Dias perfeitos
Capítulo 19
Pediu desculpas. Téo não tinha vontade de falar mais nada.
“A verdade é que sou um lago de sentimentos…”, ela disse, apertando os olhos. “Sei que você está inseguro.
Eu entendo.”
Abraçou-o com força, a voz rouca sussurrada no ouvido dele:
“As pessoas ficam vagando nesse meu enorme lago.
Não sei explicar. Ultimamente, você emergiu, chegou à superfície. O Breno só afundou. Não se importe com ele.
Ele já chegou ao fundo, e você ainda está nadando.”
Deu-lhe outro selinho:
“Estou gostando de gostar de você, Téo. Por favor, não destrua isso.”
19.
Era sábado, véspera de Natal. Téo se banhava no mar quando viu o barco no horizonte acelerando em direção à costa. Na areia, Clarice lia Lispector. Ergueu a cabeça ao ouvir o ronco do motor. Téo nadou para a terra firme e mandou que ela entrasse na casa. Algemou-a à cama, guardou a chave e voltou em tempo de encontrar a velha desembarcando.
“Bom dia!”, ele disse.
A velha estava excessivamente maquiada: batom vermelho, pó no rosto moreno, rímel nos olhos que se demoravam observando as duas cadeiras, abertas próximas à água.
“Está acompanhado?”
“Não. O que faz aqui?”
“Vim ver se está tudo bem.”
Continuava a olhar fixamente para as cadeiras.
“Uso duas cadeiras para esticar as pernas”, ele disse, mas logo achou-se ridículo. Mesmo de longe, era possível que a velha tivesse visto Clarice correr para dentro da casa.
“Como amanhã é Natal, pensei que talvez você quisesse ir ao centro comprar alguma coisa. Ou ligar pra alguém.”
“Obrigado por pensar nisso.”
Téo queria comprar meio quilo de mignon para Clarice, que vinha reclamando da falta de carne vermelha, além de alguns ingredientes para a ceia. Cozinharia talharim com molho branco e azeitonas chilenas, sua especialidade.
“Vou me enxugar e mudar de roupa.”
A velha concordou, encarando Téo com os olhinhos vibrantes. Ela tinha um rosto grosseiro, com bochechas ossudas, sobrancelhas grossas e um nariz desajeitado com aparência de morango invertido. Suas costas, levemente encurvadas, a projetavam para a frente de modo intimidador.
“Acompanho você até lá dentro”, ela disse, com um sorriso.
“Não precisa. Prefiro que me espere no barco.”
A curiosidade da velha fez Téo imaginá-la morta, ensacada aos pedacinhos.
“Prometo não demorar”, disse.
Tomou o caminho da casa e ouviu os passinhos arrastados da velha atrás dele. Virou-se para ela:
“Por favor, quero que me espere na merda do barco!”
Ela recuou, espantada. Ergueu os braços num gesto defensivo:
“Como preferir.”
Girou o corpinho frágil e foi se afastando. Téo percebeu que, pela idade ou pelo medo, as pernas dela tremiam.
Vestiu-se, aflito. Pela janela, garantia que a velha continuava distante. Pediu que Clarice vestisse a mordaça com arreio.
“Não precisa. Não vou gritar.”
“Por favor”, ele insistiu. “Faça o que estou falando.”
“A confiança é essencial…”
“Bota a mordaça!”
Pegou a carteira e os celulares. Esquecia algo? Sob o sofá, encontrou uma faca de tamanho médio. Escondeu-a no cós da calça jeans. Clarice continuava a falar, ainda presa à grade da cama:
“Eu poderia ter gritado quando o barco apareceu. Vi a mulher chegar. Poderia gritar agora também. Com certeza ela me ouviria.”
“Você não faria isso…”
“Não faço porque não tenho vontade. Você acha que pode me fazer feliz. Quero te dar uma chance.”
“Eu vou te fazer feliz.”
“Então, sem mordaças… Estamos no meio do nada. E
não tenho motivos pra gritar. Desde aquela noite…”, ela se calou, subitamente envergonhada. Ele ficou feliz que Clarice tivesse mencionado aquela noite. Estava excitado e tentou disfarçar.
“Pode ficar sem a mordaça.”
