Dias perfeitos
Capítulo 12
O rosto de Breno estava coberto de sangue, a boca escancarada em um vazio negro, sem língua. Téo desceu as pálpebras dele: era um profissional de medicina, não um açougueiro sanguinolento. O tapete estava imundo.
Ele o enrolou e amarrou com a fronha do travesseiro.
Juntou Breno em sacos duplos, acrescentando pedras brancas que havia encontrado no jardim.
Por uma fresta na porta, encarou a escuridão. Calculou que precisaria de duas viagens — cerca de três minutos
— para se livrar dos sacos no lago. Nenhum dos outros chalés tinha vista direta para aquela área, de modo que ele se permitiu fazer algum barulho. Arremessou os sacos para longe da borda, voltou correndo e fez novo arremesso. Livrou-se do tapete também. Lavou os instrumentos e os devolveu a seus lugares. Quando finalmente descansou na poltrona, precisava de um banho. Ficou trinta minutos debaixo do jato quente que massageava suas costas. Diante do espelho, notou um ferimento inchar na face direita. Perfumou o quarto para espantar o cheiro acre que havia dominado os móveis.
Extasiado, sentou no banquinho de metal à beira do lago. Breno estava morto. Clarice era só dele. O fato ainda não o havia atingido emocionalmente. Ainda não absorvera seu significado, mas algo lhe indicava que era bom.
Seus olhos perscrutavam a superfície, atentos a qualquer anormalidade. Ficou ali por horas, estalando os dedos, refletindo, sorrindo, até que a sexta-feira começou a nascer. Era hora de voltar para a cama e tentar dormir. Sabia que não conseguiria.
12.
O pedalinho avançava, barulhento. Pai e filho pedalavam com força, riam alto, alimentando os gansos com nacos de pão e molhando as mãos na água para sentir a temperatura. Téo assistia a tudo. Pouco antes do amanhecer, tinha ido ao chalé. Na bochecha direita, uma mancha roxa surgia junto ao lábio superior inchado. Ele pressionou ali cubos de gelo conseguidos na cozinha.
Tomou analgésico e passou pomada para aliviar a dor.
Então, voltou ao banquinho de metal com o livro de Clarice Lispector. O volume jazia fechado sobre o colo.
Quanto tempo demorariam para sentir falta de Breno? A investigação levaria a polícia a Clarice? Pouco antes de se revoltar e invadir o quarto do casal, Breno havia dito que ninguém o tinha visto chegar. Mas alguém o tinha visto sair de casa, tomar o ônibus para Teresópolis? Esses problemas escapavam ao seu controle e, por isso, Téo estava impaciente. Não queria pensar neles.
Abriu o livro de Lispector nas últimas páginas. O conto se chamava “Perdoando Deus”. A autora tratava da desagregação da personagem frente à brutalidade da natureza, metáfora de Deus, retratada num rato ruivo
morto. O estado de espírito inicial da personagem se assemelhava ao dele ao conhecer Clarice. Alma leve e despreocupada, ternura e afeto inéditos. A rebeldia também era a mesma. No conto, a narradora-personagem se revoltava contra Deus, que lhe colocava um rato morto no caminho. Na vida, ele entendia o significado daquilo: não tinha sido responsável pela morte de Breno. Uma força maior havia colocado o ex de Clarice em seu caminho. Era um obstáculo a ser vencido, uma peça a ser eliminada. Não havia com o que se incomodar.
Concluiu que a desordem íntima que o perturbava não era movida pelas causas, mas pelas consequências. Seu tecido de sentimentos estava esgarçado. O que Clarice pensaria dele quando soubesse?
Téo foi para o quarto por volta do meio-dia. Ela já havia acordado. “O que aconteceu com a sua cara?”, perguntou, ao ser desamordaçada.
“Me machuquei enquanto caminhava hoje de manhã.
Você estava dormindo.”
“É o que eu faço a maior parte do tempo.”
Ele ligou o notebook dela e pediu desculpas por ter perdido a hora do café da manhã. Estranhou a passividade com que Clarice aceitou a desculpa do machucado. Teria acreditado nele? Percorreu o quarto com os olhos. Tudo estava como antes — ou parecia estar.
“Preciso de uma data”, ela disse. Levou as mãos aos cabelos e os sacudiu num movimento bonito.
“Uma data?”
“Até quando vai durar isso?”
“Não sei, Clarice.”
“O Natal está chegando.” Ela espremeu os olhos.
“Minha mãe vai estranhar se eu não aparecer.”
“Não me peça uma data.”
“Preciso estar em casa para a ceia.”
“O Natal é só daqui a duas semanas.”
“Duas semanas então.”
“Você tinha dito que talvez não voltasse pro Natal.”
Ela se esgueirou para perto dele e o abraçou. Os seios sob a blusa roçaram sua camisa.
“Por favor…”, ela pediu.
