Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal

VIII. Deveres de um cidadão respeitador das leis

VIII

 

DEVERES DE UM CIDADÃO RESPEITADOR DAS LEIS

 

Assim sendo, eram muitas as oportunidades de Eichmann se sentir como Pôncio Pilatos, e à medida que passavam os meses e os anos, ele perdeu a necessidade de sentir fosse o que fosse. Era assim que as coisas eram, essa era a nova lei da terra, baseada nas ordens do Führer; tanto quanto podia ver, seus atos eram os de um cidadão respeitador das leis. Ele cumpria o seu dever, como repetiu insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia ordens, ele também obedecia à lei. Eichmann tinha uma vaga noção de que isso podia ser uma importante distinção, mas nem a defesa nem os juízes jamais insistiram com ele sobre isso. As moedas bem gastas das “ordens superiores” versus os “atos de Estado” circulavam livremente; haviam dominado toda a discussão desses assuntos durante os julgamentos de Nuremberg, pura e simplesmente por dar a ilusão de que algo absolutamente sem precedentes podia ser julgado de acordo com precedentes e seus padrões. Eichmann, com seus dotes mentais bastante modestos, era certamente o último homem na sala de quem se podia esperar que viesse a desafiar essas idéias e agir por conta própria. Como além de cumprir aquilo que ele concebia como deveres de um cidadão respeitador das leis, ele também agia sob ordens — sempre o cuidado de estar “coberto” —, ele acabou completamente confuso e terminou frisando alternativamente as virtudes e os vícios da obediência cega, ou a “obediência cadavérica”, (Kadavergehorsam), como ele próprio a chamou.

A primeira indicação de que Eichmann tinha uma vaga noção de que havia mais coisas envolvidas nessa história toda do que a questão do soldado que cumpre ordens claramente criminosas em natureza e intenção apareceu no interrogatório da polícia, quando ele declarou, de repente, com grande ênfase, que tinha vivido toda a sua vida de acordo com os princípios morais de Kant, e particularmente segundo a definição kantiana do dever. Isso era aparentemente ultrajante, e também incompreensível, uma vez que a filosofia moral de Kant está intimamente ligada à faculdade de juízo do homem, o que elimina a obediência cega. O oficial interrogador não forçou esse ponto, mas o juiz Raveh, fosse por curiosidade, fosse por indignação pelo fato de Eichmann ter a ousadia de invocar o nome de Kant em relação a seus crimes, resolveu interrogar o acusado. E para surpresa de todos, Eichmann deu uma definição quase correta do imperativo categórico: “O que eu quis dizer com minha menção a Kant foi que o princípio de minha vontade deve ser sempre tal que possa se transformar no princípio de leis gerais” (o que não é o caso com roubo e assassinato, por exemplo, porque não é concebível que o ladrão e o assassino desejem viver num sistema legal que dê a outros o direito de roubá-los ou matá-los). Depois de mais perguntas, acrescentou que lera a Crítica da razão pura, de Kant. E explicou que, a partir do momento em que fora encarregado de efetivar a Solução Final, deixara de viver segundo os princípios kantianos, que sabia disso e que se consolava com a idéia de que não era mais “senhor de seus próprios atos”, de que era incapaz de “mudar qualquer coisa”. O que não referiu à corte foi que “nesse período de crime legalizado pelo Estado”, como ele mesmo disse, descartara a fórmula kantiana como algo não mais aplicável. Ele distorcera seu teor para: aja como se o princípio de suas ações fosse o mesmo do legislador ou da legislação local — ou, na formulação de Hans Frank para o “imperativo categórico do Terceiro Reich”, que Eichmann deve ter conhecido: “Aja de tal modo que o Führer, se souber de sua atitude, a aprove” (Die Technik des Staates, 1942, pp. 15-6). Kant, sem dúvida, jamais pretendeu dizer nada desse tipo; ao contrário, para ele todo homem é um legislador no momento em que começa a agir: usando essa “razão prática” o homem encontra os princípios que poderiam e deveriam ser os princípios da lei. Mas é verdade que a distorção inconsciente de Eichmann esta de acordo com aquilo que ele próprio chamou de versão de Kant “para uso doméstico do homem comum”. No uso doméstico, tudo o que resta do espírito de Kant é a exigência de que o homem faça mais que obedecer à lei, que vá além do mero chamado da obediência e identifique sua própria vontade com o princípio que está por trás da lei — a fonte de onde brotou a lei. Na filosofia de Kant, essa fonte é a razão prática; no uso doméstico que Eichmann faz dele, seria a vontade do Führer. Grande parte do minucioso empenho na execução da Solução Final — um empenho que geralmente atinge o observador como tipicamente alemão, ou característico do perfeito burocrata — pode ser atribuída à estranha noção, efetivamente muito comum na Alemanha, de que ser respeitador das leis significa não apenas obedecer às leis, mas agir como se fôssemos os legisladores da lei que obedecemos. Daí a convicção de que é preciso ir além do chamado do dever.

