Dias perfeitos

Raphael Montes · Capítulo 27 de 32

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Dias perfeitos

Capítulo 27

“Você só me conta mentiras”, ela disse. “Sei que não matei o Breno. E sei do que você é capaz. Você é um monstro!”

Sem resistir, ele deu um soco nela. Um soco que —

soube logo depois — era a pior coisa que poderia ter feito, pois concedia a Clarice alguma dose de razão.

Desculpou-se, invadido por uma onda de ressentimento.

Ele havia salvado a vida dela. Se Breno estivesse lá, o que faria? Tocaria a Sinfonia no 9 de Antonín Dvor ˇ ák para suturar as lesões?

Téo estava indignado, como se estivessem roubando algo dele. Segurou os braços dela, sacudiu-a com força.

Negou que tivesse feito qualquer coisa a Breno ou a ela.

Negou mais uma vez. Clarice não podia tê-lo chamado de

monstro. Não tinha esse direito. Ele não era um monstro.

E precisava desesperadamente que ela acreditasse nisso.

27.

Dois dias passaram sem que eles trocassem uma palavra. O calor havia aumentado e Téo imaginou o que os jornais falariam: o dia mais quente do ano, o verão mais rígido da década e coisas assim. Colocariam a culpa no desmatamento e na destruição da camada de ozônio.

Graças ao calor, ele estava comendo menos e havia perdido algum peso. Seu rosto afinava bastante quando emagrecia. Patrícia notaria a diferença. Talvez Clarice também. Mas Téo fazia questão de agir de modo desatencioso com ela, como se não percebesse que estava estranha.

A acusação de monstro ainda o atormentava e, pela primeira vez, parecia evidente que eles nunca ficariam juntos. Clarice era burra, incapaz de enxergar um palmo diante de si e desconfiava de seu caráter. Após a discussão, Téo havia deixado alguns livros na mesa de cabeceira dela, além de biscoitos e uma garrafa plástica cheia de água. De modo seco, havia dito para chamá-lo caso precisasse de alguma coisa.

Téo aproveitou o período de isolamento para estudar.

Passava a maior parte do tempo na cozinha ou do lado

de fora da casa. Dormia no outro cômodo e evitava contato com Clarice. Ela não havia chamado por ele uma só vez. Naquela manhã de sexta — se não estava enganado já era sexta-feira —, Téo estava na cozinha quando ouviu o choro dela através da porta fechada.

Normalmente, ele a deixaria chorar (era só o que ela sabia fazer), mas algo gutural e muito específico naquele choro fez com que ele decidisse conversar. Clarice estava curvada, envolvida pelos braços nus. O mau cheiro era forte.

“Puxa, eu disse para me chamar se quisesse ir ao banheiro.”

Ela parecia um animal medroso e intocado.

“Não consigo sentir nada…”

Ele a encarou sem entender. Havia melancolia na voz.

Quando Clarice passeou os olhos pelo colchão urinado, ele entendeu, mas se sentiu muito constrangido para dizer alguma coisa. A lesão na coluna impedia que ela controlasse a vontade de ir ao banheiro. Téo se condenou por ter se esquecido deste detalhe: Clarice precisaria usar fraldas.

Esquentou duas panelas cheias de água, pois não queria molhar a cabeça de Clarice no jato frio do chuveiro. Enxaguou os cabelos dela e fez massagem nas têmporas. Desceu os dedos pelo pescoço, relaxando nós de tensão nos ombros, e chegou aos tornozelos.

Enquanto a tocava, deu-se conta do quanto gostava dela.

A guerra de silêncios era enlouquecedora. Quis dizer qualquer coisa para sufocar a mágoa que se acumulava nele.

“Faltam dois dias pra velha chegar.”

Ele não queria mencionar a partida, mas achou que Clarice se interessaria por números. Ela continuou muda, deixando que ele a massageasse. Sua respiração era discreta — quase inexistente — e Téo pensou que, como um aparelho eletrônico, Clarice se desligava pouco a pouco, até a hora em que pifaria de vez. Obsolescência programada.

Perguntou se ela queria tomar banho de sol. O tempo estava agradável, havia uma brisa para refrescar o calor.

Ela negou e disse que queria voltar para a cama. Téo não acreditava que ela preferisse realmente a cama — havia uma carga pesada e negativa em todo o quarto —, mas havia desistido de entender as vontades de Clarice.

