Destemida
Parte um - O Ponto de Partida
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Finalmente, eu estava pronta, e em 8 de setembro de 2009, uma terça-feira, comecei o meu caminho. O plano era navegar por dez dias até Sydney.
Seria tempo su ciente na água para testar todos os sistemas e dar uma boa
provada na Ella’s Pink Lady. Assim, ao chegar em Sydney, ainda haveria tempo para ajustes de última hora antes de seguir para o Mar da Tasmânia e iniciar minha circum-navegação.
Era tão bom partir sabendo que a Ella’s Pink Lady estava completamente
pronta e com tudo organizado direitinho, e a despedida que recebi foi
excelente. Eu não estava nada preparada para ver todas aquelas pessoas ao longo do rio acenando para mim, nem para a pequena frota de barcos que
me escoltou na saída do porto, sem mencionar os dois helicópteros
zumbindo sobre minha cabeça. Eu estava tão orgulhosa por aquela
demonstração de apoio da comunidade local que, apesar do cansaço, achei maravilhoso navegar em direção ao oceano, embora não estivéssemos
viajando muito rápido devido às condições do vento.
Mesmo quando os últimos barcos haviam me deixado para voltar ao rio,
eu ainda não estava indo muito rápido, mas nalmente o vento embalou e eu tentei curtir o nascer do sol e conter meu enjoo. Abri minha primeira lata
de batatas para fritá-las e comê-las no chá da tarde.
Ao m da tarde, eu deixava o Cabo Moreton a uma velocidade de seis
nós. Eu estava atenta aos poucos barcos de pesca ao meu redor e avistei algumas baleias. O mar não estava muito revolto, mas ainda assim fui um
pouco cuidadosa para garantir que a minha comida permanecesse onde
estava, pois ainda não estava muito acostumada ao balanço do mar.
Por volta da 1h30, a Ella’s Pink Lady e eu estávamos cerca de 15 milhas náuticas a leste da Ilha North Stradbroke. Eu queria estar mais distante da
costa, das frotas pesqueiras e de possíveis navios, mas devido à corrente e
aos ventos brandos de mais cedo eu não havia ido muito longe desde a
partida. Após olhar para o horizonte, checar o radar e o AIS e ajustar os alarmes, deitei na cama ainda vestindo o colete salva-vidas e os
equipamentos.
Uma grande explosão de fazer tremer os ossos me acordou ao mesmo tempo em que o Ella’s Pink Lady foi arrancado de sua rota de repente e girou violentamente. Enquanto o barulho de trituração persistia, levantei-me em
um pulo. Uma rápida olhada por cima da escada da escotilha revelou que
havíamos colidido com algo enorme: um navio. O céu havia se tornado uma
parede de ferro preto que obstruía as estrelas e se amontoava diante de mim. Os sons do motor invadiram minha cabeça e todo o meu mundo.
Precipitando-me em direção ao cockpit, agarrei o leme, desativei o piloto
automático e tentei manobrar. Foi tudo em vão. Não havia para onde ir, nem
nada que eu pudesse fazer. Tremendo e rangendo, meu barco e eu estávamos sendo arrastados em direção ao casco do navio. Uma nova espiada me
revelou que a popa do navio, onde assomava a ponte, aproximava-se
rapidamente. Os ruídos estavam se tornando mais altos e, sabendo que o
mastro e o estaiamento estavam prestes a vir abaixo, corri de volta para dentro da cabine em busca de alguma proteção.
Com as mãos sobre a cabeça, sentei na cama enquanto uma sucessão de
sons totalmente novos e muito mais terríveis começava. Alguns poucos
segundos se passaram, mas para mim pareceram horas. A estante ao meu lado partiu-se quando o cunho detrás da antepara se estilhaçou em mil
pedaços. O barco inclinou-se para um lado e, em seguida, deu um salto para
cima, e quando o estaiamento emaranhado desprendeu-se repentinamente e
caiu sobre o convés tivemos um som de explosão maior do que os anteriores.
Quando o barco se estabilizou e o ruído dos motores começou a
desaparecer, voltei para o convés. Estava uma bagunça. Havia a mastreação,
cabos, ocos de tinta preta enferrujada e lascas de metal provenientes do casco do navio por todos os lados. Adiante do Ella’s Pink Lady, eu conseguia
ver os contornos escuros da popa do enorme navio que deslizava indiferente
para longe, deixando-nos inertes em meio ao rastro de espuma que o sucedia.
Chocada, incrédula e com a cabeça ainda confusa, tentei
desesperadamente lidar com o que havia acontecido. Conferi se havia água
no porão ou algum dano no casco. A única coisa que eu conseguia pensar
era: “coitado do meu barco!”, e isso se tornou uma espécie de mantra enquanto eu acionava interruptores para ver quais equipamentos ainda
estavam funcionando: “coitado do meu barco, coitado, coitado do meu
barco”. Eu estava entorpecida, sacudindo a parte de mim que ainda dormia.
Todos os meus pensamentos estavam voltados para a Ella’s Pink Lady.
Respirando fundo para acalmar as mãos que tremiam, peguei o rádio
para chamar o navio, e então agarrei o telefone para contar ao meu pai o que
havia acontecido. “Estou bem,” eu disse. “Estou bem, perfeitamente bem,
mas fomos atingidas por um navio e perdemos o mastro”, terminei apressada.
