Dias perfeitos
Capítulo 11
“Você não teria coragem de fazer isso…”
Téo se aproximou, passos calculados, mãos levantadas.
Clarice puxou o gatilho. Uma, duas, três, quatro, cinco vezes, puxou o gatilho. O tambor executou um giro completo, indiferente. Téo avançou e bateu nas mãos dela. Sentia um misto de angústia e raiva. Esbofeteou Clarice.
“Eu disse que nunca te faria mal! Pensou mesmo que eu andaria com a arma carregada?”
Deu outro tapa nela. Clarice caiu na cama, escondeu-se sob a coberta, fechou os olhos. Uma mancha roxa surgia na altura da boca. Téo pensou em sedá-la outra vez. Era o que ela merecia. Chegou a pegar a seringa, mas desistiu. Buscou os separadores de pernas e braços na Samsonite. Clarice gemia, suplicava perdão. Ele vestiu a mordaça nela. Não tinha mais nada a dizer. Puxou-a pelos cabelos e prendeu seus membros às extremidades do aparelho. Fechou cadeados, apertou fivelas, destacou velcros. Arrastou a estrutura até o chão frio do banheiro.
Deixou a luz acesa. Clarice passaria a noite ali, crucificada, pensando na merda que tinha feito.
11.
Logo que amanheceu, Téo retirou Clarice do banheiro.
Levou-a de braços dados até a cama, pois ela estava toda dolorida. Sugeriu uma massagem, mas a resposta foi o silêncio. Sobre a escrivaninha, ele havia deixado um prato com fatias de melancia.
“Não quer comer?”, perguntou. Resistiu a chamá-la de Magali.
Ela girou a cabeça. Cerrava os lábios, feito criança malcriada. Téo descalçou as sapatilhas dela e massageou os pés ressecados. Sempre que a tocava, sentia as mãos formigarem. Ficava surpreso com as sensações que Clarice ainda provocava nele. Tentou sorrir, mas continuava indignado. Se a arma estivesse carregada, ele teria morrido. Clarice estava nitidamente fora de si. Ele lamentava muito. E não conseguia evitar certo desprezo pela fraqueza dela.
“Não vai falar comigo?”, perguntou.
Pelos dias seguintes, Clarice recusou a comida e as palavras. Aceitava apenas água, mas não agradecia.
Passava as tardes no notebook, escrevendo o roteiro. Téo
buscou respeitar. Sabia que ela não aguentaria muito tempo. Os casais sempre se perdoam.
Deitado na cama, ele a observava na poltrona: ombros curvados, braços raquíticos, olhar apático, quase morto.
A situação ganhava contornos insuportáveis. Ele tentava ser simpático, mas ela se mantinha impassível. Qualquer assunto não merecia dela mais do que um olhar desdenhoso. Qualquer carinho era recusado. A falta de alimentação também o preocupava.
No domingo à noite, o hiato foi interrompido. Ela estava enroscada nas cobertas, pronta para dormir, quando disse:
“Tenho muita pena de você, Téo.”
A frase o atingiu em cheio. Ela não via que ele estava com a razão? Esforçou-se para a conversa não acabar:
“Eu também tenho muita pena de você, Clarice.”
Ela fingia dormir, mas as pálpebras tremiam.
“Tenho pena porque você tem alguém que te ama e não valoriza isso”, ele disse.
Ela abriu os olhos muito vivos:
“Você acha mesmo que me ama?”
“Amo.”
“Isso é paixão, é doença, obsessão. Qualquer coisa, menos amor.”
“Não sou adepto de classificações taxonômicas dos sentimentos, Clarice.”
Ela sacudiu a cabeça e calou-se outra vez.
“Vá ao centro e me traga a merda de um cigarro qualquer”, ela disse, sentada na poltrona.
Era quinta-feira. Clarice não fumava havia uma semana e estava mais desaforada a cada dia. Téo preferia ignorá-la. Sabia que a abstinência era dolorosa e havia tentado solucionar o problema dias antes: conseguira palitos na recepção.
“A maioria dos ex-fumantes masca palitos nos primeiros dias. É importante para suprir o hábito de levar o cigarro à boca”, ele havia explicado.
Ela jogara os palitos no chão. Apesar disso, aceitara o conselho. Pouco a pouco, o vício se dissipava.
“Vá ao centro e me traga a merda de um cigarro qualquer”, ela repetiu.