Inverteu o lado do colchão e deitou-a na cama. Se saísse do quarto naquele instante, perderia a única chance de fazer as pazes:

“Não quero ficar brigado com você.”

“Me deixa.”

“Por favor… Não suporto que você me culpe por tudo o que aconteceu. Quero dizer, eu não fui atrás do Breno.

Foi ele que…”

“Vá se foder, Téo. Não quero ouvir.”

Ele puxou uma cadeira, pois não queria se sentar tão perto dela:

“Não sou um sujeito mau, Clarice. Me arrependi de ter te algemado… Em alguns momentos, senti que você gostava de mim. Quero voltar pra casa, mas não posso perder você. Falei de nós dois pra minha mãe e ela está ansiosa pra nos receber num jantar. Sinto que sua mãe também gosta de mim. É tudo muito perfeito. Mas preciso que você me queira, entende? E eu não sei como

fazer isso. Estou sem rumo. Você insiste em ver defeito em tudo o que faço. Não importa quanto eu me esforce.”

“A culpa é sua! Você entrou na minha vida à força!”

“Já pedi desculpas.”

“Não me interessa o que você faz por mim. Fui amarrada contra minha vontade, fui sedada com aquela merda…” Ela tinha voltado a chorar. “Pode me bater, me amarrar, me matar. Sou aleijada e estou pouco me fodendo pro que vai acontecer comigo agora.”

“Eu salvei sua vida. Vamos lá, você precisa concordar comigo.”

Ela o encarou muito séria. Téo teve a impressão de que ela queria devorá-lo, como uma onça esfomeada.

“Você está fora de si e transfere para mim uma culpa que é sua!”, ele continuou. “Sei que é horrível, mas… Eu não queria que você se machucasse. E não tenho culpa se o Breno veio atrás de nós dois com uma faca. Ele causou isso tudo.”

Clarice se curvava para a frente e dava tapinhas nas pernas. O que sobrava dela estava bem ali e, ainda que as possibilidades fossem remotas, ele desejou sinceramente que ela se recuperasse.

“Eu me sinto autodestrutiva. Por sua causa, chego a ter medo de mim. Hoje, sou uma pessoa pior.”

“Por minha causa?” Ele quis despejar tudo em cima dela. “Você esquece que te encontrei bêbada, caída na Lapa, depois de ter beijado uma lésbica imunda? Você estava jogando seu futuro pelo ralo… Eu te tirei desse poço!”

“Você nem me perguntou se eu queria sair desse poço.”

“Você vivia uma fantasia, Clarice. O Breno era um homem ciumento e ignorante. Um violinista sem grau superior! Sua mãe tinha bons motivos pra não gostar dele.”

“Eu amava o Breno.”

“Ah, vamos, para! Você me ajudou a acabar com ele! E

por mais que tente jogar essa culpa pra mim, você sabe

— no íntimo você sabe — que me ajudou! Estamos juntos nisso, Clarice.” Suas conversas tinham certa intensidade que não variava nunca. “Você me chama de monstro, mas ignora tudo o que fiz. A primeira versão de Dias perfeitos era uma merda. Graças às nossas discussões, seu roteiro melhorou e agora merece alguma atenção.”

“Eu não estou falando de roteiros.”

“Mas eu estou. Sempre incentivei seu lado artístico.

Sempre me preocupei com sua saúde também. Talvez tenha exagerado em proibir o cigarro, mas não fiz por mal. Eu nunca te fiz mal de verdade, Clarice. Não trouxe munição para o revólver porque seria incapaz de te machucar.”

“Você me deixou paralítica!”

“A verdade é que você se julga muito superior a todo mundo. Pensa que é inatingível, capaz de tudo… Talvez agora você se coloque no seu lugar.”

“Não acredito que…”

“Tenho uma mãe deficiente e sei que é uma mudança drástica”, Téo disse. “Cuidar dela significa anular um pouco de mim; da minha vida. Não é pra qualquer um.”

Encostou no braço de Clarice. Sua pele estava fria como a de um cadáver.

“Eu me esforço pra ser o melhor homem que posso.

Não me interessa que você fume ou que não possa

andar… Quero cuidar de você. Quero que escreva seus roteiros e que possamos assistir juntos às estreias dos seus filmes. Acho que você tem talento e que essa nova condição pode ser um diferencial, pode dar uma voz inédita aos seus textos.”