Seja qual for o papel de Kant na formação da mentalidade do “homem comum” da Alemanha, não existe a menor dúvida de que Eichmann efetivamente seguia os preceitos de Kant: uma lei era uma lei, não havia exceções. Em Jerusalém, ele admitiu apenas duas dessas exceções durante a época em que “80 milhões de alemães” tinham cada um o “seu judeu decente”: ele havia ajudado um primo meio-judeu e um casal judeu em Viena por quem seu tio interviera. Essa incoerência ainda o deixava um tanto incomodado, e quando foi interrogado a esse respeito, ficou abertamente apologético: ele havia “confessado seus pecados” a seus superiores. Essa atitude intransigente em relação ao desempenho de seus deveres assassinos condenou-o mais do que qualquer outra coisa aos olhos dos juízes, o que era compreensível, mas a seus próprios olhos era exatamente ela que o justificava, assim como antes silenciara a consciência que pudesse lhe restar. Sem exceções — essa era a prova de que ele havia agido sempre contra seus “pendores”, fossem eles sentimentais ou inspirados por interesse, em prol do cumprimento do “dever”.

Cumprir seu “dever” acabou fazendo com que entrasse em conflito aberto com as ordens de seus superiores. Durante o último ano da guerra, mais de dois anos depois da Conferência de Wannsee, ele experimentou sua última crise de consciência. Com a aproximação da derrota, ele se viu confrontado com homens de seu próprio escalão que lutavam mais e mais insistentemente por exceções e até pela cessação da Solução Final. Foi o momento em que sua cautela se rompeu e ele começou, mais uma vez, a tomar iniciativas — por exemplo, ele organizou as marchas a pé dos judeus de Budapeste até a fronteira da Áustria depois que o bombardeio aliado arrasou com o sistema de transporte. Era o outono de 1944, e Eichmann sabia que Himmler havia ordenado o desmantelamento das instalações de extermínio em Auschwitz e que o jogo acabara. Por volta dessa época, Eichmann teve uma de suas raras entrevistas pessoais com Himmler, no curso da qual este último teria gritado para ele: “Se você até agora esteve ocupado liquidando judeus, de agora em diante, estou ordenando, vai cuidar muito bem dos judeus, vai ser enfermeira deles. Lembre-se que fui eu — e não o Gruppenführer Müller ou você — que fundou o RSHA em 1933; sou eu que dou as ordens aqui!”. A única testemunha que poderia confirmar essas palavras era o suspeitíssimo sr. Kurt Becher; Eichmann negou que Himmler tivesse gritado com ele, mas não negou que essa entrevista aconteceu. Himmler não pode ter dito exatamente essas palavras, pois ele sabia que o RSHA havia sido fundado em 1939 e não em 1933, e não só por ele, mas também por Heydrich, com seu endosso. Mesmo assim, algo desse tipo deve ter acontecido, porque Himmler estava nessa época dando ordens a torto e a direito para que tratasse bem os judeus — eles eram seu “investimento mais seguro” —, o que deve ter sido uma experiência chocante para Eichmann.

 

A última crise de consciência de Eichmann começou com suas missões na Hungria em março de 1944, quando o Exército Vermelho estava se movimentando nos montes Cárpatos em direção à fronteira húngara. A Hungria havia aderido à guerra do lado de Hitler em 1941, simplesmente a fim de receber mais alguns territórios dos países vizinhos — Eslováquia, Romênia e Iugoslávia. O governo húngaro era abertamente anti-semita mesmo antes disso, e agora começava a deportar todos os judeus apátridas para os territórios recém-adquiridos. (Em quase todos os países, as ações antijudaicas começavam com pessoas sem nacionalidade.) Isso não fazia parte da Solução Final e, na verdade, não se encaixava nos complexos planos então em preparação de “passar um pente fino de Leste a Oeste” na Europa, de forma que a Hungria era pouco prioritária na ordem das operações. Os judeus apátridas tinham sido despachados pela polícia húngara para a parte mais próxima da Rússia, e as autoridades de ocupação alemãs no local protestaram contra a sua chegada; os húngaros pegaram de volta alguns milhares de homens capazes e deixaram que o resto fosse fuzilado por tropas húngaras sob a orientação de unidades da polícia alemã. Mas o almirante Horthy, governante fascista do país, não quis prosseguir — provavelmente devido à influência restritiva de Mussolini e do fascismo italiano —, e nos anos seguintes, a Hungria, como a Itália, tornou-se um abrigo de judeus, para o qual até refugiados da Polônia e da Eslováquia ainda podiam escapar. A anexação do território e o fluxo de refugiados que entravam aumentou o número de judeus na Hungria de 500 mil antes da guerra para aproximadamente 800 mil em 1944, quando Eichmann foi para lá.