“Não vou ao centro hoje.”
Ele estava dobrando roupas nas malas. Pegou o celular dela.
“Mais alguém me mandou mensagem?”
“Não.”
“Gostaria de olhar meu celular…”
“Ninguém mandou mensagem.”
“Quero olhar meu celular. Você tinha dito que faria tudo o que eu pedisse…”
“Por favor, não seja impertinente. Eu disse que não há mensagens. Então esta é a verdade: não há mensagens!
Para de me aborrecer com isso!”
“Você me trata como prisioneira”, ela disse. “Finge me agradar, mas me trata como um animal.”
“Você não está enxergando as coisas direito.”
“Breno”, ela disse. O nome funcionou como um golpe; o ataque de um urubu que, há tempos, acerca o corpo morto. “Você sabe quem é. Meu namorado.”
“Ex-namorado.”
“É meu namorado. E eu sinto falta dele.”
“Vocês brigaram, pelo que entendi.”
“Isso não interessa. Nós sempre brigamos e reatamos depois.”
“Não é o que parece desta vez.” Ele fez um gesto vago com as mãos. “O Breno te mandou uma mensagem.
Disse que não quer mais nada com você.”
“Não mente, Téo.”
“Não estou mentindo. Lembro bem o que estava escrito. Peço desculpas por não ter contado. Excluí a mensagem porque não queria te machucar.”
“Não acredito em você.”
“Faz três semanas que estamos aqui e ele não te procurou, Clarice. Não é evidente que ele não quer saber de você?”
A pergunta a desconcertou.
“Além do mais, ele usava ofensas horrorosas na mensagem. Fiquei espantado.” Téo franziu os olhos, como se puxasse informações pela memória. “Dizia que o relacionamento não estava bom pra ele. E te chamava de piranha.”
“É mentira!”
Sua voz falhou ridiculamente e ele soube que ela não estava tão confiante.
“O piranha me marcou. Ele repetiu umas três ou quatro vezes.”
Clarice desabou em lágrimas. Téo ficou orgulhoso. Pela troca de mensagens, havia notado que Breno não lidava bem com o jeito extrovertido dela.
“Mentiroso! Você só mente, desde o início!”, ela repetia, aninhada na poltrona. A cabeça se escondia entre os joelhos, entregue ao vaivém dos soluços. As vértebras da coluna se movimentavam feito cobra sob a
pele. Clarice havia perdido uns quatro quilos nos últimos dias; estava esquelética, mas continuava bonita. Se ele soubesse pintar, teria feito um retrato daquele instante.
Cogitou pegar a câmera fotográfica, mas achou que seria ofensivo.
Num rompante, ela saltou sobre Téo. Arranhou-o e tentou mordê-lo. Bateu com o travesseiro no rosto dele.
Téo a segurou pelos punhos e conseguiu prender as algemas. Estava bastante zangado com a reação dela.
Clarice vinha se revelando pouco civilizada. Ele pegou o Thiolax no frigobar. Sob protestos ofegantes, aplicou a dose.
Téo se esqueceu das horas cuidando dos braços de Clarice. Massageou os ferimentos com creme. A pele esmaecida exibia manchas roxas e arranhões. Ela descansava profundamente, seu corpo era um território a ser desvendado. Os braços algemados acima da cabeça desenhavam uma silhueta sensual, as coxas brancas saltavam do pijama. Ele sabia que aqueles pensamentos eram inevitáveis e foi tomar banho.
Já passava da meia-noite quando bateram à porta. Três soquinhos breves. Ele se levantou da cama e olhou para Clarice, ainda adormecida. Afastou as cortinas da janela lateral. O céu estava negro, nuvens escuras fatiavam a lua. O poste à beira do lago iluminava pouco, desenhando a sombra do visitante. Não era um anão.
Téo pegou o revólver na mala, lamentando que não tivesse comprado munição. Insistiram com mais batidas.
“Quem é?”
Não houve resposta.
“Quem é?”
Arma na cintura, abriu a porta. Não demorou a reconhecer o rapaz da Sala Cecília Meireles. Era alto, vestia jeans, polo verde e jaqueta de couro. Os óculos de armação quadrada marcavam o rosto.
“O que você quer?”
Breno o analisava de cima a baixo com ar idiota:
“Quem é você?”
“Você bateu na minha porta a essa hora…”
“Olha, eu só quero falar com a Clarice. Ela está aí?”
