Dias perfeitos

Raphael Montes · Capítulo 31 de 32

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Dias perfeitos

Capítulo 31

Clarice se agitava. Inspirava agonicamente, batia os braços. Téo achou horrível ter que assistir àquilo tudo.

Era sua penitência, ele pensou.

Algo o invadiu em cheio, uma sensação que nunca havia sentido antes, e ele se deu conta de que não podia continuar. Clarice não era como Breno. Reconectou o respirador, aumentou a fração inspirada de oxigênio para cem por cento. Os alarmes voltaram a gritar bem alto e os médicos apareceram depressa, empurrando-o para trás.

“Insuficiência respiratória”, um deles gritou.

Téo não ouviu mais nada. Seu corpo o obrigava a se mover. Saiu do hospital, caminhou pelas ruas e, quando percebeu, estava em casa. Trancou-se no quarto.

Chorava bastante, sem saber direito por quê. Patrícia batia na porta. Não queria falar com ela nem com ninguém. Gustavo, Helena, Aquino e Breno. Se tivesse uma arma carregada naquele instante, ele daria um tiro na cabeça só para ficar livre.

Quando a mãe deu trégua, Téo correu para o banheiro e engoliu um comprimido de Hipnolid. Seu corpo todo se agitava, como se sua alma desse cambalhotas e saltasse no ar, mas ele sabia que precisava descansar e se esforçou nesse sentido. Fechou os olhos, pensando em coisas bobas. Dormiu com a sensação horrenda de que tudo estava muito errado em sua vida.

31.

A cabeça doía. As perguntas do delegado o tinham aborrecido exageradamente e ele acabara agindo de maneira errada, concluiu. Sentia-se podre por dentro.

Seu desejo de matar Clarice tinha sido mesquinho. E também sua entrega tão fácil a esse desejo. Ele havia bebido, mas não era desculpa. Devia haver câmeras de segurança nos corredores do hospital e a essa hora todos já sabiam o que ele tinha feito. Imaginou a expressão desolada de Helena e também a reação de Patrícia — a vida da mãe dependia dele e agora tudo iria pelos ares.

Estava preocupado com as câmeras de segurança, mas nem sabia se Clarice continuava viva. Desejou que ela estivesse bem, muito bem até. Ligar para o hospital ou para Helena estava fora de cogitação. Ele tinha ficado tão transtornado que mal conhecia os fatos, como poderia argumentar? Não sabia se havia câmeras, não sabia do estado de Clarice. Estava com a corda no pescoço e achou graça dessa imagem.

Vestiu-se. Ao abrir a porta, encontrou Patrícia cheia de perguntas e conselhos para ele. Desviou dela, empurrou a cadeira de rodas para um canto e saiu, sentindo-se

livre, saboreando a importância desse gesto. Patrícia era um peso morto e não se dava conta disso. Era preciso que ela soubesse e repensasse o modo como o tratava.

Só assim viveriam com alguma harmonia.

O dia estava nublado, mas fresco. Téo andava com displicência, fazendo o mesmo trajeto do dia anterior, ainda que não se lembrasse de ter feito exatamente aquele trajeto. Chegou ao hospital em vinte minutos.

Helena e Gustavo sorriram para ele ou teve apenas a impressão de que eles tinham sorrido? Conversavam com um médico. Clarice continuava sobre o leito, conectada por mil fios.

“Você salvou a vida dela”, Helena disse, com um beijo em sua bochecha.

Gustavo o cumprimentou também e Téo ficou sem entender. Pensou que estava em um mundo de loucos. O

médico explicou que haviam notado que ele aumentara a fração de oxigênio de Clarice durante a insuficiência respiratória e que essa medida a tinha salvado de um estado vegetativo — e talvez da morte. Gustavo e Helena estavam muito satisfeitos com ele e até o médico o parabenizou. Era gostoso ser bajulado.

Téo estava tão feliz que se Clarice ficasse em coma para sempre não seria ruim. Ele poderia visitá-la uma ou duas vezes por semana e imaginar tudo o que poderiam viver.

“Depois do susto de ontem, a Clarice teve uma melhora”, o médico disse. “Ela deve se recuperar em alguns dias.”

Helena decidiu que almoçariam juntos outra vez. Ela era o tipo de pessoa que demonstra felicidade comendo.

Escolheu um restaurante caríssimo no Leblon e pediu

vinho. Na mesa, Téo precisou inventar uma história de última hora sobre o dia anterior. Buscou ser discreto, pois sua atitude heroica já impressionava por si só. Sentiu-se fatigado e concluiu que não queria mais mentir, enganar ou fingir. Possivelmente Clarice acordaria dali a alguns dias e isso pouco importava para ele. Aproveitaria a família Manhães enquanto era tempo. Mais tarde, se todos o odiassem e quisessem prendê-lo, que importava?

Ele não se arrependia. Havia feito tudo por Clarice e caberia a ela valorizar. Se preferisse denunciá-lo, tanto melhor. Ele saberia que ela vivia bem e isso era suficiente. Com Clarice morta, ele não teria nada.

Téo pediu licença para atender o celular. Já haviam terminado o prato principal e apenas Helena quisera sobremesa. Patrícia brigava ao telefone. Disse que não reconhecia esse novo Téo. Ele adorou a expressão.

Pensou em retrucar que estava muito feliz como novo Téo, mas apenas se desculpou por ter saído depressa e contou a novidade para a mãe. Patrícia ficou atordoada.

Estava orgulhosa dele, mas continuava triste. Téo prometeu que cozinharia para ela mais tarde.

Quando voltou à mesa, Helena estava sozinha e já havia pagado a conta.

