Destemida

Jessica Watson · Capítulo 3 de 20 · parte 3/4

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Destemida

Parte um - O Ponto de Partida

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

desembarque no mar com botes salva-vidas – embora eu já estivesse acostumada com isso graças a Don e Mike, que haviam me colocado em

uma piscina à noite a bordo de um bote salva-vidas e jogado água em mim

com uma mangueira, obrigando-me a embarcar e desembarcar repetidas

vezes. Aprendemos a utilizar sinalizadores de maneira e caz. Tudo o que

zemos serviu para nos assegurar de que o importante durante uma situação

de crise não era a força física e sim a técnica e a capacidade de manter a

cabeça funcionando.

Aquele período que passei em sala de aula com Gerry, discutindo casos reais de desastres e sobrevivências, elaborando listas de segurança e

re nando meus conhecimentos referentes ao uso do equipamento de

segurança, ressaltou a ideia de que, caso algo desse errado, era preciso reagir da maneira mais calma e comedida possível. Fiz questão de obter todas as informações e desenvolver todas as habilidades de sobrevivência que pude,

para o caso de precisar delas algum dia.

Passar alguns dias fora do galpão foi bom por outro motivo. Eu havia

desenvolvido uma reação alérgica à resina de bra de vidro, e aquilo que a princípio pensei serem brotoejas revelou-se um tanto mais sério quando

retornei de Brisbane e voltei a trabalhar no barco. Depois que as brotoejas se

espalharam para o meu rosto, fui docilmente informada de que as pessoas

no galpão estavam com muita di culdade para encarar o meu rosto e então me obrigaram a ver um médico. Minha mãe quase me proibiu de trabalhar

no barco. Como se isso fosse possível!

Com o barco bem encaminhado em seu incrível processo de reforma e

agendado para ser exibido no Sydney International Boat Show, era fundamental que a divulgação da viagem prosseguisse. Andrew Fraser havia

organizado um concurso para escolher o nome do barco através do Sunshine

Coast Daily e foi ótimo ver a comunidade local tão envolvida com o projeto.

Queríamos agradecer a todas as pessoas que haviam trabalhado no barco e a todos os patrocinadores e fornecedores que estavam ajudando a tornar o

meu sonho realidade, então decidimos organizar um jantar de bon voyage

no sábado do dia 25 de julho de 2009. Aquele evento seria em parte de

agradecimentos, em parte para levantar fundos e em parte para atrair a atenção da mídia. Também planejávamos anunciar o novo nome da recém-

pintada e absolutamente deslumbrante S&S 34 antes que ela fosse levada de

caminhão até Sydney para estrelar (sim, minha opinião não necessariamente

re ete aquela dos organizadores da exposição) a exposição de barcos. Teria sido incrível navegar com ela até lá, mas não havia tempo su ciente.

Andrew, Scott, Mel, Liz e a equipe 5 Oceans organizaram todo o jantar e

os dias que o antecederam foram bastante frenéticos. Àquela altura, estávamos praticamente morando no galpão. Chegávamos antes do nascer do sol e saíamos bem depois da noite cair. Acordei no sábado sabendo que

aquele seria um dia imenso. O caminhão e o guindaste chegaram bem

cedinho e o barco foi cuidadosamente içado até o suporte que o impediria

de sacudir durante a viagem a Sydney. Ele desceu pela estrada com sua pintura rosa e brilhante e o inoxidável e reluzente da targa estava lindo. Senti

uma mistura de nervosismo, alívio e exaustão. Mas não havia tempo para

car com os olhos marejados: precisávamos limpar o galpão e entrar no

carro para resolver todos os imprevistos de última hora referentes ao jantar. Mal tive tempo de esfregar os últimos vestígios de resina e tinta em um

banho quente antes de voltarmos para a estrada com destino à noite no

Novotel Twin Waters Resort.

Que noite foi aquela! Todos estavam maravilhosos e com trajes de gala. Na verdade, nem reconheci algumas das pessoas sem as camadas de tinta,

resina e poeira que costumavam ter na roupa. A noite foi mais do que

especial, pois Andrew havia marcado um encontro para mim com Don

McIntyre, James Castrission (que recentemente havia completado a primeira expedição transtasmaniana de caiaque, indo da Austrália à Nova Zelândia

com seu companheiro Justin Jones) e Jesse Martin. Depois de tantos anos

lendo seu livro e sendo inspirada por ele, conhecer Jesse foi uma experiência

inacreditável. Ele era muito generoso com sua sabedoria e experiência.

O jornalista e âncora do Canal Dez, Bil Woods, foi o mestre de

cerimônias, e, entre suas intervenções, Don, James e Jesse falaram sobre suas

aventuras. Então Bill me fez perguntas sobre minha futura viagem.

Anunciamos o nome Pink Lady (sugerido por um morador local, Bob Hughes) pela primeira vez, e já passava muito da meia noite quando,

concluídos os leilões e rifas, as coisas começaram a se acalmar. Eu estava

com tanta adrenalina que nem me sentia cansada... Até chegar em casa.

Felizmente, consegui dormir um pouco na manhã seguinte antes de entrar no carro com meu pai, Bruce e Suzanne para irmos até Sydney, onde

nos encontraríamos com o barco em Darling Harbour. Tudo ia bem, até

recebermos uma ligação do motorista do caminhão nos dizendo que ele

tivera um problema. Chegamos na manhã de segunda-feira e descobrimos que o suporte da targa havia sido gravemente dani cado por cabos

pendurados em uma ponte na Paci c Highway em Hornsby (tão próxima ao

destino nal!). Assim que olhamos para ela, vimos que era praticamente

perda total. Ver a targa em um estado tão deplorável foi duro para todos nós, mas especialmente para Phil George, que havia feito a maior parte do

trabalho de construção. Eu só conseguia pensar no lado bom: ao menos o

casco e os encaixes não haviam sido dani cados.

