Dias perfeitos

Raphael Montes · Capítulo 32 de 32

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Dias perfeitos

Capítulo 32

Era manhã de terça-feira. Téo estava na lanchonete do hospital com Gustavo, conversando sobre futebol, um assunto de que ele entendia muito pouco. O celular de Gustavo tocou e ele atendeu com surpresa, pois era Helena quem estava ligando.

“Ela acordou, ela acordou!”, foi o que Téo ouviu e nem precisou que Gustavo dissesse mais nada.

Tomaram os corredores até a UTI. Clarice estava linda, muito branca, o rosto sonolento, os olhos semifechados.

Helena chorava, segurando as mãos da filha, e Gustavo correu para abraçá-las. Naquele instante, Téo entendeu que havia chegado seu fim, mas ficou satisfeito em saber que continuaria a amá-la para sempre. Não estava nervoso; apenas sentia uma leve dor na nuca. Quando Clarice levantou a cabeça e olhou para ele, a dor na nuca

também passou. Ela o encarava com interesse inédito.

Fixou brevemente os olhos em Helena e Gustavo e, um tanto embaraçada, voltou-os para Téo:

“Desculpa, mas… quem é você?”

32.

Clarice sabia o próprio nome, mas confundiu-se ao dizer sua idade. Ficou bastante nervosa quando Helena contou do acidente de carro. Não se recordava de ter visto Téo antes, nem do que havia acontecido no mês passado ou no ano anterior. Tinha lembranças muito frescas da infância, dos pais e do colégio de freiras, mas fatos recentes estavam completamente apagados: o roteiro de Dias perfeitos; a faculdade de história da arte e a morte do avô paterno, dois anos antes. Ela chegou mesmo a duvidar de que havia noivado. Téo a enxergava como uma caixa vazia; sem recordações, fatos, sonhos, desejos, e não sabia muito bem o que concluir disso: estava acostumado à Clarice cheia de vontades.

As perguntas eram muitas e vinham de todos os lados.

Ele temeu que Clarice lembrasse e o acusasse, mas a expressão dela era tão hesitante que Téo soube que estava sendo sincera. Quis beijá-la e fazer massagem em seus ombros, mas se conteve. Helena ainda chorava muito. Todos ficaram chocados com a paralisia das pernas, causada pelo acidente de carro. Téo esteve ao lado de Clarice naqueles dias e foi horrível vê-la sofrer

novamente pelos mesmos motivos, como se a vida não cansasse de oferecer tragédias.

Clarice recebia muitos presentes e visitas. Os presentes vinham acompanhados de cartões que aborreciam Téo, assinados por amigos de que ele nunca tinha ouvido falar. Como era possível que ela conhecesse tanta gente? Ele não gostava nem de tocar nos cartões.

Rasgava-os sem mostrar a ninguém.

Quando Clarice recebeu alta, uma rotina começou a surgir. Ficavam muito tempo juntos na casa do Jardim Botânico. No início, ela estava retraída, mas ele respeitou esse estranhamento e conversaram bastante para recuperar a intimidade. Quase todas as noites, Téo chegava com um presentinho para ela: um livro, um óculos de sol ou um vidro de perfume. Falavam de cinema, teatro e viam muitos filmes juntos. Ela continuava basicamente com os mesmos interesses, ainda que não tivesse demonstrado nenhum gosto por cigarros ou mulheres. Tinha amado Pequena Miss Sunshine, que agora era seu filme favorito.

Pouco a pouco, ele se aproximava dela e era muito saboroso, pois Clarice se esforçava para gostar dele. Ria das coisas que ele dizia e gostava de ouvi-lo falar de seus projetos. Clarice o beijava nos lábios por vontade própria. Fazia poucas perguntas, apenas curiosidades de mulher: como tinham se conhecido, em que momento ele a havia pedido em noivado, como tinha sido a viagem para Teresópolis e coisas assim. A vantagem de tê-la desmemoriada é que ele podia contar o que quisesse; exagerava nos detalhes para soar poético e inevitável.

Eles tinham se amado muito e estavam fadados a ficar juntos.

Téo foi intimado a comparecer à delegacia numa manhã de sexta-feira. Respondeu às mesmas perguntas de antes e saiu de lá satisfeito, com a sensação de que o delegado Aquino estava completamente perdido. Havia sido impossível recuperar o conteúdo do notebook quebrado, o histórico de ligações dos celulares não indicava nada e, bem, que havia de mais em carregar uma mala vazia no bagageiro? Clarice também foi intimada, mas Helena obteve uma decisão judicial autorizando a filha a não participar do inquérito, já que ela não tinha condições psicológicas de responder a nada. Téo achou que o delegado Aquino insistiria naquele depoimento, mas isso não aconteceu.