Como sabemos hoje, a segurança desses 300 mil judeus recém-adquiridos pela Hungria era devida mais à relutância dos alemães em dar início a uma ação separada contra um número limitado do que à disposição húngara de oferecer asilo. Em 1942, sob pressão do Ministério das Relações Exteriores (que sempre deixou muito claro para os aliados da Alemanha que a pedra de toque de sua confiabilidade era sua ajuda não em ganhar a guerra, mas em “resolver a questão judaica”), a Hungria propôs entregar todos os refugiados judeus. O Ministério das Relações Exteriores queria aceitar isso como um passo na direção certa, mas Eichmann objetou: por razões técnicas, ele achava “preferir retardar essa ação até a Hungria estar pronta para incluir os judeus húngaros”; seria muito oneroso “movimentar toda a máquina de evacuação” para uma única categoria, sem fazer, portanto, “nenhum progresso na solução do problema judeu na Hungria”. Agora, em 1944, a Hungria estava “pronta”, porque em 19 de março duas divisões do Exército alemão ocuparam o país. Com elas veio o novo plenipotenciário do Reich, o Standartenführer da SS dr. Edmund Veesenmayer, agente de Himmler nas Relações Exteriores, e o Obergruppenführer da SS Otto Winkelmann, um dos comandantes superiores da SS e da polícia e portanto sob comando direto de Himmler. O terceiro oficial da SS a chegar ao país foi Eichmann, perito em evacuação e deportação de judeus, que estava sob o comando de Müller e Kaltenbrunner no RSHA. O próprio Hitler não havia deixado dúvidas do que significava a chegada desses três senhores; numa famosa entrevista, anterior à ocupação do país, ele disse a Horthy que “a Hungria ainda não adotou os passos necessários para resolver a questão judaica”, e acusou-o de “não ter permitido que os judeus fossem massacrados” (Hilberg).

A missão de Eichmann era clara. Todo o seu departamento foi transferido para Budapeste (em termos de carreira, isso era uma “descida”), para lhe permitir que todos os “passos necessários” fossem tomados. Ele não tinha idéia do que poderia acontecer; seu pior medo dizia respeito à possível resistência de parte dos húngaros, coisa com que não teria condições de lidar, porque não tinha pessoal para isso nem conhecimento das condições locais. Esses temores mostraram-se infundados. A gendarmeria húngara estava mais do que disposta a fazer tudo o que fosse necessário, e o novo secretário de Estado para Assuntos Políticos (Judeus) no Ministério do Interior húngaro, Lászlo Endre, era um homem “bem versado no problema judeu” e tornou-se um amigo íntimo com quem Eichmann podia passar boa parte de seu tempo livre. Tudo caminhava “como um sonho”, como ele repetia sempre que lembrava desse episódio; não havia nenhuma dificuldade. A menos, é claro, que se chamem dificuldades umas poucas pequenas diferenças entre suas ordens e os desejos de seus novos amigos; por exemplo: provavelmente devido à aproximação do Exército Vermelho do Leste, suas ordens estipulavam que o país devia ser “varrido de Leste a Oeste”, o que significava que os judeus de Budapeste não seriam evacuados durante as primeiras semanas ou meses — coisa que os húngaros lamentaram, porque desejavam que sua capital assumisse a liderança, tornando-se judenrein. (O “sonho” de Eichmann era um incrível pesadelo para os judeus: em nenhum outro lugar tantas pessoas foram deportadas e exterminadas num período tão curto. Em menos de dois meses, 147 trens, levando 434 351 pessoas em vagões de carga lacrados, cem pessoas por vagão, deixaram o país, e as câmaras de gás de Auschwitz mal conseguiram dar conta dessa multidão.)