“Você sabe que horas são?!”
“Preciso falar com ela. Ela sempre fica nesse chalé.”
Téo pensou em dizer que não sabia de nada, mas não queria parecer covarde ou submisso.
“Ela está dormindo. Como você chegou aqui?”
“Não importa.”
“Sou namorado dela”, Téo disse. Reparou num cheiro forte de álcool no hálito de Breno. Ele sacudia a cabeça.
Seus olhos pareciam prestes a saltar das órbitas. “Não vou deixar você perturbar mais. A gente está junto.
Some.”
“Não quero arrumar confusão. Só preciso conversar com ela. Te imploro.”
“Você já conversou mais do que o suficiente com aquelas mensagens ridículas!”
“Você leu?”
“A Clarice fez questão de me mostrar. Ela não sabe mais o que fazer pra você entender que acabou.”
“Por favor, não sei o que está acontecendo. Ela não me responde direito. Estou desesperado”, Breno disse, num ressentimento de bêbado. “Preciso ouvir dela que tudo terminou. Só isso e vou embora.”
Téo encarou aquele sujeito em frangalhos e o achou patético. Como Clarice tinha gostado de alguém assim?
“Sei que você é o novo namorado dela e que…”
“Ela está dormindo, já disse.”
“Ela nunca dorme cedo. Não é possível que tenha mudado tanto…”
Breno agora estava mais calmo. Seu olhar se fixara no arranhão comprido que Clarice havia feito mais cedo no pescoço de Téo.
“Não saio daqui sem ver a Clarice.”
“Vai embora!”, Téo mandou, fechando a porta.
Breno o impediu, impulsionou o corpo para forçar a entrada. Na semiescuridão, viu Clarice deitada na cama e correu para ela. Chegou a falar “Meu amor, me desculpa”
antes de notar as algemas. Virou-se para Téo, sem entender. A primeira coronhada lançou os óculos quadrados para debaixo da cama. Téo continuou a golpeá-lo, na cabeça e na nuca. Breno cambaleou, zonzo, mas conseguiu revidar. Desequilibrou Téo. Clarice dormia, alheia à cena.
Téo agitava as pernas, buscava escapar dos socos no rosto. Conseguiu segurar os cabelos de Breno e bater a cabeça dele contra a quina da cama. O impacto abriu um corte no crânio, sangue escorreu pelos cabelos até a orelha. Breno se contorceu; perdia a consciência. Téo repetiu o movimento mais vezes, abrindo um sulco profundo na cabeça de Breno. O corpo rígido ganhou flacidez e tombou. A cabeça sangrenta encontrou o chão num baque seco. Téo sentia o cansaço doer os ossos.
Olhou para o corpo de Breno, enorme, imóvel. Encarou os olhos vítreos, bem abertos, logo abaixo da testa estraçalhada. Estava mesmo morto?
Hesitou. Pegou a seringa e a ampola de Thiolax. Tinha medo de tocá-lo e ser surpreendido. Deu chutes leves no corpo. Nenhuma reação. Com a rapidez de uma enfermeira atarefada, injetou uma dose de Thiolax no braço inerte. Injetou outra. E mais outra. E mais outra por fim.
Quatro doses de Thiolax… Impossível continuar vivo.
Téo andava de um lado para outro. Tinha matado uma pessoa. O corpo estava ali, horrendo e vermelho. O que ele sabia sobre Breno? Que era o ex-namorado ciumento de Clarice e que tinha um carro. Revistou os bolsos do morto. Um celular de modelo antigo, já desligado. Um chaveiro com três chaves. No bolso da jaqueta, a carteira. Duas notas de cinquenta, uma de dez. Dois cartões de crédito. Uma carteirinha da faculdade de música. O documento de identidade mostrava que Breno tinha vinte e seis anos. Dentro da identidade, Téo encontrou uma passagem de ônibus Rio-Teresópolis usada. Nenhuma carteira de motorista. Alguém sabia que ele tinha vindo atrás de Clarice? Algum hóspede o tinha visto chegar? Não havia tempo para especulações.
Precisava se livrar do corpo. O sangue se espalhava, ameaçando manchar a barra do lençol. Ele esperava que Clarice ainda levasse algumas horas para acordar.