O dia melhorou depois que a Pink Lady foi suavemente posta na água na Sydney City Marina e o motor Yanmar começou a trabalhar já de saída.

David Lambourne chegou para encaixar o mastro e mesmo com a targa

estraçalhada ela estava maravilhosa.

Após algumas horas de sono, acordei às 23h30min e manobrei o barco pelo porto utilizando o motor, alinhei com a leira de barcos e nos coloquei

na posição correta. Entramos no Darling Harbor tarde da noite porque o

aerotrem que passa pela Pyrmont Bridge precisou ser desmontado para que

os mastros pudessem passar. Foi a primeira vez que naveguei com o barco após a reforma, e o leme, as hélices e o motor novos exigiram toda a minha

atenção ao manobrar para entrar no ancoradouro. Tudo saiu bem, e estar de

volta ao comando daquele barco lindíssimo era muito empolgante. A Pink

Lady e eu parecíamos pequenas ao lado das embarcações maiores em exibição, mas para os meus quesitos ela era perfeita.

O primeiro dia da exposição foi absolutamente incrível. Acho que se eu

colocasse lado a lado todos os desejos de “boa sorte” e “tudo de bom” que recebi, poderia construir uma ponte ao redor do mundo! E todas as pessoas que encontrei tinham uma opinião sobre a cor da Pink Lady. Ou amavam ou

odiavam: não havia meio-termo. Em certo momento, saí para caminhar um

pouco e olhei para a Pink Lady da calçada sobre Darling Harbour. Era

impossível não reparar nela. Ela até podia ser o menor barco naquela leira congestionada de embarcações, mas também era o mais brilhante.

O clima da exposição era ótimo e quei orgulhosa por ter sido incluída

na programação, participando de conversas diárias com Don McIntyre,

James Castrission e Justin Jones (que estavam divulgando o livro Crossing the Ditch, que relatava suas aventuras de caiaque na Tasmânia) e Pete Goss,

um renomado iatista britânico e ex-membro da Marinha Real, cuja aventura

mais recente acontecera a bordo do Spirit of Mistery, que estava ancorado

bem ao nosso lado na mostra. Provavelmente, Pete é mais conhecido por ter salvado a vida do francês Raphael Dinelli durante a regata de circum-

navegação solitária Vendée Globe, em 1996.

O que Pete Goss fez é uma incrível história de coragem e compaixão. Ele

competia contra Raphael na regata, mas quando recebeu a chamada de emergência de Raphael deu meia volta e passou dois dias procurando por ele

sob as piores condições que os oceanos do sul podem oferecer. Pete

encontrou Raphael quase congelado, lutando contra a hipotermia e próximo

da morte em um bote salva-vidas lançado por um avião da RAAF instantes antes do naufrágio do veleiro. Pete foi agraciado por seu altruísmo com um

BEM e um Légio d’Honneur, concedido pelo presidente da França.

Passar um tempo com esses homens foi algo memorável. Eu escutava suas

conversas e trocava uma ideia com eles sempre que possível. Todos me davam ótimos conselhos e ressaltavam o tempo todo que eu deveria lembrar

de me divertir e curtir cada momento da minha aventura, desde a

preparação até o m, e cada segundo no meio disso.

Eles também enfatizavam o tempo todo a importância de uma preparação completa antes de qualquer aventura. James e Justin dizem que

mais de três quartos de seus êxitos e batidas de recordes aconteceram antes

da partida. Pete diz o mesmo e acredita que oitenta por cento de qualquer

regata são vencidos antes do início. Fiquei muito grata pela minha incrível equipe de apoio: eu sabia que se me saísse bem seria graças aos seus

esforços.

Escutar a fala de todos aqueles caras e ver fotos e vídeos de suas aventuras

foi incrivelmente inspirador e comecei a car um pouco impaciente para partir em minha própria jornada.

Eu ainda estava procurando um patrocinador principal. Andrew e Scott

haviam elaborado uma estratégia juntos e a One HD (o canal digital da

Network Ten) subiram à bordo como parceiros midiáticos da viagem. Na noite de quinta-feira, participei de uma transmissão ao vivo no jornal Live at

Five , do Channel Ten, antes de partir para os estúdios da Network Ten para

o ursday Night Live, programa do One HD.

Ter o cabelo e a maquiagem preparados por outras pessoas foi uma experiência e tanto. Depois que estava pronta, olhei-me no espelho e vi

meus cabelos cacheados e o rosto maquiado e corado, que me pareceram

absolutamente ridículos. Eu não estava pensando direito e me senti muito

mal quando vi as expressões horrorizadas das responsáveis pelo cabelo e pela maquiagem. Ooops!

Os últimos dias na apresentação de barcos passaram tão rápido que mal

me lembro deles e comecei a perder a voz de tanto falar. Depois que tudo

terminou, quei contente por ter um tempinho para mim mesma. Fui ao National Maritime Museum para ver o veleiro de Kay Cottee, First Lady,

uma das atrações do museu. Curti muito dar uma boa olhada no barco e tive

algumas ótimas ideias.

