Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal
VI. A solução final: assassinato
VI
A SOLUÇÃO FINAL: ASSASSINATO
Em 22 de junho de 1941, Hitler deu início a seu ataque à União Soviética, e seis ou oito semanas depois Eichmann foi chamado ao escritório de Heydrich em Berlim. Em 31 de julho, Heydrich recebeu uma carta do Reichsmarschall Hermann Göring, comandante-em-chefe da Força Aérea, primeiro-ministro da Prússia, plenipotenciário do Plano Quadrienal, e, por último, mas não menos importante, vice de Hitler na hierarquia do Estado (diferente da hierarquia do Partido). A carta determinava que Heydrich preparasse “a solução geral (Gesamtlösung) da questão judaica dentro da área de influência da Alemanha na Europa” e apresentasse “uma proposta geral [...] para a implementação da desejada solução final [Endlösung] da questão judaica”. No momento que Heydrich recebeu essas instruções, conforme iria explicar ao Alto Comando do Exército numa carta datada de 6 de novembro de 1941, ele já estava “há anos encarregado da tarefa de preparar a solução final para o problema judaico” (Reitlinger) e, desde o começo da guerra com a Rússia, encarregado dos assassinatos em massa dos Einsatzgruppen no Leste.
Heydrich iniciou a reunião com Eichmann fazendo “um pequeno discurso sobre emigração” (que havia praticamente cessado, embora uma ordem formal de Himmler proibindo toda emigração de judeus exceto em casos especiais, a serem examinados pessoalmente por ele, só tenha sido emitida alguns meses depois), e disse: “O Führer ordenou que os judeus sejam exterminados fisicamente”. Depois disso, “muito contra os seus hábitos, ficou silencioso por longo tempo, como se quisesse experimentar o impacto de suas palavras. Ainda hoje me lembro. No primeiro momento, não consegui captar o sentido do que ele havia dito, porque ele foi muito cuidadoso na escolha das palavras. Depois entendi e não disse nada, porque não havia mais nada a dizer. Porque eu nunca havia pensado numa coisa dessas, numa solução por meio da violência. Agora eu perdia tudo, toda alegria no meu trabalho, toda iniciativa, todo interesse; eu estava, por assim dizer, arrasado. E ele me disse: ‘Eichmann, vá e procure Globocnik [um dos comandantes superiores da SS e da polícia de Himmler no Governo-Geral] em Lublin. O Reichsführer [Himmler] já passou para ele as ordens necessárias. Dê uma olhada no que ele fez nesse ínterim. Acho que ele usa as trincheiras dos tanques russos para a eliminação dos judeus’. Ainda me lembro, e não vou esquecer, enquanto viver, essas frases que disse durante a reunião, quando já estava terminando”. Na Argentina, Eichmann se lembrou, mas em Jerusalém, para seu prejuízo, uma vez que isso a afetava a questão de sua autoridade no processo de matança efetivo, ele esqueceu que Heydrich dissera algo mais: ele contou a Eichmann que todo o empreendimento havia sido posto “sob a autoridade do Escritório Central para Economia e Administração da SS” — ou seja, não o seu RSHA — e também que o codinome oficial para o extermínio seria “Solução Final”.
Eichmann não estava absolutamente entre os primeiros a serem informados da intenção de Hitler. Já vimos que Heydrich já vinha trabalhando nesse sentido fazia anos, supõe-se que desde o começo da guerra, e Himmler afirmou ter conhecimento (e discordar dessa) “solução” desde a derrota da França no verão de 1940. Por volta de março de 1941, cerca de seis meses antes de Eichmann ter essa entrevista com Heydrich, “não era mais segredo nos altos círculos do Partido que os judeus seriam exterminados”, conforme Viktor Brack, da Chancelaria do Führer, afirmou em Nuremberg. Mas Eichmann, como tentou vaidosamente explicar em Jerusalém, nunca pertenceu aos altos círculos do Partido; ele nunca ficava sabendo nada além do necessário para realizar um trabalho específico, limitado. É verdade que foi um dos primeiros homens dos baixos escalões a ser informado dessa questão “altamente confidencial”, que continuava secreta mesmo depois de a notícia ter corrido por todos os departamentos do Partido e do Estado, por todas as empresas ligadas ao trabalho escravo e, no mínimo, por todo o oficialato das Forças Armadas. O segredo tinha uma finalidade prática. Aqueles que eram informados explicitamente da ordem do Führer não eram mais “portadores de ordens”, mas progrediam ao grau de “portadores de segredos” e tinham de fazer um juramento especial. (Os membros do Serviço de Segurança, ao qual Eichmann pertencia desde 1934, já haviam feito juramento de segredo.)
Além disso, toda correspondência referente ao assunto ficava sujeita a rígidas “regras de linguagem”, e, exceto nos relatórios dos Einsatzgruppen, é raro encontrar documentos em que ocorram palavras ousadas como “extermínio”, “eliminação” ou “assassinato”. Os codinomes prescritos para o assassinato eram “solução final”, “evacuação” (Aussiedlung), e “tratamento especial” (Sonderbehandlung); a deportação — a menos que envolvesse judeus enviados para Theresienstadt, o “gueto dos velhos” para judeus privilegiados, caso em que se usava “mudança de residência” — recebia os nomes de “reassentamento” (Umsiedlung) e “trabalho no Leste” (Arbeitseinsatz im Osten), sendo que o uso destes últimos nomes prendia-se ao fato de os judeus serem de fato muitas vezes reassentados temporariamente em guetos, onde certa porcentagem deles era temporariamente usada para trabalhos forçados. Em circunstâncias especiais, era necessário fazer ligeiras mudanças nas regras de linguagem. Assim, por exemplo, um alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores, propôs uma vez que em toda a correspondência com o Vaticano a matança dos judeus fosse chamada de “solução radical”. Isso era engenhoso, porque o governo marionete católico da Eslováquia, no qual o Vaticano havia interferido, não fora na opinião dos nazistas “suficientemente radical” em sua legislação antijudaica, cometendo o “erro básico” de poupar os judeus batizados. Só entre si podiam os “portadores de segredos” falar em linguagem não codificada, e é muito pouco provável que o fizessem na realização comum de seus deveres criminosos — sobretudo na presença de suas estenógrafas e demais pessoal burocrático. Sejam quais forem as outras razões para a criação das regras de linguagem, elas se mostraram de enorme valia na manutenção da ordem e do equilíbrio entre os serviços imensamente diversificados cuja cooperação era indispensável nessa questão. Além disso, o próprio termo “regra de linguagem” (Sprachregelung) eram um codinome; significava o que em linguagem comum seria chamado de mentira. Pois quando um “portador de segredos” tinha de encontrar alguém do mundo exterior — como Eichmann quando foi mandado a mostrar o gueto de Theresienstadt a representantes da Cruz Vermelha da Suíça — recebia, junto com suas ordens, a “regra de linguagem” que, no seu caso, foi a mentira de uma epidemia de tifo inexistente no campo de concentração de Bergen-Belsen, que os cavalheiros também queriam visitar. O efeito direto desse sistema de linguagem não era deixar as pessoas ignorantes daquilo que estavam fazendo, mas impedi-las de equacionar isso com seu antigo e “normal” conhecimento do que era assassinato e mentira. A grande sensibilidade de Eichmann para palavras-chave e frases de efeito, combinada com sua incapacidade de discurso comum, o tornava, é claro, um paciente ideal para as “regras de linguagem”.
