Dias perfeitos
Capítulo 13
“Ela finge cuidar de mim, eu finjo precisar dela. Ela se sente culpada, sei disso.”
“Culpada de quê?”
“Foi ela que desistiu de mim”, Clarice disse, e a frase saiu carregada de dor. “Ela viu que eu não me encaixaria na fôrma de filha perfeita com emprego público e filhos no berçário. Daí, desistiu. Me soltou no mundo.”
Téo havia ficado receoso com a promessa feita a Helena de pedir que Clarice retornasse a ligação. Agora, soube que ela não estranharia se a filha continuasse ausente nos próximos dias. Temia principalmente que, numa conversa, Helena mencionasse o desaparecimento de Breno. Clarice continuou:
“Sei que não é culpa dela. Sou uma pessoa do mundo.
Ascendente em Sagitário. Não adianta tentar me controlar. Não tenho dono, sabe? E nunca vou ter.”
Téo sorriu, mas ficou com a impressão de que ela tinha insinuado alguma coisa para ele. Aquela atitude acionou uma cadeia de pensamentos, bons e ruins, e o levou a uma verdade cáustica: ele jamais poderia deixar Clarice partir.
13.
A terça-feira amanheceu com problemas. Clarice entrou em uma crise de criatividade, culpa da falta de cigarro. Disse que não conseguia escrever mais nada.
Havia travado na parte em que as personagens chegam a Ilha Grande.
“É uma merda. Fui nesse lugar quando tinha cinco anos. Não lembro nada. Preciso voltar.”
Ele entendia que os escritores escrevem sobre aquilo que conhecem. Por isso, não cogitava escrever ficção.
Acabaria criando um personagem médico, morador de Copacabana, vivendo feliz com uma menina meio doida.
“Isso passa”, ele consolou.
Cansada de enfrentar a tela do notebook, Clarice deitou ao seu lado na cama. Usava a mesma camisola do dia em que ele a tinha buscado em casa. Agora, estava mais desleixada: os cabelos malcuidados, as unhas descascadas e roídas, o rosto sem maquiagem e com olheiras. Suas sobrancelhas tinham crescido e as pernas estavam um pouco peludas. Ainda assim, continuava linda. Não havia nada no mundo capaz de deixá-la feia.
“Por que não jogamos cartas?”, ela perguntou. “Preciso me distrair.”
Téo concordou. Não gostava que Clarice se sentisse prisioneira. No dia anterior, ela havia sugerido que assistissem a Pequena Miss Sunshine pela segunda vez e, à noite, havia pedido que ele lhe ensinasse as regras do jogo de gamão. Um dia muito simpático e agradável, envolto no bucolismo de Teresópolis.
Algemou-a e saiu do quarto para buscar os baralhos na recepção. Gulliver, o anão mais velho, estava ao telefone e fez sinal pedindo que ele aguardasse. Téo gostava de Gulliver: era um sujeito quieto, um pouco soturno, mas de humor inalterável. Evitava encará-lo por muito tempo, pois invariavelmente se fixava nos dedinhos da mão dele, pequenos feito minhocas.
Téo foi pego de surpresa quando Gulliver falou ao telefone:
“Eu entendo, Helena. Trate de aparecer no nosso hotel, sim? Ultimamente, só a Clarice vem nos visitar!” Ele soltou uma risada. “Não sei por que eu não estava conseguindo ligar para o quarto deles. Você deu sorte. O
namorado da Clarice está bem aqui, na minha frente.
Aguarde um instante.”
Gulliver tapou o bocal com a mão esquerda e virou-se para Téo.
“A mãe da Clarice quer falar com ela. Eu estava tentando encaminhar a ligação para o chalé de vocês, mas só dá ocupado. Ia lá agora mesmo chamar a Clarice.”
“Deixa que eu falo.”
Téo foi até a cabine telefônica.
“Ela prefere falar com a filha”, o anão disse, mas ele ignorou. Fechou a porta sanfonada, sentou no banco e pegou o fone.
“Pode chamar a Clarice?”, a voz de Helena era agitada, porém firme.
“Ela está no quarto escrevendo. Como você está?”
“Um pouco nervosa. Chama a minha filha?”
“Você sabe como é a Clarice. Ela pediu pra não ser incomodada. Eu mesmo fui expulso do quarto”, disse e riu, tentando ser agradável.
“Preciso falar com ela. Ela está bem?”
“Hoje acordou em crise porque travou numa parte do roteiro. De resto, temos nos divertido bastante.”
“Uma coisa horrível aconteceu.”
Téo se retorceu na cadeira. Apertou o fone entre os dedos.
“Breno desapareceu”, ela disse.
“Breno?”
“O ex-namorado da Clarice… Ela deve ter te falado dele.”
“Ah sim, o violinista.”
