Dias perfeitos
Capítulo 2
Era irritante o despeito com que os outros alunos tratavam Gertrudes. Certo dia, aquela menina — a mesma que agora gastava sua estridência com termos
médicos rebuscados —, na ausência do professor, tinha sacado do bolso um esmalte vermelho e, entre risadinhas, pintado as unhas do cadáver. Os alunos logo se aglomeraram; divertiam-se.
Téo não gostava de vinganças, mas teve vontade de se vingar da garota. Poderia conseguir uma punição institucional, burocrática e ineficaz. Poderia providenciar um banho de formol — ver nos olhos da maldita o desespero ao sentir a pele ressecar. Mas o que ele queria realmente era matá-la. E, então, pintar seus dedinhos pálidos com esmalte vermelho.
Lógico, ele não faria nada daquilo. Não era um assassino. Não era um monstro. Quando criança, passava noites sem dormir, as mãos trêmulas diante dos olhos, tentando desvendar os próprios pensamentos. Sentia-se um monstro. Não gostava de ninguém, não nutria nenhum afeto para sentir saudades: simplesmente vivia.
Pessoas apareciam e ele era obrigado a conviver com elas. Pior: era obrigado a gostar delas, mostrar afeto. Não importava sua indiferença desde que a encenação parecesse legítima, o que tornava tudo mais fácil.
O sinal tocou, liberando a turma. Era a última aula do ano. Téo saiu sem se despedir de ninguém. O edifício cinza ficava para trás e, ao olhar sobre o ombro, ele se deu conta de que nunca mais veria Gertrudes. Sua amiga seria enterrada junto aos outros corpos, jogada em uma vala. Nunca mais teriam aqueles momentos.
Ele estava sozinho outra vez.
2.
Téo acordou de mau humor e foi à cozinha preparar o café para a mãe. A bancada da pia era alta, de modo que Patrícia, sentada na cadeira de rodas, não conseguia alcançar as prateleiras suspensas. Tinha que se esticar, as pernas pendendo no apoio. Era degradante.
Enquanto a água fervia, ele varreu a sala do apartamento e lavou a louça do dia anterior. Trocou o jornal de Sansão e encheu as tigelas de comida. Como de costume, deixou o café na cabeceira da mãe e a acordou com um beijo na testa, pois é assim que os filhos amorosos devem agir.
Às nove, Patrícia saiu do quarto. Usava um vestido simples e sandálias de pano. Téo nunca tinha visto a mãe se vestindo, mas imaginava um processo exaustivo. Já havia se oferecido para ajudá-la com uma calça jeans nova, mas a recusa fora enfática: “É o mínimo que me resta”. Meia hora depois estava pronta, a calça jogada na lixeira do banheiro.
“Eu e Marli vamos na feira. Vou levar o Sansão”, ela disse, enquanto colocava um brinco diante do espelho da mesinha de centro.
Téo concordou, sem se desviar da perseguição de Tom a Jerry na TV.
“Estou bonita?”
Ele percebeu que ela estava maquiada.
“Por acaso a senhora arrumou um admirador secreto na feira? Hein, dona Patrícia? Não me esconda nada!”
“Sem admiradores por enquanto. Mas nunca se sabe…
Sou aleijada, mas não estou morta!”
Téo odiava a palavra aleijada. Numa tentativa de ironizar a própria condição, Patrícia a usava com frequência. Era triste, ele entendia. Desde o acidente, evitavam o assunto. A cadeira de rodas tinha sido inserida no dia a dia como algo natural e, no fim das contas, ele achava que não tinham mesmo que conversar a respeito daquilo.
Patrícia voltou da cozinha com Sansão na coleira. O
golden retrievermexia a cauda peluda. Havia entrado para a família nove anos antes, quando ainda moravam na cobertura diante da praia de Copacabana. Agora, o cachorro zanzando pelo apartamento de dois quartos era inconveniente. Téo preferiria deixá-lo em um abrigo —
Sansão tinha pelo bonito, era de raça, seria rapidamente escolhido por alguém. Jamais havia dito à mãe, pois sabia que ela considerava o cachorro um filho. Apesar de razoável, a proposta de se livrar dele seria rechaçada.