As dificuldades vieram de outro lado. Não só um, mas três homens tinham ordens especificando que deviam ajudar na “solução do problema judeu”; cada um deles pertencia a uma seção diferente e ficava numa cadeia diferente de comando. Tecnicamente, Winkelmann era superior a Eichmann, mas os comandantes superiores da SS e da polícia não estavam sob o comando do RSHA, ao qual Eichmann pertencia. E Veesenmayer, das Relações Exteriores, era independente de ambos. De toda forma, Eichmann se recusou a receber ordens de qualquer um dos outros, e ressentia-se de sua presença. Mas o maior problema veio de um quarto homem, que Himmler havia encarregado de uma “missão especial” no único país da Europa que ainda abrigava não apenas um número considerável de judeus, mas de judeus ainda em posição econômica importante. (De um total de 110 mil estabelecimentos comerciais e empresas industriais na Hungria, 40 mil estavam em mãos de judeus.) Esse homem era o Obersturmbannführer, depois Standartenführer, Kurt Becher.

Becher, velho inimigo de Eichmann, hoje um próspero comerciante em Bremen, foi chamado, por estranho que pareça, como testemunha da defesa. Ele não podia vir a Jerusalém por razões óbvias, e prestou depoimento em sua cidade natal, na Alemanha. Seu testemunho teve de ser descartado, uma vez que ele foi informado com muita antecedência sobre as perguntas que iria responder sob juramento. Foi uma grande pena não ter sido possível confrontar Eichmann e Becher, e não apenas por razões jurídicas. Esse confronto teria revelado outra parte do “quadro geral” que, mesmo legalmente, estava longe de ser irrelevante. Segundo seu próprio depoimento, Becher era filiado à SS porque “desde 1932 até hoje sempre estive ativamente envolvido com equitação”. Trinta anos atrás, esse era um esporte praticado apenas pela classe alta européia. Em 1934, seu instrutor o convencera a entrar para um regimento de cavalaria da SS, que naquele momento era exatamente o que devia fazer todo homem que quisesse juntar-se ao “movimento” e ao mesmo tempo preservar sua posição social. (Nunca se soube por que Becher enfatizou tanto a equitação em seu depoimento: o tribunal de Nuremberg excluíra a Reiter-SS de sua lista de organizações criminosas.) Durante a guerra, Becher prestou serviços no front, não como membro do Exército, mas da SS Armada, de que era oficial de ligação com os comandantes do Exército. Em pouco tempo ele deixou o front para tornar-se o principal comprador de cavalos do departamento pessoal da SS, cargo que lhe valeu quase todas as condecorações então existentes.

Becher alega que foi mandado à Hungria apenas para comprar 20 mil cavalos para a SS; isso é improvável, uma vez que logo depois de chegar ele deu início a uma série de negociações com os diretores de grandes negócios judeus. Suas relações com Himmler eram excelentes, podia vê-lo quando quisesse. Sua “missão especial” era bem clara. Devia conseguir o controle de grandes empresas judaicas pelas costas do governo húngaro e, em troca, fornecer aos proprietários passe livre para fora do país, mais uma boa quantia em moeda estrangeira. Sua transação mais importante foi com o conglomerado Manfred Weiss, uma empresa gigantesca, com 30 mil trabalhadores, que produzia tudo, desde aviões, caminhões e bicicletas até comida enlatada, alfinetes e agulhas. O resultado foi que 45 membros da família Weiss emigraram para Portugal, enquanto o sr. Becher se tornava presidente da empresa familiar. Quando Eichmann soube dessa Schweinerei, ficou indignado; o acordo ameaçava comprometer suas boas relações com os húngaros, que naturalmente esperavam tomar posse das propriedades judaicas confiscadas em seu próprio território. Ele tinha alguma razão para essa indignação, uma vez que esses acordos contrariavam a política nazista usual, que fora bastante generosa. Por sua ajuda na resolução da questão judaica de cada país, os alemães não exigiam receber parte das propriedades dos judeus, apenas o custo da deportação e do extermínio, e esses custos variavam muito de país para país — os eslovacos deviam pagar entre trezentos e quinhentos Reichsmarks por judeu, os croatas apenas trinta, os franceses setecentos, e os belgas 250. (Parece que ninguém nunca pagou, exceto os croatas.) Na Hungria, nesse estágio final da guerra, os alemães estavam solicitando pagamento em bens — carregamentos de comida para o Reich, em quantidades calculadas sobre quantidade de comida que os judeus deportados teriam consumido.