O sistema, porém, não era um escudo totalmente garantido contra a realidade, conforme Eichmann logo descobriria. Ele foi a Lublin para encontrar o Brigadeführer Odilo Globocnik, ex-Gauleiter de Viena, não para “levar a ele pessoalmente a ordem secreta de extermínio físico dos judeus”, conforme pretendia a acusação, pois Globocnik certamente sabia do extermínio muito antes de Eichmann, e usou a expressão “Solução Final” como uma espécie de passaporte para se identificar. (Outra afirmativa semelhante da acusação, que demonstrava até que ponto estava perdida no labirinto burocrático do Terceiro Reich, referia-se a Rudolph Höss, comandante de Auschwitz, que a acusação acreditava ter também recebido suas ordens por intermédio de Eichmann. A defesa, pelo menos, afirmou que esse erro não tinha “provas corroborativas”. Na verdade, Höss declarou em seu próprio julgamento que havia recebido suas ordens diretamente de Himmler, em junho de 1941, e acrescentou que Himmler lhe dissera que Eichmann iria discutir certos “detalhes” com ele. Em suas memórias, Höss afirma que esses detalhes diziam respeito ao uso de gás — coisa que Eichmann negou incansavelmente. E ele provavelmente estava certo porque todas as outras fontes contradizem a história de Höss e afirmam que ordens de extermínio orais e escritas nos campos passavam sempre pelo WVHA e eram dadas ou por seu chefe, Obergruppenführer [tenente-general] Oswald Pohl, ou pelo Brigadeführer Richard Glücks, superior direto de Höss. (A respeito da imprecisão pouco confiável do testemunho de Höss, veja também R. Pendorf, Mörder und Ermordete, 1961). Eichmann nunca teve nada a ver com o uso do gás. Os “detalhes” que ele foi discutir com Höss a intervalos regulares diziam respeito à capacidade de extermínio do campo — quantos carregamentos por semana poderia absorver — e também, talvez, a planos de expansão. Quando Eichmann chegou a Lublin, Globocnik foi muito gentil, e mostrou-lhe as instalações junto com um subordinado. Eles chegaram a uma estrada no meio de uma floresta, à direita da qual havia uma casa comum onde moravam trabalhadores. Um capitão da Polícia da Ordem (talvez o próprio Kriminalkomissar Christian Wirth, que fora encarregado do lado técnico da execução a gás de “pessoas incuráveis” na Alemanha, sob os auspícios da Chancelaria do Führer) veio cumprimentá-los, levou-os a uns bangalôs de madeira e começou, “com uma voz muito vulgar, áspera e mal-educada” a dar suas explicações: contou como “havia isolado tudo perfeitamente, porque o motor de um submarino russo vai funcionar aqui e os gases vão entrar neste edifício e os judeus serão envenenados. Para mim também isso era monstruoso. Não sou duro o bastante para suportar uma coisa dessas sem reação [...] Hoje, se me mostrarem uma ferida aberta, acho que não sou capaz de olhar. Sou uma pessoa desse tipo, para quem estão sempre dizendo que não poderia ser médico. Ainda me lembro como imaginei a coisa comigo mesmo, e me senti fisicamente fraco, como se tivesse passado por alguma grande agitação. Essas coisas acontecem com todo mundo, e deixam como rastro um certo tremor interno”.
Bem, ele teve sorte de ver apenas os preparativos para as futuras câmaras de monóxido de carbono de Treblinka, um dos seis campos de extermínio do Leste, no qual várias centenas de milhares de pessoas iriam morrer. Logo depois disso, no outono do mesmo ano, ele recebeu de seu superior direto, Müller, ordens de inspecionar o centro de extermínio das Regiões Ocidentais da Polônia que haviam sido incorporadas ao Reich e se chamavam Warthegau. O campo de matança ficava em Kulm (ou, em polonês, Chelmno), onde foram mortos, em 1944, mais de 300 mil judeus de toda a Europa, que foram primeiro “reassentados” no gueto de Lódz. Aí as coisas já estavam com força total, mas o método era diferente; em vez de câmaras de gás, usavam-se caminhões de gás. Isto foi o que Eichmann viu: os judeus estavam numa grande sala; recebiam ordem de se despir; então chegava um caminhão, parava bem na entrada da sala, e os judeus nus recebiam ordem de entrar nele. As portas eram fechadas e o caminhão partia. “Não sei dizer [quantos judeus entraram], eu mal olhei. Não consegui; não consegui; para mim bastava. O guincho e [...] fiquei muito perturbado, conforme contei depois a Müller, quando lhe fiz o relatório; meu relatório não serviu para muita coisa. Depois, segui de carro atrás do caminhão, e vi a coisa mais horrível que já havia visto na vida. O caminhão estava indo para um buraco aberto, as portas se abriram e os corpos foram jogados para fora, como se ainda estivessem vivos, tão moles estavam seus membros. Eram jogados no buraco, e ainda consigo enxergar um civil extraindo dentes com um boticão. E fui embora — saltei para o carro e não abri mais a boca. Depois dessa vez, podia ficar sentado durante horas ao lado de meu chofer sem trocar uma palavra com ele. Ali, me bastou. Eu estava acabado. Só me lembro que um médico de avental branco me disse para olhar por um buraco do caminhão enquanto eles ainda estavam lá dentro. Eu recusei. Não podia. Tinha de desaparecer.”
