Dias perfeitos
Capítulo 7
Ao pegar a carteira no bolso, sentiu o celular vibrar. Era o telefone de casa. Seria sua mãe? Já tinha voltado de Paquetá? Tinha percebido que havia algo errado?
Atendeu, nervoso. Só pensava em Clarice. Patrícia gritava e chorava, dizendo frases que ele não compreendia. Pediu que ela falasse devagar. De nada adiantou. Demorou mais dois minutos para entender.
Sansão tinha morrido.
7.
Ao entrar em casa, Téo encontrou o cachorro enrolado na manta. Acariciou-o e colocou dois dedos diante do nariz gelado. Nada. Na sala de estar, Patrícia tremia na cadeira de rodas, amparada por Marli, cheia de consolos transcendentais. O cachorro cumpria um papel fundamental na vida da mãe: ela precisava se sentir verdadeiramente amada por alguém.
Téo disse que lamentava muito. No fundo da despensa, encontrou a caixa de papelão que tinham usado para transportar a TV na mudança e colocou o golden ali dentro.
“Vamos enterrar o Sansão. Um enterro digno”, ela pediu.
Téo sentou na poltrona, encarando o choro de Patrícia, tão sincero quanto se ela tivesse perdido o próprio filho.
Ele jamais choraria assim por alguém. Por Clarice, talvez.
Mas precisaria fazer certo esforço.
“Vamos levar o corpo numa veterinária”, ela disse.
“Quero saber do que meu bebê morreu.”
O luto era exagerado. Bastava comprar outro cachorro.
Às vezes, ela parecia esquecer que não tinham a mesma
vida de antes. Saber a causa da morte era um gasto inútil e só traria problemas. Téo não acreditava que era responsável por aquela morte, mas a possibilidade de que o exame cadavérico indicasse a presença de comprimidos no estômago do golden o preocupava.
Quando saíra para buscar as fotos na gráfica, ele havia deixado Clarice no colchonete debaixo da cama. Tinha forrado o colchonete com um lençol, pois o chão estava frio. Agora, um cheiro acre de urina preenchia o quarto.
Encontrou a mancha no pijama de Clarice. Teve nojo.
Depois, condenou a reação. Não podia ter nojo da mulher que amava. Ela estava descansando e não tinha como ir ao banheiro.
Seria arriscado arrumar Clarice com Patrícia e Marli por perto. Elas poderiam entrar no quarto a qualquer momento — naquele estado de nervos, a mãe não toleraria a porta trancada. Borrifou perfume e voltou à sala.
“Entendo que você queira fazer a necrópsia”, disse.
“Se é isso o que quer, vou apoiar.”
Patrícia enxugou os olhos, ensaiando um sorriso para o filho. Ele continuou:
“Mas custa caro. E não temos dinheiro pra esbanjar.”
“Tenho minhas economias, Téo. Preciso saber do que o Sansão morreu. Até pouco tempo ele estava tão bem…”
“Ele já tinha dez anos, mãe! A gente cuidou dele com carinho. Fez ele feliz enquanto era tempo. Não adianta remoer agora.”
“Acho que ele comeu o meu Hipnolid. E não vou conseguir…” A mãe soluçava. “Não vou conseguir dormir em paz enquanto não tiver certeza de que ele não
morreu por uma idiotice minha. Estou me sentindo péssima…”
“Não fica assim. Pra que saber se ele comeu ou não o Hipnolid? Já aconteceu. Tudo o que podemos fazer agora é dar um enterro merecido ao Sansão.”
“Quero a necrópsia. E se eu causei a morte dele? É
como matar um filho.”
“Não acho que tenha sido o Hipnolid. Como o Sansão entrou no banheiro e devorou uma caixa de remédios sem deixar vestígio? Tenho certeza de que vamos achar essa maldita caixinha caída em algum lugar bem escondido e, mais dia menos dia, esclarecer tudo isso.”
“É, minha amiga, fica calma. Ele tem razão”, Marli disse, sentada no braço da poltrona. “Não faz sentido que o Sansão tenha comido o remédio, com plástico e tudo. Você lembra quantos comprimidos tinha na caixa?”
“Sim, controlo a cartela pra não tomar repetido.”
