os donos do veleiro, Sharon e Chris, e seus dois lhos, Hugo e

Max, quando estávamos navegando mais ao norte, e havíamos mantido contato. Eles recém haviam voltado de uma temporada em Vanuatu. Sharon

e os garotos retornariam à Austrália de avião e Chris precisava de uma

tripulação para navegar de volta.

Antes que meus pais me dessem autorização, precisávamos conferir com cuidado todos os detalhes da viagem e comprar equipamentos pessoais de

segurança. Meu pai insistiu em me comprar um EPIRB (emergency position

indication radio beacon, ou sinalizador de posicionamento para

emergências via rádio). Meus pais dirigiram nervosos até o aeroporto para me dar tchau. Eles ainda estavam visivelmente preocupados por me

deixarem ir. A confusão no balcão de check-in não colaborou para deixá-los

mais tranquilos. Ali me disseram: “Sinto muito, não há nenhuma reserva

para o sobrenome Watson”. Por sorte, conseguiram resolver o problema ao descobrirem que, por alguma confusão, eu havia dito que meu nome era

“Sra. Mooloolaba”. Ainda não superei essa!

No avião até Vanuatu, conheci meu companheiro de tripulação, Martin. Embora estivesse praticamente dando saltos de empolgação, esforcei-me muito para parecer bem adulta.

Aquela viagem acabou sendo bem tranquila: não mudamos de direção

nem precisamos alterar o curso durante as 1.107 milhas náuticas, o que deve

ser um recorde. Certamente não foi o trajeto repleto de ação que eu esperava, mas serviu para dar um gostinho da navegação em alto mar. E o

mais importante: descobri que amava a simples vida cotidiana da navegação

de longa distância. Talvez meus pais tivessem a esperança de que eu me

desse por satisfeita após aquela viagem e esquecesse a história toda de navegar sozinha. Não esqueci. Eu estava pronta para outra.

Após voltar para casa, z o curso de comandante para viagens costeiras

na escola de navegação local. A parte teórica incluía uma semana de

aprendizado técnico, planejamentos de rota e intepretação de tabelas climáticas. A parte prática do curso consistia em subir a costa de New South

Wales desde Coffs Harbour até Mooloolaba no veleiro de 37 pés da escola.

As condições do mar oscilaram muito durante a navegação e aprendi muito

com isso.

 

Eu havia escrito a muitas pessoas pedindo conselhos ao longo dos anos e

Bruce sugeriu que eu contatasse Don McIntyre. Don é um dos maiores

aventureiros do mundo e um dos navegantes mais experientes da Austrália. Ele competiu no BOC Chalenge Single-handed Around the World Yatch

Race, uma regata em solitário de volta ao mundo, e participou de muitas

expedições de navegação antártica. Ele até morou na Antártica com a

mulher, Margie, por um ano. Don realizou um documentário chamado Knockdown, que mostra sua navegação feita em 1990, e eu estava ansiosa para assisti-lo. Disseram-me que Don apoiava jovens aventureiros, então me senti à vontade para escrever a ele. Ele me enviou uma cópia de seu lme, e

daí em diante mantivemos contato frequente.

Don era ótimo para dar conselhos e passar contatos, e eu senti que as

coisas estavam começando a dar certo, ainda que devagar. Mas senti o aperto quando recebi um e-mail de Don que dizia basicamente: “Você não

pode fazer isso sem um barco... E você não tem um barco!”. Você pode até

pensar que lá no início a minha fé cega de que eu conseguiria o apoio

necessário era em parte loucura e em parte um devaneio de adolescente, mas o e-mail de Don tocou direto na ferida – eu andava pensando e

perdendo o sono pelo mesmo motivo.

Naquela época, eu já tinha alguns patrocinadores locais, como a Ullman

Sails e a Fleming Windvanes, e muitos fornecedores haviam prometido apoio, mas hesitavam em assinar os papéis até que eu tivesse algo mais

sólido – um barco. Era um tipo estranho de malabarismo: eu precisava dos

pequenos patrocinadores para provar a seriedade do projeto e conseguir

dinheiro para um barco, mas sem o barco apenas umas poucas pessoas estavam dispostas a se comprometer.

Eu ainda não sabia, mas Don e Margie haviam conversado muito a meu

respeito e decidido que comprariam um barco que servisse para a minha

circum-navegação. Apoiar pessoas jovens está no âmago da crença de Don no poder inspirador das aventuras. Ele disse certa vez:

Uma aventura pode soar como blasfêmia para muitas pessoas. Assim que

você diz “aventura”, elas dizem “resgate”, e há muitas pessoas que questionam

o seu valor, mas a verdade é que se continuarmos blindando nossa sociedade e nossas jovens crianças como se fossem de porcelana, como estamos

fazendo, mudaremos a cultura da Austrália. A Austrália precisa de heróis. A

Austrália precisa de aventureiros e as pessoas que estão lá fora tentando algo, perseguindo seus sonhos e forçando suas capacidades até o limite encontram muitas coisas positivas.