Em seguida, ele veria algo mais terrível. Foi quando Müller mandou-o a Minsk, na Rússia Branca: “Em Minsk, estão matando judeus por fuzilamento. Quero que você averigue como está sendo feito”. Então ele foi, e de início parecia que tinha tido sorte, pois ao chegar “a coisa já estava quase acabada”, por assim dizer, o que o deixou muito satisfeito. “Só havia alguns atiradores mirando nos crânios de mortos numa longa cova.” Mesmo assim, ele viu, “e isso me bastou, uma mulher com os braços esticados para trás, meus joelhos fraquejaram e fui embora”. Na volta, ele teve a idéia de parar em Lwów; pareceu-lhe uma boa idéia, porque Lwów (ou Lemberg) havia sido uma cidade austríaca, e quando ele chegou, “viu a primeira imagem amigável depois dos horrores. Era uma estação ferroviária construída em honra dos sessenta anos de reinado de Franz Josef” — época que Eichmann sempre “adorou”, por ter ouvido muitas coisas bonitas a respeito em casa de seus pais, onde lhe disseram também que os parentes de sua madrasta (deve-se entender que ele queria dizer os parentes judeus) tinham gozado de uma confortável posição social e ganhado bom dinheiro. Essa imagem da estação de trem afastou todos os pensamentos horríveis, e ele lembrava do episódio nos mínimos detalhes — o ano do aniversário gravado na pedra, por exemplo. Mas então, bem ali em Lwów, ele cometeu um grande erro. Foi ver um comandante local da SS e lhe disse: “Bem, é horrível o que está sendo feito por aqui; eu disse que os jovens estavam sendo transformados em sádicos. Como podem fazer isso? Simplesmente atirar em mulheres e crianças? Era impossível. Nosso povo tinha enlouquecido ou se alienado, nosso próprio povo”. O problema é que em Lwów estavam fazendo a mesma coisa que em Minsk, e seu hospedeiro insistiu em mostrar-lhe a cidade, embora Eichmann tentasse recusar polidamente. Assim ele viu outra “imagem terrível. Havia uma cova lá, que já estava cheia. E jorrando da terra, uma fonte de sangue. Nunca tinha visto uma coisa assim. Foi o fim de minha missão e voltei a Berlim e relatei tudo ao Gruppenführer Müller”.
Mas ainda não era o fim. Embora Eichmann tivesse dito a ele que não tinha fibra para essas coisas, que nunca fora soldado, nunca tinha estado no front, nunca tinha visto ação, não conseguia dormir e tinha pesadelos, cerca de nove meses depois Müller o mandou de volta à região de Lublin, onde o entusiasmadíssimo Globocnik havia terminado os preparativos. Eichmann disse que viu então a coisa mais horrível de toda a sua vida. Ao chegar, ele não reconheceu o lugar, com seus bangalozinhos de madeira. Em lugar disso, guiado pelo mesmo homem da voz vulgar, chegou a uma estação ferroviária com a placa de “Treblinka” e que tinha exatamente o mesmo aspecto de qualquer estação comum de qualquer parte da Alemanha — os mesmos edifícios, placas, relógios, instalações; uma imitação perfeita. “Fiquei o mais longe que pude, não cheguei perto para ver tudo aquilo. Mesmo assim, vi uma fila de judeus nus avançando por um longo corredor para serem asfixiados. Ali eles eram mortos, como me disseram, com uma coisa chamada ácido ciânico.”
O fato é que Eichmann não viu muita coisa. É verdade que visitou várias vezes Auschwitz, o maior e mais famoso dos campos de extermínio, que cobria uma área de trinta quilômetros quadrados na Alta Silésia e não era de forma nenhuma apenas um campo de extermínio; era um imenso empreendimento com mais de 100 mil prisioneiros, de todos os tipos, inclusive não-judeus e trabalhadores escravos, que não estavam sujeitos ao gás. Era fácil evitar as instalações de extermínio, e Höss, com quem ele tinha uma relação muito amigável, poupava-lhe as visões mais cruéis. Ele nunca assistiu efetivamente a uma execução em massa por fuzilamento, nunca assistiu ao processo de morte pelo gás, nem à seleção dos mais aptos para o trabalho — em média, cerca de 25% de cada carregamento —, que em Auschwitz precedia a morte. Ele viu apenas o suficiente para estar plenamente informado de como funcionava a máquina de destruição: havia dois métodos diferentes de matança, o fuzilamento e a câmara de gás; o fuzilamento era feito pelos Einsatzgruppen e a execução por gás nos campos, em câmaras ou em caminhões; viu também as complexas precauções que se tomavam no campo para enganar as vítimas até o final.
As fitas da polícia que estou citando foram ouvidas na corte durante a décima das 121 sessões, no nono dia dos quase nove meses que durou o julgamento. Nada do que o acusado dizia, na voz curiosamente desencarnada que saía do gravador — duplamente desencarnada porque o corpo que era dono da voz estava presente, mas também aparente e estranhamente desencarnado através das grossas paredes de vidro que o cercavam —, foi negado por ele ou pela defesa. O dr. Servatius não fez objeções, ele simplesmente disse que “mais tarde, quando a defesa falar”, apresentaria à corte parte das provas fornecidas pelo acusado à polícia; coisa que nunca fez. Parecia que a defesa podia falar imediatamente, pois o processo criminal contra o acusado desse “julgamento histórico” parecia completo, e o caso da acusação estabelecido. Os fatos do caso, aquilo que Eichmann havia feito — mas não tudo que a acusação gostaria que tivesse feito —, nunca foram questionados; haviam sido definidos muito antes de o julgamento começar, e ele os havia confessado muitas e muitas vezes. Já havia, conforme ele mesmo apontou, mais do que o suficiente para enforcá-lo. (“Vocês já não têm bastante coisa contra mim?”, ele protestou quando o interrogador da polícia tentou lhe atribuir poderes que nunca teve.) Mas como ele havia sido empregado no transporte e não no extermínio, permanecia a pergunta: legalmente, formalmente, pelo menos Eichmann sabia o que estava fazendo? Havia, além disso, outra pergunta: ele teria estado em posição de julgar a enormidade de seus feitos, ele seria legalmente responsável, além do fato de ser medicamente são? Ambas as questões agora estavam respondidas afirmativamente: ele havia visto os lugares para onde iam os carregamentos, e havia ficado chocado até a loucura. Uma última pergunta, a mais perturbadora de todas, foi feita pelos juízes, principalmente o juiz presidente, com muita insistência: a matança dos judeus tinha ido contra a sua consciência? Mas isso era uma questão moral, e a resposta podia não ser legalmente relevante.