Embora o First Lady, um veleiro Cavalier 37 de quilha barbatana ( n keel), e a minha Pink Lady fossem barcos completamente diferentes, era

interessante ver as semelhanças no processo de reforçá-los e prepará-los

para navegações solitárias. Também era ótimo imaginar Kay sozinha no mar

naquele barco. Após ler seu livro tantas vezes, eu quase era capaz de fechar os olhos e vê-la ali, sentada na cama e tricotando enquanto aprendia

espanhol e monitorava barulhos indesejados no convés.

Na noite de terça-feira, eu já estava de volta ao trabalho. A antes linda

estrutura da targa havia sido desmontada, cortada e enviada para servir de modelo para a nova moldura. Era horrível ver todo aquele trabalho atirado

no chão em meio a um emaranhado retorcido de aço inoxidável. Retiramos

a mastreação para preparar o barco para a viagem de volta para casa, mas...

bem, as coisas nunca saem bem como planejado, e dessa vez o caminhão foi o problema. Ele se atrasou um dia, então passamos o tempo extra em

Sydney, fazendo mais listas ainda e tentando encontrar uma maneira de

resolver alguns problemas complicados. A lista de coisas a fazer havia

crescido e percebemos que tínhamos vinte e uma grandes tarefas para fazer e vinte e quatro homens-dias (e mulheres-dias) para concluí-las.

Finalmente partimos de Sydney na tarde de quinta-feira após vermos a

Pink Lady içada da água e acomodada em segurança no caminhão. Quando

passamos pela Ponte de Sydney Harbour em nosso caminho até a cidade, não consegui deixar evitar o pensamento de que a veria de um ângulo

diferente na próxima vez, quando navegaria em sua direção! Seguimos para

o norte na Paci c Highway com a Pink Lady nos seguindo, e as histórias que

eu havia escutado passeavam pela minha mente, assim como as pessoas que eu conhecera, aumentando a empolgação que eu sentia com a aproximação

da data de partida.

Após discutir muito com várias pessoas sobre os padrões climáticos e as diferentes rotas, os detalhes da jornada que eu empreenderia já estavam

esquematizados. Havia alguns requisitos básicos para qualquer pessoa que

quisesse dar uma volta ao mundo navegando sozinha, desassistida e sem

paradas. Sei que alguns puristas acreditam que, com a tecnologia disponível hoje e o fato de que eu poderia telefonar para pedir conselhos pelo telefone

de satélite, não se tratava de uma navegação desassistida. Em certo sentido,

eles tinham razão. Eu poderia me comunicar com as pessoas que amava e

com a tão importante equipe de apoio que tinha ao meu redor. Mas eu não estava me propondo a recriar as condições da jornada de Joshua Slocum e

de nitivamente não ignoraria todos os avanços de segurança e comunicação

disponíveis para os navegantes modernos (e, vamos admitir, sou uma

adolescente, então passar tempo demais sem e-mail, telefone e Facebook pode ser prejudicial à saúde!). Eu mesma navegaria meu barco, sem paradas,

carregando toda a comida e água de que necessitaria, e precisaria consertar

qualquer coisa que quebrasse sem a ajuda de ninguém. Não poderia parar

em nenhum lugar: não poderia levar a bordo nada que já não estivesse comigo no momento de partida. Precisaria lidar sozinha com as condições

climáticas, independentemente de quais fossem, e navegar de acordo com

elas. Se uma vela rasgasse, eu precisaria costurá-la. Se algo parasse de

funcionar, eu precisaria dar um jeito. A questão era: fisicamente, seríamos só eu e a Pink Lady por todo o tempo que fosse necessário para cobrir

aproximadamente 23.000 milhas náuticas.

Depois que Jesse Martin completou sua circum-navegação em 31 de

outubro de 1999 e entrou no livro de recordes como a pessoa mais jovem a navegar sozinha, desassistida e sem paradas ao redor do mundo, o World Sailing Speed Record Council (WSSRC) parou de registrar recordes de idades. Não há um reconhecimento o cial nem para o mais novo, nem para

o mais velho navegador a conseguir esse feito tão magní co, então Jesse

Martin sempre manterá seu lugar no livro o cial de recordes do WSSRC.

Só para ter certeza dessa situação, em junho de 2009, mandei um e-mail para John Reed, Secretário do WSSRC. Eu disse que planejava viajar de

Sydney no sentido nordeste, cruzando a linha do equador e seguindo até as

lhas Line, e então descer e contornar o Cabo Horn, o Cabo da Boa

Esperança e o Cabo Leeuwin e voltar para casa em Sydney. Perguntei se, caso alterasse essa rota e fosse de Sydney passando por baixo da Nova

Zelândia e do Cabo Horn, subisse até a Ilha dos Açores e voltasse para casa

pelo Cabo da Boa Esperança e pelo Cabo Leeuwin (basicamente a mesma

rota de Jesse Martin), preencheria os requisitos de distância da WSSRC, de modo que aceitassem minha jornada como uma tentativa certi cada de

bater o recorde registrado na WSSRC.

John Reed respondeu dois dias mais tarde para me informar que a

WSSRC tinha uma política de “não rati car pedidos ou tentativas de ‘mais jovem a realizar um feito’”, de forma que suas regras não incluíam uma

categoria para mim. Isso não me preocupou nem um pouco. Se eu fosse

bem-sucedida, saberia que havia sido a pessoa mais jovem a circum-navegar

o mundo à época, mas qualquer recorde de idade acaba sendo quebrado. Se tudo o que você quer é pôr o seu nome em um livro de recordes, acabará

decepcionado ao ver outra pessoa aparecer reivindicando o prêmio. No m

das contas, o importante não era o recorde: eu estava procurando um

desa o, embora teria sido muito legal ter as duas coisas. Assim, não tinha problema se eu não estava apta a quebrar o cialmente um recorde existente.