 

Eu havia provado a Don que faria aquela viagem pelos motivos certos, e

após conhecer os meus pais, ele soube que a ideia partira de mim. A hipótese de que eu estivesse sendo pressionada e manipulada por pais em

busca de fama era incogitável. Só de escrever isso já começo a rir, porque

meus pais são exatamente o oposto disso. Ele também sabia que havia

pessoas, como Bruce, que estavam dispostas a fazer todos os esforços necessários para deixar qualquer barco que eu arranjasse pronto para a

viagem.

Alheia aos planos de Don, não me deixei abater pelas negativas e

continuei fazendo tudo o que podia para ganhar experiência. Fiquei sabendo de uma organização internacional chamada OceansWatch que

trabalha junto à comunidade de iatistas para realizar programas de

preservação marinha e prestar ajuda humanitária a países em

desenvolvimento. A organização emprega voluntários para compor a tripulação de seus barcos e ajudar a conduzir seus projetos, e percebi que

aquela era uma maneira de ganhar experiência e também contribuir com o

meio ambiente. Entrei em contato com Chris Bone, o CEO e Líder de

Projetos da sucursal Pací co-Asiática da OceansWatch. Chris é ambientalista há muitos anos e já foi capitão de um navio do Greenpeace.

Consegui convencer Chris de que eu levava a sério o meu projeto de

circum-navegação solitária. Ele me ouviu e, apesar de minha idade, estava

pronto para me dar a oportunidade de integrar a tripulação, mas fez meus pais telefonarem para ele para con rmar que estavam a par de tudo. Com a ajuda de Chris, percorri diversos trechos de oceano no Magic Roundabout. Meu primeiro trecho foi de Whangarei, na Nova Zelândia, a Vanuatu, com

Melinda Taylor e James Pitman. Meu trabalho na cozinha rendera dinheiro

su ciente para que eu voasse a lugares como Vanuatu ou a Nova Zelândia

para embarcar e, embora as passagens para uma jornada da OceansWatch fossem gratuitas, eu precisava pagar doze dólares australianos por dia para

cobrir os gastos. Em uma viagem de cinco semanas, é uma quantia

considerável.

Meu trecho seguinte em alto mar foi de Vanuatu a Brisbane. Eu deveria ter voltado para casa após deixar o Magic Roundabout, mas ouvi que um

veleiro chamado Serannity precisava de uma tripulação para navegar de

volta a Brisbane. Era perfeito para que eu praticasse mais e ampliasse meus

conhecimentos de navegação no oceano, além de me fazer economizar uma passagem. Tive que telefonar para meus pais e persuadi-los de que era uma

boa ideia. Após terem pedido que Chris Bone checasse os proprietários, as

pessoas que estariam a bordo e a segurança do veleiro ao viajar no oceano,

eles concordaram.

Minha grande viagem seguinte foi como capitã não o cial no Magic

Roundabout, de Brisbane a Whangarei. Eu ainda era jovem demais para ter

licença de capitã, então Jim Hawke, que passara anos ensinando jovens e

adultos a navegar, era o capitão o cial. Ricki Colston também fazia parte da tripulação e estava a bordo. Jim topou que eu capitaneasse o barco e disse

que só se envolveria se fosse preciso. Assim, eu teria uma ideia de como era

ter que tomar as decisões. Ele foi fantástico e nunca se impôs às minhas

decisões: apenas me perguntava o tempo todo por que eu estava fazendo as coisas daquela maneira. Ele esperava me ensinar a con ar em meu instinto e

suas perguntas foram o treinamento perfeito para me encorajar a pensar as

coisas de maneira lógica e cuidadosa.

Claro que meus pais pediram a Jim que lhes desse um retorno sobre as minhas habilidades, e quei muito contente ao saber que ele disse que, em

sua opinião, eu estava entre os dez por cento melhores no que dizia respeito

à navegação e entre os dois ou três por cento quando se tratava de colhões.

Foi legal receber essa avaliação de um navegante tão experiente e tenho certeza de que isso ajudou a acalmar meus pais.

Minha tia Wendy ajudou a organizar outro momento de enorme

importância para mim. Ela havia trabalhado em Campbell Island, uma das

ilhas subantárticas pertencentes à Agência Meteorológica da Nova Zelândia, e conseguiu ajeitar as coisas para que eu integrasse a tripulação do Evohe,

um veleiro de aço de 82 pés construído no estaleiro De Watcher na

Antuérpia, na Holanda, projetado especialmente para as condições adversas

do Ártico e da Antártida. O barco navegaria de Bluff, em um ponto austral da Ilha Sul da Nova Zelândia, até Auckland Island, e então até o Campbell

Island Group, uma área tombada como patrimônio da humanidade.