A campainha tocou. Patrícia se adiantou para atender a porta:
“Marli, querida!”
Era a vizinha, melhor amiga de Patrícia e aficionada por
temas
esotéricos.
Solteirona
convicta,
moderadamente burra, fazia vezes de enfermeira para Patrícia, ajudando-a no banho ou nos passeios com
Sansão pelo bairro. Jogavam carteado em dupla às quartas-feiras. Téo não sabia quem era mais dependente naquela relação e se divertia ao ver Marli lendo o futuro da mãe nas cartas — com frequência, previsões sem o menor senso de realidade. Certa vez, tinha deixado que Marli também lesse seu futuro.
“Você vai ser um homem muito rico e feliz”, ela dissera. “E vai se casar com uma linda moça.”
Ele não havia acreditado. Não supunha que fosse ser feliz um dia. Sentia-se fadado ao limbo, à monótona rotina, desprovida de momentos felizes ou tristes. Sua vida era apenas um vazio preenchido por tímidas emoções. Seguia bem assim.
“A gente volta em uma hora”, Patrícia disse. “No fim da tarde tem churrasco. Não esquece.”
“Que churrasco?”
“Da filha da Érica. Aniversário dela.”
“Não quero ir, mãe. Mal conheço a menina.”
“Vai ter gente da sua idade.”
“Sou vegetariano, mãe.”
“Meus amigos sempre perguntam por você. E deve ter pão de alho.”
Às vezes, Téo se sentia como um troféu que a mãe exibia aos outros. Era a maneira dela de suprir as próprias deficiências — físicas e intelectuais.
“Não é uma pergunta, filho. Você vai comigo.”
Patrícia bateu a porta, deixando o apartamento preenchido apenas pela musiquinha do desenho animado.
Não tinha pão de alho. Sobre a brasa da churrasqueira, sangue e gordura pingavam das carnes. Jovens dançavam ao som ensurdecedor do funk. Patrícia se divertia em uma roda de amigas. Téo mal conhecia aquelas pessoas e se arrependeu de não ter ficado em casa, na companhia de Tom e Jerry.
Entre garrafas de vodca na geladeira, pegou uma de água. Havia combinado com a mãe de ficar pouco tempo ali. Iria embora de táxi e Patrícia voltaria mais tarde com alguma amiga. Apesar do desconforto, achou o lugar bonito. Incrustada na rocha, a mansão era segmentada em espaços amplos, ligados por escadarias de pedra entre a vegetação silvestre que subia pela encosta. A casa ficava no topo. Descendo a escada, havia uma espécie de bangalô onde acontecia a festa, com piscina, churrasqueira e mesinhas de madeira fixas ao chão. Por caminhos sinuosos, chegava-se a um jardim bem cuidado e colorido, que se confundiria com a floresta não fosse a cerca branca.
“Está fugindo da música ou das pessoas?”, uma voz feminina atrás dele perguntou. Era rouca, levemente embriagada.
Téo desviou a atenção para ela. A mulher era jovem, possivelmente mais nova do que ele, e muito pequena —
tinha um metro e cinquenta, no máximo. Os olhos castanhos dela passeavam despreocupados pelas flores.
“Da música”, ele disse.
Um longo silêncio abriu espaço entre os dois.
A menina estava bem vestida — uma blusa estampada de losangos coloridos e uma saia preta —, mas não era bonita. Tinha uma beleza exótica, talvez. Os cabelos
castanho-claros estavam presos num coque desajeitado, alguns fios grudados à testa suada.
“Estava dançando?”, Téo perguntou.
“Estava. Mas cansei.”
Ela deu um sorriso e ele percebeu certo desalinho nos dois incisivos centrais superiores da menina. Achou aquilo charmoso.
“Seu nome é?”