De volta ao convés, sozinha e a milhas de distância da terra rme, levei
duas horas para organizá-lo, ajeitar a mastreação desfeita no seu lugar e
cortar as cabos emaranhados na vela mestra. Precisei parar com frequência para me inclinar sobre a lateral do barco e vomitar, já que a náusea de antes
havia se transformado em um grande enjoo. Finalmente, liguei o motor e
comecei a viagem de seis horas até Gold Coast.
O que posso dizer? Tenho muitas perguntas sem resposta sobre aquela
noite. Não tenho ideia de como não avistei o navio. Após voltar para a terra
rme, eu sentia tanta adrenalina que levei um tempo para me dar conta de
como aquela colisão havia sido assustadora e potencialmente perigosa.
Depois de telefonar para meu pai e avisar a todos que estava bem e que retornaria ao porto por conta própria, passei horas avançando devagarinho impulsionada pelo motor e repassando tudo o que havia acontecido. Precisei
de um esforço para ver o lado positivo e chorei um pouco para colocar a
decepção esmagadora para fora. Ainda assim, quei muito orgulhosa pela
maneira como a equipe em terra cuidou da situação. O Centro de Coordenação de Resgates Australianos (de Camberra) foi brilhante, e após a
minha primeira ligação para a base tudo já estava sob controle. Todos os
anos que passamos planejando como reagir a uma situação de emergência
garantiram que todos soubessem o que fazer, para quem ligar e como não entrar em pânico.
Pode parecer estranho para muitas pessoas, mas a partir do momento em
que comecei a soltar o estaiamento e a amarrar o mastro eu soube que era
capaz de enfrentar qualquer situação que pudesse surgir em uma viagem de circum-navegação. Jamais entrei em pânico: soube por instinto o que
precisava fazer, e z. Não me entendam mal, não estou fazendo pouco caso
do que aconteceu. Foi aterrorizante. Mas depois de passar por aquilo, não
tive mais dúvidas de que me sairia bem na viagem. Fiquei mais focada e determinada do que nunca. Eu sabia que aquele incidente assustador daria
combustível para todas as pessoas que nos criticavam pelo que eu estava
tentando fazer. Aos seus olhos, eu havia provado exatamente por que não
deveriam me deixar navegar sozinha. No entanto, naquele mesmo incidente, provei que tinha a habilidade necessária para alcançar meu sonho. Até
aquele momento, a única coisa que me deixava inquieta nos raros momentos
de tranquilidade era a dúvida sobre minha capacidade emocional de
enfrentar aquilo. Eu sabia que tinha a habilidade, o barco e o apoio necessários para concluir a viagem com sucesso. Só faltava testar minha
força emocional. Após a colisão, eu sabia que era capaz de encarar qualquer
empecilho que surgisse pela frente. Não estava subestimando o estado de isolamento, a exaustão e o medo do perigo: apenas sabia que era capaz.
O que eu não sabia era como arcar com os custos de consertar o barco e
lidar com as consequências do acidente. Eu não sabia ao certo se meus pais,
sobretudo o meu pai, continuariam tão dispostos para ajudar a manter meu
sonho vivo. Eu sabia que eles haviam surtado com aquela ligação às duas da manhã.
Pouco antes de sair de Mooloolaba, os comentários negativos sobre a
viagem e minha idade estavam se acumulando, mas eu não tinha ideia do
que estava por acontecer. Os helicópteros que apareceram para me lmar deram uma pista e dei alguns acenos contidos para os cinegra stas. Quando
cheguei a Southport, havia uma frota de barcos para me saudar. Centenas de
pessoas se en leiravam no quebra-mar, e torci para que a maioria estivesse
lá para me apoiar e não para testemunhar o que muitos imaginavam ser o
m bastante precoce de minha aventura.
Eu não me sentia nada bem. Tudo aquilo era muito surreal e a atenção
frenética da mídia e os helicópteros pairando no ar não ajudaram muito. A
Polícia Aquática de Queensland me encontrou em torno das 7h30min e escoltou a Ella’s Pink Lady até sua sede na Gold Coast, em frente ao Sea
World. Meus pais estavam lá esperando por mim.
Andrew Fraser havia vindo de Sydney e quei muito aliviada com isso.
Parecia haver câmeras e jornalistas em todos os cantos e eu não sabia bem o que fazer. Fomos inundados por pedidos de entrevistas e só o que eu queria
era ir a um lugar quieto para falar direito com Bruce e meus pais para
decidir nossos passos seguintes. Após conversar com a polícia, Andrew
marcou uma breve coletiva de imprensa para as 13h30min. Depois que a mídia tivesse acesso a mim, tínhamos a esperança de que me deixariam em
paz. Estávamos errados. É claro que eu não podia dizer muito, porque
haveria investigações aprofundadas da Maritime Safety de Queensland e do Ministério de Segurança em Transportes Australiano (MSTA), mas respondi o que pude. Depois que terminamos, levamos o barco no motor até a casa
dos pais de Pamela, em Runaway Bay. Chegar lá foi maravilhoso: eu estava
louca por um banho e uma boa dormida. Nenhum de nós estava preparado
para o que aconteceria em seguida.
Havia equipes de reportagem, jornalistas e cinegra stas por tudo. Os
fundos da casa dos Fredrics se conectava a um píer, então pudemos manter
a Ella’s Pink Lady por perto e descarregá-la. Sempre que passávamos pela
porta traseira, dúzias de pessoas pulavam dos outros quintais vindas do canal. Mais tarde, quei sabendo que os jornalistas estavam batendo de
porta em porta e oferecendo dinheiro aos vizinhos em troca de acesso a
qualquer quintal ou píer com vista para o local onde eu e minha família
estávamos. Tom e Angus (o irmão mais novo de Pamela) se divertiram saindo para o quintal de tempos em tempos para dar trabalho às equipes de
reportagem, mas depois caram entediados e começaram a achar aquilo
chato. Mais uma vez, senti-me péssima por causar uma zorra daquele
tamanho e que impactava as pessoas próximas a mim. Eu não conseguia entender o que os jornalistas esperavam. Tenho certeza de que ninguém
queria ver fotos minhas de pijama ou me arrastando por aí toda
descabelada.