Ela sorriu:
“Obrigada, meu amor!”
Téo estagnou. Era a primeira vez que ela o chamava assim. Quis conversar sobre aquilo, mas a velha gritou para que ele se apressasse. Ao pisar na areia, sentia-se flutuando. Saboreava as palavras de Clarice e as teria saboreado durante toda a viagem não fosse a intromissão pouco sutil da velha fofoqueira.
“Tem alguém na casa com você, não é?”, ela perguntou, de repente.
Estavam em alto-mar. A velha guiava o barco em velocidade excessiva, e Téo se perguntou por que ela tinha tanta pressa de chegar à terra firme.
“Não sei do que está falando.”
Ela não reagiu. Continuou de costas para ele, as mãos fixas ao volante.
“Vi alguém correr para dentro da casa quando eu chegava.”
“A senhora está imaginando coisas.”
“Não precisa me dar explicações, rapaz. Mas não minta pra mim.”
“Talvez a senhora esteja certa, então.”
“Estou”, ela disse, encarando-o de um jeito vulgar.
“Fica tranquilo que não vou fazer nada. Você me pagou bem o suficiente para que eu não faça perguntas.
Comentei por comentar.”
Estavam a poucos metros de distância e o olhar dela o incomodou tremendamente. Ele se remexeu no banco da popa. Ela sabia que ele estava com alguém na praia e não demoraria a se perguntar quem era a pessoa e como ela tinha chegado lá. Mais ainda, a curiosidade a levaria a investigar por que ele tinha se dado ao trabalho de esconder a informação.
Téo empunhou a faca na mão trêmula, sem se dar conta do que estava prestes a fazer. Aproximou-se com cautela. O barco navegava no meio do nada; a costa era apenas uma mancha rósea, de modo que ele se sentiu seguro e invencível. Bastava fazer um corte na jugular da velha e, então, jogá-la no mar. Em menos de um minuto,
extirparia o problema. Teria dificuldades em pilotar o barco, mas não seria impossível.
Seu passo fez estalar uma tábua do barco. O barulho o assustou, mas ela pareceu não ter escutado, pois não se virou. Decidiu puxar conversa. O assunto disfarçaria o real motivo da aproximação. Nesse momento — na fração de segundo em que ele pensou em conversar com a velha —, uma série de perguntas possíveis passou-lhe pela cabeça. A infinidade de perguntas era ainda maior do que a imensidão do mar diante de si.
Ainda assim, sem saber, Téo fez a pergunta-chave. A pergunta cuja resposta fez com que ele recuasse sem forças e lançasse a faca no mar, voltando depressa para o lugar na popa. Fosse qualquer outra, ele teria matado mais uma pessoa. Mas algo quis que acontecesse como aconteceu: ele fez compras no centro, preferiu não ligar para ninguém e voltou à casa horas depois, ainda inebriado por aquele instante no barco. A pergunta que Téo fez foi: “Qual é o seu nome verdadeiro, senhora?”. E
a resposta da velha, com um sorriso desdentado, foi:
“Gertrudes”.
Na manhã de Natal, Téo acordou perturbado por um pesadelo que, como todos os pesadelos que perturbam, parecia real demais. Gertrudes estava nele. Não a sua Gertrudes, que era educada e não seria capaz atrapalhar seu sono, mas a outra, a velha medonha. Clarice também aparecia, gargalhando exageradamente. Ele tentou recuperar o volume e o timbre exatos das gargalhadas, mas notou que nunca tinha visto Clarice rir daquele jeito.
Fechou os olhos, realocando peças numa ordem lógica.
Havia uma emboscada. Uma emboscada criada por todos para enganá-lo. O policial na blitztinha identificado a foto de Breno e acionado outras unidades. Instruíram a velha — ela nem se chamava Gertrudes, na verdade —
para recebê-lo em Ilha Grande e alugar a casa na praia deserta. Os contatos de Helena por telefone serviam para confirmar que Clarice estava viva. O que esperavam para prendê-lo? Tudo se encaixava, e isso o deixou muito assustado. O repentino aparecimento da velha teria servido para que a polícia fosse à ilha tranquilizar Clarice.