“Está desaparecido desde quinta-feira.”
“Como assim?”
“A polícia acabou de sair daqui. Queriam falar com a Clarice.”
“Com a Clarice?”
“Acho que estão conversando com todas as pessoas próximas a ele.”
A voz de Helena era vazia e amarga, marcada pelo fio de tensão de quem acaba de receber a polícia em casa.
Téo buscou não soar defensivo ou amedrontado:
“Ele e a Clarice terminaram o namoro faz quase um mês. Entendo que é horrível que o Breno tenha desaparecido. Mas acho errado contar a Clarice neste momento. Ela está terminando o Dias perfeitos.” Ele fechara a mão esquerda em punho e batia de modo suave na mesa do telefone. “Uma coisa dessas pode afetar nosso relacionamento. Não quero que a Clarice volte a pensar nesse cara.”
“A polícia faz questão de falar com ela. Insistiram nisso.”
“Ela fala com a polícia quando as férias acabarem”, ele disse. “É possível que só voltemos no início do ano que vem.”
“Voltem antes do Natal. Quero ir até Teresópolis conversar com vocês.”
“Não precisa. Está tudo bem. Só não vou importunar a Clarice com uma coisa dessas. Com certeza vão achar o rapaz.”
“A polícia deve ligar para o celular dela em breve. Ou talvez ligue para o seu. Eu dei o número.”
Ele pensou em dizer “Você não deveria ter feito isso”, mas acabou dizendo:
“Tudo bem. Não tem problema se ligarem.”
“Vocês não têm nenhuma ideia do que pode ter acontecido?”
“Não sabemos de nada.”
“É que…” Ela chorava do outro lado da linha. “Acho que eu fui a última pessoa a ver o Breno antes de ele desaparecer.”
Téo sentiu as pernas perderem força e, se não estivesse sentado, teria caído no chão. Olhou para
Gulliver através do vidro. O anão digitava no teclado do computador e parecia não escutar a conversa.
“Na quinta à tarde o Breno esteve aqui em casa”, ela disse. “Queria falar com a Clarice. Repetia isso sem parar. Parecia bastante nervoso. Eu disse que ela não estava, que tinha viajado para Teresópolis com você. Ele saiu daqui feito um louco, dizendo que precisava conversar com ela a qualquer custo. Logo depois, desapareceu. E, bem, eu pensei…”, a voz dela fraquejou.
“Pensei que vocês poderiam estar envolvidos nisso.”
“Não estamos.”
“Tem certeza?”
A pergunta ofendia Téo.
“O que está pensando? Que o Breno veio até Teresópolis naquele dia e que nós o matamos?”
“Eu nunca pensaria algo assim!”
Estava escandalizada.
“Talvez ele tenha aparecido aí e vocês o expulsaram”, ela disse. “Acho que ele pode ter se matado. Ele estava muito abalado quando veio falar comigo.”
“Helena, como eu disse, fiquei ao lado da Clarice o tempo todo e garanto que ele não esteve aqui nem na quinta nem na sexta nem em nenhum outro dia. Não sei como ele é.”
“Acha possível que ele tenha cometido suicídio?”
“Sim, infelizmente. A gente nunca conhece muito bem as pessoas, não é?”
“Nunca gostei dele. Mas estou assustada, Téo.”
“O importante agora é preservar a Clarice”, ele disse.
“Prefiro não contar a ela que isso está acontecendo. Ela anda tão entusiasmada com o roteiro. Vamos dar tempo ao tempo. O Breno pode estar escondido em algum lugar.
Pode ter se isolado para refletir, para se recuperar de tudo.”
“Você está certo.”
“Estou sendo racional. A Clarice não teria como ajudar em nada. E acabaria abalada demais para continuar a escrever o roteiro. Todos sairiam perdendo.”
Hesitou, mas a pergunta era necessária:
“Você mencionou à polícia que o Breno esteve aí na quinta-feira procurando pela Clarice?”
“Não. Preferi não falar nada até saber o que estava acontecendo. Não gosto de lidar com a polícia.”
“Espero que fique bem”, Téo disse, com gentileza. “E
que isso se resolva logo.”
O silêncio ficou pesado. Ele continuou:
“Estou muito feliz com sua filha. A alegria dela me contagia. Ela está tão envolvida no roteiro que até largou o cigarro.”
“Parou de fumar?!”
“Digamos que está evitando”, ele disse, como se contasse um segredo. “Eu fiz pressão, claro.”
“Que bom.”
“A Clarice não quer ir embora até finalizar o roteiro. Ela passa o dia escrevendo.”
“Eu entendo”, ela disse, com seu modo lento e grave.
“Talvez eu faça uma visita a vocês.”
Desligaram após uma despedida pouco calorosa.
