Dias perfeitos
Capítulo 20
“Deixa que carrego pra você”, ela disse, transferindo a lamparina para a mão direita e abraçando Téo pela cintura.
Ele refletia em que momento havia deixado de ser o protetor para ser o protegido. Com a morte de Breno? A suspeita de Helena? As sombras das árvores criavam figuras monstruosas em sua imaginação, sons indiscerníveis ditos pelas folhas agitadas. Vagaram por muitos minutos, desviando de galhos retorcidos e terrenos alagados. Era noite de lua cheia.
Téo estava distraído quando sentiu o impacto. O peso atingiu sua cabeça e ele caiu. O ponto luminoso voltou a atacar. Ele tonteou, gemeu, comeu terra. Viu o capuz vermelho, viu a luz. Então, enxergou Clarice. Ela girava a corrente da lamparina no ar e batia na cabeça dele.
Urrou de dor. Apoiou-se nos cotovelos arranhados, tentou se levantar, mas os joelhos também foram atingidos. O metal rasgava seu rosto e sangue escorria pelas bochechas. Implorou para que ela parasse, mas os golpes não cessaram. Sentiu o corpo amolecer e a escuridão avançar sobre seus olhos.
20.
O som vinha de dentro. Um bate-estaca que esmagava miolos e dispersava a consciência. Não conseguia falar, enxergar ou se mover. Um formigamento tomava o corpo, o que era bom sinal: ainda havia corpo. De resto, vazio e escuridão.
Então, a luz. Confrontava forças: o impacto da permanência e o desejo de escapar. Escapar do bate-estaca. A dor estava lá antes, enclausurada na caixa-preta do cérebro. A luz era externa. Piscou os olhos, forçou as pálpebras, mas não enxergou. Lâminas afiadas.
Doía muito, rasgava. As linhas criaram formas, as cores pintaram o cenário. Viu a cortina entreaberta; o sol iluminava o quarto com reflexos desenhados no teto branco.
Estava na cama. Os móveis derretiam feito cera quente. Seu nariz fritava. Aspirou, sentiu uma pontada em algum lugar. O grito ficou engasgado na laringe. Algo enchia sua boca, empurrando as bochechas e a garganta. A língua tateou o objeto estranho, sabor couro.
Forçou o objeto, tentou expulsá-lo. Estava preso à pele,
esgarçando os cantos da boca. Seu rosto ardia, coçava, ardia, coçava. Fazia um calor tremendo.
Os sentidos barganhavam com a dor. O metal que envolvia seus punhos e seus tornozelos. O colchão embolotado sob o corpo suado e sujo de terra. Uma lembrança: a luz forte da lamparina. A sombra no escuro.
Uma mulher com ódio. Clarice de casaco vermelho. Onde ela estava? A imagem de Clarice se fundiu ao movimento da porta. Outra Clarice surgia. Vermelho e escuro. Tenha piedade. Sentou próximo dele.
A mão fria tocou sua testa e ele pensou ter escutado a palavra suor. Não era delírio. Clarice falava alguma coisa.
Ele via os lábios dela se moverem como numa televisão ligada no mudo. Forçou o cérebro ao silêncio.
“Desculpa, não sou muito boa nisso”, ouviu-a dizer.
A dor voltou. Brutal. O ruído lancinava a cabeça.
Viu a agulha penetrar seu antebraço envolvido por um elástico frouxo. Clarice empunhava a seringa, puxava o êmbolo grosseiramente.
“Nunca encontro essa veiazinha de primeira”, ela disse, sorrindo.
Quis gritar. Seus olhos pesaram, a cabeça rodopiou. Viu o espectro de Clarice se levantar, passar as mãos por suas bochechas num carinho discreto.
“Boa noite, meu ratinho.”
Era noite quando Téo acordou, ofegante. Estava assustado e levou muito tempo para se recuperar. A respiração pressionava o tórax, aumentava a sensação de afogamento. Uma bola de eletricidade percorria todo o corpo, provocando reações involuntárias. Empinava os
quadris, as pernas tremiam, o abdômen se contraía em espasmos. Precisava de água, precisava de comida, precisava ir ao banheiro. A bexiga estava inchada, fazendo pressão na altura da virilha. Por milagre ele não tinha se mijado.
