Dias perfeitos
Capítulo 24
Com terror absoluto, Téo se agitava no colchão. Via e revia o corpo de Clarice desaparecer no mar; a água explodia em espuma branca e sugava a mulher de sua vida. A mulher da minha vida. Tentou alcançar a chave na mesa de cabeceira. Girou o corpo, pois nem a mão esquerda nem a direita chegavam tão perto. De lado na cama, aproximou-se da lateral, esticando o braço o máximo que podia. Os dedos tocaram a cabeceira, mas não alcançaram a chave, que havia escorregado pelo tampo. Esforçou-se ainda mais, deixando que as argolas espremessem seus punhos.
Finalmente conseguiu. Livrou-se das algemas e correu para fora da casa. Tirou as roupas, entrando no mar. A água salgada fritou suas feridas. Girou a cabeça buscando a área em que Clarice havia sumido. Sentiu-se impotente e um tanto idiota porque era tudo muito parecido e ele não tinha nenhum referencial. A maré estava alta. Quando teve a impressão de que estava próximo do local certo, notou que não dava pé. Fincou os dedos numa rocha repleta de musgos e escorregou
quando um ouriço espetou a ponta do seu polegar. Voltou a subir na rocha. Gritou por Clarice.
Pensou ter visto uma sombra humana no azul-esverdeado das águas, mas quando nadou não encontrou nada. Quanto tempo tinha passado? Mais de três minutos, sem dúvida. Talvez cinco, até. O medo maior era que Clarice tivesse sido arrastada para o fundo. Não considerava a possibilidade de que ela tivesse se afogado. O mundo não perderia alguém tão especial sem nenhuma cerimônia. Seria injusto, criminoso.
O mar ganhava um forte tom vermelho — o sol se espreguiçava no horizonte e o céu havia se fundido no conjunto escarlate. Téo continuava a boiar, com maior dificuldade agora, pois as águas pareciam determinadas a engoli-lo. Mergulhou de olhos abertos. A imponência da natureza o deixou sem fôlego. Teve que nadar de volta à terra. Seus ossos rangiam com o vento frio. Era uma sensação estranha: seu cérebro permanecia lógico embora seu corpo se rendesse a reações involuntárias.
Sentiu-se mal, pois só conseguia pensar em tragédias.
Viu o corpo de Clarice na mesma hora. Estava próximo à encosta, preso entre duas rochas numa posição improvável. O rosto dela estava coberto pelos cabelos, mas parecia acima do nível da água. Os braços caíam ao lado do corpo, balançando grotescamente ao sabor das ondas. De resto, Clarice não se mexia.
Téo não pensou em mais nada. Entrou na água. Seu peito e seu braço direito sofriam pontadas dilacerantes.
Impulsionou as pernas, desenhando braçadas no ar, pois queria que Clarice guardasse a imagem daquele salvamento como algo heroico. Quando chegou à rocha,
foi difícil se apoiar. Sua vista estava turva pelo frio ou pelo cansaço. Teve que segurar nos braços de Clarice e escalar seu corpo. O vestido estava encharcado e rasgado. Quando montou sobre ela, viu sangue.
As escoriações apareciam em toda parte inferior do corpo, com foco principal na região lombar. Clarice estava consciente, mas desorientada. Arfava e parecia ter engolido muita água. Seus batimentos cardíacos também estavam acelerados.
“Fica calma, estou aqui”, ele disse.
Rasgou o vestido dela — não havia nada por baixo — e tentou virá-la de costas. A água batia forte, jogando-os contra as pedras. O sangue jorrava de um corte profundo que havia transformado a nádega esquerda em um pedaço de carne disforme. Ela tremia e tossia em balbucios incompreensíveis. Ele pensou tê-la ouvido chamar por Breno, mas evitou tomar aquilo como algo pessoal. Precisava desconstruir a imagem de Clarice — sua Clarice — e todo o remorso que guardava dela. Tinha conhecimentos suficientes para salvá-la e teve orgulho dessa certeza. Num breve movimento, ergueu a bacia dela e amarrou o vestido na altura das nádegas. O
procedimento ajudou a estancar o sangue e ele pôde removê-la. Puxou Clarice pelas axilas, mas ela parecia mais pesada do que nunca. O esforço era desumano.
Precisou arranjar outra posição. Colocou-a sobre seus ombros e nadou, embora o peso em sua nuca e suas costas fosse enorme e ele afundasse com frequência, engolindo água salgada e perdendo os sentidos por um centésimo de segundo.