O dia seguinte não foi melhor, para não dizer que o frenesi piorou. Mais e mais pessoas pediam que eu abandonasse a ideia da viagem e as críticas aos
meus pais caram bem pesadas. A Premier de Queensland, Anna Bligh,
dissera em um primeiro momento que eu deveria seguir em frente, mas
então mudou de ideia e insistiu para que eu repensasse tudo. Havia até uma notícia de que o governo de Queensland investigaria maneiras de me deter.
Fiquei muito contente ao ler mais tarde que isso era mentira. Tenho certeza
de que o governo e o conselho tutelar têm questões muito mais sérias com as quais se preocupar, pois há muitos casos de abuso e negligência que merecem atenção.
Sei que meus amigos e minha família tentaram esconder as piores
notícias e comentários de mim, mas não deu muito certo. Tudo foi muito
desanimador, mas o que tornou a situação suportável foram as mensagens igualmente fortes de apoio que recebemos. Muitas pessoas desejaram sorte e
insistiram para que eu seguisse em frente. Gente como John Bertrand, a
lenda viva da America’s Cup, e o cinco vezes campeão do MotoGP, Mick
Doohan, não tiveram medo de me defender diante da mídia, o que foi muito admirável. Não muito surpreendentemente, perguntaram a opinião de Jesse
Martin na rádio ABC. Fiquei emocionada quando ele disse: “Todos têm na
cabeça algo que desejam fazer e ela está tentando fazer o que deseja, como
eu z, e acho isso ótimo. Tenho certeza de que ela provavelmente vai partir outra vez... Continuo achando que ela deve fazer isso”.
Também foi memorável a atitude dos blogueiros e leitores de jornal do
mundo todo que enviaram seus comentários de apoio ou publicaram-nos
em meu site. Recebi mensagens de gente da Tasmânia, Suécia, Reino Unido, Estados Unidos e diversos outros lugares. Cada comentário negativo parecia
vir acompanhado de outros dois positivos para ofuscá-lo. A comunidade de
Gold Coast foi igualmente incrível: as pessoas acenavam ou me
cumprimentavam, encorajando-me sempre que se deparavam comigo ou com alguém de minha família.
Mal pude acreditar quando Dean Leigh-Smith, da Gold Coast Marina, e
Graham Eaton e Joe Akacich, da Australian Marine Enterprises (AME),
ofereceram-se para reparar de graça os danos e garantir que a Ella’s Pink Lady e eu voltaríamos à água o mais cedo possível. Os setenta
estabelecimentos sediados na marina doariam todo o necessário. Dean disse
que nada os deteria até que os reparos estivessem prontos em tempo recorde, mesmo que isso signi casse virar a noite trabalhando. Era uma oferta boa demais para recusarmos.
Após conduzirmos o barco com a força do motor de Runaway Bay a
Coomera içamos ele para fora da água antes de levá-lo a um abrigo na
quinta-feira, onde uma equipe de voluntários ofereceu seu tempo e seus conhecimentos para trabalhar na Ella. Era duro para mim ver todos os
danos, mas as lascas de metal e ferrugem no convés que haviam sido
raspadas da lateral do Silver Yang durante a colisão nos mostraram como a
Ella’s Pink Lady havia sido forte ao suportar aquela investida. Que barquinho durão!
Fiquei muito grata por ter tantos voluntários entusiasmados, pois não
teria sido difícil me afogar em lágrimas de tristeza em vez de voltar
imediatamente para o páreo. Com caras como Bruce, Chris, Black Joe, Scooter e Ryan por perto, retomei o foco na hora... Quisessem eles me ter
por perto ou não. Precisávamos remover a mastreação destruída, o guarda
mancebo de proa e os púlpitos da balaustrada para aplicar as primeiras
camadas de bra de vidro nas áreas dani cadas. Havia muito a ser feito e continuávamos encontrando detalhezinhos, como pequenos buracos onde o
mastro havia caído. Era incrível quantas coisas haviam sobrevivido ao
acidente. As luzes de navegação Hella ainda estavam funcionando
perfeitamente, apesar de terem sofrido uma colisão direta, e o motor Yanmar ligou imediatamente e me levou para casa em segurança.
Depois que tudo fosse detectado, estimava-se que seriam necessários dez
dias para devolver à Ella’s Pink Lady sua melhor aparência, e a mastreação
não levaria muito mais do que isso. Por sorte, ainda tínhamos um pouco de tinta rosa sobrando!
As pessoas na marina não apenas trabalharam duro no barco como
também nos alimentaram todos os dias e garantiram que todos os desconhecidos se apresentassem devidamente antes de se aproximarem de mim ou do barco. Ainda havia jornalistas, mas deixei de me incomodar
depois que eles pararam de interferir na vida da família de Pamela e de seus
vizinhos. Uma vez no galpão, cou mais fácil controlar isso, e procurei
ignorar a negatividade crescente em torno da viagem. Houve uma reportagem de jornal no qual o autor alegava possuir a cópia de uma suposta
carta que o Departamento de Transporte e Estradas de Queensland enviaria
ao governo federal. Eu era tão ingênua que, até então, achava que uma
investigação con dencial era feita daquele jeito. A alegação era de que eu havia rabiscado em minha lista de segurança e desenhado guras “infantis”
no papel. Eu tinha um caderno no qual havia rabiscado e anotado questões
importantes. Sempre levo um caderno comigo para escrever listas e tarefas.