Os fatos do caso podiam estar agora estabelecidos, mas faziam surgir duas outras questões legais. Primeira, poderia ele ser livrado de responsabilidade criminal, conforme previa a Seção 10 da lei sob a qual foi julgado, porque tinha cometido seus atos “a fim de salvar a si próprio do perigo da morte imediata”? E, segunda, poderia ele pleitear circunstâncias atenuantes, conforme previa a Seção 11 da mesma lei: teria ele “feito todo o possível para reduzir a gravidade das conseqüências de seu crime” ou “procurado evitar conseqüências mais sérias do que aquelas ocorridas”? Evidentemente, as Seções 10 e 11 da Lei (de Punição) de Nazistas e Colaboradores dos Nazistas de 1951 fora elaborada tendo em mente os “colaboradores” judeus. Os Sonderkommandos (unidades especiais) judeus tinham sido empregados em toda parte no processo de aniquilamento, tinham cometido atos criminosos “a fim de salvar a si próprios do perigo da morte imediata”, e os Conselhos de Anciãos Judeus tinham cooperado pensando que podiam “evitar conseqüências mais sérias do que aquelas ocorridas”. No caso de Eichmann, seu próprio testemunho fornecia a resposta para ambas as questões, e foi claramente negativo. Realmente, ele disse uma vez que sua única alternativa teria sido o suicídio, mas isso era mentira, porque sabemos como era fácil para os membros dos esquadrões de extermínio abandonar seus postos sem grandes conseqüências; mas ele não insistiu nesse ponto, não tencionava ser entendido literalmente. Nos documentos de Nuremberg, “não se encontrou nenhum caso de membro da SS que tenha sofrido pena de morte por se recusar a participar de uma execução” (Herbert Jäger, “Betrachtungen zum Eichmann-Prozess”, em Kriminologie und Strafrechtsreform, 1962). E no próprio julgamento, uma testemunha de defesa, von dem Bach-Zelewski declarou que: “Era possível evitar um encargo por meio de um pedido de transferência. Sem dúvida, em casos individuais, era preciso estar preparado para certas punições disciplinares. Não havia, porém, nenhum perigo de vida”. Eichmann sabia muito bem que ele não estava de forma nenhuma na clássica “posição difícil” de um soldado que pode “ser passível de fuzilamento por uma corte marcial se desobedecer a uma ordem, e de enforcamento por um juiz e júri se obedecer” — como afirma Dicey em seu famoso Law of the Constitution —, porque como membro da SS ele nunca esteve sujeito à justiça militar, só podendo ser julgado pela polícia e pelo tribunal da SS. Em seu último depoimento à corte, Eichmann admitiu que podia ter recuado sob um pretexto qualquer, e outros o fizeram. Ele sempre considerou tal passo “inadmissível”, e ainda agora não o considerava “admirável”; isso significaria nada mais que a transferência para outro trabalho bem pago. A idéia de desobediência aberta, surgida no pós-guerra, era um conto de fadas: “Naquelas circunstâncias esse comportamento era impossível. Ninguém agia assim”. Era “impensável”. Se ele tivesse sido nomeado comandante de um campo de extermínio, como seu bom amigo Höss, teria de ter cometido suicídio, uma vez que era incapaz de matar. (Incidentalmente, Höss havia cometido assassinato na juventude. Ele havia matado um certo Walter Kadow, o homem que traiu Leo Schlageter — um terrorista nacionalista do Reno que os nazistas depois transformaram em herói nacional — entregando-o às autoridades francesas da Ocupação e um tribunal alemão o havia posto na cadeia por cinco anos. Em Auschwitz evidentemente, Höss não precisava matar.) Mas era muito pouco provável que oferecessem a Eichmann um posto como esse, uma vez que aqueles que davam as ordens, “sabiam muito bem os limites que uma pessoa podia ser levada”. Não ele não tinha estado em “perigo de morte imediata”, e como afirmava orgulhosamente ter sempre “cumprido seu dever”, obedecendo a todas as ordens como era exigido por seu juramento, havia, claro sempre feito todo o possível para piorar “as consequências do crime” em vez de reduzi-las. A única “circunstância atenuante” citada por ele foi que tentou “evitar o máximo possível quaisquer sacrifícios desnecessários na realização de seu trabalho, e isso, fosse ou não verdade dificilmente poderia ser considerado circunstância atenuante, pois “evitar sacrifícios desnecessários” era uma das diretivas padrão que recebia.
De modo que depois que gravador se dirigiu à corte, a sentença de morte já era uma conclusão fatídica, mesmo legalmente, exceto na possibilidade que o castigo pudesse ser mitigado sob alegação de atos cometidos por ordens superiores — também previsto na Seção 11 da lei israelense, o que era uma possibilidade muito remota em vista da enormidade do crime. (É importante lembrar que o advogado de defesa não alegou ordens superiores, mas “atos de Estado”, e pediu a absolvição nessa base — estratégia que o dr. Servatius já havia experimentado sem sucesso em Nuremberg, onde defendeu Fritz Sauckel, plenipotenciário para a Locação de Trabalho no departamento do Plano Quadrienal de Göring, que fora responsável pelo extermínio de dezenas de milhares de trabalhadores judeus na Polônia e que foi devidamente enforcado em 1946. “Atos de Estado”, que a jurisprudência alemã chama ainda mais sintomaticamente de gerichtsfreie ou justizlose Hoheitsakte, têm por base “um exercício do poder soberano” (E. C. S. Wade, em British Year Book International Law, 1934) e ficam por isso inteiramente fora do âmbito legal, enquanto todas as ordens e comandos, pelo menos em teoria, continuam sob controle judicial. Se o que Eichmann cometeu foram atos de Estado, então nenhum de seus superiores, muito menos Hitler, chefe de Estado, poderia ser julgado por qualquer corte. A teoria do “ato de Estado” combinava tão bem com a filosofia geral do dr. Servatius que talvez não fosse surpreendente ele tentar recorrer a ela outra vez; o que surpreendia era que ele não recorresse ao argumento de ordens superiores como circunstância atenuante depois de o julgamento ter sido lido e antes de a sentença ser pronunciada.) Nesse ponto, talvez fosse razoável alegrar-se pelo fato de não se tratar aqui de um julgamento comum, onde declarações sem base em procedimentos criminais têm de ser descartadas fora como irrelevantes ou inadequadas. Pois as coisas, evidentemente, não eram tão simples quanto os autores da lei tinham imaginado e, mesmo sendo de pouca relevância legal, era de grande interesse político saber quanto tempo leva uma pessoa mediana para superar sua repugnância inata pelo crime, e o que exatamente acontece com essa pessoa quando chega a esse ponto. O caso de Adolf Eichmann fornecia a essa pergunta uma resposta que não podia ser mais clara e mais precisa.
Em setembro de 1941, pouco depois de suas primeiras visitas oficiais aos centros de extermínio do Leste, Eichmann organizou suas primeiras deportações em massa da Alemanha e do Protetorado, de acordo com um “desejo” de Hitler, que pediu a Himmler que tornasse o Reich judenrein o mais depressa possível. O primeiro carregamento continha 20 mil judeus do vale do Reno e 5 mil ciganos, e uma coisa estranha aconteceu com esse primeiro transporte. Eichmann, que nunca havia tomado uma decisão própria, que tinha sempre extremo cuidado em estar “coberto” por ordens, que — como confirma o testemunho dado de livre vontade por todas as pessoas que trabalharam com ele — não gostava nem de fazer perguntas e sempre solicitava “diretivas”, agora, “pela primeira e última vez” tomava uma iniciativa contrária às ordens: em vez de mandar essa gente para território russo, Riga ou Minsk, onde os judeus teriam sido fuzilados imediatamente pelos Einsatzgruppen, ele dirigiu o transporte para o gueto de Lódz, onde sabia que ainda não havia sido feita nenhuma preparação para o extermínio — quando mais não fosse porque o homem encarregado do gueto, um certo Regierungspräsident Uebelhör, havia encontrado maneiras de obter um lucro considerável com “seus” judeus. (Lódz, na verdade foi o primeiro gueto a ser fundado e o último a ser liquidado; seus ocupantes que não morreram de doença e fome sobreviveram até o verão de 1944.) Essa decisão deixaria Eichmann numa posição bastante delicada. O gueto estava superlotado, e o sr. Uebelhör não estava disposto a receber mais gente, nem tinha condição de acomodá-las. E ficou tão zangado que chegou a reclamar com Himmler que Eichmann havia enganado a ele e seus homens com “truques de vendedor de cavalos, aprendidos com os ciganos”. Himmler, assim como Heydrich, protegia Eichmann e o incidente foi logo perdoado e esquecido.