Eu estabeleceria o meu próprio. David Dicks tinha dezoito anos e quarenta e

dois dias quando chegou em casa, e Jesse Martin tinha dezoito anos e sessenta e seis dias. Eu queria ir atrás de meu sonho de circum-navegar o mundo antes de meu décimo sétimo aniversário. Se conseguisse, seria a

pessoa mais jovem a ter feito isso.

Pelas informações que tínhamos de Jean-Louis Fabry, vice-presidente da

WSSRC, não era exigido que eu passasse por pontos antípodas (se

zéssemos um buraco que atravessasse toda a terra, os pontos antípodas

seriam os furos de entrada e saída) para reivindicar uma circum-navegação.

Com todas essas informações, eu havia escolhido uma rota

tradicionalmente reconhecida por circum-navegantes. Era similar àquela percorrida por Kay Cottee. A única diferença era que eu pretendia atravessar

o equador antes de contornar o Cabo Horn para ter tempo de me acostumar

com o barco antes de um dos pontos mais exigentes da viagem. De acordo

com a regras da WSSRC para circum-navegações solitárias, eu precisava partir e chegar no mesmo porto, atravessar todas as linhas longitudinais,

atravessar o equador para entrar no hemisfério norte ao menos uma vez e

contornar o extremo sul da América do Sul e da África.

Eu também precisaria lidar com os oceanos mais exigentes e inclementes com que um navegador pode se deparar.

Don havia me dito para pensar na jornada em etapas e considerar a

viagem inteira como um dia de navegação após o outro. Pensando assim, até

parece fácil! Dividi a viagem em seis etapas e z anotações sobre o que poderia esperar de cada uma delas.

 

Etapa Um – Sydney e Norte rumo às Ilhas Line

Eu partiria de e Spit, no Mosman, em Sydney, e o plano era atravessar a

linha de partida em Sydney Heads e navegar em direção ao norte da Nova

Zelândia. Dependendo do tempo, eu escolheria um ponto onde virar à esquerda e me dirigir às Ilhas Fiji, e de lá decidiria aonde ir em seguida, dependendo mais uma vez do vento. Após passar por Fiji e Samoa, eu seguiria para o nordeste, em direção às Ilhas Line. O equador ca um pouco

ao sul da Ilha Kiritimati, a maior ilha do Arquipélago Line, então eu

contornaria uma das ilhas do Arquipélago ao norte do equador antes de

voltar para o sul.

 

Etapa Dois – Sul rumo ao Chile e Cabo Horn

Para navegar pela América do Sul, Pink Lady e eu precisaríamos navegar

muito para o sul antes de virar para o leste. Aquela área é conhecida como

Roaring Forties devido aos seus ventos fortes de oeste. É uma área

especialmente difícil para navegantes. Eu planejava seguir ao sul do paralelo cinquenta para passar entre a América do Sul e a Antártica, mas estava

nervosa com a perspectiva de confrontar o Everest dos navegantes: o

contorno do Cabo Horn. O Cabo Horn é o pedaço de terra mais ao sul do

arquipélago da Terra do Fogo, ao sul do Chile, um lugar que Peter Nichols chama no livro Uma Viagem para Loucos de “rabo de escorpião da América

do Sul”. Ele separa o Pací co Sul do Atlântico Sul e é particularmente

perigoso, por causa da imprevisibilidade dos padrões climáticos, das

correntes fortes, dos ventos inclementes e das ondas imensas que se revezam no ataque aos viajantes. Muitos, muitos navegantes encontraram um triste

m por lá, e eu estava determinada a me preparar tanto quanto possível para

não me tornar um deles.

 

Etapa Três – Norte após o Cabo Horn

Uma vez na base da América do Sul, eu seguiria para o norte em busca de

climas mais tranquilos para recarregar as baterias (as minhas e as da Pink

Lady). Como tentaria fazer uma viagem sem paradas, não podia atracar em

um porto, então o tempo gasto em mares mais calmos ou refugiada atrás de blocos de terra seriam essenciais para garantir que eu não chegasse à exaustão. Eu teria que passar perto das Ilhas Malvinas, e o mais provável era

que depois seguisse para o leste.

 

Etapa Quatro – Oceano Atlântico Sul rumo ao

Continente Africano

Depois de descansar eu partiria para a etapa seguinte da jornada, que me

levaria ao ponto mais ao sul da África. No voo reto de um falcão, há mais de 3500 milhas náuticas entre o ponto mais a sul da América do Sul até a

África, mas a minha rota teria mais interferências do clima, e sem dúvida a

milhagem seria superior.

 

Etapa Cinco – Contornando a África do Sul

O Cabo da Boa Esperança não é o ponto mais a sul da África, mas marinheiros o utilizam como ponto para ajeitar a rota na direção leste. O

Cabo Agulhas é o ponto de terra do continente mais ao sul, separando os

oceanos Atlântico e Índico. O Cabo da Boa Esperança é outro ponto de

referência importante da viagem, embora eu não planejasse me aproximar o su ciente da costa para ver alguma coisa. Aquela área é conhecida por suas

ondas traiçoeiras, que podem quebrar um barco ao meio se você não for

cuidadosa. Eu não arriscaria me aproximar das águas mais rasas e planejava

car bem longe da terra – e dos recifes subaquáticos que cam junto dela.