“Téo. Teodoro, na verdade. E você?”
“Clarice.”
“É um nome bonito.”
“Pelo amor de Deus, não venha me falar de Clarice Lispector porque nunca li nada dela! Essa mulher me persegue.”
Ele se divertiu com a espontaneidade da garota, mas continuou sério. Não ficava confortável perto de mulheres
com
tanta
desenvoltura:
enxergava-as
superiores, quase inatingíveis.
Clarice se aproximou dele e deixou sobre a viga o prato com linguiças e corações de galinha que trazia na mão direita. Beliscou um coração e bebeu um gole do copo.
Ele reparou numa tatuagem colorida sob a manga da blusa. Não conseguiu desvendar o desenho.
“Você não come nada?”
“Sou vegetariano.”
“Não bebe também? Isso aí é água, não é?”
“Bebo pouco. Sou fraco pra bebida.”
“Bem…”, ela disse, mordiscando a borda do copo, “ao menos você bebe. Costumam dizer que pessoas que não bebem são perigosas… Sinal de que você não é perigoso.”
Téo achou que deveria rir do comentário e riu.
Clarice pegou mais dois corações no prato.
“E você? O que está bebendo?”, ele perguntou.
“É gummy. Uma porcaria que alguém fez com vodca e suco de limão em pó. Está com gosto de água sanitária.”
“Como você sabe o gosto de água sanitária?”
“Não preciso provar as coisas pra saber que gosto têm.”
Ela acreditava no que dizia, como se a frase fizesse sentido em si mesma.
Téo estava um pouco constrangido. Ao mesmo tempo, alguma coisa o estimulava a continuar a conversa.
Baixou os olhos para as pernas brancas dela, os pezinhos de bailarina espremidos em sandálias de tiras roxas. As unhas estavam pintadas de cores variadas.
“Por que suas unhas estão assim?”
“As das mãos também estão.” Ela as estendeu para ele. Os dedos eram longos e finos; as mãos mais frágeis que ele já tinha visto. As unhas, cortadas curtas, estavam esmaltadas numa sequência de cores aleatórias.
“Certo. Por quê?”
Ela sequer pensou: “Pra ser diferente”. E levou o indicador direito à boca.
Téo ficou satisfeito em constatar que estava certo: Clarice roía as cutículas. Por isso, tinha aquele pequeno defeito nos incisivos, levemente projetados para fora.
Ainda que nunca tivesse cursado odontologia, ele havia estudado bastante sobre o tema para se aproximar de Gertrudes.
“E por que ser diferente?”
Ela arqueou as sobrancelhas:
“Este mundo já é muito sem graça. Tenho pais que não me deixam mentir. Meu pai, por exemplo. É engenheiro e
vive viajando. São Paulo, Houston, Londres. Minha mãe é advogada. Burocracia correndo nas veias da família. É
bom ser diferente por isso. Não ter horários. Ficar bêbada sem medo. Fazer merda, depois nem lembrar. Pintar as unhas, uma de cada cor. Experimentar a vida antes que seja tarde, entende?”
Clarice abriu a bolsinha trançada e tirou um maço de cigarros. Vogue, sabor menta. Escolheu um.
“Tem isqueiro?”
“Não fumo.”
Ela soltou um muxoxo e cavoucou a bolsa. Àquela hora, o sol sumia por trás do rochedo. Téo acompanhou o movimento das sombras embriagadas lá embaixo.
Clarice encontrou o isqueiro e acendeu o cigarro, protegendo a chama da brisa. Deu uma tragada, lançando a fumaça na direção dele:
“Você não come, não fuma e quase não bebe… Téo, você trepa?” Ele se afastou um pouco, centímetros, escapando também do ar esfumaçado com cheiro de hortelã. Fugia do quê? Por que aquela menina esquisita o encabulava com tanta facilidade? Não sentia necessidade de fingir nada diante dela. Gostava da liberdade com que Clarice manuseava o cigarro e falava o que bem entendia.