Subiu na cama. Passou por trás dele, massageando seus ombros. Seu perfume era delicioso. Ele quase conseguia esquecer o que ela havia feito.
“Caramba, Téo, você está tenso”, disse, sem parar os movimentos nos nós do pescoço, agora circulares. “Meu ex também era assim… Não conseguia relaxar.”
Sem perceber, ele retesou os ombros.
“Pensei no que você me contou. E acho que está certo…”, ela disse. “Meu relacionamento com o Breno acabou. Não gosto mais dele. Só tenho medo de virar a página.”
“Fico feliz que tenha concluído isso.”
“Acho que ele me traía”, ela disse. “Me traía com as aluninhas de violino dele. Se nosso relacionamento valesse alguma coisa, ele teria vindo atrás de mim. Mas ele não veio, não é? Não veio.”
Clarice o encarou a uma distância de centímetros.
Havia um sorriso no canto de sua boca? Ele teve certeza de que ela sabia. Sabia e jogava com ele. Desafiava sua sanidade.
“Preciso sair”, ele disse.
“O que houve?”
Téo vestiu algemas e mordaça em Clarice. Sentia câimbra nas pernas. Bateu a porta, dizendo que iria à cidade, mas não demoraria.
Ele não queria sair. Era sexta-feira e estava cansado. A voz de Clarice o sufocava, o hotel o sufocava, a fila de casais para entrar nos pedalinhos o sufocava. O passeio ao centro era a válvula de escape.
Aproveitou para almoçar e fazer compras. Numa lanchonete, pediu suco de goiaba enquanto assistia ao noticiário da tarde. Não havia nada sobre o desaparecimento de Breno, o que o acalmou. Clarice estava presa à cama e jamais conseguiria chegar à porta sem abrir as algemas. Breno estava no fundo do lago e não parecia vir de família influente. Quando o desaparecimento fosse registrado, seria arquivado antes mesmo que voltassem para casa.
Sentou próximo a um jardim colorido e fechou os olhos.
Precisava falar com alguém que não fosse Clarice. Ligou para a mãe.
“Peraí, filho, tô terminando de anotar uma receita”, ela disse.
Ao fundo, uma voz de homem continuava: “… meio litro de vinagre de maçã, meio litro de creme de leite, duas maçãs verdes, setecentos gramas de carne de…”.
Meio minuto depois, a televisão foi desligada.
“Pronto. Como você está?”
“Bem, e você?”
“Chegou o resultado da necrópsia do Sansão.
Encontraram resíduos do meu remédio no estômago
dele. O Sansão morreu por excesso de Hipnolid.”
“Então…”, ele disse, sentindo-se péssimo. “Puxa, não fica mal por isso. Você não tinha como saber que ele comeria sua caixa de remédios!”
“Você não está entendendo. O Sansão não comeu minha caixa de remédios. Alguém fez isso com ele.”
“Como é?”
“Alguém deu Hipnolid pro Sansão. Ele não comeu caixa nenhuma.”
“Quem faria algo assim?”
“Eu só consigo pensar numa pessoa…”
Téo queria desligar o telefone. Resistiu. Pressionou o receptor contra o ouvido.
“A Clarice, meu filho. Ela foi a única desconhecida que esteve aqui em casa.”
“A Clarice? Ela não seria capaz.”
“Também acho monstruoso, mas não tem outra opção.”
Patrícia devia ter refletido bastante sobre o assunto nos últimos dias.
“A Marli, talvez?”, ele disse.
“A Marli? Acha que ela faria uma coisa dessas com o Sansão? Ela sabe quanto eu amava aquele cachorro!”
“Ela tem a chave do nosso apartamento. E sabe que você toma Hipnolid.”
“Mas por que ela faria isso?”
“A Clarice também não tinha motivos. Eu fiquei ao lado dela o tempo todo.”
“Não sei o que pensar…”
Naquele instante, Téo entendeu que a mãe suspeitava dele. Mas ela era dependente de seus cuidados, sugava suas energias e não podia acusá-lo impunemente.
“Não foi a Clarice. Tenho certeza”, ele disse.
“Quando vocês voltarem, quero conversar com essa menina. Sou muito sensitiva, você sabe. Quero ver a índole dela.”
Desde que Marli havia dito para Patrícia que ela era uma “pessoa especial”, a mãe usava esse argumento para justificar suas impressões disparatadas.
“Não quero que você confronte a Clarice.”
“Eu jamais faria isso. Não sou indelicada. Mas talvez essa menina não esteja fazendo bem a você.”
“Ela me faz bem, mãe.”
“Lembra aquele pesadelo que tive pouco antes de você viajar?” A voz de Patrícia fraquejou. “Tive de novo, três vezes nesta semana. O mesmo pesadelo.”
“É apenas imaginação.”
“Estou assustada, Téo. Alguém envenenou o Sansão. E, nesses pesadelos, você também morre envenenado, meu filho. É horrível!”