 

Etapa Seis – Oceano Antártico rumo à minha casa

Após o sul da África, a vastidão do Oceano Antártico se apresentaria à

minha frente. Retornar às águas australianas signi caria navegar outras 4000

milhas náuticas de mar aberto, e muitas vezes implacável. Eu havia lido muitas histórias sobre navegantes no Oceano Antártico, e estava ansiosa para enfrentar o desa o. É uma área de navegação muito volátil, com a ameaça de tempestades violentas ou de dias à deriva sem qualquer vento,

então z um esforço para não car tentando adivinhar as coisas de antemão.

Eu simplesmente teria que lidar com as condições conforme elas se

apresentassem. Sabia que precisava focar nesse trecho, pois, apesar de estar tão perto de casa, ainda haveria um longo caminho a ser percorrido. Eu

precisaria viajar através da Grande Baía Australiana e descer para contornar

o Cabo Sudeste da Tasmânia. De lá, seguiria para o norte em direção ao

continente e subiria pela costa leste da Austrália, de volta para o Porto de Sydney.

Ao realizar aquela viagem, eu estaria seguindo a trilha de muitos grandes

navegantes, e era estranho pensar que o meu nome poderia ser associado ao

deles. Eu não estava navegando ao redor do mundo para car famosa ou me tornar uma celebridade. Não é do meu feitio. Também não pensava se aquilo

me traria dinheiro. Isso nem sequer passou por minha mente. Só esperava

que, ao chegar em casa, não tivesse uma dívida gigantesca perseguindo a

mim e a minha família. Eu estava me lançando àquela viagem épica para me desa ar, ver se era capaz de fazer aquilo e mostrar aos outros que é possível

tornar um sonho realidade. Minha família e eu sabíamos dos riscos

envolvidos, e sabíamos que seria uma viagem absurdamente desa adora,

tanto do ponto de visita físico quanto mental. Eu tinha fé no barco, em minha técnica e em minha equipe de apoio. Minha única duvidazinha era

em relação à minha força emocional. A única maneira de testá-la seria me

desa ar, mas até aquele momento isso ainda não havia acontecido. Só o que

eu podia fazer era seguir em frente. Logo descobriria se tinha força o su ciente.

A semana do nosso retorno a Mooloolaba foi muito movimentada, pois

precisávamos terminar os ajustes da Pink Lady. Na correria para chegarmos

ao Sydney Boat Show, muitos dos trabalhos haviam cado pendentes, e

ainda havia uma boa porção de equipamentos para serem instalados. Dessa vez, o transporte do barco ocorreu sem sobressaltos. O mastro havia sido

deixado na o cina de David Lambourne, em Brisbane, no meio do caminho,

para receber mais alguns ajustes, e nalmente a Pink Lady foi colocada de

volta na água e trasladada para um ancoradouro na Marina de Mooloolaba.

O clima estava ótimo, e foi encantador trabalhar no barco sob o céu azul

e sem nuvens, aquecidos pelo sol de Queensland. Eu me envolvia com todas

as etapas, mas às vezes não era bom ser a menor pessoa do local. Sempre

que uma chave inglesa era necessária em um cantinho menos acessível eu começava a receber olhares sugestivos... E então uma série de indiretas.

Acabava rastejando para fora de um vestiário meia hora depois, coberta da

cabeça aos pés de Sika ex, um isolante marinho.

Rod Cran encarou o trabalho de instalar a espuma para o isolamento térmico, preenchendo as paredes e o teto, e Neil Cawthorne, o eletricista,

muitas vezes trabalhava até tarde da noite, quando todos os outros já haviam

saído, para terminar as instalações elétricas a tempo. A ação é muito

importante em um barco, pois é através dela que os telefones por satélite funcionam, bem como o rádio de alta-frequência (HF), o computador, os

equipamentos de localização e, talvez o mais importante de tudo para mim,

o aparelho de som! Graças a Neil, estávamos fazendo tudo o que podíamos

para garantir que a viagem fosse perfeita, mas eu também seria capaz de sobreviver sem aquilo tudo se ocorresse algum problema. No duro, só o que

a Pink Lady e eu precisávamos para seguir em frente era vento – de

preferência de quinze nós atrás do barco e durante o nascer do sol. Eu esperava nunca precisar dele, mas tinha um sextante a bordo, só por garantia.

O barco havia sido equipado com quatro baterias de gel de 80 a/hr e uma

quinta para dar a partida no motor. Para carregar as baterias, havia dois

painéis solares de 80 watts, um de 60 e um gerador eólico Rutland. Os painéis solares me dariam poder mais que su ciente quando o sol estivesse

brilhando e o gerador eólico estaria sempre em funcionamento, gerando

energia de pouco em pouco. Nos dias em que não houvesse sol, o vento

estivesse parado e o volume do som estivesse muito alto, eu poderia usar o motor Yanmar (desengrenado) para dar uma injeção extra nas baterias. Eu

seria completamente autossu ciente durante toda a viagem.

Eu poderia manter o contato com o resto do mundo graças ao excelente

equipamento de comunicação que tive a sorte de levar a bordo. A SatCom Global havia me fornecido todos os equipamentos de satélite. O plano era

utilizar dois telefones portáteis de satélite: um para o uso cotidiano e outro

para car na bolsa de emergência que eu pegaria caso precisasse abandonar

a embarcação.