O caso Weiss foi só o começo, e as coisas ficaram consideravelmente piores do ponto de vista de Eichmann. Becher era um empresário nato, e onde Eichmann via apenas enormes tarefas de organização e administração, ele via possibilidades quase ilimitadas de fazer dinheiro. A única coisa que atravancava seu caminho eram criaturas subordinadas de mente estreita como Eichmann, que levavam a sério suas funções. Os projetos do Obersturmbannführer Becher logo o levaram a uma íntima cooperação com os esforços de resgate do dr. Rudolf Kastner. (Becher devia sua liberdade ao testemunho de Kastner em Nuremberg anos mais tarde. Sendo um velho sionista, Kastner mudou-se para Israel depois da guerra, onde ocupava um alto posto até que um jornalista publicou uma matéria sobre sua colaboração com a SS; Kastner levou-o à Justiça. Seu testemunho em Nuremberg pesou muito contra ele, e quando o caso foi apresentado à Corte Distrital de Jerusalém, o juiz Halevi, um dos três juízes do julgamento de Eichmann, disse a Kastner que ele “tinha vendido a alma para o diabo”. Em março de 1957, pouco antes do recurso de sua sentença ser encaminhado à Suprema Corte de Israel, Kastner foi assassinado; aparentemente, nenhum dos assassinos era húngaro. Na audiência que se seguiu, o veredicto foi repelido e Kastner inteiramente reabilitado.) Os acordos feitos por Becher por intermédio de Kastner eram muito mais simples que as complexas negociações com os magnatas dos negócios; consistiam em fixar um preço pela vida de cada judeu a ser resgatado. Houve considerável barganha sobre os preços e ao que parece Eichmann também esteve envolvido em algumas das discussões preliminares. Como era de se esperar, seu preço era o mais baixo, meros duzentos dólares por judeu — claro, não porque ele quisesse salvar mais judeus, mas simplesmente porque não estava acostumado a pensar grande. O preço a que se chegou afinal foi de mil dólares, e um grupo de 1684 judeus, incluindo a família do dr. Kastner, deixou efetivamente a Hungria rumo ao campo de troca de Bergen-Belsen, do qual acabou passando à Suíça. Um acordo semelhante, por meio do qual Becher e Himmler esperavam conseguir 20 milhões de francos suíços do Comitê Conjunto de Distribuição Norte-Americano para a compra de mercadorias de todo tipo, manteve todo mundo ocupado até os russos libertarem a Hungria, e não deu em nada.

Não há dúvida de que as atividades de Becher tinham aprovação total de Himmler e iam de encontro às ordens “radicais” que ainda chegavam a Eichmann por intermédio de Müller e Kaltenbrunner, seus superiores imediatos no RSHA. Do ponto de vista de Eichmann, pessoas como Becher eram corruptas, mas a corrupção não pode ter causado sua crise de consciência, porque embora aparentemente não fosse suscetível a esse tipo de tentação, por essa época ele devia estar cercado de corrupção fazia muitos anos. É difícil (mas não impossível) imaginar que ele não soubesse que seu amigo e subordinado Hauptsturmführer Dieter Wisliceny havia, ainda em 1942, embolsado 50 mil dólares de um Comitê de Assistência Judaica em Bratislava para retardar as deportações da Eslováquia; mas ele não pode ter ignorado que Himmler, no outono de 1942, viu-se tentado a vender permissões de saída para judeus eslovacos, em troca de moeda estrangeira suficiente para pagar o recrutamento de uma nova divisão da SS. Mas agora, em 1944 e na Hungria, tudo era diferente, não porque Himmler estivesse envolvido em “negócios”, mas porque os negócios agora eram a política oficial; não era mais mera corrupção.

No começo, Eichmann tentou entrar no jogo e obedecer suas regras; foi quando se envolveu nas fantásticas negociações de “sangue por mercadorias” — um milhão de judeus por 10 mil caminhões para o arruinado Exército alemão —, que com certeza não foram iniciadas por ele. A maneira como, em Jerusalém, explicou seu papel na história demonstra claramente como ele um dia justificou tudo aquilo para si mesmo: uma necessidade militar que lhe traria o benefício de um novo papel importante nos negócios das emigrações. O que provavelmente nunca admitiu para si mesmo foi que as crescentes dificuldades de todos os lados faziam com que a cada dia fosse mais provável que logo estivesse desempregado (efetivamente isso aconteceu, alguns meses depois), a menos que conseguisse encontrar algum ponto de apoio na nova corrida pelo poder que acontecia a sua volta. Quando o projeto de troca chegou ao previsível fracasso, já era de conhecimento geral que Himmler, apesar de suas constantes vacilações, devidas ao justificado medo físico de Hitler, decidira encerrar toda a Solução Final — a despeito dos negócios, a despeito da necessidade militar, tão-somente em vista das ilusões sobre seu futuro papel como pacificador da Alemanha. Foi nesse momento que uma “ala moderada” da SS passou a existir, congregando todos aqueles suficientemente obtusos para acreditar que um assassino que consegue provar que não matou tanta gente quanto poderia ter matado tem em mãos um álibi maravilhoso, e aqueles suficientemente espertos para prever uma volta às “condições normais”, quando o dinheiro e os bons contatos teriam novamente suprema importância.