Agradava-me especialmente a ideia de fazer esse trecho, pois assim eu

ganharia alguma experiência no Oceano Antártico. Eu integrava a tripulação junto a uma equipe de funcionários da agência meteorológica e

engenheiros, e era a ocasião perfeita para fazer um monte de perguntas e

aprender um bocado sobre os padrões climáticos voláteis que podem ser

observados naquela região.

Quando não estava navegando ou lavando louça, eu direcionava todas as

minhas energias para tornar aquela viagem realidade. Conforme acumulava

horas no mar, mais e mais pessoas passaram a me ajudar, mas eu ainda

precisava usar a mídia para divulgar que estava em busca de patrocínio. Não havia outro caminho que eu pudesse tomar, mas assim que z isso eu e

minha família camos expostos a críticas. Eu esperava que a mídia

demonstrasse interesse, e alguns jornais e canais de televisão começaram a acompanhar meu progresso, mas a exposição se mostrou uma faca de dois gumes. Eu não poderia fazer a viagem sem patrocinadores e meus pais não

me deixariam partir se minha preparação ou meu equipamento estivessem

comprometidos de alguma forma. Mas eu não esperava os comentários

negativos e os ataques à maneira como meus pais me criavam em cada artigo ou reportagem que aparecia.

Ter alguém como Don McIntyre ao meu lado ajudou muito. Don não é

nada bobo e via que estávamos fazendo de tudo para garantir o máximo de

segurança possível. Fazia mais ou menos um ano que eu conversava com Don e cada vez que as coisas cavam mais complicadas ele enviava uma

mensagem para mim e minha família, o que ajudava a compensar a

negatividade.

Falei com um monte de gente sobre o tipo de barco que deveria usar na viagem, e Bruce e Don foram dois dentre muitos. Eles deram ótimos

conselhos. Quando comecei a elaborar pela primeira vez minha lista de

barcos dos sonhos, imaginei que usaria um Sparkman & Stephens 34 (S&S

34). Ele havia sido testado em situações de circum-navegação global por Jon Sanders, David Dicks e Jesse Martin, e provara ser um barquinho guerreiro.

Então comecei a achar que precisava de um barco mais rápido e cogitei

todos os tipos de design imagináveis. Acabei voltando ao ponto de partida,

novamente ao S&S 34. Mais de cinquenta veleiros S&S 34 foram construídos no Reino Unido e mais de 160 na Austrália desde meados dos anos 1960.

Eles ainda são feitos no oeste australiano. Aparentemente, todos os S&S 34 já

construídos continuam navegando até hoje. Isso é incrível. Eu não poderia

ignorar a reputação que o barco tinha. Era muito importante ter um barco que pudesse manejar bem sozinha, e eu jamais tentaria a sorte com um

barco que ainda não houvesse sido testado, mesmo que ele pudesse me dar

mais velocidade.

Fiquei emocionada quando Don e Margie se ofereceram para providenciar um barco para mim, mas tomei muito cuidado para não car

muito empolgada até que tudo estivesse pronto. Saber que alguém acreditava

em mim o su ciente para me patrocinar e me dar um veleiro (e o fato de

esse alguém ser Don, que sabia o que uma viagem daquelas exigia) foi incrível. No começo, nem parecia real. Eu estava na Nova Zelândia em

março de 2009 quando Don foi ver um barco que havíamos encontrado e

parecia apropriado. Lembro de passar o dia andando em círculos, esperando

pelo relato de sua visita de inspeção. Shanty, como o barco então se chamava, havia sido construído em 1984. Nas palavras de Don, tinha “um

bom motor, condições razoáveis e um mastro sólido; estão pedindo 68.000

dólares”. Ele negociou o valor para que casse em 50 e poucos e então

fechou o negócio.

O que eu havia sonhado e esperado por tanto tempo estava de fato

começando a acontecer. Com a questão do barco resolvida, a velocidade do

projeto aumentou em um ou dois nós, e de vez em quando eu precisava me

beliscar para ter certeza de que aquilo estava mesmo acontecendo.

 

Depois que já tínhamos o barco, passei algumas semanas limpando e

polindo para uma coletiva de imprensa em que anunciaria minha intenção

de navegar sozinha, desassistida e sem paradas ao redor do mundo. Eu precisava fazer isso para atrair patrocínios de peso. Ao mesmo tempo, estava

meio ocupada com as aulas. Dessa vez, estava fazendo um curso de capitã de

veleiro e aprendendo a utilizar um sextante. Tive aulas com meu instrutor,

John Bankart, e fazíamos viagens à praia para medir a posição de Vênus, bem como para uma série de observações do sol. Era muito grati cante determinar nossa posição em uma tabela com margem de erro de apenas quatro milhas náuticas utilizando só o sol, planetas, o sextante, um

almanaque de referência... E muita ajuda de John.