Eu também teria acesso à internet através de um pequeno receptor via

satélite localizado na popa, chamado Sailor 250, o que me permitiria enviar

vídeos, fotos e textos para o blog e e-mails. O barco também havia sido

equipado com um rádio HF, que eu utilizaria para “skeds” (abreviação de “scheduled”, “programado”, em inglês, referente aos contatos agendados via

rádio) e escutaria para saber se havia outros barcos ao meu redor. Eu

também teria um radar TracPlus no barco, que enviaria um sinal constante

às pessoas apropriadas para garantir que eu estava utuando e me movimentando. Por último, mas não menos importante, eu teria todos os

meus EPIRBs. Esperávamos que tudo isso tornasse a Pink Lady um dos

veleiros mais seguros e bem equipados a dar uma volta no mundo.

Meu pai instalou o aquecedor e concluiu um milhão de trabalhinhos enquanto Bruce e eu ajustávamos as catracas e outras ferragens de convés.

Jason Mineff, da Linemaster Marine Electronics, instalou e conectou os

instrumentos de navegação, AIS, rádio HF e outros eletrônicos, e Richard

Taylor criou tábuas de proteção para as tempestades. Várias outras pessoas passaram por lá para realizar pequenos trabalhos e sou muito grata a cada

uma delas.

Bruce, meu pai e eu frequentemente trabalhávamos até tarde da noite, e

durante o dia era comum que não houvesse nenhum espaço nas cabines, pois cada um estava dando conta de suas partes do projeto. A lista de tarefas

parecia interminável; havia muito a ser feito, desde a instalação de geradores

de vento até o ajuste da tela de proteção em meu beliche.

Enquanto isso, os caras do Ullman Sails se dedicaram a concluir o novo jogo de velas da Pink Lady, utilizando tecidos da Bainbridge com o dobro da

resistência normal. Quando David e seus rapazes haviam concluído a

instalação do mastro, ele foi realocado tarde da noite, e Phil George pegou

um voo de Melbourne outra vez para encaixar a estrutura reformada da targa, que havia sido levada de caminhão. Iain, da Panasonic, veio de Sydney

para instalar os sowares dos quatro computadores Toughbook que eu

levaria comigo, e Rod, da SatCom Global, demonstrou como utilizar o

receptor de satélite Sailor 250.

Fiquei um pouco preocupada quando comecei a mexer em todos aqueles

botões e luzinhas piscantes, mas no m das contas utilizar um Sailor 250 é o

mesmo que usar um telefone normal, algo que sei usar muito bem!

Eu estava muito empolgada com o novo aparelho de som que levaria a bordo, pois meu pai sempre dizia que quando tivesse meu próprio barco eu

poderia escutar as emissoras de rádio que quisesse em vez de ouvir as

preferidas dele. Suspeito que Neil deixou esse trabalho por último de propósito, para que tampouco precisasse escutar minhas músicas. Para piorar a situação, eu sabia que, quando nalmente estivesse sozinha no mar,

era provável que a única estação que conseguiria sintonizar seria a favorita

de meu pai: a BBC. Acho que é para isso que servem os iPods!

Não havia nenhum instante a perder e quando não estava trabalhando no barco eu tentava praticar minhas técnicas de manutenção. Passei um tempo

com Jim Williams, o mecânico, revisando possíveis problemas do motor, e

conversei muito com Neil sobre a parte elétrica. Eu estava começando a

sentir que conhecia o barco de trás para a frente.

Minha mãe estava bem ocupada testando todas as opções de comidas não

perecíveis para ver o que eu gostava e, mais importante, o que não gostava.

Não quero soar fresca ou ingrata, mas algumas delas eram um pouco

criativas demais. Tom me dizia o tempo todo para me apressar e seguir em frente, pois queria voltar a comer comidas “normais”. Finalmente, em 20 de

agosto, uma quinta-feira, conseguimos sair para navegar um pouco. Era um

belo dia de inverno em Queensland, com vento de quinze nós, água azul e

céu claro, perfeita para fazer um teste suave no mar. Eu queria sair para navegar sozinha a sério e já estava levando tempo demais.

No meio dos primeiros testes no mar, uma equipe de lmagem do canal

estadunidense de esportes ESPN se juntou a nós. Eles me lmaram na água,

depois em terra, documentaram minha visita de revisão ao dentista e então nos acompanharam quando fomos comprar a maior parte da comida da

viagem. Com muita ajuda e conselhos de outros marinheiros e do Dr. Gary

Slater, professor de nutrição e dietas na University of the Sunshine Coast,

acabei com uma dieta planejada que me pareceu incrivelmente próxima à comida normal.

Minhas refeições principais seriam escolhidas de uma lista de dez

refeições diferentes de uma linha chamada Easyfood, que dura dezoito meses na prateleira. Os cafés da manhã eram fáceis, compostos de coisas como cereais e mingau. Eu planejava assar meu próprio pão e preparar

coisas como broinhas na panela de pressão. Minha mãe havia catado

comidas duráveis de todos os tipos com a ajuda de Nick Duggan, o

proprietário do supermercado IGA local. Eu havia trabalhado naquela lista com minha mãe, mas ainda era chocante ver a montanha de caixas e pacotes

que acabamos reunindo. Fiz questão de car encarregada da visita à seção

de doces e, com a ajuda de Tom, enchi o carrinho de pacotes. Só para dar

uma ideia do que eu estava levando, havia vinte e quatro caixas de Spam, duzentos litros de leite em pó, sessenta e quatro latas de batatas, trinta e duas

latas de abacaxi, trinta e seis latas de atum e 250 caixinhas de suco Popper

Juice. Uma empresa de ovos havia produzido um lote especial de ovo em pó

para mim e eu também tinha um amontoado de refeições empacotadas da Easyfood. E claro, havia cinco caixotes de guloseimas para satisfazer minha

ânsia por doces!