Eichmann nunca se ligou à “ala moderada” e é duvidoso que fosse admitido se tentasse. Ele não só era muito comprometido e, devido a seus constantes contatos com funcionários judeus, muito conhecido, como também era primitivo demais para aqueles bem-educados “cavalheiros” da classe média alta, contra os quais alimentou o mais violento ressentimento até o final. Era capaz de mandar milhões de pessoas para a morte, mas não era capaz de falar sobre isso da maneira adequada se não lhe fornecessem a “regra de linguagem” condizente. Em Jerusalém, sem regra nenhuma, falou livremente em “matar”, e em “assassinato” e “crimes legalizados pelo Estado”; falou com franqueza, ao contrário do advogado de defesa, cujo sentimento de superioridade social diante de Eichmann se evidenciou mais de uma vez. (O assistente de Servatius, dr. Dieter Wechtenbruch, discípulo de Carl Schmitt, que compareceu às primeiras semanas do julgamento, posteriormente enviado à Alemanha para interrogar testemunhas da defesa, e reapareceu para a última semana, em agosto, estava sempre disponível para os repórteres fora do tribunal e parecia menos chocado com os crimes de Eichmann do que com sua falta de gosto e educação. “Arraia miúda”, disse. “Vamos ver como fazemos para que saia dessa” — wie wir das Würstchen über die Runden bringen. O próprio Servatius havia declarado, antes mesmo do julgamento, que a personalidade de seu cliente era a de “um carteiro comum”.)

Quando Himmler se tornou “moderado”, Eichmann começou a sabotar suas ordens o máximo que ousava, pelo menos até o ponto em que sentia que estaria “coberto” por seus superiores imediatos. “Como Eichmann ousa sabotar as ordens de Himmler?”, Kastner perguntou uma vez a Wisliceny — nesse caso, a ordem de suspender as marchas a pé, no outono de 1944. E a resposta foi: “Provavelmente ele pode mostrar algum telegrama. Deve ter cobertura de Müller e Kaltenbrunner”. É bem possível que Eichmann tivesse algum plano confuso para liquidar Theresienstadt antes da chegada do Exército Vermelho, embora saibamos disso somente por intermédio do dúbio testemunho de Dieter Wisliceny (que já muitos meses antes do fim, talvez anos, começou a preparar cuidadosamente um álibi para si mesmo à custa de Eichmann, que mais tarde brindou à corte de Nuremberg, onde foi testemunha de acusação; não lhe valeu de nada, uma vez que foi extraditado para a Tchecoslováquia, julgado e executado em Praga, onde não tinha ligações e onde o dinheiro não podia ajudá-lo). Outras testemunhas disseram que Rolf Günther, um dos homens de Eichmann, é que tinha planejado isso, e que havia uma ordem escrita de Eichmann no sentido contrário, de que o gueto fosse deixado intacto. De toda forma, não há dúvida de que, em abril de 1945, quando praticamente todo mundo tinha se tomado bem “moderado”, Eichmann tirou partido da visita que o sr. Paul Dunan, da Cruz Vermelha Internacional, fez a Theresienstadt para declarar que não aprovava a nova linha de Himmler em relação aos judeus.

