Dias perfeitos

Raphael Montes · Capítulo 21 de 32

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Dias perfeitos

Capítulo 21

“Clarice, eu peço desculpas.”

“Não me interrompa.” Dessa vez a voz saiu chorosa.

“Pensei muito no que aconteceu, Téo. E me esforcei pra entender. Me coloquei no seu lugar. Tudo isso parece loucura, mas você queria que eu me apaixonasse por você. Queria que eu te amasse como você me ama.” Ela envolveu o elástico no antebraço dele e passou a gaze com álcool pela face interna enquanto tateava as veias com os dedos frios. “Nossa história não pode acabar assim. Você não merece isso. Nós não merecemos isso.”

Ele estava confuso.

“Você teve a chance de me mostrar seu lado”, ela disse, enxugando uma lágrima. “Você nutre um sentimento por mim, entendo. Mas chegou minha vez. Eu também nutro um sentimento por você. E quero te mostrar isso.”

Ela meneou a cabeça para a porta. Esticou a pele do braço de Téo e pressionou o êmbolo vagarosamente.

“Agora vamos dormir.”

21.

Téo foi acordado com um balde de água gelada. O

choque térmico fez seu corpo tremer e o bate-estaca retomar com vigor. Era dia claro. A cortina fechada concedia uma penumbra agradável: poucas réstias de sol entravam próximas ao teto, acima de sua cabeça. Ele suava frio, gritava. Quando a dor deu trégua, viu Clarice na porta, rindo a valer enquanto sacudia o balde vazio.

“Meu Deus, você parece assustado!”

Ela agitou a cabeça num gesto solene. Aquele movimento, antes encantador, revelava toda a sua perversidade. Clarice o esnobava e parecia se divertir com isso. Voltou ao quarto com o balde cheio, carregado de modo irregular pelos braços finos.

Retirou uma esponja encharcada do balde e esfregou as pernas de Téo. A textura arranhava a pele, retirava crostas e fazia sangrar sulcos abertos. Era insuportável.

Ele movia as pernas inutilmente.

“Deixa de ser frouxo”, ela disse, em tom severo e ao mesmo tempo maternal. “Você está com uma aparência péssima. Veja.”

Desenganchou o espelho da parede. Téo ficou chocado ao ver seu reflexo. Estava irreconhecível, marcado por inchaços, cicatrizes e pus amarelado. Cacos de vidro pareciam ter rasgado seus traços faciais. A bochecha direita havia se transformado numa grande bola roxa sobre a qual nasciam pelos da barba. Ele fedia. Como Clarice o tinha deixado naquele estado? Por trás do espelho, ela sorria, um tanto corada.

“Por que está rindo?”

“Acordei de bom humor.”

Ela colocou a mão esquerda por trás da cabeça dele, fazendo-o recostar. Com a direita, ergueu um barbeador.

A lâmina estava enferrujada e possivelmente já tinha perdido o fio. Ele quis baixar a cabeça, mas Clarice o prendeu pelo queixo. Enxaguou suas bochechas, passando sabão de coco pelo pescoço e ao redor da boca. Posicionou a lâmina na altura da veia jugular e raspou a espuma com cuidado.

Téo imaginou que ela estava prestes a matá-lo. E a ideia não soou tão ruim. Seria um alívio que os problemas se resolvessem por um corte indolor. Ficariam para trás a mãe com suas deficiências, Helena com seu desespero e Clarice com sua vingança ridícula. Era um acerto de contas às avessas. Como um mártir, ele precisava morrer para que sentissem sua falta.

“Por que não me mata?”

Clarice parou de barbeá-lo. Soltou um longo suspiro enquanto pressionava sutilmente a lâmina contra sua pele.

“Não sou como você”, disse. Então, continuou a escanhoá-lo com a diligência de antes. Secou seu rosto

com a ponta do lençol imundo. O cheiro de urina no tecido era forte.

Téo se sentia estranho; algo grotesco e repugnante fazia parte dele agora.

“Me deixa tomar banho.”

“Você está bem melhor assim.”

Clarice cuidou do rosto dele, aplicando pomadas e gazes encontradas na maleta. Ele tentou instruí-la a aplicar do jeito correto e menos doloroso, mas ela ignorava. Devolveu o espelho à parede e arrastou uma cadeira da cozinha para o quarto. Sentou-se, esticou as pernas para a cama e sacou um maço de cigarros do bolso.

“Fui mexer nas suas coisas e encontrei esta preciosidade.”

Queimou a ponta do cigarro com a chama da lamparina. Tragou o Vogue, enchendo as bochechas de fumaça e fechando os olhos num deleite. Lançava baforadas na direção dele como uma criança travessa.

“Pensei que quisesse conversar comigo.”

“Quero que tire essas algemas.”