Don veio da Tasmânia para ajudar com o planejamento e as preparações

para o encontro com a mídia e dar uma conferida no barco, e trouxe Mike Perham. Mike havia partido em 15 de novembro de 2008 de Portsmouth, na

Inglaterra, a bordo seu veleiro Open 50 para regatas de alta performance, o

Totallymoney.com , para tentar se tornar a pessoa mais jovem a navegar

sozinha, desassistida e sem paradas ao redor do mundo (parece familiar?). Infelizmente, problemas recorrentes com seu piloto automático e, mais

tarde, com o leme obrigaram-no a fazer longas paradas para reparos em

Lisboa, nas Ilhas Canárias, na Cidade do Cabo, em Hobart e em Auckland, e

assim ele foi obrigado a rever seu objetivo e se tornar simplesmente a pessoa mais jovem a dar uma volta ao mundo navegando sozinho. Eu havia

acompanhado o progresso de Mike pela internet e foi muito emocionante

conhecê-lo.

Passar um tempo com Don e Mike navegando, conversando sobre rotas, discutindo os aspectos positivos e negativos na preparação e escutando Mike

descrever sua incrível experiência sozinho no mar me fez perceber como era

especial aquilo que eu estava prestes a fazer. Mas ouvir histórias sobre ondas

de 15 metros e ventos de 50 nós e a sensação de ter o barco avariado estando sozinho em pleno Oceano Ártico serviu como lembrete do que eu tinha pela

frente e me ajudou a car com os pés no chão.

Meu pai ainda não aceitava bem a ideia de que aquilo aconteceria

mesmo; portanto, conhecer Mike e ver como outro adolescente havia lidado com a grande aventura de sua vida serviu como um (leve) tranquilizador

para ele. Tomei cuidado para que ele não estivesse por perto quando Mike

contou as histórias mais dramáticas.

Sei que há pessoas que pensam que existe uma rivalidade acirrada e muita competição entre jovens marinheiros como Mike, Jesse Martin e Zac

Sunderland e sua irmã, Abby, mas a verdade é que nos apoiamos

mutuamente, trocamos e-mails, compartilhamos conhecimentos e

desejamos que tudo dê certo para todos. Eu sentia muito por Mike ter enfrentado os problemas que enfrentou com seu piloto automático, mas sou

muito agradecida pela oportunidade de passar um tempo com ele antes da

minha aventura.

Conhecer Mike fez com que de repente as coisas parecessem muito reais e também serviu para me lembrar de curtir todas as etapas da viagem e da

preparação. Rebatizamos o Shanty de Youngestround e Bruce e eu

navegamos com ele de Mooloolaba à Marina Rivergate, em Brisbane, para

um evento midiático que estava programado. Soltamos as amarras que nos prendiam à terra e partimos em meio a uma chuva forte e ventos de 20 nós

soprando direto no rosto para a minha primeira grande viagem naquele

barco. No início, progredimos bem, mas então o vento desapareceu e a

chuva começou a cair com mais força. Embrenhamo-nos para dentro a m de permanecermos secos e logo descobrimos que o con ável piloto

automático tinha traços peculiares de personalidade. Nós o batizamos de

Mr. Wonky.

Depois de alguns desvios acidentais, navegamos vagarosamente para o sul antes de descobrir outro problema: água do porão do veleiro. Assumi o

timão enquanto Bruce começou a baldear corajosamente a água para fora do

barco. Foi um grande alívio perceber que a água era da lavagem do barco

realizada na noite anterior e não de um vazamento crítico no casco. Não avançamos muito, e nos limites de Moreton Bay tivemos a velocidade

reduzida ainda mais por uma maré vazante. Reduzimos para três nós com o

auxílio do motor auxiliar.

As coisas continuaram dando errado. Enquanto avançávamos pela passagem, uma manilha do trilho da vela mestra se rompeu durante uma

rajada de vento repentina de 25 nós. Resolvemos o problema, mas então

descobrimos que o estai de cabo de boreste (um dos cabos que mantêm o

mastro de pé – algo bem importante!) começara a se soltar sozinho.

Mas o último pedaço da baía foi muito especial. Enquanto o sol se punha,

o vento ganhou força e nos empurrou perfeitamente enquanto navegávamos

rio Brisbane acima, rumo às luzes cintilantes da cidade. Mágico. Não

demorou muito para encontrarmos o lugar reservado para nós na marina, mas quando desci do barco eu estava louca por um banho morno e uma

refeição quente.

Aprendemos muito sobre o barco naquele dia e a lista de tarefas era

longa. O reaparelhamento seria uma grande empreitada e eu estava cruzando os dedos para que a coletiva de imprensa no Sanctuary Cove Boat

Show me ajudasse a encontrar patrocinadores o su ciente para manter meu

sonho vivo. Ainda precisávamos de um patrocinador principal e ajuda com

os gastos e os equipamentos técnicos. Havíamos marcado uma data-teste de partida para setembro, então eu só tinha mais quatro meses para deixar tudo

pronto.