Em todos os momentos, Eichmann fez o máximo para tornar final a Solução Final — isso não estava em discussão. A questão era apenas se isso constituía prova de seu fanatismo, seu ódio ilimitado aos judeus, e se ele havia mentido à polícia e cometido perjúrio no tribunal ao afirmar que sempre obedecera a ordens. Nenhuma outra explicação ocorreu aos juízes, que tanto se esforçaram para entender o acusado e o trataram com uma consideração, com uma humanidade autêntica e radiante tais como ele provavelmente jamais encontrou na vida. (O dr. Wechtenbruch disse aos repórteres que Eichmann tinha “muita confiança no juiz Landau”, como se Landau pudesse arranjar as coisas para ele, e atribuiu essa confiança à necessidade de autoridade que Eichmann tinha. Qualquer que fosse a sua base, essa confiança tornou-se visível em todo o julgamento, e pode ter sido a razão da grande decepção de Eichmann com o resultado; ele confundiu humanidade com frouxidão.) Seu fracasso em entendê-lo pode ser prova da “bondade” desses três homens, de sua fé inabalável e ligeiramente antiquada nos fundamentos morais de sua profissão. Pois a verdade triste e muito incômoda da questão era provavelmente que não o fanatismo, mas sim sua própria consciência é que levara Eichmann a adotar sua atitude inflexível no último ano da guerra, como já o havia levado a se movimentar na direção oposta três anos antes. Eichmann sabia que as ordens de Himmler iam diretamente contra a ordem do Führer. Para tanto, ele não precisava saber detalhes factuais, embora tais detalhes pudessem vir em seu apoio; conforme a acusação enfatizou nos procedimentos diante da Suprema Corte, quando Hitler ficou sabendo, por intermédio de Kaltenbrunner, das negociações para trocar judeus por caminhões, “a posição de Himmler ficou completamente comprometida aos olhos de Hitler”. E umas poucas semanas antes de Himmler suspender o extermínio em Auschwitz, Hitler, evidentemente desinformado das últimas movimentações de Himmler, mandou um ultimato a Horthy, dizendo que “esperava que as medidas contra os judeus em Budapeste fossem tomadas sem maiores delongas pelo governo húngaro”. Quando a ordem de Himmler para suspender a evacuação de judeus húngaros chegou a Budapeste, Eichmann ameaçou, segundo um telegrama de Veesenmayer, “pedir novas ordens ao Führer”, e esse telegrama o tribunal considerou “mais danoso do que cem testemunhas poderiam ser”.

Eichmann perdeu a briga contra a “ala moderada”, encabeçada pelo Reichsführer SS e Chefe da Polícia Alemã. A primeira indicação de sua derrota veio em janeiro de 1945, quando o Obersturmbannerführer Kurt Becher foi promovido a Standartenführer, patente com a qual Eichmann havia sonhado durante toda a guerra. (A história de que não havia patente mais elevada para alguém de seu escalão, era uma meia-verdade; ele podia ter sido chefe de departamento IV-B, em vez de ocupar a pasta de IV-B-4, o que seria uma promoção automática. A verdade, provavelmente, é que gente como Eichmann, que havia subido das fileiras, nunca progredia além de tenente-coronel, exceto no front.) Nesse mesmo mês, a Hungria foi libertada e Eichmann foi chamado de volta a Berlim. Ali, Himmler nomeara seu inimigo Becher Reichssonderkomissar encarregado de todos os campos de concentração, e Eichmann foi transferido do departamento encarregado de “Assuntos Judeus” para outro inteiramente insignificante que se ocupava da “Luta Contra as Igrejas”, sobre a qual, ademais, ele nada entendia. A rapidez de seu declínio durante os últimos meses da guerra é um sinal muito revelador da medida em que Hitler tinha razão ao declarar, em seu bunker de Berlim, em abril de 1945, que a SS não era mais confiável.

Em Jerusalém, confrontado com provas documentais de sua extraordinária lealdade a Hitler e à ordem do Führer, Eichmann tentou muitas vezes explicar que durante o Terceiro Reich “as palavras do Führer tinham força de lei” (Führerworte haben Gesetzeskraft), o que significava, entre outras coisas, que uma ordem vinda diretamente de Hitler não precisava ser escrita. Ele tentou explicar que, por isso, nunca havia pedido uma ordem escrita a Hitler (nenhum documento relativo à Solução Final jamais foi encontrado; provavelmente nunca existiu nenhum), mas havia pedido para ver uma ordem escrita de Himmler. Sem dúvida era um estado de coisas fantástico, e bibliotecas inteiras de comentários jurídicos “abalizados” foram escritas demonstrando que as palavras do Führer, seus pronunciamentos orais, eram a lei do mundo. Dentro desse panorama “legal”, toda ordem contrária em letra ou espírito à palavra falada por Hitler era, por definição, ilegal. A posição de Eichmann, portanto, demonstrava uma semelhança muito desagradável com aquela do muito citado soldado que, agindo dentro de um quadro legal normal, se recusa a executar ordens que contrariam a sua experiência normal de legalidade e que podem ser reconhecidas por ele como criminosas. A extensa literatura sobre o assunto geralmente baseia suas afirmações no sentido comum equívoco da palavra “lei”, que neste contexto significa às vezes a lei local — ou seja, a lei positiva e constituída — e às vezes a lei que supostamente fala ao coração de todos os homens com a mesma voz. Em termos práticos, porém, para serem desobedecidas, as ordens têm de ser “manifestamente ilegais”, e a ilegalidade tem de “parar como uma bandeira negra acima [delas] como um aviso de ‘Proibido!’” — conforme o tribunal indicou. E num regime criminoso essa “bandeira negra” com seu “aviso” paira “manifestante” acima do que é normalmente uma ordem legal — por exemplo, não matar pessoas inocentes só porque são judeus — da mesma forma como paira sobre uma ordem criminosa em circunstâncias normais. Acreditar numa inequívoca voz da consciência — ou, na linguagem ainda mais vaga dos juristas, num “sentimento geral de humanidade” (Oppenheim-Lauterpacht em International Law, 1952) — é não só fugir da questão como significa uma recusa deliberada em perceber os fenômenos morais, legais e políticos mais importantes do nosso século.