Clarice escorregava e ele já não tinha controle da situação. Mal conseguia manter-se boiando. Naquele instante, enquanto seus pés buscavam alcançar a areia e constatavam que ainda estava muito fundo, pareceu-lhe interessante que os dois morressem ali, embalados pelos braços sedutores do oceano Atlântico. Pensou nessa expressão — braços sedutores do oceano Atlântico — e teve certeza de que algum escritor já a tinha usado em um romance. Soltou um pouco os braços dela, disposto a deixá-la ir primeiro, mas então seus pés tocaram o banco de areia e ele se sentiu muito vivo, seguro e cheio de si outra vez.
Estendeu Clarice acima do nível da água e fincou os pés na areia, vencendo a correnteza e, depois, a zona de rebentação. Clarice estava empalidecendo e ainda tossia.
Seus cabelos longos grudavam no peito de Téo, de modo que ele se sentiu como um príncipe encantado, que resgata a vida da amada. Quando entrou na casa, já estava bastante emocionado e havia desistido de encarar a situação com distanciamento profissional.
O sol poente atingia as paredes brancas num desenho bonito. Ele deitou Clarice na cama em que ela havia dormido, pois a do outro quarto estava imunda. Ajeitou os travesseiros ao lado do corpo. Após breves verificações, ficou aliviado. Seu estado não era tão grave quanto havia parecido em alto-mar. Clarice não tinha sofrido ferimentos na parte superior do tronco ou na cabeça. Ainda assim, parecia muito pequena e machucada, como uma sereia sangrante. As costas e a batata da perna apresentavam lesões profundas, mas a região glútea era a mais crítica: as linhas das nádegas
serpenteavam até uma parte que expunha a carne saliente, levemente inclinada para fora.
Téo se aproximou do rosto dela. Por um instante, desejou que Clarice não estivesse respirando para que pudesse tocar seus lábios sob a desculpa de uma respiração boca a boca. Estavam muito próximos um do outro e ele olhava para os olhos semiabertos dela. Dizem que se pode ver a alma através dos olhos. Nos de Clarice, ele viu serenidade e afeição; uma declaração de amor muito verdadeira que preencheu seu coração.
Cobriu o rosto com as mãos, chorando. Pela primeira vez, não forçava nem tinha interesses naquela emoção: as lágrimas apenas saíam.
Sabia
que
era
uma
revelação
que
poucos
experimentavam: amor em estado bruto; a essência da vida. Tudo se reordenava e ganhava sentido. Ele havia agido por impulso, havia tentado controlar Clarice, mas agora percebia quanto seu domínio era insignificante.
Como um quebra-cabeça de encaixe perfeito, precisaram chegar àquele extremo para entender que se amavam.
Abraçou Clarice com força, pois ela também devia estar emocionada. Aquele era o momento mais importante da sua vida, ele tinha certeza. Abraçou-a e chorou no ombro dela. Clarice continuava a tossir e respirar secamente, mas ele pôde ouvi-la dizer com nitidez: “Te amo”.
“Também te amo, Clarice. Você é minha princesa.”
Beijou-a por muito tempo — beijos estalados e, então, um longo beijo final que fez com que a tosse dela acabasse.
“Vou ter que te sedar. Não vai doer. Sei o que estou fazendo e você vai ficar bem.”
Vestiu luvas cirúrgicas e buscou gazes na maleta.
Olhou para Clarice com muita seriedade, tentando passar confiança, e injetou o Thiolax. Os olhos dela tremeram antes de se fechar. Téo buscou uma faca de cozinha e a deixou sobre a lamparina, com a lâmina queimando na chama. Clarice teria se desesperado com aquela atitude; por isso ele preferiu tranquilizá-la, caso ela ainda o escutasse:
“Não se preocupe.”
Desamarrou o vestido que prendia a ferida principal. O
sangramento intensificou e ele teve que pressionar gaze contra o pequeno vaso acometido. Limpou Clarice, atento para não feri-la com nenhum descuido. Ela tinha pouco quadril, o que agradava Téo. O corte na nádega esquerda era tão extenso que havia ultrapassado o subcutâneo e revelava as fibras do glúteo máximo, responsável pela curva sutilmente perfeita dela. O músculo estava estraçalhado e a pele, dilacerada. Ele esperava que nenhum osso tivesse se quebrado. Suturou o músculo e depois a pele. Enquanto fazia pontos simples nas lesões dos pés e das coxas, sentiu crescer uma raiva abstrata pela irresponsabilidade de Clarice.