Não era o registro de bordo.
Eu poderia ter lidado com todas as imprecisões e desinformações se elas
só me dissessem respeito, mas temi que meus apoiadores pensassem que
tudo o que liam era verdade e cassem decepcionados. Eu andava nervosa
após a colisão porque achava que alguns patrocinadores poderiam mudar de ideia e cair fora. Nenhum fez isso. E foi muito incrível ver os navegantes e os
mercantes marítimos locais também darem uma força. Aquilo fazia com que
eu me detivesse quando sentia um pouco de pena de mim mesma e
continuasse com a tarefa que tinha em mãos.
Ver a Ella’s Pink Lady recuperando sua forma aos poucos foi maravilhoso.
Depois do trabalho duro, persuadiram-me a passar uma semana em casa.
Passei aquele tempo com os amigos e a família, mas estava ansiosa para
retornar à Gold Coast e colocar a Ella’s Pink de volta na água.
Pouco antes de minha ida a Mooloolaba, zemos um almoço de
agradecimento com todas as pessoas que haviam me ajudado. Fiquei
maravilhada com a bondade e a generosidade de todos eles e foi ótimo poder dizer como era grata por tudo. Em 23 de setembro, uma quinta-feira, todo o trabalho no casco já estava concluído e o mastro estava para chegar a
qualquer momento. Teria sido ótimo dar um bom banho no barco para que
casse cintilante, mas não havia necessidade. Uma grande tempestade de
areia que já havia acossado New South Wales chegou à costa com os ventos fortes do sudoeste e tudo estava coberto de poeira vermelha. No céu havia
uma névoa alaranjada que tornava o mundo um lugar muito estranho.
Conforme a poeira foi engrossando, escutei que algumas construções
haviam sido fechadas, voos foram redirecionados e trabalhos nas estradas foram interrompidos e os trabalhadores mandados de volta para casa. Não
dava nem para ver o sol. Fiquei contente por estar no galpão fazendo os
trabalhos de última hora na Ella’s Pink Lady em vez de ter que me aventurar
do lado de fora.
Apesar da poeira, todos no galpão estavam de bom humor, trabalhando
nos diversos pedaços e detalhes que tornariam minha vida muito mais
confortável no mar. Ao longo dos dias anteriores, meu pai construíra para
mim um lance de degraus para tornar um pouquinho mais fácil o acesso à escada que levava à cabine, e Chris, da AME, assumira aquele que devia ser
o trabalho mais incômodo do mundo: encaixar as válvulas unilaterais no
dreno do cockpit pendurado de cabeça para baixo em um espaço muito
reduzido. Como tínhamos tempo, conseguimos instalar um sistema de bombeamento para transferir combustível e água de galões para os tanques.
Como de costume, z listas de tarefas o tempo todo (e rabisquei ao redor
delas) e aproveitei todos os momentos livres para estudar as cartas náuticas e
tabelas climáticas do Oceano Pací co.
Finalmente, em 28 de setembro, uma segunda-feira, a Ella’s Pink Lady
estava pronta para retornar à água. Prepará-la em apenas dezenove dias após
a colisão foi um feito e tanto. O momento foi importante para todos nós, mas acho que o orgulho nos rostos de todos os que haviam ajudado a recuperá-la teve um valor inestimável. Bruce e eu passamos o dia na água
testando tudo meticulosamente e tudo funcionou bem como o esperado.
Retornamos ao ponto de partida, ligamos o motor e fomos até a Runaway
Bay para passar a última noite com minha família, mais uma vez na casa dos pais de Pamela. Eles dois, Gavin e Nadine, são muito amigos dos meus pais,
e aquela sempre foi uma segunda casa para nós. Mas a maneira como nos
ajudaram a lidar com todas aquelas intrusões é algo a ser lembrado. Tive
muita sorte por receber tanto apoio enquanto trabalhava para tornar o meu sonho realidade.
O clima parecia bom e a previsão dizia que os ventos do norte
permaneceriam por um tempo. Se tudo transcorresse bem, nosso plano era
sair no dia seguinte para estarmos em Sydney bem no início da semana. Só para garantir, Bruce, Suzanne e Tom partiriam no mesmo instante que a
Ella’s Pink Lady e eu no Big Wave Rider e navegariam atrás de nós por um
tempo para me fazer companhia e ajudar a navegar em meio às tumultuadas
rotas de navios comerciais. Eu estava ciente de que precisaria fazer tudo sozinha após deixar Sydney, mas não me envergonho em dizer que sentia
calafrios ao pensar nas condições difíceis que encontraria ao navegar
sozinha por aquelas linhas. Aparentemente, houve trinta e oito colisões ou
situações de quase colisão entre pequenas embarcações e navios maiores desde 1990, e em mais de cinquenta por cento dos casos o navio não parou
para ajudar. Depois de entrar para essas estatísticas, ter Bruce por perto
durante algum tempo serviu para me acalmar, algo fundamental para que eu
recuperasse a autocon ança.
