Dias perfeitos

Raphael Montes · Capítulo 29 de 32

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Dias perfeitos

Capítulo 29

A conversa se estendeu por alguns minutos. O

delegado quis saber detalhes do acidente de carro e do roteiro de Clarice. Perguntou também o nome do motel onde eles haviam dormido. Por fim, disse que talvez voltasse no dia seguinte e deixou um cartão com o

telefone da delegacia. Téo sentiu que seu corpo estava muito quente e ficou ainda mais irritado com aquela reação física. Despediu-se de modo seco, mesmo não querendo parecer rude.

Patrícia teve a sensibilidade de não fazer perguntas.

Durante toda a tarde, ela montou colares de contas em silêncio. Téo era uma máquina em funcionamento.

Acabou concluindo que não havia ido tão mal. O que o delegado tinha contra ele no fim das contas? Era estranho que Aquino não houvesse mencionado as algemas e o separador de pernas, mas isso não significava nada. Téo fechou os olhos, ainda deprimido, mas sem se perturbar. Fosse o que fosse, tinha a sensação de que ninguém conseguiria pegá-lo.

29.

O delegado não apareceu na manhã seguinte, o que pareceu entristecer Patrícia. Pouco depois do almoço, Téo recebeu alta. Ele ainda sentia dores nas pernas e no tórax, como se tivesse o corpo esfarinhado, mas não reclamou e quis visitar Clarice. Patrícia negou com veemência e ele aceitou ir para casa. Tomaram um táxi, o que fez Téo se lembrar do Vectra.

“Perda total”, a mãe disse.

O sol entrava pela janela, ressaltando os vincos de velhice no rosto de Patrícia. Téo achou incrível que o mundo continuasse exatamente como antes. Ao entrar no apartamento, passeou os olhos pelos móveis, esperando involuntariamente que Sansão aparecesse para cheirar suas pernas. A depressão o invadiu em cheio.

Foi à cozinha tomado pela percepção de que entrar no quarto significaria retornar à sua vida tediosa. Em pouco tempo, estaria limpando janelas e carregando Patrícia para a igreja na cadeira de rodas. Aquela imagem emplacou certo desespero nele. Téo bebeu água, abriu e fechou a porta da geladeira. Tirou as roupas e entrou

debaixo do chuveiro. A água estava muito fria. Ele só conseguia pensar em sua vida antiga e na vida que tivera com Clarice. Pensava também no fato de que ela estava entubada em algum lugar que Patrícia se recusava a revelar, e isso o deixou ainda pior.

Deitou-se no escuro, resgatando os instantes em que tinha estado ali com Clarice. Era bem diferente agora.

Havia um cheiro de tragédia iminente no ar — as sensações têm cheiros, e ele era capaz de senti-los às vezes.

Patrícia pediu pizza. Téo comeu apenas duas fatias e assistiu à televisão, impaciente com os dramas da novela.

“Você parece preocupado”, Patrícia disse.

“Sim, um pouco.”

“Amanhã te levo no hospital pra ver a menina.”

Ele agradeceu e mentiu que estava com sono. Tentava pensar no que dizer a Helena quando a encontrasse.

Tinham se visto apenas uma vez, mas ele havia conversado com ela por telefone tempo suficiente para que desejasse evitá-la. Cogitou visitar Clarice num horário em que Helena não estivesse lá, mas ela devia estar ao lado da filha toda hora e, de qualquer modo, não havia como prever isso. Ficou rolando na cama, sem que os pressentimentos ruins o deixassem por um instante sequer.

O maior incômodo em cuidar de um deficiente é que a deficiência retarda. É preciso esperar dez minutos para trocar uma calça, quinze minutos para ir ao banheiro e mais de meia hora para conseguir um táxi de

cadeirantes. O horário de visitação tinha começado havia uma hora e Téo subia a rampa do hospital empurrando a cadeira de rodas com Patrícia falando qualquer coisa sobre uma reportagem de acidentes em estradas que havia passado na TV. Era cada vez mais penoso sorrir para ela. Ele reparou que estava com reações retardadas, mas perceber isso não serviu para nada. Continuava a se sentir péssimo. Girou a aliança no anelar e informou à recepcionista que era noivo da paciente.