Não sabíamos o que esperar na manhã de 13 de maio de 2009, a data da

coletiva em Rivergate. Não fazíamos ideia se alguém teria interesse ou se o retorno seria positivo. Acabou sendo melhor do que qualquer um de nós

esperava. Já havia saído algumas reportagens sobre mim na mídia e eu tinha

dado algumas entrevistas, mas nada me preparou para a atenção que recebi

naquele dia. Falei com jornalistas, fornecedores e qualquer pessoa que estivesse remotamente interessada no que eu estava tentando fazer. Acho

que não parei de falar até a hora de dormir! Um dos contatos realmente

importantes que z naquele primeiro dia foi Scott Young, da 5 Oceans Media, uma empresa de esporte, mídia e lazer que administrava a carreira de pessoas como Layne Beachley, Hazem El Masri e Lincoln Hall. Até então,

eu havia coordenado a campanha com meus pais, minha família e meus

amigos, Bruce, Suzanne e Don, mas era uma tarefa tão gigantesca que

precisávamos de ajuda. Foi ótimo conhecer Scott, e ele preparou um encontro para conversarmos com Andrew Fraser, seu sócio, no Sanctuary

Cove Boat Show.

Depois de um dia tão extenso e ainda cheia de adrenalina, eu estava me

sentindo vitoriosa... Mas não durou muito. Após me revirar a noite inteira, acordei bem cedo a m de me preparar para a minha primeira entrevista ao

vivo na TV e logo descobri que as roupas que eu havia escolhido

cuidadosamente para a ocasião haviam sido postas em um carro que estava

indo para outro lugar. Pode não parecer muito importante, mas eu estava nervosa, queimada do sol e com a voz rouca de tanto falar no dia anterior,

então tinha a esperança de que ao menos as minhas roupas passassem uma

boa impressão. E poxa, nós adolescentes sempre nos preocupamos com o

traje em uma ocasião especial.

Quando uma limusine chegou para nos buscar, começou a parecer que eu

estava em um sonho. Não dava para acreditar. Eu estava sonolenta, me

sentindo desleixada e dando voltas em um carro guiado por nosso

motorista, David, que estava de terno. O lado bom foram as balas de goma de cortesia.

Depois de sobreviver à entrevista ao vivo sem me humilhar

completamente, comecei a achar que as coisas poderiam car mais calmas.

Mas o resto da manhã foi marcado por uma série confusa de entrevistas para o rádio, lmagens para telejornais e mais fotos. A resposta ao meu

anúncio e ao lançamento do barco foi fenomenal. Comecei a receber uma

enxurrada de e-mails e telefonemas, e quei lisonjeada com as ofertas de apoio e o encorajamento que recebi. Fiquei exultante por saber que havia tantas pessoas ao meu lado.

Cada e-mail e cada mensagem de boa sorte me inspiravam mais. Mas

nem todos me encorajavam. Recebemos uma onda de críticas por eu ser

jovem demais e também diversas pessoas insultaram meus pais. Eu aprendera a lidar com alguma dose de críticas e já não deixava que me

afetassem, mas tive medo que fossem in uenciados negativamente. Era o

meu sonho e eu estava pronta para defendê-lo, mas quei chateada por eles

serem criticados e julgados com tanta ferocidade por causa disso. Eu não tinha por que me preocupar. Minha mãe se saiu muito bem ao se defender

em frente às câmeras e até meu pai pareceu tirar de letra. Mas Emily,

Hannah e Tom também passaram por isso. Eles não escolheram expor seus

pais daquela maneira cruel e não foi bom para nenhum de nós.

Era estranho ler manchetes que diziam coisas como “Navegação Solitária

de Adolescente é Irresponsável”, ver enquetes nos jornais perguntando aos

leitores se eu era jovem demais ou não e ouvir que um grupo chamado

Australian Family Association insistia que meus pais deviam reconsiderar sua permissão para que eu partisse. Meus pais e eu sempre escutávamos o

que as pessoas falavam e minha mãe dizia: “as pessoas têm direito a dar sua

opinião”. Eu só queria que suas opiniões fossem mais embasadas. Nenhuma

daquelas pessoas que se expressavam com tanto alarde me conheciam, tampouco conheciam minha família, e ninguém se preocupou em descobrir

como eu estava me preparando para a missão. Fiquei muito agradecida por

gente como Jesse Martin e Don McIntyre terem nos defendido. Don

declarou: “Ela não deixou as bonecas de lado, saiu do quarto e pulou em um barco. A idade não é o que importa nesse caso. Importa quem ela é, o que

ela é e sua motivação. Ela é capaz de fazer isso? Eu acho que sim. Ela vai

conseguir? Só o tempo dirá”.