Sem dúvida, não era meramente a convicção de Eichmann de que Himmler estava dando ordens “criminosas” que determinou suas ações. Mas o elemento pessoal indubitavelmente envolvido não era fanatismo, era a sua genuína, “ilimitada e imoderada admiração por Hitler” (como disse uma das testemunhas da defesa) — por um homem que tinha conseguido subir de “cabo dos lanceiros a chanceler do Reich”. Seria perda de tempo tentar entender o que era mais forte nele, sua admiração por Hitler ou sua determinação em continuar sendo um cidadão respeitador das leis do Terceiro Reich num momento em que a Alemanha já estava em ruínas. Ambos os motivos entraram em jogo uma vez mais durante os últimos dias da guerra, quando ele estava em Berlim e viu com violenta indignação como todo mundo a sua volta estava muito razoavelmente se arranjando com documentos falsos antes da chegada dos russos ou dos norte-americanos. Poucas semanas depois, Eichmann também começou a viajar com nome falso, mas então Hitler já estava morto, a “lei local” não existia mais e ele, conforme disse, não estava mais preso a seu juramento. Pois o juramento feito pelos membros da SS era diferente do juramento militar dos soldados, na medida em que os ligava a Hitler e não à Alemanha.

O caso de consciência de Adolf Eichmann, que é realmente complicado, mas de modo nenhum único, não é comparável ao caso dos generais alemães, um dos quais, quando lhe perguntaram em Nuremberg, “Como é possível que todos vocês, honrados generais, tenham continuado a servir um assassino com lealdade tão inquestionável?”, respondeu que “não era tarefa de um soldado agir como juiz de seu comandante supremo. Que a história se encarregue disso, ou Deus no céu”. (Era o general Alfred Jodl, enforcado em Nuremberg.) Eichmann, muito menos inteligente e sem nenhuma formação, percebeu pelo menos vagamente que não era uma ordem, mas a própria lei que os havia transformado a todos em criminosos. Uma ordem diferia da palavra do Führer porque a validade desta última não era limitada no tempo e no espaço — a característica mais notável da primeira. Essa é também a verdadeira razão pela qual a ordem do Führer para a Solução Final foi seguida por uma tempestade de regulamentos e diretivas, todos elaborados por advogados peritos e conselheiros legais, não por meros administradores; essa ordem, ao contrário de ordens comuns, foi tratada como uma lei. Nem é preciso acrescentar que a parafernália legal resultante, longe de ser um mero sintoma do pedantismo ou empenho alemão, serviu muito eficientemente para dar a toda a coisa a sua aparência de legalidade.

E assim como a lei de países civilizados pressupõe que a voz da consciência de todo mundo dita “Não matarás”, mesmo que o desejo e os pendores do homem natural sejam às vezes assassinos, assim a lei da terra de Hitler ditava à consciência de todos: “Matarás”, embora os organizadores dos massacres soubessem muito bem que o assassinato era contra os desejos e os pendores normais da maioria das pessoas. No Terceiro Reich, o Mal perdera a qualidade pela qual a maior parte das pessoas o reconhecem — a qualidade da tentação. Muitos alemães e muitos nazistas, provavelmente a esmagadora maioria deles, deve ter sido tentada a não matar, a não roubar, a não deixar seus vizinhos partirem para a destruição (pois eles sabiam que os judeus estavam sendo transportados para a destruição, é claro, embora muitos possam não ter sabido dos detalhes terríveis), e a não se tornarem cúmplices de todos esses crimes tirando proveito deles. Mas Deus sabe como eles tinham aprendido a resistir à tentação.