Tentou agitar os braços, mas não conseguiu. Seus punhos continuavam presos aos pilares da cama de madeira, as mãos erguidas sobre a cabeça, forçando os ombros. As escápulas convidavam novas dores: Venha, dor, venha! As correntes das algemas repuxavam os braços dormentes, com dez centímetros de liberdade. O
corpo havia escorregado pelo colchão, de modo que os músculos se esticavam ao máximo, formigando da ponta dos dedos até a base do pescoço.
Girou o braço para enxergar as cicatrizes nos cotovelos, cobertos de sangue seco. A camisa social usada na noite de Natal — a noite anterior? — tinha se rasgado, deixando entrever o mamilo esquerdo. Ele buscou uma posição melhor. Apoiou a cabeça contra a cabeceira, forçou o corpo para cima, arqueando as pernas para impulsionar o movimento. A tentativa foi vencida pela gravidade: os pés se dobraram, as nádegas quicaram no colchão, a coluna rangeu.
O quartinho da casa de praia parecia inesperadamente sufocante. A janela estava fechada e coberta por uma cortina de passarinhos azuis. O colchão engolfava uma espuma amarela, a sombra da cabeceira cobria a porta num lastro discretamente perturbador. O terrierde porcelana sobre a mesa de cabeceira o encarava com pena. Abaixo da janela havia um carrinho de mão. Até onde ele se lembrava, antes não havia carrinho de mão.
A constatação era inútil, pois antes ele também não
havia reparado na cortina de mau gosto. Tudo era muito grande e próximo agora.
A valise onde havia guardado os óculos de Breno estava sobre a cômoda, numa altura pouco superior à linha dos olhos. Ele conseguia ver o fecho com senha e teve a impressão de que o marcador de dígitos estava reluzente, como se alguém o tivesse polido. A ideia de Clarice polindo os dígitos — buscando a senha para abrir a valise — produziu nele um terror vítreo.
Esforçou-se para ficar calmo. Sabia que Clarice queria atormentá-lo. Uma insistente autonegação a impedia de enxergar os benefícios do relacionamento deles. De certo modo, ele entendia essa breve confusão, mas queria esclarecer. E perdoar.
Ela entrou no quarto pouco depois, trazendo um copo d’água na mão direita. Vestia um macacão branco e uma tristeza inesperada. Com a cabeça baixa, os olhos caídos e a boca encerrada numa expressão séria, parecia possuída pelo demônio. Estagnada diante da cama, movia lentamente o tronco para a frente e para trás.
“Clarice, por favor, fala comigo.” Ele quebrou o silêncio e só então notou que estava sem a mordaça. Sua voz saiu poeirenta, mas firme. Não acreditava em possessões, mas os últimos acontecimentos podiam ter condenado Clarice a sérios transtornos psicológicos. “Fala comigo. Está tudo bem?”
“Bebe.”
Ela esticou o copo d’água.
Téo moveu os braços erguidos, mas as algemas deixavam suas mãos a mais de vinte centímetros de distância. Forçou as correntes, arranhou os punhos, não
era suficiente. Engoliu em seco. Não sentia mais nada.
Apenas sede.
“Por favor, chega mais perto.”
Ela levantou a cabeça, sorriu para Téo, mas não se moveu nem um centímetro.
“Deixa de ser preguiçoso. Vamos, bebe.”
“Não consigo.”
Clarice tirou os olhos dele, encarou a mão que envolvia o copo e tornou a olhar para ele. Seus olhos pareciam buracos negros.
“Puxa, eu sinto muito!”, disse. Seu tom era irritantemente meigo. Deitou a cabeça sobre o ombro, mantendo firme o sorriso no rosto. “Eu também estou com sede.”
Bebeu o copo diante dele, marcando as longas goladas.
“Quer se vingar de mim?”, ele perguntou. Seu rosto tinha voltado a arder e a coçar.
“Está com fome, querido?”
Sem esperar resposta, ela saiu do quarto e voltou trazendo um cacho de bananas. Na mão esquerda, empunhava uma faca de lâmina comprida.
“O que está fazendo?”
Ela sentou na cama e arrancou uma banana do cacho.
