Dias perfeitos

Raphael Montes · Capítulo 26 de 32

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Dias perfeitos

Capítulo 26

Téo entrou no quarto com um sanduíche. Clarice dormia, mas ele teve a impressão de que ela havia fechado os olhos pouco antes. Preferiu não forçar nada. O

mundo parecia muito escuro para além da janela. Não havia lua.

Achou desnecessário trancar a porta do quarto. Comeu o sanduíche mesmo sem fome. Deitou no outro cômodo e leu um pouco. Quando fechou os olhos, pensou que merecia acordar tarde — depois das nove até. Sonhou com sequências bizarras, figuras psicodélicas que castravam

animais

e

dialogavam

com

objetos

inanimados. Havia muito sangue, além das cores branca e dourada. Ao acordar, teve a sensação forte de que Clarice estava morta. Ele a vislumbrava enforcada sobre a cama, o pescoço envolvido no lençol que ele havia buscado no varal.

Quis correr para o outro quarto, mas se conteve.

Acreditar em sonhos era absurdo e, se continuasse assim, também acabaria enlouquecendo. Calçou os chinelos e resolveu escovar os dentes. Diante do espelho, notou que seu rosto tinha um aspecto bem melhor; os ferimentos cicatrizavam e possivelmente sumiriam até o dia em que a velha voltasse.

Recolheu a lâmina de barbear que ele não sabia onde Clarice tinha arranjado — possivelmente na própria casa

— e o cortador de unhas. Arrumou novo esconderijo para as facas e outros objetos cortantes: havia um cano largo na cozinha que terminava na parede atrás de um jarro grande. Ele afastou o jarro e colocou dentro do cano tudo o que parecia ameaçador.

No quarto, Clarice dormia bem. O sol estava forte, ainda que fossem apenas sete da manhã. Téo fechou as cortinas e teve certeza de que ela havia fingido dormir na noite anterior porque não queria falar com ele.

Tamanha grosseria, além da imagem do enforcamento com o lençol, o deixou insatisfeito. Passou o café e, sem vontade de preparar nada, voltou ao quarto. Afastou o lençol que cobria Clarice e entornou nele uma xícara inteira de café. Os outros três lençóis da casa ainda estavam para lavar; um sujo de vômito e os outros dois de sangue. Não havia mais nada com que ela pudesse se enforcar.

Como havia acordado mais cedo, Téo decidiu dar um mergulho. A temperatura estava agradável e ele ficou muito tempo debaixo d’água. O sol fazia seu corpo pulsar. Afastou-se da casa numa caminhada pela faixa de terra. As ondas quebravam contra seus calcanhares, o que era gostoso. Ao chegar ao meio do caminho, voltou.

Seus

pensamentos

foram

perdendo

vigor,

desencorajados pelo esforço de antever consequências.

Quando se deu conta, cantarolava uma música triste de que não gostava nem um pouco.

Seu humor andava oscilante: pensava em guerras, chacinas, engarrafamentos, corrupção, balas perdidas e se sentia abençoado por estar naquele paraíso, livre de maiores tragédias que as do coração. Então, pensava em Breno, em seu jeitinho de artista — um violino a tiracolo e nenhum dinheiro no bolso — e vinha um profundo desânimo. Breno, assim como ele, não tinha um rosto amistoso. Mas usava aqueles óculos quadrados que o tornavam mais velho. Na verdade, Téo não entendia muito bem o que Clarice via fisicamente em Breno.

Naquele instante, ele soube que havia sido um erro guardar os óculos consigo. Era tão óbvio que ficou espantado por não ter percebido antes, quando chegaram a Ilha Grande. Os óculos tinham sido vistos pelo policial e, por causa deles, Clarice tinha tentado se matar. Ele correu para a casa e tirou os óculos da valise.