Esquecido, em primeiro lugar, pelo próprio Eichmann, que nem uma única vez o mencionou, nem no depoimento à polícia, nem em suas várias memórias. Quando ocupou o banco e estava sendo interrogado pelo advogado, que lhe mostrou documentos, ele insistia que tivera “escolha”: “Aí, pela primeira e última vez, eu tinha escolha [...] Uma era Lódz [...] Havendo dificuldades em Lódz essa gente tinha de ser mandada para o Leste. E como eu havia visto os preparativos, estava decidido a fazer todo o possível para mandar essa gente a Lódz por todos os meios ao meu alcance”. O advogado de defesa tentou concluir desse incidente que Eichmann havia salvado os judeus sempre que podia — o que era patentemente mentiroso. O promotor, que o interrogou depois a respeito do mesmo incidente, tentou provar que o próprio Eichmann havia determinado o destino final de todos os carregamentos e, portanto, havia decidido se uma determinada carga seria exterminada ou não — o que também não era verdade. A explicação de Eichmann, de que não desobedecera uma ordem, mas apenas tirara vantagem de uma “escolha”, tampouco era verdadeira, pois tinha havido dificuldades em Lódz, como ele sabia muito bem, de forma que sua ordem significava, com todas as letras: destino final, Minsk ou Riga. Embora Eichmann tenha esquecido isso completamente, esse era, nitidamente, o único caso em que ele havia realmente tentado salvar judeus. Três semanas depois, porém, houve uma reunião em Praga, convocada por Heydrich, na qual Eichmann declarou que “os campos usados para deter comunistas (russos) [categoria a ser liquidada instantaneamente pelos Einsatzgruppen] podem também receber judeus” que ele tinha “conseguido um acordo” com os comandantes locais com essa finalidade; discutiu-se também o problema de Lódz e finalmente decidiu-se mandar 50 mil judeus do Reich (o que incluía a Áustria, a Boêmia e a Morávia) para os centros de operações dos Einsatzgruppen em Riga e Minsk. Isso permite, talvez, responder à pergunta do juiz Landau, questão principal na cabeça de praticamente todo mundo que acompanhava o julgamento: o acusado tinha consciência? Sim, ele tinha consciência e sua consciência funcionou da maneira esperada durante cerca de quatro semanas, quando então passou a funcionar às avessas.
Mesmo durante essas semanas em que sua consciência funcionou normalmente, ela funcionava dentro de limites bastante estranhos. Devemos lembrar que semanas e meses antes de ser informado da ordem do Führer, Eichmann sabia das atividades criminosas dos Einsatzgruppen no Leste; ele sabia que bem atrás das linhas do front todos os funcionários russos (“comunistas”), todos os membros poloneses das classes profissionais e todos os judeus nativos estavam sendo mortos em fuzilamentos de massa. Além disso, em julho do mesmo ano, poucas semanas depois do chamado de Heydrich, ele recebeu um memorando de um homem da SS estacionado no Warthegau, dizendo que “os judeus não poderão mais ser alimentados no próximo verão”, e acrescentando a sua consideração uma proposta que perguntava se “não seria uma solução mais humana matar por meios mais rápidos aqueles judeus incapazes de trabalhar. Isso, de toda forma, seria mais agradável do que permitir que morressem de fome”. Numa carta adjunta, endereçada ao “Caro camarada Eichmann”, o autor admite que “essas coisas às vezes soam fantásticas, mas são bastante realizáveis”. Essa admissão demonstra que o autor ainda não conhecia a ordem muito mais “fantástica” do Führer, mas a carta revela também até que ponto essa ordem estava no ar. Eichmann nunca mencionou essa carta e provavelmente não ficou nem um pouco chocado com ela. Pois essa proposta referia-se apenas a judeus nativos, não a judeus do Reich ou de qualquer país ocidental. Sua consciência rebelou-se não com a idéia de assassinato, mas com a idéia de judeus alemães serem mortos. (“Nunca neguei que sabia que os Einsatzgruppen tinham ordens de matar, mas não sabia que judeus do Reich evacuados para o Leste tinham o mesmo tratamento. Isso eu não sabia.”) Ocorria a mesma coisa com a consciência de um certo Wilhelm Kube, um velho membro do Partido e Generalkommissar na Rússia ocupada, que sentiu-se ultrajado quando os judeus alemães portadores da Cruz de Ferro chegaram em Minsk para receber “tratamento especial”. Como Kube era mais articulado do que Eichmann, suas palavras podem nos dar uma idéia do que acontecia na cabeça de Eichmann durante o tempo em que era assolado por sua consciência: “Sem dúvida sou duro e estou pronto a ajudar na solução da questão judaica”, Kube escreveu a seu superior em dezembro de 1941, “mas pessoas que vêm do mesmo meio cultural que o nosso sem dúvida são diferentes das hordas nativas animalizadas”. Esse tipo de consciência que, nas raras vezes em que se rebelou, indignava-se contra o assassinato de gente “do mesmo meio cultural que o nosso” sobreviveu ao regime de Hitler; ainda hoje, existe entre os alemães o insistente “equívoco” de que “só” foram massacrados Ostjuden, judeus da Europa Oriental.
Essa maneira de pensar, que distingue entre o assassinato de povos “primitivos” e povos “cultos”, não é tampouco monopólio do povo alemão. Harry Mulisch relata que o testemunho do professor Salo W. Baron sobre as conquistas culturais e espirituais do povo judeu fez surgir em sua mente as seguintes perguntas: “A morte dos judeus teria sido um mal menor se eles fossem um povo sem cultura, como os ciganos, que também foram exterminados? Eichmann está sendo julgado porque é um destruidor de seres humanos ou porque é um destruidor de cultura? Um assassino de seres humanos é mais culpado quando destrói também uma cultura no mesmo processo?”. E quando fez essas perguntas ao procurador-geral, a resposta foi: “Ele [Hausner] acha que sim, eu acho que não”. E a dificuldade de se descartar o assunto e enterrar a pergunta perturbadora junto com o passado é coisa que voltou à tona no recente filme Dr. Strangelove, onde um estranho amante da bomba — caracterizado, é verdade, como um tipo nazista — propõe que diante do desastre iminente se escolham algumas centenas de milhares de pessoas para viverem abrigos subterrâneos. E quem serão os felizes sobreviventes? Aqueles de Q. I. mais alto!