Passei a noite preparando a bagagem e terminando algumas tarefas e
acordei pronta para partir. Eu queria sair cedo e esperava dar no pé antes
que tivessem chance de armar o circo midiático. Mas não tivemos sorte, pois de alguma maneira a notícia se espalhou e acabamos com três helicópteros de jornalistas zumbindo sobre nossas cabeças. Tenho certeza de que os
vizinhos de Pamela caram muito felizes com minha partida!
O vento estava forte e conseguimos fazer um tempo excelente navegando
longe da costa antes de virar para o sul. A sensação de estar no oceano outra vez era muito boa. Eu estava sozinha no veleiro e aproveitei o tempo para
me acostumar com ele outra vez. Os ventos de quinze nós e o céu azul
afastaram quaisquer resquícios de nervosismo, embora infelizmente não
tenham impedido a sensação de que eu estava prestes a devolver minha última refeição, algo que sempre sinto nos primeiros dias no mar.
Muitos pensamentos passavam por minha cabeça, mas um deles foi mais
insistente. No dia anterior, algo incrível havia acontecido: o incrivelmente
bem-sucedido milionário britânico e renomado aventureiro Sir Richard Branson me enviou votos de boa sorte. Ele disse o seguinte àqueles que
achavam que deveriam impedir minha viagem:
Ela tem dezesseis anos: já não é um bebê. Saí do colégio aos quinze
anos e abri o meu próprio negócio. Aos dezesseis, já se é bem adulto.
Ela deve fazer isso. É arriscado, mas atravessar a rua pode ser
arriscado, andar de carro é arriscado, andar de bicicleta é arriscado.
Ela viverá a grande aventura de sua vida... Só vivemos uma vez, e
devemos aproveitar ao máximo.
Em momentos assim eu me beliscava para ver se não estava sonhando.
Nunca imaginei que atrairia tanta atenção midiática, nem que alguém tão famoso quanto Richard Branson falaria a meu respeito. Sei que a colisão
tornou mais fácil o trabalho daqueles que atacavam meu projeto, mas eu
continuava recebendo muito apoio. Não sou especial. Sou alguém comum, uma adolescente comum, que teve sorte o su ciente (alguns diriam que fui teimosa o su ciente) para ir atrás de meu sonho. No dia em que deixei a
Gold Coast, senti que tinha mais gente do meu lado que do lado contrário.
Era um bom sentimento para levar comigo na viagem.
Levei cinco dias para navegar até Sydney. O teste no mar foi exatamente o
que a Ella’s Pink Lady e eu precisávamos para descobrir eventuais problemas.
Não demorei muito para perceber que havia problemas com a drenagem do
cockpit. Havia muita água entrando no barco e chegou um momento em que era preciso bombear o porão mais ou menos a cada vinte minutos. O vento
brando do norte desapareceu e uma inversão começou a soprar do sentido
sul, fazendo-nos balançar bastante com o vento de 23 nós e as ondas de três
metros. Eu estava navegando à toda força, e somando a isso o meu enjoo, a vigilância extra das linhas de navios comerciais e a adaptação aos pequenos
cochilos, senti que nalmente estava fazendo o que sempre desejara...
desa ar-me em uma aventura.
Durante o último dia no mar as águas se acalmaram e precisei trabalhar duro para manter a Ella’s Pink Lady em movimento, pois havia muito pouco
vento e algumas pancadas leves de chuva. Bruce, Suzanne e Tom haviam
mantido distância nos dias anteriores, mas nos reunimos para entrarmos em
Sydney Heads juntos. Alguns barcos e dois helicópteros da imprensa nos seguiram e Tom saltou do Big Wave Rider para a Ella’s Pink Lady para me
ajudar a atracar em e Spit. Eu ainda estava me acostumando a usar o leme
em vez de um volante e não queria dar uma de Tony Bullimore e colidir em
frente às câmeras. Não seria nada bom, sobretudo após o drama com o Silver Yang . O engraçado é que, mais tarde, alguns jornalistas me perguntaram quem era o belo jovem que estava comigo no barco (HAHAHA!)
Após descer do barco, minha cabeça começou a girar e cambaleei por
alguns instantes. Assim como levo alguns dias para me acostumar ao
balanço do mar, também preciso de um tempo para me adaptar à terra. Só
Deus podia saber qual seria meu estado após seis ou sete meses no mar. Kay Cottee não teve nenhum problema ao desembarcar de sua circum-
navegação, mas vi o estado de James e Justin após sua travessia da Tasmânia
em caiaque: eles tinham di culdade para caminhar após sessenta e dois dias.
É claro que eles tinham menos espaço para alongar e remaram quase o tempo todo, então a situação deles era um pouco diferente, mas eu tinha a
impressão de que caria mais parecida com eles do que com Kay.
Tive muita sorte, pois quando estávamos planejando onde eu caria em
Sydney, alguém sugeriu que falássemos com Andrew Short. Ele é um marinheiro veterano da linha Sydney-Hobart, que começou seu negócio
como uma empresa de fundo de quintal em Caringbah e se tornou um
comerciante de barcos multimilionário com atuação em Taren Point, Yowie
Bay e e Spit. Ele foi incrível quando perguntamos se poderia nos abrigar em e Spit. Andrew não apenas ofereceu um ancoradouro para a Ella’s Pink
Lady como também arranjou espaço para o Big Wave Rider e nos deu acesso
a qualquer serviço da marina que fosse necessário. Eu o havia conhecido
naquela mesma semana, mas Andrew entendia o que eu queria fazer. Ele sacou direitinho e foi incrivelmente receptivo, assim como sua mulher,
Kylie, e seus lhos Nick, Ryan, Sam, Mitch e Maddison. Nick e Ryan, os
lhos mais velhos, eram ótimas pessoas, e quando passei por Heads eles
levaram meus pais e Hannah para me encontrarem a bordo do barco de sua família. A pobrezinha da Hannah cou enjoada!