Semanas depois, o desaparecimento de Breno estava esquecido. Outros mistérios tomaram a agenda da polícia

— e mistérios com corpos. O destino de Breno entraria naquele rol de histórias que ganham tom de fábula ao longo dos anos: o violinista que desapareceu após ter sido abandonado pela namorada. Muitos pensariam que ele estava em outro canto do mundo — Roma ou Florença — fazendo apresentações em praças. Outros poderiam achar que Breno havia sido assassinado por ele. Mas não havia provas. E ninguém parecia muito interessado agora.

Helena não mencionava o assunto e o próprio delegado nunca mais apareceu — em setembro daquele ano, Téo o viu numa entrevista televisiva colaborando com um caso escandaloso no qual um grupo de jovens tinha se suicidado de modo sangrento e vulgar. Havia desligado a televisão sem atentar para a história. Não estava com humor para desgraças. Clarice não mencionava Breno, nem fazia perguntas sobre isso, o que era ótimo: só agora ele sentia que o infeliz estava morto de vez.

Nos meses seguintes, ela fez baterias de exames, foi a incontáveis consultas com neurologistas e fisiatras, além de sessões que incluíam hidroterapia e cinesioterapia para recuperar o movimento das pernas. Téo a acompanhava e, em casa, repetia com ela os exercícios para estimular a circulação e evitar a atrofia dos membros. A evolução era lenta, comentavam à mesa de jantar, quando, na verdade, era nula. Clarice tinha ganhado maior mobilidade com o corpo, tinha aprendido a dirigir a cadeira de rodas elétrica e as dores nas costas haviam diminuído, mas as pernas continuavam imóveis e assim ficariam — a lesão na coluna era estranhamente reta e profunda.

Foi preciso aceitar que todo o esforço e o dinheiro gastos na recuperação eram inúteis. Para compensar aquela derrota, Gustavo cismou em contratar um especialista em neuroimagens funcionais para investigar a memória de Clarice. O neuropsicólogo foi à casa deles numa tarde de segunda-feira e fez testes até o fim da noite.

“O cérebro é bastante complexo”, o médico disse. “Os seres humanos têm uma memória de curto prazo e outra de longo prazo, controladas por diferentes regiões do cérebro. A Clarice foi afetada de modo que é capaz de se lembrar dos acontecimentos passados, sendo os fatos mais recentes os mais gravemente afetados. Esse quadro de amnésia é o mais comum. Após sofrer um acidente de carro, a pessoa pode não se lembrar do acidente nem dos meses anteriores a ele. Podemos iniciar um

tratamento no sentido de recuperar lentamente esses registros.”

Téo foi contra qualquer tratamento. Havia criado uma versão bem melhor de tudo e agora sentia náuseas ao pensar naqueles tempos. Helena também foi contra, mas Gustavo insistiu na ideia e disse que proibir Clarice de resgatar sua memória era algo como tolher sua personalidade, o que Téo achou um exagero. Passou a gostar menos de Gustavo.

De todo modo, as sessões com o neuropsicólogo também se revelaram inúteis. Clarice apenas se lembrava do que Téo contara a ela, com a riqueza de detalhes que ele contara a ela e do modo como ele contara a ela. Segundo a conclusão do neuropsicólogo, o registro efetivo mais recente de Clarice era a formatura do Ensino Médio. O caso dela se revelou um tanto especial nesse ponto, pois a amnésia costuma atingir períodos mais curtos, semanas ou meses.

Clarice prestou vestibular novamente, dessa vez para o curso de moda. Seus novos amigos eram tão desagradáveis quanto os antigos, mas pelo menos ela não ficava até tarde em bares ou em rodas de samba na Lapa, nem podia dançar com outros homens. Além do mais, os amigos eram poucos agora. Téo se esforçava para que Clarice se sentisse bem, ainda que ela estivesse quase sempre com uma expressão vazia ou tediosa. Por vezes, flagrava Clarice a observá-lo. Os olhos dela demoravam-se nele, mas Téo não era capaz de adivinhar o que ela pensava. Sentia-se, então, burro e impotente.

Clarice escrevia todos os dias em um caderno. Téo supôs que fosse o rascunho de um romance ou de um novo roteiro.

“O médico pediu que eu fizesse anotações de tudo, tentando separar o que eu realmente lembro e o que penso lembrar porque você ou minha mãe me contaram”, ela disse. “Muitos amnésicos já fizeram coisas semelhantes e costuma dar resultado.”

A partir desse dia, Téo passou a dar atenção redobrada ao que dizia ou fazia com Clarice. Evitava lugares como praias, motéis e concertos de orquestra. Não falava de Gertrudes, pois Clarice pediria para conhecê-la.