Entre o anúncio de minha tentativa e o vindouro Sanctuary Cove Boat Show, passei por outro marco importante: meu décimo sexto aniversário. Eu

não precisava de presentes se já tinha um barco e, após esperar do lado de

fora da secretaria de transportes de Queensland até que o lugar abrisse,

tornei-me a feliz proprietária de uma habilitação de capitã!

Com esse pedaço de papel tão importante em mãos, comemorei com um

passeio junto a Tom, meu pai e nosso primo, Ben. Partimos de Brisbane

rumo a Gold Coast. Não fui exatamente a grande marinheira que

esperávamos. Após deixarmos o rio para trás, pegamos um vento de proa de 25 nós e o mar encrespado reduziu nossa velocidade a frustrantes três nós.

Não liguei: pela primeira vez, eu era permitida por lei a conduzir um barco,

de modo que amei cada segundo da viagem. Foi ainda melhor no dia

seguinte, quando nalmente pude navegar sozinha. O piloto automático ainda estava aprontando das suas e se recusou teimosamente a conduzir o

barco em linha reta. Eu estava com as mãos ocupadas, sobretudo ao atingir a

parte mais rasa do canal, quando uma tempestade rápida começou a cair e

uma rádio local telefonou para o meu celular para fazer uma entrevista por telefone. Isso é que ser multitarefas! Bruce diria que é exatamente o que um

marinheiro solitário precisa: fazer tudo por conta própria e, muitas vezes,

lidar com mais de uma coisa ao mesmo tempo.

Os dias seguintes foram um caos. Enquanto conduzíamos o barco até o Sanctuary Cove Boar Show para colocá-lo em exibição, meu pai, Bruce e eu

tivemos de lidar com ventos de 63 nós e bancos de areia por todos os lados.

Fiquei emocionada por ter sido convidada para falar no Rivergate Marina

and Shipyards Annual Deck Party. Eu ainda estava me acostumando a falar em público e estava bem nervosa, mas fui apresentada a Mark Richards,

velejador campeão do mundo e capitão do barco Wild Oats, quatro vezes

campeão da regata Sydney-Hobart. Também tive a oportunidade de falar sobre minha proposta de viagem e tentar encorajar novos patrocinadores. Foi uma grande oportunidade.

O evento foi outro turbilhão de conversas, encontros com fornecedores e

captação de informações. Enquanto isso, tentávamos atrair patrocínios.

Encontrei David Campbell no estande da SatCom Global, conversei com Duncan Curnow, da Musto, e com diversos outros fornecedores. Encontrar

Scott mais uma vez e ser apresentada a Andrew Fraser foi um grande ponto

de virada. Nos demos bem logo de cara e decidimos que Andrew e Scott me

gerenciariam e ajudariam a buscar patrocinadores e lidar com a mídia. No começo, foi muito estranho pensar que eu estava sendo gerenciada por uma

empresa, mas eles logo se tornaram parte fundamental do grupo, atuando

como equipe de apoio e fazendo diversas outras coisas.

Outro destaque daquele evento foi o homem que se dirigiu até o barco completamente in amado para trocar umas palavras com meus pais por

terem cogitado me deixar navegar ao redor do mundo com aquela idade.

Após conversar comigo e com minha mãe, ele partiu com os olhos cheios de

lágrimas, totalmente convertido à nossa causa e jurando me apoiar durante todo o caminho. Depois de toda a publicidade negativa, foi revigorante

perceber que mesmo os críticos mais ferrenhos podiam mudar de opinião se

dedicassem um tempo para conversar comigo e escutar o quão ampla e

cuidadosamente a viagem havia sido planejada e como havíamos reduzido os riscos ao mínimo possível.

Não havia tempo para me vangloriar ou tirar uma soneca após o evento,

pois o barco foi direto de Sanctuary Cove para Manly, na Brisbane’s Moreton

Bay (com mais uma boa dose de drama no caminho), onde o mastro foi retirado e entregue ao David Lambourne Yacht Rigging para a produção de

um novo estaiamento. David é um dos melhores e mais con áveis

construtores de mastros e estaiamento da Austrália e não estávamos dispostos a usar nem mesmo o “segundo melhor” em qualquer coisa que fosse. Dali, o barco foi levado por terra a um imenso galpão em Rosemount,

próximo a Buderim, na Sunshine Coast, para uma imensa reequipagem.

Não quei muito contente com a ideia de soldar o barco para que casse

rme sobre o picadeiro que seria sua casa pelas oito semanas seguintes, mas,

embora devesse parecer que estávamos regredindo depressa, tudo foi muito

empolgante. As coisas estavam mesmo acontecendo.