Téo sabia que a mãe mantinha anotações num caderninho com cada pílula ingerida. Por isso, não podia fingir encontrar a caixa de remédios ao acaso.
“Vou me arrumar”, Patrícia disse. “Quero achar uma veterinária aberta ainda hoje.”
Em dez minutos, estava pronta. Avisou ao filho que ele não precisava ir caso tivesse outros compromissos. Ela e Marli tomariam um táxi. Téo buscou um último argumento:
“Se fizerem a necrópsia no Sansão… Vão abrir o corpo dele, sabe? Ele vai ter que ser cremado.”
Sabia que a mãe valorizava enterros e não suportava a ideia de um corpo nas chamas do crematório. Mas Patrícia disse que não havia problema: se não pudessem enterrá-lo, aceitaria a cremação.
Ao levar Clarice para o box do banheiro, Téo ficou deprimido por vê-la naquele estado, torta e mijada, como uma doente mental. As cores do ambiente perderam o tom vibrante e a fumaça da água quente o sufocou.
Tomou o cuidado de fechar a janela que dava para os fundos e molhou o rosto dela. Retirou a gaze que cobria o ferimento na nuca, guardou no bolso a pinça e a tesourinha de cortar unhas: não queria objetos pontiagudos ao alcance da vista. Colocou Clarice na direção do chuveiro, sentada no banquinho plástico que Patrícia usava para tomar banho.
“Vamos, não caia. Segura aqui”, ele disse. Colocou as mãos dela no corrimão do box. “Tira a roupa suja e toma um bom banho. Deixei um vestido limpo no cabideiro. A toalha é essa aqui. Não demora muito, o.k.?”
Cogitou algemar o punho de Clarice à torneira, mas achou desnecessário. Ela mal conseguia ficar de pé. A água escorria pelo rosto, molhando a roupa que delineava o corpo esguio. Téo fechou a porta do box para não molhar o tapete. Inebriado, saiu do banheiro.
Da sala, acompanhou os sons. O jato d’água contra o azulejo, o chuveiro sendo desligado e o leve riscar da porta de correr do box. Esperou mais cinco minutos para entrar. Clarice estava no chão. Já usava o vestido que ele tinha escolhido; um de flores amarelas, bem caseiro. A pele quente cheirava a banho demorado. Téo secou-lhe os cabelos. Notou também a tatuagem que ela tinha na altura do ombro esquerdo: três estrelinhas coloridas —
verde, azul e roxa. Na primeira vez que se encontraram, ele havia visto apenas parte do desenho sob a blusa.
Agora, as alças finas davam uma visão completa das estrelas de traços irregulares, como se feitas por uma criança. Sorriu e estendeu a mão para ela. Clarice segurou seu punho e o apertou com força, querendo dizer algo. Fincou os olhos nele. Ela tinha chorado?
Téo a deitou na cama. Fez carícias em seu rosto e perguntou se ela estava bem. Clarice articulava palavras desconexas, frases perdidas na língua que brotava da boca seca.
Ele buscou uma maçã e uma faca pequena na cozinha.
Fatiou a fruta, pedindo a Clarice que mastigasse devagar e tomasse cuidado para não engasgar. Ela não comia desde o dia anterior, e ele não queria vê-la murchar por sua causa. Zelar pela saúde do outro era essencial em um bom relacionamento. Serviu-lhe meia maçã: ela mastigava com os lábios, deixando escorrer um filete de saliva pelo queixo e pelo pescoço. Téo enxugou o queixo de Clarice e pediu que comesse direito. Caso necessário, poderia servi-la para sempre. Gostava de vê-la comer aos pouquinhos, tão carente de cuidados. Como também estava com fome, comeu a outra metade da maçã.
Substituiu o cenário do quarto minúsculo pelo parque Lage — vegetação colorida, brisa ventilando os piqueniques. Queria que aquela felicidade fosse eterna.
Deixou que Clarice comesse em seu ritmo e gostou quando ela — boca aberta — pediu por mais.
“Quero ir embora”, ela disse, finalmente. Sua voz estava mais firme.
“Precisamos conversar.”
“Quero ir embora.”
“Não vou te prender aqui. Fica calma.”
Clarice não estava calma. Agitava o corpo, tomada de raiva. Falava alto e de um modo grosseiro que o afugentou. Ele teve que usar da força para dominá-la.