Arrepiava-se só de ouvir os acordes de um violino. Ela havia se revelado um tanto viciada em sexo, ainda que tivesse que buscar prazer em outras zonas erógenas —

gemia especialmente quando Téo lambia suas orelhas.

Transavam quase todos os dias, mas ele recusou de imediato quando, em certa ocasião, ela pediu para ser algemada à cama.

Ele se formou em medicina e fez residência em psiquiatria. O assunto tinha atraído seu interesse no oitavo período e redefinido sua carreira. Helena e Gustavo compraram um apartamento para eles no Catete e ajudavam com algumas contas no fim do mês.

Pagavam também a faculdade de Clarice. O apartamento era agradável, com portas largas e um banheiro amplo para que a cadeira de rodas passasse. Téo descobriu que o morador anterior era tetraplégico e que, por isso, o imóvel era tão funcional.

O corpo de Breno nunca foi encontrado. Ainda assim, Téo lia os jornais todos os dias à procura de alguma notícia e acabou se interessando por economia internacional. Ao terminar a faculdade, Clarice abriu um ateliê com uma amiga. Trabalhava de casa, atualizando o site e costurando peças sob encomenda. Nuances de sua

personalidade voltavam à superfície, mas ele já estava tão acostumado que não se importava. Sabia que Clarice era instável, emotiva e, quando brigavam, os motivos eram desprezíveis, como a cor da nova panela ou a posição do sofá na sala.

O descontrole das necessidades fisiológicas continuava a ser um inconveniente. Ele comprava as fraldas geriátricas e ajudava Clarice a trocá-las. Às vezes, ela tinha pesadelos e acordava infantilizada, pensando que tinha catorze ou quinze anos. Eram momentos muito tristes. Ficava incomodado por vê-la sofrer as consequências da própria irresponsabilidade depois de tanto

tempo.

Essa

Clarice,

oculta,

refratária,

desestabilizava Téo.

Patrícia insistia em entender a morte de Sansão e implicava muito com Clarice. Os momentos de convivência das duas eram sempre marcados por sutis grosserias e apenas uma vez a troca de acusações foi tão grave que Téo precisou intervir. Patrícia acusou Clarice de ter matado seu cachorro e ela se defendeu dizendo que não se lembrava de cachorro nenhum.

“Se fosse pra matar alguém, eu teria matado você”, Clarice tinha dito.

Em dezembro daquele ano, Patrícia sofreu um infarto fulminante enquanto jantava na casa deles. Com a morte da mãe, Téo sentiu crescer a necessidade de construir sua própria família.

Casaram-se no Mosteiro de São Bento em uma manhã agradável de janeiro. Era uma igreja muito bonita, com vista privilegiada da baía de Guanabara. Téo já conhecia o tradicional colégio beneditino, exclusivo para meninos, que havia ao lado do mosteiro e decidiu que seu filho

estudaria ali. Havia sido aprovado recentemente para o Instituto Philippe Pinel e já pensava em se tornar pai de família, o homem da casa.

Clarice estava linda no vestido branco. Muito feliz e emocionada, foi empurrada por Gustavo até o altar. Marli esteve presente no casamento e aquela foi a última vez em que Téo a viu. Ele sentia que a morte da mãe tinha rompido com todas as coisas passadas e agora havia o futuro. Um futuro de promessas e expectativas.

Os pesadelos de Clarice tinham diminuído, ainda que, por vezes, ela acordasse estranha e fosse muito penoso — gritava e quebrava pratos de comida na parede dizendo que estavam envenenados. Talvez seu casamento não fosse ideal, mas sem dúvida havia muitos piores no mundo — com traição, mentira, violência, bebida ou doenças.

Foi de modo inesperado que chegou a notícia da gravidez. Téo andava tão envolvido no mestrado que demorou a captar as pistas que Clarice lhe dava: menstruação atrasada, náuseas frequentes e desejos inusitados.

Ela havia feito alguns exames e ele pediu folga no Instituto para acompanhá-la na consulta.

“Parabéns, você está com quatro meses, mamãe. É

uma menina”, o médico disse. “Já tem ideia do nome?”

Eles não haviam discutido isso, pois contavam que fosse um menino. De todo modo, Téo ficou bastante feliz e Clarice parecia igualmente satisfeita. Ele se deu conta de que vivia um grande momento em sua vida. Amava aquela mulher e amava a criança que ela esperava.

Começou a responder que não tinham pensado em nada, mas Clarice o interrompeu. Ela tinha empertigado o

corpo e acariciava a barriga que começava a apontar.

Olhou profundamente para Téo, sorrindo para ele, e disse:

“Um nome lindo me veio agora. Gertrudes. O que você acha, amor?”

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Raphael Montes

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