“Só pode entrar mais um”, a recepcionista disse, entregando o crachá de acesso a Téo.

O hospital era muito organizado, com segurança intensificada e certificação digital. Clarice devia ter sido transferida logo após o acidente, ele observou. A família Manhães, moradora do Jardim Botânico, não deixaria a filha num hospital público por muito tempo. Téo precisou estacionar Patrícia em um canto, mas ela havia trazido seus colares de contas — perder horas naquilo era algo como dedicar-se à sua vocação.

Ele avançou pelos corredores, muito atento. Seu amor pela medicina voltou por completo. Como era possível que ele tivesse se esquecido daquela sensação e só pensasse em Clarice? Entrou na UTI e enxergou o box dela a alguns metros.

Mal conseguia vê-la, deitada sob lençóis, conectada aos monitores e ao painel de oxigênio; mas reconheceu Helena. Ela parecia derrotada, exausta, inclinada sobre o leito da filha. Téo arregalou os olhos, tremeu levemente, embora soubesse que seu medo não fazia sentido: Helena era apenas uma mãe desconjuntada.

Pensou em recuar, mas ela levantou a cabeça no mesmo instante e dependurou os olhos nele:

“O que você fez com a minha filha?”

Ele teve dificuldade para articular as ideias. Sem perceber, deu três passos para trás. Havia um homem desconhecido junto de Helena e ele concluiu que era o pai de Clarice. Estavam ali os responsáveis por gerar a mulher que ele amava, os dois só farrapos. O homem abraçou Helena pelas costas e fez um carinho em seus ombros.

“Calma, querida.”

“Eu não…” A voz de Helena fraquejou. Ela se curvou ainda mais sobre os braços nus e Téo se exasperou com seu jeito abobalhado. Chegou mais perto, disposto a enfrentar qualquer hostilidade. Estava no direito de visitar sua noiva e pouco importava o que Helena pensasse dele.

Clarice parecia uma boneca de porcelana que havia se quebrado ao cair no chão. Agora, os médicos tentavam juntar os cacos da melhor forma possível: monitores cardíacos,

vácuo

para

aspirações,

substâncias

intravenosas. Curvando-se sobre a cama, Téo analisou os contornos do corpo que um dia tinha sido esbelto e excitante. A decadência de Clarice contribuía para arruinar seu humor e a ideia de ter ido ali começava a parecer estúpida. Helena chorava silenciosamente nos braços do marido. Ele chegou a elaborar um pedido de desculpas que se perdeu no meio do caminho.

Téo sentia que cada cicatriz no corpo de Clarice era um estigma em suas costas. Conseguia notar a raiva sob as pestanas trêmulas dela, o repúdio nos lábios secos. Teve medo, embora ela estivesse sedada.

“Quero que vá embora”, Helena disse.

Em cima do carrinho de ventilação mecânica, havia um porta-retratos de Clarice mais jovem, talvez com quinze anos. Ela estava ao redor de uma mesa de aniversário, abraçada aos pais, e usava um vestido colorido. Téo desejou estar na foto. Talvez Helena o deixasse colocar uma foto de casal sobre o carrinho de ventilação mecânica também. Antes, ele precisava ser gentil.

“Eu sinto muito”, disse, com sentimentos verdadeiros, pois realmente achava lamentável que as coisas tivessem chegado àquele ponto.

“Isso é sua culpa!”

“Foi um acidente. Não pude fazer nada.”

“Um acidente? Estou há meses sem falar com a minha filha! E agora…”

Téo se movia com suavidade pelo quarto. O cansaço pesava em seus ombros por uma duração bem maior que vinte e quatro horas.

“Ainda estou confuso. Eu…”

“Quero que me explique agora.” As mãos de Helena palpitaram. “Não aguento mais as enrolações que você…”

“Deixe o rapaz falar, querida”, o marido disse.

Helena estava muito branca e acabada. Téo se deu conta do quanto ela era parecida com Clarice: o mesmo medo primitivo, o mesmo vigor ao intimidá-lo. Naquele momento, Helena tinha expressão idêntica à de Clarice ao descobrir que Breno estava morto.

“Não quero que minta pra mim!”, ela disse.