Prendeu uma algema em seu punho e outra no bíceps, impedindo que ela movesse o braço. Contrariado, injetou nova dose de Thiolax — dessa vez no braço esquerdo, pois o direito apresentava um disforme círculo roxo da aplicação anterior.
Descansou na cadeira giratória. Aos poucos, o mal-estar arrefecia. Buscou o celular de Clarice no armário e o religou. Quatro mensagens pipocaram na tela. A primeira era de Laura, que ele deduziu ser a amiga que havia abusado de Clarice. Enviada na terça à tarde, Laura agradecia a noite anterior — ela usava os adjetivos
“ótima” e “inesquecível” para descrever essa noite — e sugeria uma conversa, caso Clarice estivesse confusa com o ocorrido. Terminava mandando beijinhos infinitos e dizendo que aguardava ansiosamente — o advérbio estava lá, abusado — um retorno. Téo apagou a mensagem.
A seguinte trazia o número de ligações perdidas.
Quatro de Helena; três de Breno e outras três de Laura.
Téo quis saber quem era Breno. A imagem do contato era uma foto do Woody Allen mais jovem. Acessou as conversas que Clarice já tivera com ele e notou que a terceira mensagem era justamente de Breno, enviada naquela manhã: pedia desculpas pelo acesso de ciúmes, dizia que precisava conversar com ela e que ainda a amava. Em nenhum momento chamava Clarice pelo
nome, mas de amor no início e de minha sonata ao final, antes de repetir um “te amo”.
Téo releu: minha sonata. O vocativo que Breno usava — além das vezes em que o verbo “amar” aparecia — fez Téo se sentir traído. O rapaz abusava da língua portuguesa e tratava Clarice com um pronome possessivo, como se ela pertencesse a ele.
Téo excluiu o contato e, antes de apagar todas as mensagens dos dois (mais de um ano de conversas), decidiu responder. Foi sucinto, quase grosseiro: “NÃO
QUERO CONVERSAR NADA. NÃO TE AMO MAIS. NOSSO NAMORO ACABOU.
ESTOU EM OUTRA. ME ESQUECE”.
Era madrugada. Téo ouviu a chave girar na porta e foi receber a mãe. Patrícia tinha os olhos inchados, uma caixa de lenços de papel pousada no colo. Carregava o peso da culpa.
“O resultado só sai em vinte dias”, disse ao filho.
“Preciso dormir.”
Ele aproveitou para olhar a última mensagem no celular de Clarice. Era de Helena: “FILHA, ESTOU TE LIGANDO NO
CELULAR. FORA DE ÁREA. VOCÊ JÁ FOI PRA TERÊ? ME LIGA QUANDO PUDER
E ME DIZ SE CHEGOU DIREITINHO. SEU PAI MANDOU BEIJOS. FICA BEM. TE
ESPERO, SUA MÃE. P.S.: VOCÊ SABE ONDE FOI PARAR O TAPETE DA SALA?”.
Deitado no sofá, Téo encarava a tela do celular. Sua mente borbulhava, buscando explicações para o sumiço do tapete. Após reler diversas vezes as mensagens anteriores, notou que Clarice tratava a mãe pelo primeiro nome, o que lhe pareceu formal demais. Esboçou algumas respostas, todas insatisfatórias. Procurou no roteiro de Clarice palavras que ela usava com frequência.
Minutos depois, encarou o resultado. Não era impecável, mas talvez conseguisse disfarçar por algum tempo.
Enviou: “HELENA, VIM PRA TERÊ COM O NOVO NAMORADO. ANDO
ESCREVENDO MUITO TAMBÉM. NO HOTEL NÃO PEGA CELULAR, VOCÊ SABE.
ESTOU NA CIDADE AGORA. ELE ME TROUXE PRA JANTAR NUM LUGAR LINDO.
ACHO MEIO TARDE PRA TE LIGAR. MANDA BEIJO PRO PAI. SOBRE O TAPETE, VEIO COMIGO. É UMA LOOOONGA HISTÓRIA, DEPOIS TE CONTO. NÃO SE
PREOCUPA. ESTOU ÓTIMA E FELIZ. UM BEIJO DA CLARICE”.