Enquanto caminhava, Téo relembrou o diálogo com Helena. Tentava interpretar frases, destrinchar nuances.
Ao fim da conversa, ela parecera convencida e pacífica.
Ao mesmo tempo, terrivelmente complacente. A
possibilidade de Helena aparecer a qualquer momento no hotel o inundava de temor. Caso isso acontecesse, ele não teria desculpas para impedir que ela falasse pessoalmente com a filha. O que poderia fazer então?
Ao entrar no quarto, deixou os maços de baralho sobre a cama e disse que precisava de um banho para refrescar o calor.
“Por que demorou tanto?”, ela perguntou.
“Sua mãe telefonou.”
“Minha mãe? Por quê?”
“Queria saber de você. E quando voltaríamos. Eu disse que não sabemos ainda.”
Ele fechou a porta do banheiro. Diante do espelho, aparou a barba e trocou o curativo no rosto. Havia deixado a barba crescer para esconder o arranhão no pescoço. Agora, restava apenas um discreto risco. A região tinha parado de doer, mas continuava marcada pelo roxo.
Ele estava pronto para entrar no banho quando bateram à porta. Correu enrolado na toalha e sinalizou para que Clarice ficasse em silêncio. O desespero o dominava por completo, ainda que a lógica impedisse que Helena tivesse chegado tão rápido ao hotel. A menos que ela já estivesse aqui por perto, pensou e, por um segundo, teve certeza de que era a mãe de Clarice do outro lado. Abriu discretamente as cortinas.
Gulliver notou que Téo o observava pela janela e sorriu.
“Vim conferir o que está acontecendo com o telefone do quarto de vocês”, disse.
Téo concordou e foi na direção de Clarice. Sentou ao lado dela na cama, fazendo um carinho enquanto tirava a
mordaça. Soltou as algemas também e deixou o notebookno colo dela.
“Por favor, não faça nada”, disse. Dosou a solução de Thiolax na seringa. Clarice se retesara na cama, pensando que seria sedada, mas ele foi até a porta e abriu, mantendo a seringa escondida nas costas.
“Seja rápido”, disse ao anão.
Gulliver percorreu o quarto com seus olhinhos perniciosos. Sorriu ao ver Clarice e se aproximou para um beijo na bochecha.
“Fico feliz em finalmente ver você, grande escritora!”, ele disse. Encarou-a de modo demorado, como se esperasse que ela lhe passasse alguma mensagem com a troca de olhares. Clarice apenas sorriu. Téo se manteve por perto, pronto para imobilizar o sujeitinho caso ele ou Clarice tentassem qualquer coisa. Era claro que o defeito no telefone tinha sido uma desculpa para entrar no quarto. Gulliver estava desconfiado.
“Está faltando o filtro de linha”, ele disse ao se aproximar do telefone. “Alguém deve ter tirado.”
Téo sorriu. Quis chutar o anão. Imaginou-o quicando entre os gnomos de jardim.
“Alguém?”
“Alguma das camareiras, claro.”
O tom era de ironia. Téo fechou o rosto e pediu que ele se retirasse.
“Quando formos embora, você ajeita o telefone.
Estamos bem sem ele.”
Bateu a porta com força e recostou na parede. Levou as mãos ao rosto, tentando controlar a respiração carregada de fúria.
“Você não está nada bem, não é?”, ela perguntou.
“Cala a boca!”
O silêncio o gratificou por alguns segundos. Clarice fez a pergunta:
“Por que não continuamos a viagem?”
“O que disse?”
“Já que vamos ficar juntos nos próximos dias, por que não continuamos a viagem? Podemos dormir num motel.
E, então, em Ilha Grande e depois Paraty. Acho que vai ser bom para o roteiro se eu fizer o mesmo trajeto das personagens.”
A ideia era ótima e Téo estranhou que tivesse partido dela. O que pretendia com aquilo? Clarice era toda entrelinhas. A verdade é que ele já não suportava mais ficar ali. Havia algo no ar, um ranço nebuloso. Queria esquecer os anões, esquecer Helena, esquecer Breno e pensar só neles dois. Voltar ao que eram antes. Encaixes perfeitos.
“E então?”, ela insistiu.
“Não sei.”
Algo o mantinha preso ao chalé. O que Gulliver pensaria se partissem agora, logo após o episódio desagradável? Ele devia ter se controlado. Mas pouco importava. Cedo ou tarde, teria que ir embora. A suspeita de Gulliver tinha tanta relevância quanto sua altura.
Fizeram as malas em poucas horas. Enquanto Clarice estava no banho, Téo transferiu os óculos e os pertences de Breno para a valise com senha de quatro dígitos.
Pagou a conta e acompanhou Gulliver até o quarto para confirmar que nada do frigobar havia sido consumido.
Clarice o esperava no carro, algemada e amordaçada.