Essa questão de consciência, tão incômoda em Jerusalém, não foi absolutamente ignorada no regime nazista. Ao contrário, uma vez que os participantes da conspiração anti-Hitler, de julho de 1944, só raramente mencionaram os massacres maciços do Leste em sua correspondência ou nas declarações que prepararam para a eventualidade de o ataque contra Hitler ser bem-sucedido, grande é a tentação de concluir que os nazistas superestimavam muito a importância prática do problema. Podemos deixar de lado aqui os primeiros estágios da oposição alemã a Hitler, quando o movimento ainda era antifascista e inteiramente de esquerda, tendo por principio não atribuir nenhuma significação a questões morais e menos ainda à perseguição dos judeus — um mero “desvio” da luta de classes, que na opinião da esquerda determinava todo o panorama político. Além disso, essa oposição praticamente desapareceu durante o período em questão — destruída pelo horrível terror das tropas SA nos campos de concentração e nos porões da Gestapo, desestabilizada pelo nível pleno de emprego possibilitado pelo rearmamento, desmoralizada pela tática do Partido Comunista de juntar fileiras com o partido de Hitler a fim de se instalar nele como um “cavalo de Tróia”. O que sobrou dessa oposição no começo da guerra — alguns líderes sindicais, alguns intelectuais da “esquerda desabrigada” que não sabiam, nem podiam saber se havia alguma coisa por trás deles — só ganhou importância com a conspiração que acabou levando ao 20 de julho. (Evidentemente é inadmissível medir a força da resistência alemã pelo número daqueles que passaram pelos campos de concentração. Antes da eclosão da guerra, os detentos pertenciam a um grande número de categorias, muitas das quais não tinham nada a ver com resistência de qualquer tipo: havia aqueles que eram inteiramente “inocentes”, como os judeus; os “associais”, como os criminosos e homossexuais comprovados; os nazistas considerados culpados de uma coisa ou outra etc. Durante a guerra, os campos foram povoados por lutadores da resistência de todos os países da Europa ocupada.)
A maioria dos conspiradores de julho era de fato ex-nazista ou havia ocupado altos postos no Terceiro Reich. O que detonou sua oposição não foi a questão judaica, mas o fato de Hitler estar preparando a guerra, e os infindáveis conflitos e crises de consciência que os assolavam giravam quase exclusivamente em torno do problema da alta traição e da violação do juramento de lealdade a Hitler. Além disso, eles se viam a braços com um dilema que era realmente insolúvel: nos dias dos triunfos de Hitler, sentiam que nada poderiam fazer porque o povo não compreenderia, e nos anos de derrotas da Alemanha temiam nada mais do que um outro mito da “punhalada pelas costas”. Até o final, sua maior preocupação era como conseguir evitar o caos e afastar o perigo da guerra civil. E a solução foi que os Aliados deviam ser “razoáveis” e concordar com uma “moratória” até a restauração da ordem — e junto com ela, é claro, a capacidade do Exército alemão de oferecer resistência. Eles tinham o conhecimento mais preciso daquilo que estava acontecendo no Leste, mas não resta a menor dúvida de que nenhum deles teria ousado sequer pensar que a melhor coisa que podia acontecer à Alemanha seria a rebelião aberta e a guerra civil. A resistência ativa na Alemanha veio principalmente da direita, mas em vista da história pregressa dos social-democratas alemães é de se duvidar que a situação pudesse ser muito diferente se a esquerda houvesse desempenhado um papel maior entre os conspiradores. Seja como for, a questão é acadêmica, porque não existia nenhuma “resistência socialista organizada” na Alemanha durante os anos de guerra — conforme o historiador alemão Gerhard Ritter corretamente apontou.
Na realidade, a situação era tão simples quanto desesperada: a esmagadora maioria do povo alemão acreditava em Hitler — mesmo depois do ataque à Rússia e da temida guerra em dois fronts, mesmo depois de os Estados Unidos terem entrado na guerra, na verdade mesmo depois de Stalingrado, da derrota da Itália, e dos desembarques na França. Contra essa sólida maioria, ficava um número indeterminado de indivíduos isolados, completamente conscientes da catástrofe nacional e moral; eles podiam ocasionalmente se conhecer e confiar um no outro, havia amizade entre eles e trocas de opinião, mas nenhum plano nem intenção de revolta. Havia, finalmente, o grupo daqueles que mais tarde ficaram conhecidos como conspiradores, mas eles jamais conseguiram chegar a um acordo sobre nada, nem mesmo sobre a própria questão da conspiração. Seu líder era Carl Friedrich Goerdeler, ex-prefeito de Leipzig, que servira três anos sob os nazistas como controlador de preços, mas logo renunciara — em 1936. Ele defendia a instauração de uma monarquia constitucional, e Wilhelm Leuschner, um representante da esquerda, ex-líder sindical e socialista, dizia garantir “apoio das massas”; no círculo Kreisau, sob a influência de Helmuth von Moltke, surgiram queixas ocasionais de que o domínio das leis estava “agora pisoteado”, mas a maior preocupação nesse círculo era a reconciliação das duas Igrejas cristãs e a sua “sagrada missão no Estado secular”, ao lado de uma posição declaradamente favorável ao federalismo. (Sobre a bancarrota política do movimento de resistência como um todo desde 1933 existe um estudo bem documentado e imparcial, a dissertação de doutorado de George K. Romoser, a ser publicada em breve.)