Após alguns dias de lmagem, David, o produtor da ESPN, perguntou se

podia gravar algumas imagens minhas em um encontro com minhas amigas em meu quarto. Precisei dizer a ele que não queria fazer nada do tipo: todo

o meu tempo e os meus esforços eram dedicados aos ajustes do barco e à

preparação para a viagem. Exceto por infrequentes momentos de descanso,

eu não fazia nada além de trabalhar para levar a Pink Lady à linha de partida. Eu continuava indo à academia, correndo e, muitas vezes, andando

de bicicleta até a marina para tentar ganhar alguma massa muscular extra, e

as noites eram reservadas para o envio de e-mails, atualizações do meu blog

e preparação da bagagem. Ficou claro que eu não me encaixava na ideia que a ESPN tinha de como uma adolescente típica gastava o seu tempo!

Após algumas breves navegações de um dia, parti para o mar aberto com

Bruce durante três dias, o que se provou mais desa ador que divertido, pois

quei muito enjoada. Passei por poucas e boas, mas a Pink Lady navegou

lindamente, e a cada viagem resolvíamos alguns problemas menores.

Enquanto estive no mar, minha mãe tomou conta da sala de estar no

primeiro andar de nossa casa para realizar a imensa tarefa de empacotar e

organizar a comida que eu levaria comigo. Ela conseguiu fazer tudo isso ao mesmo tempo em que trabalhava um turno e dividia sua atenção com meus

irmãos. Meus pais haviam ambos se entregado àquela missão comigo,

garantindo que eu estivesse segura, com as provisões adequadas e tão bem

equipada quanto possível.

Como sempre, a maior parte do tempo em que trabalhei no meu grande

objetivo foi muito divertida, mas quanto mais perto chegava do momento de

partir, mais impaciente cava. A natureza duradoura das preparações estava

começando a me deixar inquieta. Eu queria partir desesperadamente. Claro, havia certa pressão para que saíssemos em uma certa data, antes que a janela

de tempo bom fechasse, mas a maior parte da pressão vinha de mim. Eu

estava ansiosa para ir ao mar sozinha. Não contei para ninguém, mas tinha

algumas dúvidas chatinhas e queria provar a mim mesma que era capaz. Mesmo com tanto tempo e dinheiro dedicados àquela viagem, eu tinha

plena consciência de que ainda não havia passado um tempo sozinha no

mar. Fiquei bem temperamental e minha atitude foi totalmente equivocada.

Eu não estava com a cabeça no lugar e queria pegar atalhos e partir correndo para o oceano. Para a minha sorte, meu pai andava tão detalhista como de

costume, acompanhado por Bruce e Neil, e me impedia de tomar decisões

tolas. Eles estavam determinados a garantir que nada passasse despercebido

nem fosse feito às pressas. À época, não mostrei reconhecimento pelo que estavam fazendo, então naquela última semana houve algum atrito entre

meu pai e eu. Apesar de meus resmungos, o bom senso acabou prevalecendo

e recuperei a compostura. Quando parti para minha primeira navegação solitária de verdade na Pink Lady, as duas já estavam prontas para o teste.

Deixei as docas no m de uma tarde de sábado. O vento soprava entre 25

e 30 nós e, por causa disso, o clube náutico local havia cancelado sua regata

costumeira. Embora isso deixasse a água muito menos congestionada,

também fez com que os iatistas que normalmente estariam na água se reunissem ao redor de uma churrasqueira para tomar alguns drinques e nos

ver carregando o barco. Era evidente que eles achavam um pouco estranho

eu ir sozinha para o alto-mar quando todos os outros haviam optado por

car no porto.

Segui até o m do rio impulsionada pelo motor e comecei a içar as velas

no mar, que estava bastante tumultuado desde o início. Minha mãe, que

estava assistindo do quebra-mar junto com todos os outros, contou-me mais

tarde como foi dramático ver a Pink Lady se erguendo sobre o mar durante a passagem de algumas das ondas mais escarpadas.

Quando já estava com tudo em ordem e havia posto o piloto de vento

para trabalhar, o sol começou a se pôr e comecei a perder a terra de vista em

meio à umidade que se erguia do mar. Eu sabia que estava diante de uma noite longa e insone, em que precisaria desviar da frota de pesqueiros locais,

mas minha con ança aumentava a cada minuto. Apesar do balanço do mar,

não foi nada difícil manejar a Pink Lady.

O tempo e a re exão que havíamos dedicado para projetar o cockpit deram resultado, pois era ótima a sensação de sentar ali com a certeza de

que tudo estava perfeitamente sob controle. Conforme escurecia e a terra

cava cada vez mais distante de nós, todas as minhas dúvidas também

caram para trás. Eu sabia que dava conta daquele barco.

A noite foi movimentada e jaibei com um vento de trinta nós para evitar

o uxo constante de embarcações, mas tudo deu certo, e nas primeiras horas

da manhã levei a Pink Lady para o sul. Quando o céu começou a se iluminar no leste, o vento se acalmou e eu pude dar uns pequenos cochilos para me recuperar. Depois que o sol apareceu, preparei o café da manhã, degustei

uma xícara de café assistindo ao sol subir no horizonte e passei a manhã me

divertindo com diferentes combinações de velas.