A primeira semana de reequipagem foi dedicada a depenar o barco até

que ele parecesse um simples casco com convés. Do motor quase novo ao toalete, certamente tóxico, tudo foi desacoplado enquanto nos

estabelecíamos no galpão, posicionávamos os andaimes e reuníamos todas

as ferramentas e equipamentos necessários. Boa parte do tempo foi gasta

enquanto planejávamos exatamente o que faríamos. A targa, a capota e vários outros equipamentos foram esboçados em cartolinas ou rabiscados

em bloquinhos tendo o meu tamanho como referência. Em alguns

momentos, devo ter sido bem in exível e insistente, mas estava determinada

a concluir todo o trabalho a tempo para cumprir o prazo ambicioso que nós mesmos havíamos estipulado. Além disso, eu tinha passado tanto tempo

pesquisando e me preparando para aquela viagem que sabia exatamente o

que desejava ter a bordo. Não sou boba nem nada (acreditem vocês ou

não!), mas é claro que escutava os conselhos. Fazia anos que eu coletava opiniões e recomendações de navegantes experientes, e já havia repassado

tudo o que haviam me dito, pesado os prós e contras e tomado minhas

próprias decisões. Don queria que eu usasse os geradores eólicos da Aix-X

Breeze Wind, porque funcionaram muito bem para ele. Jesse Martin também as utilizou, mas preferi da Rutland 913, que era mais silenciosa e

tinha fama de ser mais con ável. Construímos uma base removível, de

forma a facilitar a reposição caso uma das pás quebrasse.

Outro objeto de discussão foi a targa, a peça na popa que sustenta os painéis solares e as antenas. David Dicks usou uma com painéis reclináveis,

assim como Jesse Martin. Achei que era alto demais, o que me deixava

vulnerável, então escolhi um mais baixo. Depois, enquanto a mastreação

estava sendo feita, debatemos muito se a buja de temporal deveria ter seu próprio enrolador. Tive que decidir o que era ideal para mim e assumir a

responsabilidade. Don havia me dado um conselho a respeito disso mais

cedo. Ele disse: “Se você zer a decisão por conta própria após pensar com

cuidado e algo der errado, ao menos não haverá nenhum remorso”. Palavras sábias de um homem sábio. Sou responsável por todas as decisões que

tomamos, acertadas ou não.

Sabíamos que seria necessário muito trabalho para concluir o trabalho de

reequipagem e eu não tinha dinheiro para pagar os salários. Don pôs um anúncio no Trade-a-Boat atrás de voluntários para nos ajudar e quei

estarrecida com o retorno que tivemos. Vieram pessoas de todo o país para

nos ajudar e rapidamente tínhamos uma dúzia de pessoas envolvidas no

projeto, polindo, lixando e pintando. Bruce havia se entregado de corpo e alma à nossa causa, e ele e Suzanne se dedicaram a me pôr no caminho

certo. Bruce tornou-se o gerente do projeto – não apenas do projeto de

reequipagem, mas de toda a jornada, do início ao m. Meus pais quebravam

qualquer galho que aparecesse e também abrigavam e ofereciam comida a muitos dos voluntários. Um pouco como diz o ditado, todos estavam

trabalhando para descobrir com quantos paus se faz uma canoa... Só que,

neste caso, era um veleiro!

Era um grupo incrível de pessoas e não era só o trabalho deles que era inestimável: poder contar com todos seus anos de experiência com

navegação e construção de barcos foi imprescindível na hora de escolher os

equipamentos nas sessões de planejamento em volta da mesa de jantar. Tenho certeza de que me esquecerei de alguém, mas há alguns que precisam ser mencionados. Havia Ed, um ex-integrante da marinha americana, que

sempre trabalhava em silêncio; Richard, o carpinteiro capaz de dar uma mão

em praticamente qualquer coisa; Jim Hawke, que aparecia algumas vezes por

semana para instalar o novo encanamento; Rod, com suas opiniões fortes e muitas vezes divertidas, a quem posso agradecer pelo enrolador de genoa;

Ricki, que sempre acabava pegando os piores trabalhos e sempre estava

pronto para outro; e Pat, com seu humor sarcástico e hilário, que fazia um

pouco de tudo e gostava de trabalhar tarde, quando todos já haviam partido e o barracão estava em silêncio.

Phil George, o proprietário da Fleming Windvanes, não apenas forneceu

e instalou o piloto de vento como também construiu o suporte para a targa

com meu pai; Damien trabalhou duro, mas também nos entreteve com suas histórias à mesa de jantar; Neil investiu horas de trabalho para trocar todos

os os do barco; sem falar em Mick, François, Muray, Steve, John e Jim

Williams.

Com todos trabalhando tão duro na mesma coisa, aquilo se tornou algo bem maior do que o meu sonho. Ao darem uma passada lá para ajudar com

o lixamento vespertino ou resolver algum empecilho, muitas pessoas

desempenharam um papel enorme no processo de deixar o barco e eu

preparados para a viagem, e todos eles foram peças imprescindíveis para a viagem.