“Não posso fazer isso, você sabe.”

“Você pode e vai. Não entrarei na brincadeira.”

“Só quero me divertir um pouco.”

Ela estava muito confortável, pois tragava o cigarro e roía as unhas com displicência. Téo sentiu a dor da traição por tudo o que havia feito por ela e que não recebia em troca. Revirou os olhos e, só então, percebeu que a valise não estava mais sobre a cômoda. Aquilo o perturbou de forma inesperada. O gosto de menta no ar esfumaçado transformou a impaciência em fúria e ele desejou machucar Clarice também.

“Não seja insolente, sua piranha dos infernos!”

Ela sorriu, sarcástica e babaca. Tragou o cigarro com força:

“Caralho, como eu senti falta disso aqui!”

“Me solta!”

“Para de me irritar ou terei que usar os separadores em você, ratinho.”

Ele engoliu em seco. Imaginar-se naquela cruz o desamparava.

“Me desculpa…”

“Quer um trago?”

“Você sabe que eu não fumo.”

“Só um cigarro!”

“Vai realmente continuar com essas merdinhas provocativas?”

O rosto dela escureceu como o céu antes da tempestade e, então, desanuviou-se:

“Merdinhas provocativas? Você é ótimo, Téo. Merdinhas provocativas!”

Clarice amassou o cigarro nas mãos, o fumo escapou pelos dedos. Seus olhos vermelhos expulsavam lágrimas, enquanto o corpo magro tremia num riso convulsivo.

Tentou se conter, engoliu as risadas e fixou os olhos vazios nele:

“A piranha dos infernos vai fazer merdinhas provocativas até você chorar de desespero…”, ela disse, com uma expressão indefinida. Encostou a ponta do cigarro no mamilo dele e deixou que a carne queimasse.

Ele urrava. “Sua sorte é que o celular não pega aqui.

Quando a velha chegar, vou te entregar pra polícia e todo mundo na cadeia vai fazer com você o que fazem com filhos da puta estupradores!”

Clarice pegou a mordaça com arreio na cabeceira e fechou a boca dele. Téo encarava a situação num misto de indignação e ódio. Estuprador? Se pudesse, ele mataria Clarice naquele segundo. Mataria e jogaria seus membros no mar sem qualquer remorso. Teria até algum prazer nisso.

Durante toda a tarde, ela não voltou ao quarto. Ele a via passar de um lado para outro, vassoura e balde em mãos. A imagem de Clarice dona de casa tinha algo de reconfortante, mas o fato de ele estar preso à cama, com o rosto desfigurado, o peito em carne viva e os arreios contra suas bochechas, conferia certa sordidez à situação.

Clarice não dava trégua. Após a troca de ofensas, ele havia pedido desculpas e implorado para que ela baixasse seus braços: já não conseguia sentir os cotovelos, muito menos os dedos. Precisava que o sangue circulasse para evitar a atrofia dos membros. Conservava em si o rancor, porque isso fazia com que se sentisse vivo. Revirava a mente em busca de argumentos que pudessem dobrar Clarice, mas, em algum recanto de si mesmo, acreditava que ela se convenceria sozinha e entraria no quarto para livrá-lo das algemas. Pediria desculpas, diria que não sabia onde estava com a cabeça. Daria um beijo em sua boca e soltaria algum palavrão engraçado para acalmar os ânimos.

Téo concluiu que ela o desprezava porque a intimidade gera desprezo. Não fazia por maldade, mas para descontar uma raiva acumulada. A raiva é o pior

sentimento em uma relação. Era preciso deixar que ela extravasasse.

Imaginou como se chamariam seus filhos (Dante, menino; Cora, menina), imaginou a alegria de Patrícia ao ver os netos e qual carreira as crianças seguiriam (teriam a veia artística da mãe ou a metódica do pai?).

Era estranho pensar nessas coisas e, ao mesmo tempo, guardar mágoa de Clarice, mas ele conseguia separar bem os sentimentos. Ela era como todas as mulheres; sorria num minuto para se debulhar em lágrimas no instante seguinte. Ele precisava ser compreensivo. Com Gertrudes, não havia atritos, mas também não havia amor. Apenas Clarice tinha sido capaz de tirá-lo da rotina faculdade-casa-laboratório. E ele não queria voltar. Se pudesse, viajaria para sempre. Não precisava que Clarice o amasse de volta. Melhor amar sem ser correspondido do que não amar.

Ao fim da tarde, ele ouviu o barulhinho vigoroso das teclas do notebook. Talvez o roteiro e toda a ajuda dele no processo criativo conduzissem Clarice à percepção de que aquela era uma vingança injusta. Ele ficou satisfeito que ela tivesse voltado a escrever, pois sabia que toda a fúria seria canalizada na criatividade.