Tive um dia agradável. Naveguei pela costa com uma brisa constante e retornei a Mooloolaba no meio da tarde. Eu não tinha pressa para voltar

para casa, então passei um tempo cambando para um lado e para o outro.

Cada cambada era um pouco mais rápida e melhor executada que a anterior.

Quando nalmente baixei as velas e voltei para o rio eu me sentia exausta, mas estava feliz por ter me mostrado perfeitamente compatível com a Pink

Lady. Folheei o livro de Jesse Martin e penteei o cabelo com um garfo

(esqueci de levar um pente!) antes de voltar para a terra. Tudo estava dando

certo. Eu me sentia con ante em relação ao barco e às minhas próprias habilidades. Tudo estava bem!

E então, para coroar uma semana excelente, recebemos uma notícia

maravilhosa de Andrew Fraser. Ella Baché, a mais antiga empresa familiar

de cosméticos dermatológicos do mundo, havia se oferecido para ser a patrocinadora principal da viagem. Inaugurada na Austrália em 1963 por

Edith Hallas, uma terapeuta de beleza húngara cujo marido, George, era

primo da Madame Ella Baché, a empresa permaneceu na família e agora era

administrada pelo lho de Edith, John Hallas, e sua lha, Pippa. A empresa tem um longo histórico de patrocínios a navegantes, e se envolveu muito

com os skiffs de dezoito pés na década de 1990. Isso foi antes do meu tempo,

mas aparentemente era algo muito importante à época. Quando quei

sabendo da missão de Ella Baché de inspirar as pessoas a ser o melhor que podem, algo em que também acredito fortemente, percebi que seria uma

ótima parceria. Então a Pink Lady foi orgulhosamente rebatizada e tornou-

se a Ella’s Pink Lady.

Aquele patrocinador principal era exatamente o que precisávamos e meu pai cou bem mais calmo depois de acertarmos com eles. Ele andava

preocupado se seríamos capazes de custear a viagem da maneira como

esperávamos. Teríamos penado para chegar àquela situação sem uma equipe

de gerenciamento como a de Andrew e Scott. Para nós, o mundo dos acordos comerciais era novo e atemorizante, e quei feliz por termos aqueles

caras para resolver tudo. Graças a eles, eu tinha a parceria de transmissão

com a One HD, que acompanharia a viagem. A SatCom Global havia

fornecido todos os equipamentos dos quais já estava me tornando dependente e, o mais importante, garantiria o contato com a família e os

amigos. Por m, a Panasonic me manteria on-line e conectada. Eu jamais

imaginara que tantas pessoas me apoiariam de maneira tão incrível e quei

emocionada e imensamente grata por acreditarem em mim. Vamos admitir: eu não teria conseguido fazer isso sem eles.

 

Apesar de estar focada em tornar minha própria viagem realidade, eu não

estava ignorando completamente o resto do mundo. Acompanhei de perto a viagem de Mike Perham e mantivemos contato desde o instante em que ele

partiu de Hobart. Quando soube que ele havia cruzado a linha de chegada

em Portsmouth em 27 de agosto de 2009 e se tornado a pessoa mais jovem a

dar uma volta ao mundo navegando sozinho, com 17 anos e 164 dias, quei muito contente. Era um feito memorável, totalmente incrível.

De nitivamente, a viagem de Mike não foi muito pacata: ele precisou se

recuperar dos contratempos e decepções, mas seguiu em frente. Devo dizer

que cuidar sozinha de um veleiro Open 50 não é algo que me atraia. Fico com minha divina S&S 34, ainda que ela não possa igualar a velocidade que ele pode alcançar!

Desde que conheci Mike, sinto-me grata por nossas conversas sobre os

diferentes aspectos de uma circum-navegação solitária. Ouvir suas

experiências e trocar correspondências têm sido muito legal. Aos catorze

anos, Mike se tornou a pessoa mais jovem a cruzar o Atlântico sozinho na história, e embora eu estivesse trabalhando para bater sua marca de pessoa

mais jovem a navegar ao redor do mundo, ele sempre foi muito generoso

com seus conhecimentos. Uma de minhas frases favoritas de Mike é: “Você é

tão grande quanto os sonhos que ousa viver”. Amo essa frase e talvez precise pegá-la emprestada na próxima vez que alguém me disser que sou jovem ou

magricela demais para fazer o que quero fazer.

Ficar sabendo do êxito de Mike me deixou ainda mais determinada. Só o

que eu queria era sair de onde estava e começar a navegar. Felizmente, a data de partida estava se aproximando, e em 3 de dezembro, uma quinta-feira,

minha avó, Billie Watson, que morava na Nova Zelândia, organizou um

evento para que a Ella’s Pink Lady fosse abençoada pelo pai de Stella Maris,

Geoff Baron. Eu aceitaria toda a ajuda oferecida!

Passamos os dias seguintes encaixando os montes de comida no barco

junto com todas as outras coisas de que eu precisava. Tudo precisava ser

cuidadosamente ajeitado e qualquer coisa que corresse o risco de molhar ou

ser dani cada precisava ser embrulhada e alocada em uma sacola à prova d’água. Por sorte, empacotar meus bens pessoais foi bem fácil: não havia

lugar para muitos deles, embora eu tenha feito questão de levar todos os

amuletos e cartas de boa sorte que havia recebido.

Continuar: parte 4 de 4