Abriu a porta do chalé e foi ao carro. Vestia camiseta, mas o frio não o incomodou. Pegou o tapete na mala e estendeu no chão do quarto. Deitou o corpo de Breno sobre ele, limpando o sangue. Pensou em enrolar o corpo no tapete e jogá-lo no lago. Já havia lido alguns romances policiais em que o criminoso enrolava o corpo em um
tapete para escapar da polícia. No entanto, fora da ficção, o cadáver poderia se desprender e os gases da putrefação o fariam boiar na superfície. Talvez algumas pedras ajudassem a mantê-lo no fundo. Ainda assim, muito arriscado. A ideia de abrir uma cova na floresta também lhe ocorreu, mas foi eliminada: não estava acostumado a revolver a terra e acabaria acordando algum hóspede.
Decidiu-se. Saiu do quarto na direção do almoxarifado.
Seus passos riscavam a noite. Em silêncio, girou a maçaneta e tateou na escuridão até o interruptor.
Alcançou a pilha de sacos plásticos pretos na última prateleira. Depois, foi até a cozinha, anexa à sala de refeições, torcendo para que não estivesse trancada. Não estava. Pegou uma faca comprida e serrilhada. No caminho de volta, próximo ao canteiro florido do Chalé Dengoso, viu uma tesoura de jardineiro esquecida na terra. Levou-a consigo também.
Luvas postas, iniciou o trabalho. Rasgou as roupas de Breno, deixando-o nu sobre o tapete. Era irônico que Clarice se divertisse com tão pouco. Jogou as roupas amassadas em um saco preto, guardou os óculos e os pertences num compartimento da Samsonite menor.
Estava ansioso, era a primeira vez que exploraria um cadáver fresco.
O corpo de Breno estremeceu quando a faca entrou na altura da garganta. Numa descida vertical, a pele —
ainda quente — se abria com maciez, deixando um sulco atrás da faca. Téo foi devolvido à sala de anatomia, aos momentos com Gertrudes, aos prazeres da dissecação.
Visitando cada parte do cadáver, revia os livros que havia estudado. Ilustrações se transformavam em realidade.
Posicionou-se de cócoras para vencer a caixa torácica.
Encontrou as articulações das costelas e começou a cortá-las com a tesoura. Rompidas todas, levantou o esterno, ganhando uma visão dos órgãos dentro da caixa de ossos. O coração ainda se contraía debilmente.
Aos poucos, Téo se acalmou. O cheiro ferruginoso de sangue o agradava. Agia em movimentos calculados, como um dançarino ensaiando seus passos ao redor do corpo. Suava muito e, quando enxugou a testa no antebraço, olhou para Clarice. Se ela acordasse, conseguiria enxergar o ex-namorado no cadáver exposto? Ele sabia que não. O amor que ela nutria por Breno era físico. Diante daquela imagem, não haveria amor nem dor. Apenas nojo.
Agachou-se para cortar as bordas do diafragma e puxar as vísceras, imersas em gordura amarela. A lâmina deslizou, atravessou a luva e feriu seu polegar direito.
Merda! Fluidos vertiam do intestino cortado. Fez um rápido curativo após lavar as mãos. Aproximou-se de Clarice, acariciou seu rosto, excitado com a situação.
Queria que ela acordasse. Queria que ela visse Breno daquele jeito, só carcaça.
“Acorda, Clarice”, ele disse ao pé do ouvido dela. Quis mordiscar seu lóbulo, mas se conteve. Por mais que o choque pudesse ser positivo, ele não queria correr o risco de perdê-la.
Vestiu novas luvas e iniciou o esquartejamento. Fez cortes nas articulações, divertindo-se ao ouvir o barulhinho peculiar dos membros inferiores soltos na altura da virilha. Poc. Lembrava um vidro de palmito
sendo aberto. Dividiu as pernas em dois segmentos, nos joelhos. Fez o mesmo com os braços, nos cotovelos, depois de cortá-los na altura dos ombros. Poc. Poc.
Duas horas tinham passado. Ele não estava acostumado àqueles procedimentos com instrumentos tão rudimentares. As costas doíam, mas ainda restava a pior parte: separar a cabeça do tronco. Serrou a região da nuca. Os músculos cederam e apenas alguns ligamentos traziam dificuldade. A lâmina perdia o fio, tornando a tarefa mais exaustiva. Forçando o tronco do cadáver, Téo continuou a serrar, enquanto puxava a cabeça em sentido contrário até que ela soltasse.