Após uma boa dormida, chegou o momento de lidar com a nova lista de
tarefas que eu havia elaborado durante o trajeto. O tempo voou enquanto nos ocupávamos com questões como examinar a drenagem do cockpit, aplicar mais camadas de bra de vidro, visitar as lojas da marina para
estocar mais itens de última hora e dar algumas entrevistas aqui e ali.
O ciais da ATSB apareceram em nove de outubro para discutir o rascunho
do relatório da colisão. Eles foram absolutamente incríveis: eram muito pro ssionais e amigáveis e o único interesse deles era averiguar o que havia
acontecido nas proximidades da Ilha Stradbroke naquela noite para
entender o que havia dado errado e impedir que acontecesse novamente. A
última coisa que eu queria era reviver aqueles acontecimentos, mas isso era importante, então conversamos ao redor da mesa do Big Wave Rider e
repassamos todo o episódio. Quando terminamos, levaram-me com Bruce
para visitar um navio-tanque. Eles haviam marcado um tour pelo navio para
que eu entendesse como as coisas haviam sido da perspectiva da tripulação do Silver Yang.
Após recebermos o retorno da ATSB, equipamos a Ella’s Pink Lady com
um re etor passivo para aprimorar o serviço de re exão de radar que ela já
possuía e elaborei, com a ajuda de minha tia Vivienne, um plano mais abrangente de controle de fadiga. Ao ler o relatório e conversar sobre as
descobertas, percebi que havia uma série de coisas que haviam causado
aquela colisão, e tanto nós quanto o Silver Yang havíamos contribuído para
causar o acidente. Entender como havia acontecido foi uma lição inestimável para garantir que acidentes como aquele não se repetissem.
Eu ainda estava focando totalmente na minha viagem, mas também
aproveitei a oportunidade para tirar uma folga. Ficamos hospedados em um
hotel superchique na orla de Manly, nas praias do norte de Sydney (não era o tipo de opção econômica com o qual estávamos acostumados, mas nos
deram um desconto para termos alguns momentos de requinte). Todas as
manhãs eu me servia duas ou três vezes de frutas, panquecas e nata, ciente de que provavelmente perderia um pouco de peso nos primeiros dias no mar. Na marina havia um uxo constante de encorajadores que paravam
para olhar a Ella’s Pink Lady e me desejar sorte. Phil, Ed, Pat, Judy, tia Cathy
e tio Campbell apareceram para ajudar com o que pudessem e para estar
presentes no grande dia. Certa noite, saí com toda a família, Bruce e Suzanne para jantarmos com James, Justin e suas famílias. Foi uma noite
divertida e foi muito legal rir e conversar sobre a aventura de outra pessoa
em vez da minha, só para variar um pouco.
Quando decidi que desejava me tornar a pessoa mais jovem a navegar ao
redor do mundo, nem em meus melhores sonhos imaginei que conheceria
tantas pessoas incríveis. Uma delas foi Layne Beachley, sete vezes campeão
mundial de surfe. Layne foi o mestre-de-cerimônias do grande evento de divulgação midiática que realizamos com Ella Baché em frente à Opera
House. Eu estava muito nervosa antes do evento, mas tudo foi muito
divertido. Layne me fez perguntas sobre a viagem e Jesse Martin estava lá
para me deixar mais nervosa. O evento foi uma sequência confusa de fotos e perguntas, mas a parte divertida começou quando Jesse e eu subimos na
Ella’s Pink Lady com uma equipe de lmagem do e 7pm Project para
navegarmos de volta a e Spit. Devo admitir que adorei ter Jesse a bordo. O
cara que há anos era o meu herói estava segurando os cabos e seguindo minhas instruções. A cereja do bolo foi uma queda de braço registrada em
câmera na qual Jesse teve muita di culdade para me derrotar.
Em seu livro, Jesse conta que enviava cartas na tentativa de conseguir
patrocinadores para a sua viagem e esperava pelas respostas todos os dias ao lado da caixa de correio. Três das cartas de rejeição que ele recebeu começavam com “Cara Sra. Martin”. Jesse diz que era “um chute no saco” o fato de acharem não apenas que ele não estava à altura do desa o, mas
também que era uma garota. Eu adoraria ter vencido aquela queda de braço
só para fazê-lo pagar por aquela frase do livro!
Fora da minha bolha de apoiadores, ainda havia um uxo constante de críticas que, na maior parte do tempo, eram fáceis de ignorar.
Provavelmente, o episódio mais estressante foi aquele em que o respeitado
iatista Andrew Cape, que completou cinco regatas de volta ao mundo e
contornou o Cabo Horn sete vezes, mandou um e-mail em oito de outubro para o jornalista e escritor Rob Mundle pedindo que o reencaminhasse para
mim. De alguma forma, o texto também parou nas mãos da mídia e foram
publicados diversos artigos na imprensa citando alguns trechos. Rob
entregou-o a Andrew Short, que entregou a mensagem para mim e minha família. Andrew Cape começava dizendo que acreditava ser sua obrigação
entrar em contato comigo e me informar que uma viagem daquelas exigia
mais experiência do que eu tinha. É claro que ele não buscara saber que tipo
de experiência eu tinha e usou Dame Ellen MacArthur e Samantha “Sam” Davies como exemplos de mulheres que haviam acumulado diversos
milhares de milhas no mar antes de partir em uma jornada.
