Dias perfeitos

Raphael Montes · Capítulo 17 de 32

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Dias perfeitos

Capítulo 17

Concluiu que não havia perigo em guardá-los consigo.

Devolveu os óculos à valise.

17.

Ao aportar na praia do Abraão, Téo foi abordado por uma moradora local — uma velha enrugada pelo sol —, que se ofereceu para carregar malas, indicar hotéis, guiar passeios de barco. “Posso te levar na melhor moqueca da região”, disse também, com a voz esganiçada. Téo queria apenas alugar uma barraca de camping.

“Vai ficar onde?”

“Não sei. Estou terminando de escrever um livro.

Preciso me concentrar.”

“Posso levar o senhor pra algum acampamento.”

“Não tem praia deserta?”

A velha o encarou, séria. Cheirava a sal e água de colônia.

“O acampamento selvagem é ilegal”, disse, como se lesse uma cartilha.

“Eu pago bem”, Téo devolveu. Lembrou-se do policial rodoviário e decidiu que chamaria aquele dia de “quarta-feira dos subornos”. Riu de si mesmo.

A velha espichou os olhos para os lados:

“Tenho uma casinha na Praia do Nunca. É bem isolada.

Não tem muito conforto, mas dá pro gasto.”

“Não precisa de conforto. É isolada mesmo?”

“Não tem mais nada lá, pode acreditar. Só areia e água transparente. Floresta e montanha pra trás. Quase ninguém passa, só os malucos em trilha.”

“Vou ficar um mês. Quanto?”

A velha murmurou um valor extorsivo e sorriu:

“Metade disso vai pra fiscalização. Pra garantir que não vão incomodar.”

Ele teria que sacar boa parte da poupança e controlar os gastos nos meses seguintes. Por Clarice, valia a pena.

“É bom o senhor passar no mercado e comprar algumas coisas antes.”

“Tudo bem.”

“E vamos num caixa eletrônico também…”, a velha disse, ruborizada. Trazia a máxima mercenária na ponta da língua: “O pagamento é adiantado”.

Em pouco mais de uma hora, Téo sacou dinheiro e fez compras no mercado e na farmácia. Comprou um colar de pedras em uma lojinha de artesanato para dar de presente de Natal a Clarice. Num jornaleiro, tentou mais uma vez conseguir os jornais dos dias anteriores, sem sucesso. Sentou num café com música ambiente e pediu suco de maracujá, ainda que não se sentisse nervoso ou agitado. Os clientes o encaravam de um jeito curioso, possivelmente porque ele carregava a Samsonite cor-de-rosa com Clarice.

Havia ficado de voltar ao cais dali a meia hora. Pensou em enviar cartões-postais para a mãe e para Helena,

mas preferiu telefonar. Discou o número de casa.

“Estou em Ilha Grande”, disse à mãe.

Patrícia ficou surpresa. Perguntou quando ele voltaria.

“Alugamos o quarto por um mês. A Clarice está escrevendo o roteiro dela, que se passa aqui em parte.”

Ele preferiu não mencionar que pretendiam ir a Paraty depois. “Voltamos no início de janeiro.”

“Só ano que vem…”

“Sim.”

“É o primeiro Natal que passaremos distantes.”

“Eu já estou bem crescido, mãe.”

“E eu estou velha.”

“Não diga isso.”

“Montei nossa árvore de Natal. Consegui quebrar poucas bolas este ano”, ela disse, nostálgica. Forçou uma risada. Téo continuou em silêncio. “Queria me desculpar pelo que falei na última ligação. Eu não deveria ter suspeitado da sua namorada. Está tudo bem entre vocês?”

“Sim.”

“A família dessa moça não se importa que ela fique fora por tanto tempo?”

“A mãe dela também reclamou porque ela não vai voltar pro Natal. Mas acreditamos que esse tempo será bom pro nosso relacionamento”, ele disse — e ter falado no plural fez com que se sentisse sensato.

“Você me liga mais vezes?”

“Talvez eu não consiga. Vamos ficar em uma praia em que o celular não funciona.”

“Sentirei saudades, meu filho.”

A frase foi dita num tom fúnebre que o incomodou. De todo modo, ele disse que também sentiria saudades.

Trocaram votos de Feliz Natal e Ano-Novo antes de desligarem. A fluidez da conversa com a mãe — além do fato de ela não ter insistido no assunto Sansão —

encorajou-o a telefonar para Helena.

“Alô.” A voz ríspida com que ela atendeu o telefone fez Téo se sentir frustrado. Bebeu o restante do suco pelo canudinho e pediu outro ao garçom.

“É o Téo.”

“Tenho tentado falar com vocês desde ontem.”

“Sim, nós só vimos agora e…”

“Você mentiu pra mim”, ela o interrompeu.

“Como é?”