Clarice sorria do banco do carona. Sem que Téo precisasse fazer nada, ela esticou o pescoço e roubou-lhe um beijo. Depois outro e mais outro. Ele não podia responder às carícias, pois dirigia. A estrada desaparecia diante do painel, árvores passavam pelas laterais do veículo. Clarice mordiscou sua bochecha e a sensação foi gostosa. Os dentes protuberantes roçavam-lhe a pele e ele a chamava de “ratinha”, um apelido carinhoso que ela não se importava de ouvir; achava divertido até.
Não estavam mais no carro, e sim em uma mesa de amigos, muitos amigos (de alguns, verdade seja dita, ele nem sabia o nome). Contou a história de como tinham se conhecido: o beijo no churrasco, a jogada para conseguir o celular dela (agora todos viam graça naquilo), as insistências, as negativas, o livro da Clarice Lispector como presente (Clarice Lispector?! Gargalhavam mais ainda).
Então se beijavam, para mostrar que continuavam a se amar depois de tudo.
Téo entreabriu os olhos, sentindo-se muito bem. Não queria se levantar porque cada movimento o distanciava
do sonho. Fios de luz venciam a persiana e iluminavam parcialmente o rosto de Clarice ao seu lado. Acariciou os cabelos dela e aproximou o rosto, estudando a respiração arfante e os dentinhos que se projetavam para fora dos lábios secos. Ratinha. Tinha uma sonoridade intimista.
Repetiu mais vezes, em voz alta. Ratinha, ratinha, ratinha.
Minha ratinha.
A ideia chegou como se estivesse ali o tempo todo com eles, sobre a cama de casal. Eram oito e meia da manhã.
Téo se levantou repleto de energia. Tomou banho e vestiu uma roupa confortável. Pegou as malas de viagem no alto do armário. Separou mudas de roupa, cuecas, meias e sapatos; compartimentou acessórios numa maleta.
Entre clássicos e contemporâneos, selecionou seus filmes prediletos para ver com Clarice: Doze homens e uma sentença, O segredo dos seus olhos, Pequena Miss Sunshine. Pensou em incluir Louca obsessão, mas desistiu. O excesso de violência o cansava às vezes.
Na escrivaninha, encontrou a valise com senha —
bonita, preta, de couro — que havia ganhado de Patrícia ao entrar na faculdade. Tinha afeição pela valise e guardou nela o roteiro de Clarice, além do livro com a mancha de sangue e das ampolas de Thiolax. Devolveu Clarice à mala. Era incrível como ela era flexível e se dobrava sem dificuldades, feito aquelas escovinhas de dente para viagem.
Desceu pelo elevador dos fundos até a garagem, guardando as Samsoniteno bagageiro do carro. Quando voltou ao apartamento, entrou no quarto da mãe para
dar bom-dia. Ela estava sentada na cama, verificando faturas de cartão.
“A Clarice me ligou. Disse que vai viajar hoje pra Teresópolis e me chamou pra ir com ela. Passar uns dias lá, acho.”
Patrícia levantou os olhos para o filho. O corpo murcho evidenciava a exaustão. Ele continuou:
“Não quero deixar você aqui sozinha. Principalmente depois do que aconteceu com o Sansão…”
“A Marli me ajuda no que eu precisar. Vou ficar bem”, Patrícia disse, como ele sabia que ela faria. “Você gosta mesmo dessa menina, não é?”
“Gosto.”
“Viaje com ela. Só não deixe de dar notícias.”
“Lá não tem sinal. Mas vou ao centro da cidade para te ligar, prometo. Posso ir com o Vectra?”
“Sim, claro. Escreva num papelzinho o nome do hotel.
Deixa na porta da geladeira.”
“Obrigado, mãe.”
Despediu-se com um abraço apertado. Deu a desculpa de que ainda faltavam alguns minutos para o horário que tinha combinado de buscar Clarice e se sentou diante da TV. Quando Patrícia saiu do quarto, Téo abriu as gavetas da cômoda e pegou o antigo revólver do pai. Guardou-o na maleta, pois não havia espaço na valise com senha.
Ele estava confiante: viajaria com Clarice para Teresópolis, iria conquistá-la aos poucos e — riu do trocadilho — juntos viveriam dias perfeitos.