“Téo, eu…”

“Não quero que diga nada. Daqui a dois dias vamos a Paraty. Se você quiser, estará livre pra viver sua vida e encontrar outra pessoa, alguém que esteja disposto a suportar sua situação”, ele disse, e sentiu-se maldoso. “É

uma rotina cansativa, muito cansativa. Pouca gente aguenta um fardo desses.”

Téo se levantou, certo de que dissera tudo o que precisava ser dito. Quando saiu do quarto, não se lembrava da expressão de Clarice, mas teve a sensação de que ela havia ficado bem impressionada. Era óbvio que optaria pela solidez de um relacionamento estável. Não tinha muito talento e estava acabada. Precisava de alguém para estimulá-la, não de pessoas que a puxassem para baixo, como Breno e Laura.

Naquela tarde, enquanto arrumava a casa e varria a areia acumulada na cozinha, Téo se lembrou dos poucos namoricos da mãe desde o acidente — homens fracassados de meia-idade — e concluiu que Clarice não conseguiria coisa muito melhor se desistisse dele.

Como não sabia a que horas a velha ia chegar, Téo sedou Clarice pela manhã. Aproveitou para retirar os pontos dos ferimentos que já haviam cicatrizado. Dobrou os lençóis secos e rearranjou itens na maleta e na valise com senha. A ampola de Thiolax estava quase no fim e

era a última, mas ele não se preocupou com isso.

Quando chegasse a Paraty, daria um jeito. Os dias tinham sido lentos, mas ele havia se animado mentalmente no dia anterior. Trocara a vida na sala de anatomia por uma rotina traiçoeira ao lado de Clarice, e a sensação geral era de que estava na vantagem. Viu seu rosto refletido no espelho do banheiro. Estava bronzeado e mais bonito. Tinha um gosto de sal nos lábios. Seu cabelo havia crescido muito, os fios se enrolavam em cachos que o deixavam com a aparência afável.

A velha chegou pouco depois do meio-dia. Clarice e as roupas já estavam nas malas. Após uma checagem rápida, a casa foi fechada e o barco partiu. Téo perguntou à velha se podia ficar no continente, mas ela murmurou uma explicação ininteligível e disse que iria para a praia do Abraão. A velha tinha um aspecto severo, um tanto emburrado, e ele considerou que sua foto podia ter aparecido no jornal. Por mais que estivesse certo, sabia que a sociedade não entenderia o que acontecera com Breno. Todos eram muito ligados a códigos e regras, e ele ficaria sem defesas, mesmo que tentasse argumentar.

Conforme se aproximavam da costa, a sensação de que a polícia o esperava no porto cresceu tanto que ele sentiu um embrulho no estômago e vomitou na água. Ao desembarcar, teve vergonha do próprio exagero.

Comprou passagem para uma barca que saiu depois de oito minutos. Vencido pela curiosidade, tentou ligar o celular de Clarice. Estava sem bateria. Ligou o próprio celular sabendo que havia recebido muitas ligações de Patrícia e de Helena. Fez uma aposta consigo mesmo:

mais de trinta, menos de quarenta. Como não havia sinal em alto-mar, o resultado da aposta foi adiado.

Quando aportaram, o celular apitou: oitenta e sete ligações, muitas mensagens — ele não se deu ao trabalho de ver o número. Estava tão desnorteado que não solicitou os serviços do menino carregador e levou as malas sozinho até o carro. Era uma situação constrangedora. Concluiu que a falta do que fazer era o maior problema das mães brasileiras de classe média.

Como podiam ser tão invasivas?

Deitou a Samsonite no banco traseiro e, com algum esforço, colocou Clarice no banco do carona. Ela estava no auge da sedação, o corpo tombava sobre o porta-luvas. Téo apertou o cinto de segurança e pagou a diferença do estacionamento.

Dirigiu em silêncio, ouvindo apenas a respiração pesada de Clarice. Ela agitava a cabeça de modo lento, os olhos bem fechados. Então, numa imobilidade suicida, trazia uma expressão azeda no rosto e logo voltava a se mexer. Téo deduziu que ela estava tendo um pesadelo e quis parar o Vectra, mas não havia acostamento naquela parte da via. Olhou pelo retrovisor e reduziu um pouco, mas um carro que vinha atrás buzinou, em vez de ultrapassá-lo. Pensou em gritar algum xingamento, mas sabia que o sujeito buzinando na traseira não era um grande problema — não chegava nem a ser um problema. O sono de Clarice ficou mais agitado e ele tentou acordá-la. Cutucou o braço dela, sem êxito.