Se ele tivesse perguntado, eu poderia informá-lo de que tinha mais de
10.000 milhas náuticas em mar aberto e já havia navegado pelo sul da Nova Zelândia, conforme ele havia sugerido, dentre outros lugares. Eu estudara a
parte elétrica, a manutenção do motor e as condições meteorológicas e
técnicas para me manter em forma, e possuía um barco que, pelo que
suspeito, havia sido melhor preparado que o de qualquer outra pessoa que já partira em uma viagem daquele tipo. Eu tinha a tecnologia mais recente de
que precisava, mas também tinha as habilidades para navegar sem auxílio
caso a tecnologia falhasse.
Sem qualquer conhecimento de causa sobre minha pessoa, minhas habilidades, o barco ou nossa preparação, Andrew Cape concluiu que eu
tinha trinta e três por cento de chances de ser bem-sucedida, trinta e três de
ter o barco dani cado e trinta e três de morrer e ter perda total do barco. O
e Age publicou uma citação dele a rmando que minha viagem era “como crescer em uma fazenda e, após comprar uma espingarda, achar que está
pronta para derrotar o Talibã”.
É uma lástima que Andrew Cape só tenha enviado o recado alguns dias
antes de minha partida. Se tivesse feito isso mais cedo, poderíamos ter conversado, e quem sabe eu teria aproveitado seus conhecimentos. Muitos
outros navegantes com experiências semelhantes haviam compartilhado sua
sabedoria generosamente, e eu tinha o maior interesse em aproveitá-la. O
fato de Andrew Cape ter participado de sua primeira regata entre Sydney e Hobart aos dezesseis anos depunha contra o argumento de que eu era
“muito jovem e inexperiente”.
Também teria sido muito melhor se não houvessem utilizado seu e-mail
como notícia de jornal. A maneira como a situação se desenrolou me faz questionar o momento e a verdadeira intenção daquela mensagem. Fiquei
furiosa porque os comentários de Andrew Cape seriam interpretados como
fatos concretos por muita gente, mas eu não podia desperdiçar meu tempo e
energia tentando me defender. Não havia sentido. Eu precisava estar mais preparada e determinada do que nunca para que meus feitos contassem a
história.
Quando já estávamos nalizando o barco, Paul, da Aquatronics Marine,
ajustou os aparatos eletrônicos enquanto Gavin Brennan instalava câmeras no convés e na cabine para que eu pudesse lmar enquanto navegava.
Assim, não havia um único centímetro de espaço livre: estávamos
trabalhando em todos os cantos do barco. Eu também estava aprendendo a operar as câmeras, pois havíamos decidido fazer um documentário da viagem para ajudar a nanciá-la. As coisas estavam agitadas e nem tudo
estava dando certo. Por algum motivo, a drenagem do cockpit não parava de
vazar. Fiquei com muita pena do cara que precisava se contorcer o tempo
todo em meio ao motor para reaplicar a bra de vidro. Mas quei contente porque dessa vez não era eu quem estava se embrenhando em um canto
apertado!
Desde que chegara em Sydney, eu havia me afastado um pouco das
atividades e Bruce havia assumido as coisas, preocupando-se com cada detalhe. Fizemos testes no mar para praticar a utilização dos drogues (um
aparelho semelhante a um paraquedas que é arremessado por cima da popa
para servir de freio quando o tempo está muito ruim) e para testar a nova
vela para ventos moderados. Depois disso, nalmente tivemos a impressão de que a drenagem estava funcionando.
Um inspetor apareceu para checar se o barco e o equipamento se
adequavam ao padrão previsto no regulamento das regatas de Categoria 0.
Na prática, uma aprovação signi caria que eu estava totalmente equipada para navegar em mar aberto, com águas frias, longe de qualquer auxílio e
sobrevivendo a temperaturas de cinco graus na água e no ar. A categoria
abrange todos os barcos que navegam em regatas transoceânicas, situação na
qual o veleiro deve ser completamente autossu ciente por longos períodos de tempo, preparado para suportar tempestades pesadas e sobreviver a
emergências graves sem qualquer tipo de ajuda. O inspetor conferiu coisas
como o meu kit médico, as provisões, as roupas, os trajes salva-vidas, os
EPIRBs e os encaixes, bem como todos os componentes do barco. Essas exigências não se aplicavam à minha viagem, mas era algo que queríamos
fazer para ter certeza de que zéramos todo o possível para ampliar ao
máximo as chances de eu a concluir.
Eu estava no hotel Manly com minha família na manhã de 10 de outubro,
um sábado, quando Andrew Fraser me telefonou para dar uma péssima
notícia. Eu sabia que Andrew Short havia partido na noite anterior com o
Shockwave, seu imenso veleiro de 80 pés, para participar de uma regata que ia de Point Piper, no Porto de Sydney, a Flinders Islet, seguindo então para
Port Kembla, percorrendo na sequência o caminho de volta. Andrew era o
capitão, e seus lhos Ryan e Nick faziam parte da tripulação composta por
dezessete pessoas. Houve um acidente atípico e o veleiro bateu contra os rochedos enquanto contornava Islet, jogando todos para o mar. Andrew e
sua tripulante de currículo invejável, Sally Gordon, morreram na colisão.