Já era noite quando o apito da bateria indicou que o computador desligaria. Não havia como recarregá-lo. Téo acompanhou os sons: o notebook sendo fechado, passos até o quarto ao lado, a torneira da pia sendo aberta e então fechada. Depois, o silêncio. Quando Clarice apareceu na porta, ele gemeu, implorando que ela tirasse a mordaça.

“Espero que se comporte”, ela disse. Desafivelou a mordaça. “Incomoda, né?”

“Preciso ir ao banheiro.”

Ela usava um vestido azul que lhe caía bem no corpo.

Seu corpo era lindo, de mulher-feita. Ele notou que nunca havia dito isso a ela. Mulheres gostam de ser elogiadas, ainda que ela talvez não gostasse de receber elogios naquelas circunstâncias.

“Por favor, preciso ir ao banheiro”, acabou repetindo.

Ela esboçou um gesto de desalento e se virou para ele.

“Não posso te tirar daí até que a velha chegue. Me desculpa.”

“Olha, acho que começamos com o pé esquerdo… A gente estava se dando tão bem. Entendo que você queira se vingar…”

“Não é vingança, já disse.”

“Tudo bem, não é vingança. Eu entendo que você faça o que está fazendo. Mas preciso que pense um pouco. E

que me escute. Não posso continuar sendo tratado assim. Sou humano. Tenho necessidades.”

Uma expressão severa tomou conta do rosto de Clarice. Seu lábio inferior tremia espasmodicamente:

“Você fala como se eu te mantivesse preso.”

“Eu estou preso!”

“Depois da nossa conversa, concluí que talvez você tenha alguma razão”, ela sorriu, e o sorriso a fez parecer mais perigosa. “Eu deveria te matar.”

O pomo de adão de Téo subiu e desceu.

“Essa ideia me atormentou a tarde inteira. Cheguei a fazer uma lista. Aqui tem muitos lugares bons pra desovar um presunto, se é que me entende.”

Pegou um papel e uma caneta transparente na gaveta da cômoda.

“Veja se esqueci alguma coisa”, disse, batendo a caneta no papel. “Número um: matar Téo. Acho que você merece uma morte lenta. Descartei faca na garganta.

Descartei arma também, porque não temos munição. O

que acha de afogamento?”

“Não seja idiota.”

“Acha ruim? O.k.” Ela riscou o papel. “Enterrado vivo então. Parece legal. Terei um trabalhinho pra cavar um buraco bem fundo. E estou indisposta pra fazer isso hoje.

Quem sabe amanhã?”

“Vai mesmo me matar?”

“Número dois: dar explicações à velha”, ela leu. “Como é essa velha? Do tipo burra? Ou terei que pensar numa boa desculpa?”

“Para com isso.”

“Pensei em contar a verdade, mas acho que ela não entenderia. A mesma coisa pros números três e quatro: dar explicações à minha mãe e à polícia. Será que alguém vai te procurar, Téo? Ou sua mãe vai ficar aliviada em se livrar do filho doente?”

“Vá à merda, Clarice.”

Ela levantou os olhos.

“Sério, você não se acha nem um pouco doente?

Aquele álbum de nós dois é coisa de pirado.”

Esperou que ele respondesse e sacudiu a cabeça.

“Chegamos ao número cinco: atividades com Téo. Esta foi uma grande sacada minha.” Ela sorriu, passeando a língua pelos dentes protuberantes. “Vamos fazer algumas coisinhas para você enxergar que é um freak total.”

“Não vou fazer nada com você.”

O sorriso foi substituído por uma expressão de desagrado. Ela voltou ao quarto carregando o álbum e uma pesada panela de barro. Deixou a panela sobre a cômoda e retirou as fotos do álbum, esfregando-as na cara de Téo de um jeito violento.

“Tudo aqui é mentira. O fantástico mundo de um filho da puta. O que acha que devemos fazer com isso?”

Nauseado de angústia, ele encarava os sorrisos de Clarice, a delicadeza de seu olhar e do toque de seus corpos. Como um sentimento bonito tinha se tornado tão rude e diabólico? Quis chorar, mas se sentia seco.

Assistiu a tudo em silêncio: Clarice selecionou apenas fotos deles dois e jogou na panela de barro. Tirou o isqueiro do bolso.

A chama encontrou o papel fotográfico, que se contorceu, encolheu e ficou escuro em poucos segundos.

As imagens sumiram na fumaça tóxica e oleosa que saía da panela. Clarice assistiu à pirotecnia batendo palminhas de alegria, bela transformada em fera. Jogou as demais fotos na panela, atiçando e avivando as chamas. Assoprava faíscas como se fossem bolas de sabão, imitava com a boca o som crepitante. Pop, pop, pop. O quarto todo cheirava a papel queimado; uma mancha negra havia grudado no lençol.