Mas não vivíamos só de seriedade. Um dia apareci cedo no galpão para

escrever os trabalhos do dia em uma grande cartolina e a xei-a na parede.

Após uns poucos minutos, olhei para ela e vi que minha lista cuidadosamente planejada tinha sido alvo da brutalidade de vândalos!

Percebi que alguém havia escrito entre cada dois itens coisas como

“cigarrinho”, “pausa pro café”, “chá da tarde” e coisas assim. Até hoje não tenho certeza de quem foi, mas acho que todos estavam envolvidos.

Brincadeiras à parte, todos continuavam bem-humorados mesmo após

dias e dias de trabalho duro, e foi um privilégio contar com tantas pessoas

boas que cederam seu tempo para me ajudar a realizar um sonho. Sei que já

disse isso antes e tenho certeza que direi mais algumas vezes nas páginas que virão, mas foi incrível.

Era preciso ver para crer o que conseguimos fazer naquelas oito semanas

reequipando o barco. A lista é impressionante:

 

Casco totalmente raspado, lixado, pintura base e com epóxi.

Convés lixado, brado e emparelhado.

Todas as escotilhas, vigias, cunhos, TUDO retirado e substituído por

peças novas.

Cintas da quilha submetidas a exames de ultrassom e antigo leme

submetido a um raio-x pela Pearl Street.

Timão e cana do leme novos instalados.

Quatro bombas de porão Johnson instaladas, bem como duas bombas manuais.

Todos os adaptadores metálicos, válvulas e mangueiras substituídos.

Novo sistema de drenagem para o cockpit, com tamanho extra,

desenvolvido e devidamente instalado, e reforços metálicos extras encaixados para os estais inferiores.

Novo compartimento impermeável a xado para manter rme a base

da estai de proa.

Suporte da âncora preenchido e vedado de modo a criar um compartimento de impacto.

Todos os paióis do cockpit impermeabilizados de maneira

independente.

Nova cozinha e nova mesa para cartas náuticas instaladas. Nova caixa para o motor instalada.

Motor Yanmar 3YM de 29 cavalos com hélices Gori dobráveis

instalado.

Tanque de diesel recondicionado, vedado e testado. Tanques de águas removidos, recondicionados, vedados e testados.

Novo toalete Lavac instalado.

Instalações elétricas refeitas, novinhas em folha.

Uma capota nova e linda posta no lugar certo.

Tudo pintado em gloriosos tons de rosa!

 

Você pode até não acreditar quando digo, mas car enrolando é parte

importante de uma circum-navegação. Com o ritmo frenético, a preparação e a atenção crescente da mídia, era essencial passar algumas horas por

semana (pelo menos) sendo totalmente improdutiva. Ficar sozinha e

esvaziar a mente, sem deixar que um único pensamento importante passasse

por minha cabeça era absolutamente vital para recarregar as baterias. Na metade da reforma, eu estava detonada e precisando desopilar. Passei tardes

maravilhosas de sábado assistindo bobagens na TV e relendo meus livros

favoritos enquanto minha incrível irmãzinha, Hannah, preparava tantas

torradas quanto eu fosse capaz de comer, obrigava-me a repetir a sobremesa e me mandava cedo para a cama. Era exatamente o que eu precisava para

estar disposta a enfrentar outra semana de bra de vidro, areia e pintura

antes de seguir a Brisbane para passar o dia em um curso sobre medicina

náutica. Eu estava encaixando todas essas atividades extracurriculares nos intervalos da preparação física e do planejamento logístico da viagem. O tempo urgia, e eu ainda não tinha uma grande marca como patrocinadora, mas agora, com Andrew e Scott a bordo (sim, eu sei, mas foi um trocadilho

acidental, então vou mantê-lo!), podíamos deixar isso nas mãos deles e nos

concentrarmos na preparação. Foi um grande alívio. Era importante viver

um dia por vez e focar em vencer a minha “lista de tarefas”, que era imensa! Cada dia era diferente do anterior e quando não estava ajudando no galpão

eu participava de reuniões, elaborando novas listas e desenvolvendo minhas

habilidades.

Passei outro m de semana em Brisbane estudando sobrevivência no mar com Gerry Fitzgerald no Offshore Training Centre. Gerry é um velejador

muito experiente que já competiu nas Olimpíadas, participou da regata

Sydney-Hobart, realizou diversas jornadas de longa distância no mar e

capitaneou várias embarcações de carga, comércio, militares e da polícia federal. É alguém que sabe do que está falando e o curso foi muito útil para

mim. Ele abordava todos os perigos imagináveis que podem surgir quando

se está sozinha no mar. Fizemos exercícios práticos de embarque e

Continuar: parte 3 de 4