Toda a sua desgraça se concentrava naquele objeto e bastava se livrar dele para que as coisas voltassem aos eixos. Quebrou a armação ao meio, pisou nas lentes até que elas rachassem — eram muito grossas, Breno era praticamente cego — e já no mesmo segundo sentiu um peso abandonar seu corpo. Era como flutuar no espaço sideral. Voltou para beira-mar e jogou os óculos o mais longe que pôde. Deixou-se cair na areia, rindo de coisa alguma. Nadou mais um pouco antes de entrar na casa.

Clarice estava acordada. Ao passar pela porta entreaberta, ele olhou para ela, balançou a cabeça e continuou andando, sem diminuir o passo. Tomou banho e vestiu-se. Clarice estava com cara de poucos amigos e ele também não se sentia muito receptivo depois do que ela havia dito.

Fez sopa de batata para o almoço. Quando entrou no quarto, ela baixou o rosto, evitando-o descaradamente.

Ele deixou o prato com uma colher na mesa de cabeceira e saiu. Passou a tarde na sala, estudando Segurança do paciente cirúrgico. Sentir-se produtivo e inteligente era algo de que gostava muito, mas que havia deixado de lado desde que viajara com Clarice. Notou que ela também havia cerceado alguns hábitos dele e soube que isso tinha algum significado.

À noite, Téo serviu o resto da sopa de batata no prato de Clarice. Entrou no quarto de modo relaxado, sem nenhuma vontade de conversar com ela. O desconforto queimava por dentro.

“Não consigo me lembrar do dia em que matamos o Breno”, ela disse como quem não quer nada, mas quer muita coisa.

Ele deu de ombros:

“Sei que você não lembra.”

“Como posso não lembrar?”

“O Breno te atacou e você sofreu um choque. É comum a perda de memória depois de um episódio traumático.”

“É perturbador. Como se tivesse um rombo na minha mente, algo em branco…”

“Aconteceu aqui mesmo, em Ilha Grande. Na primeira noite.”

“Como ele encontrou a gente?”

“Eu liguei pra sua mãe e contei que estávamos na Praia do Nunca. Ela comentou que o Breno ligava insistentemente pra sua casa. Passava trotes, fazia ameaças.”

“Ele não era assim.”

“Um homem cego de amor é capaz de muitas coisas. O

Breno nunca foi um bom namorado pra você. Ele surtou quando viu que estava te perdendo. Sua mãe concorda comigo.”

“Minha mãe não gostava dele.”

“O Breno sugava seu talento. Nunca reparou? Um sujeito mesquinho, sem muitas perspectivas.”

Téo sentou na cama, bem próximo dela.

“Você vai querer saber como aconteceu, é claro. Então vou dizer logo pra acabar com esse assunto. Era madrugada quando ele chegou num barco vagabundo que deve ter alugado em algum lugar. Estávamos na mesa da cozinha, conversando depois do jantar. Eu tinha feito panquecas, você lembra?”

“Me lembro das panquecas.”

“Era uma noite agradável. Eu estava feliz, e você parecia feliz também. Tinha gostado das panquecas e do molho que eu fiz pra salada.”

“Molho tailandês.”

“O Breno chegou pela porta da frente e já estava muito irritado.” Ele colocou pesar na voz: “Você caiu da cadeira, inclusive. Ele tinha uma faca. Disse que ia me matar e que te daria uma lição. Acho que ele pensava em te estuprar, Clarice”.

Refletiu sobre a história que tinha inventado e achou-a vulgarmente dramática.

“Nós lutamos. Você me ajudou a derrubá-lo. Não fizemos de propósito. Quando vimos, ele estava morto.

Você ficou assustada. Chorou bastante, mas conseguiu me ajudar a enterrar o corpo. Fizemos a cova no meio da floresta, nem lembro direito onde. Eu também estava nervoso.”

“Quero encontrar onde enterramos o Breno.”

Ele meneou a cabeça para as pernas de Clarice e ela entendeu o recado.