“É só brincadeira. Relaxa”, ela disse, com um soquinho no ombro dele.
Era a primeira vez que se tocavam. Téo sorriu, sentindo uma comichão na área em que ela havia encostado.
Precisava falar alguma coisa:
“O que você faz da vida?”
“O que eu faço da vida…” Ela mastigou outro coração.
“Eu bebo bastante, como de tudo, e já fumei de tudo
também, mas agora só esse Vogue de menta, cigarro de mulherzinha, e, bem, eu trepo de vez em quando. Faço faculdade. História da arte. Mas não sei se estou feliz com o curso. Minha praia é roteiro.”
“Roteiro?”
“É, de cinema. Estou escrevendo um longa. Na verdade, não sei se vai ser um longa. O argumento está pronto. E o texto tem quase trinta laudas agora. Ainda falta bastante pra terminar.”
“Eu gostaria de ler”, ele disse, sem entender por que dizia aquilo. Estava curioso para ver o resultado de tanta irreverência. Queria saber sobre o que e como ela escrevia. Os escritores de ficção colocam muito de si nos textos.
“Não sei se você vai gostar”, ela disse. “É uma história pra mulheres, entende? Três amigas solteiras num carro em busca de aventuras pelo país… É tipo um road movie.”
“Só posso gostar se eu ler.”
“Bem, te mostro então.” Ela amassou a guimba com a sandália e mastigou mais dois corações. “E você? Faz o quê?”
“Medicina.”
“Uau, profissão quadradona. Minha mãe ia adorar. Ela diz que história da arte não leva a lugar nenhum. Como se ficar mexendo em códigos e bater perna carregando processos levasse…”
“Não é exatamente quadradona. Existe arte na medicina.”
“Onde?”
“Antes, teríamos que discutir o que é arte. Eu, por exemplo, quero ser patologista.”
“Não vejo arte aí.”
“É uma discussão longa. Podemos falar disso depois”, ele disse. Tentava criar mais um elo invisível.
“Pode ser. Tenho que ir agora.”
Ele não gostou que ela quisesse partir tão depressa.
Teve a impressão de que, por algum motivo, Clarice o estava evitando.
“Vou pedir um táxi. Quer carona?”, ele disse.
“Não, moro aqui perto.”
“Me empresta seu celular? Deixei o meu em casa e preciso ligar pra companhia de táxi. Prometo não gastar muito.”
Ela enfiou a mão na bolsa de pano.
“Toma aí.”
Enquanto completava a chamada, Téo observou Clarice. Ela havia soltado os cabelos, tão longos que desciam abaixo da cintura. Naquele corpo miúdo, os cabelos faziam um contraste que o agradava.
Dois holofotes automáticos acenderam quando anoiteceu.
“Ninguém atende. Deixa que eu pego qualquer táxi na rua.”
Devolveu o celular a ela. Seguiram juntos pelo caminho de pedra até a bifurcação.
“A saída é pra lá”, ele apontou.
“Vou pegar uma cerveja e me despedir de um pessoal.
Não vai se despedir de ninguém?”
Ele deveria inventar alguma desculpa, mas quis dizer a verdade:
“Prefiro não me despedir de ninguém.”
Ela concordou. Aproximou-se e deu-lhe um selinho nos lábios tensos. Depois, virou as costas e subiu as escadas
de dois em dois degraus, o copo com o líquido verde, de cujo nome Téo não se lembrava, vacilante na mão esquerda.
Ao chegar em casa, Téo se sentia zonzo. Correu ao celular na cabeceira da cama e aproveitou para mandar uma mensagem à mãe. Acessou as chamadas perdidas, saboreando os dígitos da última ligação recebida. Ficou muito tempo deitado no sofá. Encarava o teto, revivia imagens. Algo havia explodido dentro dele. Algo que ele não conseguia nem queria explicar. Ainda que não soubesse o sobrenome de Clarice, onde ela morava ou em que universidade cursava história da arte, ele tinha o número do celular dela e isso os tornava íntimos.