Téo concluiu que ele e o marido de Helena cumpriam papéis semelhantes no relacionamento: dosar de razão o furor sentimental da mulher. Não queria parecer insensível, mas adotou um tom realista ao narrar os

instantes que antecederam o acidente de carro, acrescentando detalhes que surgiam à mente enquanto falava. Explicou que Clarice tinha batido nas rochas quando nadava em Ilha Grande. Sentia-se mais à vontade para falar do assunto, chegava mesmo a mentir com maior facilidade. Helena estava muito perturbada e tentava retrucar qualquer coisa.

“Tenho tanto medo de que a Clarice…” De repente, ela não conseguiu falar. Parecia ferida. Sua garganta se apertara. Ele teve o impulso de ajudar, mas se sentia rejeitado.

“A Clarice vai ficar bem”, ele disse, embora não acreditasse muito naquilo. Preferiu não contar que ela não podia mais andar.

Helena suspirou e fez sinal para que ele se aproximasse. Sorriu de um jeito que tocou Téo como Patrícia não havia conseguido tocar. A mão dela estava fria, mas era confortadora. Ele tomou o cuidado de não fixar os olhos em Helena. Não queria constrangê-la.

“Desculpa despejar tudo em você. É só que estou me sentindo a pior mãe do mundo”, disse. Tinha voltado a chorar. Ele queria sentir uma dor solidária, emocionar-se com a emoção dela, mas tudo o que conseguia era deixar os olhos levemente molhados. Teve impulso de contar toda a verdade sobre Breno, sobre a tentativa de suicídio de Clarice, mas desistiu. Ele os estava poupando de uma história sórdida.

“Busca um café pra mim?”, Helena pediu ao marido.

Ele concordou e Téo pensou que teria um momento bonito com ela — os dois se abraçariam e compartilhariam esperanças nos ombros um do outro —, mas Helena enxugou os olhos e sua expressão mudou:

“Fale sobre o desaparecimento do Breno.”

“Nunca vi o Breno. E a Clarice não comentava muito sobre…”

“Para de mentir.” Helena olhava para ele, ansiosa, mas longe da histeria. Havia recuperado o ar de superioridade que ele temia. “Nossa família vai ao hotel dos anões há anos. Sei que o Breno esteve lá naquele dia. O Gulliver me contou.”

Téo se apoiou no leito de Clarice e baixou os olhos. Sua cabeça girava, reexaminando fatos e não escolhendo nenhum. Cogitou esmurrar Helena, enfiar um bisturi em sua jugular, mas eles estavam num hospital particular e não seria possível sair dali de nenhuma maneira.

Precisava encarar o fato de que ela sabia. Sabia muito mais do que ele havia pensado de início, e era bem possível que soubesse de tudo.

“Logo depois de passar lá em casa, o Breno subiu pra Teresópolis”, ela disse, com o mesmo sorriso de Clarice, os mesmos dentes protuberantes. “O Gulliver me confessou que viu um homem chegando ao seu chalé naquela madrugada, mas pensou que fosse você mesmo.

Era você?”

“Sim, possivelmente.”

Ele estava prestes a desmaiar.

“Na manhã seguinte, o Gulliver encontrou o cadeado da porteira de acesso aberto. Alguém tinha passado por ali a pé.”

“E o que isso prova?”

“O Breno está morto. E você fez isso.”

Téo quis ir embora. Era ridículo, ofensivo, vulgar.

“Vou te contar o que eu fiz também”, Helena continuou. “Sou advogada, você sabe. Esse delegado

Aquino está farejando tudo de perto e parece cismado com você e com a Clarice. Não quero minha filha envolvida num escândalo. Sinceramente, não me interessa se o traste do Breno está morto. Não me importo que você o tenha matado.”

“Eu não…”

“Pedi ao Gulliver pra alterar a data do registro de saída de vocês para dezoito de novembro. O Breno só desapareceu no dia vinte. Estou do seu lado, mas quero que me conte a verdade.”

Téo suspirou, encarando Helena. Aquela conversa parecia um pouco irreal. Sabia que qualquer coisa que dissesse seria de grande importância e não podia dizer a coisa errada.

“O Breno apareceu em Teresópolis naquela noite.