“Gustavo foi buscar o carro.”

Téo sentou e guardou o celular no bolso.

“O delegado suspeita de mim e da Clarice”, ele disse.

Queria ter contado isso desde o início do almoço, mas a presença de Gustavo o encabulava. Agora, não havia ninguém nas mesas por perto e os garçons conversavam próximos ao caixa.

“Não vai dar em nada.”

Téo queria ter a mesma certeza de Helena. Ela abocanhou a última colher de seu petit gâteau e olhou para ele:

“Por que está tão preocupado?”

“O delegado deu a entender que tem certeza. Disse que serei intimado.”

“Ele não tem nada contra vocês e está jogando iscas.

Parece até que o Rio de Janeiro é uma cidade tranquila e ele não tem mais o que fazer.”

“E se ele me intimar mesmo?”

Ela deu um risinho:

“Você comparece e conta sua versão.”

“O Gustavo sabe a verdade?”

“Você nunca viu o Breno e o Breno não foi lá em casa desde que terminou com a Clarice. Meu marido sabe essa verdade.”

Téo se sentiu patético. Chegava a ser engraçado que o delegado o incomodasse tanto, enquanto a possível recuperação de Clarice não o atormentava em nada.

Gustavo apareceu para dizer que estava com o carro na porta do restaurante.

Voltaram ao hospital em treze minutos. A cadeira continuava ao lado do leito, como se agora ocupasse um lugar efetivo no hospital. Gustavo olhava para Téo de modo carinhoso e ele ficou irritado por não poder lhe contar a verdade. Em termos éticos, não via problema no que havia feito: matar acidentalmente Breno, que invadira seu chalé com uma faca nas mãos. Entendia que era algo condenável — e até punível — do ponto de vista da polícia, mas Gustavo era bem diferente da polícia.

Teria alguma vergonha em contar para ele, não pela

coisa toda, mas sim por ter mentido. Justificaria seu medo e também seu desprezo pelas atitudes de Breno.

Imaginou que ele ficaria chocado de início, mas acabaria entendendo e o desculparia.

Téo ficou de pé junto ao leito, pensando em como começar o assunto, mas nem chegou a dizer nada, pois sentiu seu estômago embrulhar: Laura vinha pelo corredor. Reconheceu-a de imediato. Nunca se esqueceria daqueles olhinhos repuxados e desprezíveis que haviam convencido Clarice a cometer absurdos. Ela trazia quatro rosas feias envoltas num papel colorido.

Encarou Téo com alguma curiosidade. Ele tentou se controlar, mas foi impossível. Era muito abuso; muito ofensivo e cínico da parte dela dar as caras depois de tudo. Aproximou-se e a puxou pelo braço, com força.

“Me acompanhe.”

Téo não sabia como ela havia entrado; afinal, Clarice já estava com o número máximo de visitantes permitidos pelo hospital. Ainda assim, Laura havia dado um jeito de burlar o sistema e conseguir um crachá. Ela era bem do tipo que burla sistemas.

“O que está fazendo?”, Laura gritou quando já estavam na metade do caminho. Era pequena como Clarice, mas maldosa. Usava o cabelo preto trançado de um jeito indígena que a deixava ainda mais patética. Téo não queria falar com ela, mas se esforçou:

“Vá embora e não volte.”

“Quem é você pra…”

“Sou noivo da Clarice.” Ele esfregou a aliança na cara dela. “Não preciso que se apresente. Sei bem quem você é e o que fez com minha noiva. Ela saiu dessa vida.”

As pessoas no hospital olhavam para eles; algumas assustadas, outras se divertindo.

“Li suas mensagens e a Clarice me contou o que você fez com ela na Lapa. Sinceramente, você deveria buscar um marido.”

Téo voltou para a UTI. Laura não ousou aparecer outra vez, o que fez com que ele se sentisse feliz. Aquela sujeita era péssima influência. Teve certeza de que havia agido corretamente ao expulsá-la. Helena e Gustavo não comentaram nada, mas para Téo ficou claro que os dois concordavam com ele.

O jantar com Patrícia foi silencioso e sutilmente agradável. Ele tentou dizer coisas amenas. Patrícia insistia em falar do novo Téo e de como estava desapontada com os rumos que ele tinha seguido.

Chegou a dizer que esperava um filho estudioso e não um paspalho que corria atrás de um rabo de saia. Téo saiu da mesa. Será que ela não conseguia nem ao menos ficar agradecida pelo jantar?

Minutos depois, Patrícia apareceu na porta do quarto.

“Me perdoa. Sei que você está sofrendo.”

Ele a desculpou e contou o que havia ocorrido no hospital mais cedo. Patrícia riu bastante.

“Ainda não entendi por que você expulsou a garota. O

que ela fez pra Clarice?”

Téo não podia contar que Clarice era homossexual, bissexual ou o que quer que ela fosse — ele já havia desistido de entender.

“Não sei. A Clarice não gostava dela. Disse que a menina era inconveniente.”

“Você não ficou curioso pra saber o motivo?”

“Não.”

“Quando a Clarice acordar, tente descobrir. Sei que você não gosta que eu fale, mas continuo com aquela sensação ruim. Essa menina ainda me incomoda.”

“Quando a Clarice acordar, vou me casar com ela e viver minha vida”, ele disse, e queria muito que estivesse certo.

Patrícia saiu do quarto a contragosto. Téo reparou que, desde a morte de seu pai, ela era só amargura. Vinha com aquela conversa de sensações e premonições e tentava convencê-lo a fazer o que ela queria. Primeiro, o incidente com Breno, depois a tentativa de suicídio de Clarice e, então, o acidente de carro. O que mais poderia acontecer?