Com a continuação da guerra e a derrota cada vez mais certa, as diferenças políticas devem ter passado a importar menos e a ação política tornou-se mais urgente, porém Gerhard Ritter parece acertar também aí: “Se não fosse a determinação de [conde Klaus von] Stauffenberg, o movimento de resistência teria encalhado numa inatividade mais ou menos desamparada”. O que unia esses homens era a visão de Hitler como um “trapaceiro”, um “diletante”, que “sacrificava exércitos inteiros contrariando a opinião de entendidos”, um “louco” e um “demônio”, “a encarnação do mal”, que no contexto alemão significava, mais ou menos, chamá-lo de “criminoso e tolo”, como o faziam ocasionalmente. Mas ter essas opiniões sobre Hitler nessa época tardia “não impedia de forma alguma que se fosse membro da SS ou do Partido, ou que se tivesse um posto no governo” (Fritz Hesse), e portanto não excluía do círculo de conspiradores um bom número de homens profundamente implicados nos crimes do regime — como, por exemplo, o conde Helldorf, então comissário de polícia de Berlim, que teria sido chefe da Polícia Alemã se o golpe de Estado tivesse dado certo (de acordo com uma das listas de possíveis ministros de Goerdeler); ou Arthur Nebe, do RSHA, ex-comandante de uma das unidades móveis de extermínio no Leste! No verão de 1943, quando o programa de extermínio dirigido por Himmler havia atingido seu clímax, Goerdeler estava considerando Himmler e Goebbels como aliados em potencial, “já que esses dois homens entenderam que haviam perdido prestígio com Hitler”. (Himmler passou a ser realmente um “aliado potencial” — embora Goebbels não — e foi inteiramente informado dos planos; ele só agiu contra os conspiradores depois de seu fracasso.) Essas citações foram tiradas do rascunho de uma carta de Goerdeler para o marechal-de-campo von Kluge; mas essas estranhas alianças não podem ser explicadas como “considerações táticas” necessárias junto aos comandantes do Exército, pois, ao contrário, Kluge e Rommel é que haviam dado “ordens especiais para que aqueles dois monstros [Himmler e Göring] fossem eliminados” [Ritter] — isso sem contar o fato de Ritter, biógrafo de Goerdeler, insistir que a carta citada acima “representa a expressão mais apaixonada de seu ódio contra o regime de Hitler”.
Sabidamente, esses homens que se opuseram a Hitler, mesmo tardiamente, pagaram com a vida e sofreram a mais terrível das mortes; a coragem de muitos deles foi admirável, mas não foi inspirada por indignação moral ou por aquilo que sabiam que outras pessoas tinham sofrido; eles foram motivados quase exclusivamente por sua certeza da iminente derrota e ruína da Alemanha. Não é o caso de negar que alguns deles, como o conde York von Wartenburg, podem ter partido para a oposição política por causa da “revoltante agitação contra os judeus em novembro de 1938” [Ritter]. Mas esse foi o mês em que as sinagogas arderam em chamas e toda a população parecia estar nas garras de algum medo: casas de Deus haviam sido incendiadas, e tanto os crentes quanto os supersticiosos acreditavam numa vingança de Deus. Sem dúvida, o corpo de altos oficiais ficou perturbado quando a ordem fatal de Hitler foi expedida em maio de 1941, quando ficaram sabendo que, na próxima campanha contra a Rússia, todos os funcionários soviéticos e naturalmente todos os judeus deviam ser simplesmente massacrados. Nesses círculos, havia, evidentemente, certa preocupação com o fato de que, como disse Goerdeler, “nas áreas ocupadas e contra os judeus são praticadas técnicas de eliminação de seres humanos e perseguições religiosas [...] que ficarão para sempre como uma pesada mácula em nossa história”. Mas parece nunca ter ocorrido a eles que isso significava algo além, e mais horrendo, do que “tornar nossa posição [de negociar um tratado de paz com os Aliados] enormemente difícil” e representar “uma mancha no bom nome da Alemanha”, além de minar a moral do Exército. “O que eles fizeram com o orgulhoso exército das Guerras de Libertação [contra Napoleão em 1814] e de Wilhelm I [na Guerra Franco-Prussiana de 1870]”, Goerdeler protestou ao ouvir o relato de um homem da SS que “disse tranqüilamente que ‘não era exatamente bonito atirar com metralhadora numa cova cheia de milhares de judeus e depois jogar terra nos corpos ainda se retorcendo’.” Nem lhes ocorreu que essas atrocidades podiam estar de alguma forma ligadas à exigência de rendição incondicional feita pelos Aliados, que eles se permitiram qualificar de “nacionalista” e de “pouco razoável”, inspirada pelo ódio cego. Em 1943, quando a derrota final da Alemanha era quase uma certeza, e de fato mesmo depois disso, eles ainda acreditavam que tinham o direito de negociar com seus inimigos “como iguais” por uma “paz justa”, embora soubessem muito bem como era injusta e totalmente não provocada a guerra iniciada por Hitler. Mais surpreendentes ainda são seus critérios de “paz justa”. Goerdeler os formulou repetidamente em inúmeros memorandos: “o restabelecimento das fronteiras nacionais de 1914 [o que queria dizer a anexação da Alsácia-Lorena], ao lado do acréscimo da Áustria e dos Sudetos”; e também a “posição de liderança da Alemanha no Continente” e talvez a reconquista do Sul do Tirol!
A partir de declarações que prepararam, sabemos também como eles pretendiam apresentar suas razões ao povo. Existe, por exemplo, um rascunho de proclamação ao Exército, feito pelo general Ludwig Beck, que deveria ser chefe de Estado, na qual ele discorre sobre a “obstinação”, a “incompetência e falta de moderação” do regime de Hitler, sua “arrogância e vaidade”. Mas o ponto crucial, o “ato mais inescrupuloso” do regime, era a pretensão nazista de “responsabilizar os líderes das Forças Armadas” pelas calamidades da derrota iminente; ao que Beck acrescentava que havia sido cometidos crimes “que são uma mancha na honra da nação alemã e uma vilificação da boa reputação conquistada aos olhos do mundo”. E qual seria o próximo passo depois de Hitler ser liquidado? O Exército alemão continuaria lutando “até que se garantisse uma conclusão honrosa da guerra” — o que significava a anexação da Alsácia-Lorena, da Áustria e dos Sudetos. Existe mesmo boas razões para se concordar com o amargo julgamento desses homens feito pelo romancista alemão Friedrich P. Reck-Malleczewen, morto num campo de concentração na noite do colapso e que não participou da conspiração anti-Hitler. Em seu quase desconhecido Diário de um homem desesperado [Tagebuch eines Verzweifelten, 1947], Reck-Malleczewen escreveu o seguinte, depois de saber do fracasso do atentado contra a vida de Hitler, que ele evidentemente lamentou: “Um pouco tarde demais, senhores, vocês que construíram esse arquidestruidor da Alemanha e correram atrás dele, enquanto tudo parecia estar bem; vocês que [...] sem comoção fizeram todos os juramentos exigidos de vocês e se reduziram a desprezíveis lacaios desse criminoso, culpado pelo assassinato de centenas de milhares, que despertou o lamento e a maldição do mundo inteiro; agora vocês o traíram [...] Agora, quando o desastre não pode mais ser escondido, eles traem a casa que ruiu, a fim de estabelecer um álibi político para si próprios — os mesmos homens que traíram tudo o que estava no caminho de seu desejo de poder”.