Estava muito transtornado e tinha trazido uma faca pra obrigar a Clarice a voltar com ele. Ele tinha bebido também. Cheirava a cachaça. Nós lutamos e, quando vimos, ele estava… caído no chão… morto. Não tivemos a intenção de fazer isso. A Clarice ficou desesperada. Eu também. Nenhum de nós é um assassino.”

Uma alegria insana fez Téo sorrir levemente:

“Enterramos o Breno na mata do hotel. Foi tudo muito rápido, pareceu até sonho. Mas aquilo mexeu com a Clarice. Ela se fechou totalmente. Não queria falar com ninguém. Recusava-se a voltar pro Rio. Não queria falar com você, disse que não entenderia.”

Helena encolheu os ombros. Téo percebeu o movimento, ainda que houvesse sido muito sutil.

“A Clarice enlouqueceu. Passou a dizer que a culpa era minha. Tinha a sensação de estar sendo perseguida, mas ela mesma criava essas situações. Certa vez, chegou a

dizer que não tinha me convidado a Teresópolis e que queria que eu a deixasse em paz. Tinha voltado a fumar e sentia falta de uma Laura… Vivia repetindo o nome dela.”

Téo mencionou cuidadosamente o nome de Laura, pois supunha que Helena também não gostasse dela.

“Nos últimos dias…” Sua voz ganhou um tom ofendido.

“Nos últimos dias ela me acusou… Disse que eu a mantinha presa.”

“Presa?”

“Sim, eu… Eu confesso que fiz isso duas vezes. Só duas vezes, Helena. Ela teve um surto daqueles. Isso foi em Ilha Grande. A Clarice andava muito deprimida e…

Você acha que agi errado? Eu precisava dar limites a ela.

A Clarice não se machucou sem querer em Ilha Grande.

Na verdade, ela se jogou no mar tentando acabar com a própria vida.”

Helena levou a mão ossuda à boca.

“Eu só estava tentando cuidar dela. Estanquei o sangue, fiz os pontos. Mas ela se revoltava com facilidade. Queria se entregar à polícia. É tudo muito triste. A mulher que eu amo. A mulher que aceitou se casar comigo.”

Téo fingiu enxugar uma lágrima que descia pelas bochechas.

“Tentei te privar disso tudo.”

“E o acidente de carro?”

“Eu não sei.” Ele estava aliviado em poder se abrir com alguém, mesmo que uma pequena fresta. “Pensei muito nisso. Às vezes, tenho certeza de que foi mesmo uma fatalidade. Pouco tempo antes, eu e a Clarice voltamos a ficar bem. Ela estava com uma rotina mais saudável,

havia deixado de fumar outra vez e já aceitava que a morte de Breno havia sido necessária.”

“Acha que ela pode ter desviado o carro de propósito?”

“A Clarice já tinha tentado se matar uma vez, em Ilha Grande. Ainda que estivesse melhor, penso que ela pode ter tido uma recaída… Ter voltado a pensar em Breno, em Laura e nos cigarros… Todas essas coisas que a afastavam da vida em família.”

Pensou em falar dos hábitos lésbicos de Clarice, mas achou indevido. Helena continuava a encará-lo com seus olhos especulativos e ele se preparou para uma nova série de perguntas. O pai de Clarice voltou ao box, trazendo café para todos. Téo agradeceu a gentileza.

Helena havia recuperado a expressão amedrontada e tinha se agarrado ao marido. Naquele instante, ele teve a percepção de que todas as mães eram como ela, dissimuladas, interesseiras e muito espertas na hora de proteger seus filhos.

Despediu-se. Estava entediado, embora a conversa o tivesse deixado alerta pelas próximas horas. Concluiu que Helena estava do lado dele e continuaria a apoiá-lo, pois ela também não gostava de Breno nem de Laura nem do passado de Clarice. Era uma vitória, ainda que passageira. Quando Clarice acordasse, ele passaria por mentiroso ou por covarde; nenhuma das opções era muito elogiosa. Estava vivendo um dos momentos mais desagradáveis de sua vida. Sua perturbação era motivada por sensações contraditórias: emocionalmente, desejava ter Clarice de volta, repleta de vida, espontaneidade e sarcasmo; mas bastava pensar um pouco para concluir que o melhor mesmo era que ela não acordasse.