Ele decidiu adotar um tom de perplexidade a qualquer custo.

“Você mentiu pra mim. O Breno esteve aí na quinta-feira. Não sou burra.”

Como ela podia afirmar uma coisa dessas? O novo copo de suco foi servido, mas ele não notou.

“O Gulliver me ligou assim que vocês saíram do hotel.

A polícia está atrás de vocês e vocês fogem?”

“Não estamos fugindo.”

“O Gulliver me contou tudo.”

“Tudo o quê?”

Já pensava o que dizer caso ela afirmasse que o anão vira Breno chegar ao hotel naquela noite.

“Contou como foi tratado quando foi ao quarto de vocês consertar o telefone. Contou do jeito repentino que vocês foram embora.”

“Eu não tenho que te dar explicações”, ele disse, tão grosseiro quanto ela. “Clarice fez questão de não te ligar.

Disse que você fica no pé dela… Como ela não está aqui perto, posso te dizer o que quiser saber.”

“Me conta a verdade.”

“A verdade é que o Breno não esteve no hotel. O anão disse que viu o Breno aparecer por lá?”

“Não, não disse”, ela respondeu, engolindo em seco.

Téo ficou em dúvida se Helena blefava para ver até onde ele iria.

“Como então você me liga e me acusa de ter mentido?”

“Eu…” Ela estava tão tensa que soava histericamente engraçada. “Me explica o que está acontecendo. Por que vocês fugiram do hotel?”

“Não fugimos. A Clarice está levando o roteiro muito a sério. Você não sabe quanto isso é importante pra ela.”

“Eu sei. Ela é minha filha.”

“Parte da história se passa em Ilha Grande. Ela comentou que só tinha vindo aqui quando era pequena e quase não se lembrava de nada.”

“Vocês estão em Ilha Grande?”

“Sim, acabamos de chegar. Vamos nos hospedar por um mês numa praia. Não há nada de errado nisso.”

“Quero que ela volte pro Natal.”

Téo soltou um longo suspiro:

“Não vou me meter nessa briga. Insisti para que a Clarice conversasse com você, mas ela quer ficar isolada até terminar o roteiro. Ela ficou bastante aborrecida quando o Gulliver foi ao nosso quarto bisbilhotar. A sugestão de vir pra cá partiu dela. E, bem, eu não posso obrigar minha namorada a falar com ninguém no telefone.”

“Você contou a ela sobre o desaparecimento de Breno?”

“Eu te disse que não contaria”, ele respondeu, confiante. Não via furos em seu discurso. “Ele ainda não apareceu?”

“Não. A polícia me ligou hoje cedo dizendo que não conseguia falar com vocês.”

“Os celulares não funcionavam em Teresópolis. E

também não funcionam na praia onde vamos ficar. Diga que ligaremos quando voltar.”

“O delegado pediu à operadora o histórico de ligações do celular do Breno.”

“E daí?”

“Ele vai encontrar os telefonemas que o Breno fez aqui pra casa e pro celular da Clarice.”

“Isso não significa nada. Caso eu venha para a cidade, ligo sem que a Clarice saiba e te mantenho informada.

Entendo sua preocupação.”

“Obrigada, Téo.” Helena parecia mesmo agradecida.

“Quando achar que é o momento, conte a Clarice que o Breno desapareceu. Não esconda por muito tempo.”

“Acho que ele não vai demorar a dar as caras. Talvez eu consiga poupar a Clarice desse transtorno todo.”

“Tomara que esteja certo. A polícia também pediu o registro dos cartões de crédito dele. Isso deve esclarecer alguma coisa.”

“Sim, deve.”

A ligação terminou logo depois e Téo percebeu que estava atrasado para o encontro com a velha. Pagou os dois sucos e saiu. O barco chacoalhava entre outros no cais. Pintado em vermelho com listras azuis, trazia a inscrição “Sininho” na lateral.

“É como me chamam por aqui”, a velha disse, badalando o sino pendurado na frente da embarcação.

“Meu nome é muito esquisito.”

As malas foram colocadas num depósito na área inferior, mas Téo manteve consigo a Samsonitecom Clarice. Descansou na amurada da proa. Pensava em muitas coisas. E pensava nas consequências dessas coisas.

O barco se afastou da costa. Avançava aos solavancos, trazendo um cheiro de diesel queimado que se misturava ao de peixe. Téo buscou relaxar com o vento que batia em seu rosto, mas uma sensação de insegurança o dominava. Ele tentava relembrar o que havia na carteira de Breno: cento e dez reais, dois cartões de crédito, documentos… Não havia nenhum canhoto de cartão de crédito, ele tinha certeza. Era bem provável que Breno tivesse pagado a passagem de ônibus para Teresópolis em dinheiro. De todo modo, havia a possibilidade ínfima de que a passagem tivesse sido comprada no cartão.