Ele se despediu numa chateação fingida. Aquela conversa o tinha deixado ainda pior. Não era culpa da voz de Clarice, tampouco do chalé. Era o mundo que o sufocava.
À noite, Téo dormiu profundamente. Acordou cedo e bem-disposto. Antes do café, conversou com os anões da recepção: ninguém parecia ter visto ou ouvido nada na madrugada anterior. Caminhou ao redor do lago. O
negrume das águas atraía seus olhos para a superfície.
Esperava algo emergir subitamente — um antebraço, um fígado. Nada apareceu.
Levou o café da manhã de Clarice ao quarto.
“Você roncou esta noite”, ela disse, mordendo um croissant.
“Desculpa.”
“Não falei brigando. Você parecia mesmo cansado…”
“Sim, eu estava.”
Ele abriu a mala para arrumar as camisas.
“Qual é seu signo, Téo?”
“Não ligo pra essas coisas.”
“Qual é seu signo?”
“Faço aniversário em setembro. Dia vinte e dois.”
“É virgem. O último dia. Mas é virgem. Típico.”
“Típico o quê?”
“Racional, determinado, metódico. É você.”
Ele não acreditava que a posição dos astros determinasse suas características, mas ficou quieto.
Lembrou-se do site em que tinha visto Clarice discutir astrologia e deduziu que ela nutria certa devoção ao tema.
“A que horas você nasceu?”
“Não lembro.”
“Preciso disso pra saber a lua e o ascendente.”
“Qual é seu signo?”, ele devolveu. Não estava com vontade de falar de si mesmo.
“Áries. Cuspida e escarrada.”
“Como assim?”
“Impulsiva, independente, sincera até demais.
Temperamental também, mas prefiro não entregar meus podres assim de cara”, ela disse, com um sorriso generoso. Deixou o notebook de lado. “Preciso dormir mais um pouco. Seus roncos eram incrivelmente altos.”
Ele aproveitou para ler o roteiro dela no notebook.
Acompanhou o avanço da história e identificou as
mudanças que ela tinha feito. Clarice havia seguido vários de seus conselhos e Téo ficou feliz com isso. Sabia que ela nunca mais conseguiria escrever sem os apontamentos dele. Pouco a pouco, a angústia desaparecia e voltavam a ficar bem. Distraído, ele cantarolou uma canção, batucando os dedos no estrado da cama. Nada como um tempo após um contratempo.
Téo folheava o álbum de fotos quando Clarice acordou e perguntou o que ele estava fazendo. A reação inicial foi fechar o volume. Ainda não havia mostrado as fotos para ela e não sabia como reagiria. Depois, concluiu que não havia problema em deixar que Clarice as visse. Não eram imagens ofensivas ou indignas. Ao contrário, registravam sentimentos bonitos, como carinho, companheirismo e amor.
“Minha mãe ia adorar isso aqui”, ela disse. Olhava as fotos como se não se reconhecesse nas imagens. “Ia deixar na mesa de centro da sala, junto ao álbum de casamento dela.”
O tom de Clarice ao falar da mãe era de desprezo. Téo queria entender a relação das duas, mas esses fios de convivência lhe pareciam emaranhados. Ainda que ele não amasse Patrícia, tinha respeito e cuidado com ela. Às vezes, pensava na manhã em que sentiria nos lábios a pele gélida da mãe ao dar o beijo de bom-dia e notaria que ela estava morta. Não haveria nada ali, além do corpo flácido e maltratado que o tinha posto no mundo.
Ele imaginava o que iria sentir. E também o que deveria sentir. Deveria chorar e deixar que as pessoas o vissem indefeso. Mas, no fundo, numa parte obscura de si
mesmo, ele sabia que não faria muita diferença. Sentiria falta do dinheiro fácil que recebia a cada mês… Da omelete de queijo que a mãe preparava em jantares improvisados… E só. Omelete e dinheiro. O elo entre eles se resumia a isso. Mas havia algum problema? Sem dúvida, a convivência dele com Patrícia era melhor do que a de Clarice com Helena.
“Você gosta da sua mãe, Clarice?”
“Por que está me perguntando isso?”
Ela deixou o álbum de lado.
“O jeito que você fala dela…”
“Eu e minha mãe fomos muito próximas. O tempo separou a gente.”
“O tempo?”
“O tempo, os amigos, a mentalidade”, ela disse.
Passeava os dedos pelas capinhas plásticas do álbum, tentando disfarçar o incômodo. “Minha mãe nasceu no subúrbio, com a mente fechada. Acha que quem é escritor é vagabundo; que quem fuma maconha é criminoso; que quem ama pessoas do mesmo sexo é doente. Coisas de que eu discordo.”
Téo pensou que aquela era uma oportunidade para falar sobre Laura, mas não sabia como abordar o assunto.
“E então vocês se afastaram?”