“Esquece isso, por favor.”

“E o barco dele?”

“Coloquei pedras no barco e afundei. Fiz tudo sozinho porque você tinha desmaiado. Achei que lembraria na manhã seguinte, mas você não comentou nada quando acordou. Preferi deixar o assunto quieto. Só depois reparei que você tinha se esquecido de tudo, apagado aquela noite da memória.”

“Eu me lembro de ter vestido o pijama na primeira noite. E de ter dormido depois.”

“Você deve estar imaginando… Ou talvez confundindo.

Depois do desmaio, resolvi te sedar. Você estava muito abalada e eu precisava fazer isso. Te dei banho e eu mesmo coloquei o pijama em você.”

“Eu nunca mataria o Breno”, ela disse, mas parecia dizer para si mesma, como se precisasse acreditar naquilo.

“Dias depois, estávamos na areia olhando o céu e você comentou ‘Sinto que Breno está morto’. Lembra?”

Ele viu os olhos de Clarice hesitarem. Ela realmente havia dito aquilo e agora pensava de onde tinha tirado aquela sensação. Era como se estivesse dividida em duas mentes desconectadas: o que ela acreditava saber e o que sabia de verdade.

“Achei que você tivesse se lembrado da morte do Breno e fiquei nervoso.”

“Falei só por falar.”

“Entendo que tenha esquecido. Mas seu inconsciente sabe o que aconteceu, mesmo que você não consiga

acessar a informação. Sem lembrar os fatos, você sentia que o Breno tinha morrido. Não era à toa.”

Téo não resistiu e riu em silêncio.

“Nós matamos o Breno, mas… ele estava armado e era perigoso.

Agimos

em

legítima

defesa.

Queria

sinceramente que você lembrasse.”

Ele quis continuar a falar, porém notou que Clarice não prestava mais atenção. Tocou suas mãos, mas ela o afastou como um inseto. Téo não considerou o gesto ofensivo, pois estava determinado a fazê-la acreditar nele.

“Tentei conversar com você. Falamos de morte, enterro e, bem, eu esperava que você se recordasse em algum momento. É natural que as informações voltem aos poucos. Eu não pretendia esconder nada. Guardei os óculos do Breno justamente por isso, para ter uma prova material. É um segredo só nosso, Clarice. Preciso que confie em mim como eu confio em você.”

Ela encolheu os ombros, mas não foi um gesto de indiferença. Seu corpo magro parecia um fio tenso e muito esticado. Ergueu a cabeça, mas, em vez de desviar o olhar, fixou os olhos nele, profundos como um abismo:

“Tem uma coisa estranha acontecendo, Téo. Sobre anteontem…”

“Como assim?”

Ele não gostou que ela tivesse mudado de assunto.

“Quando você me tirou do mar, eu… eu estava muito mal.”

“Você nem conseguia abrir os olhos direito.”

“Sim, mas eu não tinha desmaiado. Estava acordada e me lembro de você me carregando no colo ao sair da água. Eu me lembro de ter sentido minhas pernas.”

“Foi impressão.”

“Me lembro de ter sentido calafrios nos pés porque eu estava muito molhada e tremia. Entende o que quero dizer? Eu sentia, Téo. Sentia meus pés.”

Clarice chorava sem tirar os olhos dele, e o fato de ela estar inquieta o inquietava também.

“Apenas suturei suas lesões”, ele disse. “Está insinuando que eu errei ao fazer os pontos?”

Clarice agitou a cabeça e, nesse frêmito de segundo, sua expressão se tornou perigosamente cruel:

“Estou dizendo que você fez isso comigo, Téo. De propósito.”

“Não acredito que pense isso de mim.”

Quando ele se levantou, suas pernas fraquejaram sutilmente. Andava de um lado para outro. De modo muito ardiloso, ela havia conseguido provocá-lo e ele quis terminar a conversa naquele instante.