Desceu a casca. Estavam a poucos centímetros: ele chegava a sentir seu perfume, agora adocicado demais.
Quis tocá-la, mas teve medo.
“Dei uma arrumada na casa. Estava cheia de poeira e de insetos mortos! Basta a mulher ficar um pouco presa que tudo vira bagunça”, ela disse. “Encontrei um lindo jogo de facas debaixo do sofá.”
Fatiou a banana de modo desajeitado, pois a faca era muito grande e pesada. Colocou uma fatia nos lábios de Téo e ele não resistiu. Estava faminto. Mastigou lentamente, pensando no que dizer a ela.
“Por que não me solta?”
“Está tão gostoso assim!”
“O que vai fazer comigo?”
“Ai, para com essas perguntas embaraçosas!”, ela gritou, como uma menina de quinze anos que encontra uma barata no banheiro. Serviu outra fatia na boca de Téo com certa agressividade e esperou que ele mastigasse. “Chegou a ver seu novo transporte?”
Apontou o carrinho de mão. Só então ele reparou que as rodas estavam sujas de terra.
“Precisei dele para te trazer até aqui. Você é bem pesadinho, sabia?”
“Para com isso. Vamos conversar sério.”
“Você tem que fazer uma dieta. Quanto você pesa?
Mais de cem?”
“Isso não está certo, Clarice. Vingança…”
“Vingança?” Ela sorria, e seu sorriso era tão hipócrita que Téo se sentiu embaraçado. “Eu não entendo o que quer dizer, querido. Só estou mostrando o que sinto.”
“Tudo o que fiz foi pro seu bem. Pensando no seu bem.”
“Eu agradeço.”
“Clarice, você não é má.” Ele fazia questão de dizer o nome dela, pois, numa abordagem psicológica, isso servia para aproximá-la dele. “A raiva leva a sentimentos ruins.”
“Estou com sentimentos bons, te garanto. Arrumar a casa me fez bem.” Ela girou os olhos pelas paredes e
levantou-se como se lembrasse de uma tarefa inadiável.
“Encontrei muitas coisas interessantes.”
Mais uma vez, saiu apressada. Através da porta aberta, Téo via parte da mesa da cozinha e da bancada metálica da pia. Havia uma pilha de louça esperando para ser lavada, e ele pensou quanto tempo tinha passado para que Clarice houvesse sujado tantos pratos. Pensou também se ela estava mentindo ao dizer que arrumara a casa.
“Aproveitei esse tempo para refletir”, ela disse ao voltar. Deitou a maleta dele na cama. O clique quase imperceptível das trancas fez Téo sentir náuseas. Ele relanceou os olhos para a valise sobre a cômoda antes de voltar a atenção para as mãos de Clarice. Viu-a abrir a embalagem de uma nova seringa e encaixar a agulha, rosqueando até travar.
“Por favor, não me seda.”
Ela concordou levemente com a cabeça, sem se importar. Era um desrespeito.
“Posso acabar contaminado!”
“Isso não vai acontecer, querido.”
Téo quis responder, mas qualquer argumento soava incoerente. Do seu ponto de vista, deitado com os braços erguidos acima da cabeça e com vontade de mijar, Clarice parecia uma daquelas enfermeiras mórbidas de filmes de horror. Agora, em vez de achar graça, ele estava apenas assustado.
“Quer mais banana?”, ela perguntou. Sacudia uma ampola de Thiolax diante dos olhos, medindo a quantidade de solução.
Ele continuava com fome, mas disse:
“Estou decepcionado com você. Não acredito que vai me sedar de novo…”
Clarice sentou a centímetros dele e o encarou profundamente. Seus olhos faziam com que ele se sentisse de um jeito inédito. Era como se ela soubesse da morte de Breno e acreditasse que toda a culpa era dele.
“Nos últimos dias, eu pensei bastante…”, ela disse.
Injetou a agulha na ampola, aspirando a solução aquosa para o cilindro. Restava uma quantidade ínfima de líquido e, se ele não estava enganado, aquela era a penúltima ampola. “Pensei nas nossas primeiras conversas, nos seus artifícios para me conquistar… Presa por algemas, amordaçada…”