Ele havia demorado pouco no centro, mas tempo suficiente para que alguém tivesse aparecido. Isso também explicava por que Clarice estava tão tolerante ultimamente.
Téo sacudiu a cabeça: quantas ideias loucas! Clarice estava gostando dele finalmente e ele vinha com esses pensamentos! Era tão grotesco que riu alto — a mesma risada de Clarice no sonho. Decidiu dar um mergulho para espantar aquela história. Nadou bastante e ficou muito tempo debaixo d’água, prendendo a respiração, pois o breve sufocamento o acalmava. Passou a tarde pensando em emboscadas.
A noite chegou fria, porém aconchegante. Téo fritou rabanadas, preparou seu prato especial — que Clarice elogiou já pelo aroma — e abriu o vinho italiano. Vestiu uma camisa social e perfumou-se com algum excesso.
Clarice usava um vestido azul-marinho que Téo achou antiquado para ela. Os brincos eram semicírculos perolados.
Conversaram pouco e terminaram a primeira garrafa ainda na mesa de jantar. Ela bebia mais depressa do que ele e tinha consumido mais de três quartos da garrafa.
Decidiram abrir a outra do lado de fora da casa, sentados nas espreguiçadeiras de frente para o mar. Ela havia proposto que subissem o rochedo, mas o vento estava muito forte. Vestira um casaquinho vermelho para se proteger.
“Você acredita em Deus?”, ela perguntou. O vinho já fazia efeito: os braços caídos pelas laterais, a taça cambaleante na mão direita, as pernas esticadas revolvendo a areia molhada.
“Não sei.”
“Esperava uma resposta melhor.”
Téo estava relaxado e tinha até esquecido o pesadelo de mais cedo.
“Acho que as pessoas precisam acreditar em algo superior e desconhecido para a vida fazer sentido. E para impor limites também.”
“E o que seria esse algo superior?”
“Para mim, é a ciência. Não preciso de Deus, mas vou à igreja.”
“Também não acredito Nele.”
Ela jogou a cabeça para cima como se desafiasse o céu. Serviu-se de mais vinho antes de enterrar a garrafa na areia:
“Prefiro pensar que somos todos livres e viemos do nada.”
“E o que está acima de você? O que te dá limites?”
“Bem, minha mãe me dá limites… E você também, agora.”
Téo encontrou certa crítica naquelas palavras. Não gostou que Clarice tivesse mencionado a mãe. Bebeu todo o vinho da taça e, quando ela pegou a garrafa, disse que não queria mais.
“Nos últimos dias, estou te sentindo amargurado. Não gosto disso.” Ela segurou e acariciou seu braço. Ele queria se levantar e buscar o colar que havia comprado de presente de Natal, mas deixou que o carinho dela se prolongasse. Por um instante, todo o plano que havia criado para aquela noite pareceu-lhe infantil.
“Eu queria pedir desculpas, Clarice… Pelo que fiz…”
“Você não fez nada.”
“Fiz, eu sei que fiz”, ele disse. Não chegava a se arrepender, mas o desejo que quase o tinha levado a matar a velha havia se transformado em algo positivo.
Talvez tivesse mesmo passado um pouco dos limites.
“Lamento não ter confiado em você ontem. Foi absurdo exigir que vestisse a mordaça.”
“Tudo bem.”
“Às vezes, eu ajo como um louco, mas… Mas é que você mexeu muito comigo e… Não posso te perder. Você é a razão da minha vida.”
Ela sorriu. Os lábios convidativos estavam escurecidos pelo vinho.
“Obrigada por esse Natal”, disse, e o pegou pela mão de um jeito delicado. “Vamos dar um passeio.”
Tomaram o caminho na direção contrária à casa. A lamparina iluminava poucos metros adiante, limitando a velocidade dos passos. Clarice perguntou até que idade ele tinha acreditado em Papai Noel e emendou um papo sobre os Natais de sua infância. Quando bebia, ficava tagarela. Téo respondia com secura. Não entendia o que estava acontecendo com ele. Chegava a ser absurdo: antes, desejava Clarice com forças que desconhecia em si mesmo. Agora que estava próximo dela, sentia-se perdido, desanimado, bobo. Segurava a lamparina como se pesasse toneladas.