Não consegui acreditar quando ouvi aquilo. Era como se tivessem tirado
todo o ar da sala e camos todos em choque. Andrew havia sido incrível para mim e minha família e uma pessoa cheia de vida até o dia anterior. Era
um homem que fazia os outros se sentirem seguros e não quei surpresa ao
saber mais tarde que uma das últimas coisas que ele fez foi lançar um
sinalizador para que Nick pudesse avisar onde estava. Por causa daquele sinalizador, um barco da polícia marítima encontrou Nick e o retirou da
água. Ele teve a vida salva pelo pai.
Naquele dia, afastamo-nos da marina para dar espaço à família e às
outras pessoas que trabalhavam lá, a família expandida dos Shorts. Recebemos muitas ligações da mídia em busca de comentários meus, mas
não seria apropriado dizer nada. Eu recém havia conhecido Andrew e sua
família, e havia muitos outros amigos deles e de Sally Gordon que tinham
muito mais a dizer do que eu.
Foi difícil evitar que a tristeza caísse sobre todos nós e nos atrasasse um pouco, mas se Andrew Short havia me ensinado alguma coisa, fora viver a vida em sua plenitude e apreciar as coisas que eram importantes para mim.
Para ele, essas coisas eram a navegação e a família. Para mim também.
De nitivamente, uma mudança se abateu sobre todos após a morte de
Andrew. Caso tivéssemos esquecido, o acidente serviu para nos lembrar que tudo pode acontecer no mar. Não importa o quão experiente ou cuidadoso
você é, coisas ruins podem acontecer. Não falei muito sobre isso com meus
pais, mas sei que também foi um lembrete para eles. No entanto, todos
havíamos aprendido a aceitar os perigos envolvidos no que eu planejava fazer, de modo que o episódio não nos deteve.
Nos últimos dias antes de minha partida, todos ao meu redor estavam
apressados para terminar os trabalhos nais e checar tudo uma segunda vez.
Fiquei totalmente calma e não perdi a compostura quando os outros caram com os ânimos exaltados. Uma equipe do 60 Minutes me lmou durante
aquele período e o jornalista Charley Wooley entrevistou meus pais, Bruce e
eu. Ele é um cara legal e foi divertido levá-lo para navegar. Ele me perguntou
se eu sabia mesmo no que estava me metendo e respondi que não sabia. “É uma aventura. Tentarei navegar ao redor do mundo para ver se sou capaz.”
Surpreendi-me ao falar de maneira tão direta e até comecei a achar
aquela atenção toda que estava recebendo um pouco chata. Pensando agora,
acho que foi porque parte de mim estava cando pronta para dizer adeus e
car sozinha.
Eu não estaria em terra quando a entrevista do 60 Minutes fosse ao ar.
Eles planejavam exibi-la na noite de minha partida. Fiquei contente com
isso, porque odeio me ver na televisão. Depois de toda a preocupação comigo, meu pai disse a Charles Wooley “Seria terrível se a perdêssemos...
Mas depois de vê-la se dedicar tanto, acho que seria ainda pior dizer ‘Não,
você não pode ir’”. Esse é um bom retrato da postura de meus pais. Eles sempre apoiam Emily, Tom, Hannah e eu na busca por nossos sonhos, cientes de que os riscos são inevitáveis quando alguém deixa sua zona de
conforto cotidiana. Alguém me mandou uma citação do poeta e lósofo
irlandês John O’Donohue que diz: “Um dos maiores presentes do mundo é o
encorajamento. Quando alguém nos encoraja, nos ajuda a transpor uma trincheira que talvez jamais fôssemos capazes de atravessar sozinhos”.
Graças aos meus pais, eu estava prestes a cruzar aquela trincheira que, de
certa maneira, me mudaria para sempre. Fosse eu bem ou malsucedida, o
fato é que eles haviam me dado o maior dos presentes: poder e encorajamento para ir atrás de meu sonho.
Só comecei a car um pouco tensa depois que o dia de partida foi adiado
algumas vezes. Eu estava louca para partir e sempre surgiam probleminhas
que exigiam mais um ou dois dias para serem resolvidos. Mas as coisas precisavam estar do jeito certo e àquela altura eu já aprendera a ter um
pouco de paciência.
Finalmente, na tarde anterior à minha partida, acondicionamos as
últimas coisas – incluindo uma caixa de livros que fez Bruce balançar a cabeça! – e nos sentamos tranquilamente para comer pizza. Perguntamo-nos
se havia algo óbvio que passara batido ou que esquecêramos de alocar, como
na ocasião em que Jesse Martin pegou o sextante, mas esqueceu o manual de
cartas náuticas necessário para sua utilização. Eu tinha certeza de que havia alguma coisa. Naquela última noite, dormi a bordo da Ella’s Pink Lady. Eu
estava prestes a usar aquela cama por no mínimo sete meses e pareceu uma
boa ideia fazer um novo teste. Mas eu também precisava daquele tempo para
acalmar meus nervos, que estavam à or da pele. Dormi muito bem naquela noite com a certeza de que me prepara tanto quanto possível graças à
incrível equipe ao meu redor. Embora estivesse ancorada em e Spit, nem
tomei conhecimento do barulho de uma das estradas mais movimentadas de Sydney. Eu estava calma, sentindo-me forte e em casa dentro do meu veleiro rosa. Nunca pensei que estaria tão relaxada à véspera da partida. A última
coisa que disse aos meus pais antes dos dois voltarem ao hotel foi:
– Amanhã vou acordar e navegar ao redor do mundo.
Senti um arrepio de ansiedade, empolgação e incredulidade ao dizer isso. Após mais de cinco anos sonhando com aquela viagem, ela ia mesmo se
tornar realidade.