Não há provas, nem é provável que Eichmann tenha tido contato pessoal com os homens de 20 de julho, e sabemos que mesmo na Argentina ele ainda os considerava traidores e patifes. Porém, se tivesse tido a oportunidade de conhecer as idéias “originais” de Goerdeler sobre a questão judaica, poderia descobrir alguns pontos de concordância. Sem dúvida, Goerdeler propunha “pagar indenização aos judeus alemães por suas perdas e maus-tratos” — isso em 1942, numa época em que não estavam em questão apenas os judeus alemães, e em que estes estavam não apenas sendo roubados e maltratados, mas sendo mortos por gás; só que, além dessas tecnicalidades, ele tinha algo mais construtivo em mente, ou seja, uma “solução permanente”, que “salvaria [todos os judeus europeus] de sua insustentável posição como uma ‘nação hóspede’ mais ou menos indesejável na Europa”. (No jargão de Eichmann, isso era chamado dar a eles “um solo sob os pés”.) Para isso, Goerdeler pensava num “Estado independente num país colonial” — Canadá ou América do Sul —, uma espécie de Madagascar, sobre o qual devia ter ouvido falar, com certeza. Ele fazia algumas concessões; nem todos os judeus seriam expulsos. Bem alinhado com os estágios iniciais do regime nazista e as categorias privilegiadas que eram então correntes, ele estava preparado a “não negar a cidadania alemã àqueles judeus que pudessem fornecer provas de sacrifício militar pela Alemanha ou que pertencessem a famílias de tradição bem estabelecida”. Bem, qualquer que fosse essa “solução permanente para a questão judaica” de Goerdeler, ela não era exatamente “original”, como a chamou o professor Ritter em 1954, cheio de admiração por seu herói, e Goerdeler poderia encontrar muitos “aliados potenciais” para essa parte de seu programa dentro das alas do Partido e mesmo da SS.
Na carta ao marechal-de-campo von Kluge citada acima, Goerdeler apelou para a “voz da consciência” de Kluge. Mas tudo o que queria dizer era que até mesmo um general deveria entender que “continuar a guerra sem possibilidade de vitória era um crime óbvio”. Das provas acumuladas só podemos concluir que a consciência enquanto tal parecia ter se perdido na Alemanha, e isso a tal ponto que as pessoas dificilmente se lembravam dela e tinham parado de perceber que o surpreendente “novo conjunto de valores alemães” não tinha seguidores no mundo exterior. Isso, com certeza, não é toda a verdade. Pois havia na Alemanha indivíduos que desde o começo do regime e sem jamais fraquejar se opuseram a Hitler; ninguém sabe quantos eram — talvez 100 mil, talvez muito mais, talvez muito menos — porque suas vozes nunca foram ouvidas. Podiam ser encontrados por toda parte, em todos os estratos da sociedade, entre as pessoas simples, assim como entre os educados, em todos os partidos, talvez mesmo nas alas do NSDAP. Pouquíssimos eram conhecidos publicamente, como o já mencionado Reck-Malleczewen ou o filósofo Karl Jaspers. Alguns eram verdadeira e profundamente piedosos, como um artesão que conheço, que preferiu ver sua existência independente destruída, transformando-se num simples trabalhador de uma fábrica para não ter de passar pela “pequena formalidade” de entrar para o Partido Nazista. Poucos ainda levavam a sério um juramento e preferiam, por exemplo, renunciar a uma carreira acadêmica do que jurar em nome de Hitler. Um grupo mais numeroso era de trabalhadores, principalmente em Berlim, e de intelectuais socialistas que tentaram ajudar os judeus que conheciam. Houve, finalmente, os dois rapazes camponeses cuja história é relatada em Der lautlose Aufstand (1953), de Günther Weisenborn, que foram convocados pela SS no final da guerra e se recusaram a assinar os papéis; os dois foram condenados à morte, e no dia de sua execução escreveram uma última carta a suas famílias: “Preferimos morrer do que carregar em nossas consciências coisas tão terríveis. Sabemos o que a SS tem de fazer”. A posição dessa gente, que nada fez em termos práticos, era completamente diferente da dos conspiradores. Sua habilidade de distinguir o certo do errado permanecia intacta, e eles nunca tiveram nenhuma “crise de consciência”. Pode ter havido pessoas assim entre os membros da resistência, mas dificilmente eles seriam mais numerosos nas fileiras dos conspiradores do que entre as pessoas em geral. Não eram nem santos, nem heróis, e mantiveram total silêncio. Só numa ocasião, num gesto único, desesperado, esse elemento mudo e inteiramente isolado se manifestou publicamente: foi quando os Scholl, dois estudantes da Universidade de Munique, irmão e irmã, sob a influência do professor Kurt Huber, distribuíram os famosos folhetos em que afinal chamaram Hitler daquilo que era de fato — “assassino de massa”.
Porém, se examinarmos os documentos e declarações preparados pela chamada “outra Alemanha” que deveria suceder a Hitler se a conspiração de 20 de julho tivesse obtido sucesso, só podemos ficar assombrados com a vastidão da distância que a separava do resto do mundo. De que outra maneira explicar as ilusões de Goerdeler, em particular, e o fato de Himmler, por incrível que pareça, e também Ribbentrop, terem começado a sonhar, durante os últimos meses da guerra, com um novo e magnífico papel como negociadores de uma Alemanha derrotada frente aos Aliados. E se Ribbentrop certamente não era idiota, Himmler, fosse o que fosse, não era nenhum tolo.
O membro da hierarquia nazista mais dotado para resolver problemas de consciência era Himmler. Ele cunhava slogans, como aquele famoso lema da SS, tirado do discurso de Hitler diante da SS em 1931 — “Minha Honra é minha Lealdade” —, frases de efeito que Eichmann chamava de “palavras aladas” e os juízes chamavam de “fala vazia”, e divulgava-as, como Eichmann se lembrava, “por volta da passagem do ano”, presumivelmente junto com um bônus de Natal. Eichmann lembrava só uma dessas frases, que ficava repetindo: “Estas batalhas as futuras gerações não terão mais de lutar”, referindo-se às “batalhas” contra as mulheres, crianças, velhos, e outras “bocas inúteis”. Há outras frases assim, tiradas de discursos que Himmler fez aos comandantes dos Einsatzgruppen e aos comandantes superiores da SS e da polícia, como por exemplo: “Ter chegado ao topo e, a não ser pelas exceções causadas pela fraqueza humana, ter permanecido decentes, isso é o que nos enrijeceu. Esta é uma página gloriosa de nossa história que nunca foi escrita e jamais será reescrita”. Ou: “A ordem para resolver a questão judaica, essa foi a ordem mais assustadora que uma organização jamais recebeu”. Ou: “Sabemos que o que esperamos de você é ‘sobretudo’, é ser ‘sobre-humanamente desumano”’. Tudo o que se pode dizer é que suas expectativas não foram frustradas. Vale a pena notar, porém, que Himmler quase nunca tentava se justificar em termos ideológicos e, se o fazia, aparentemente esquecia-se depressa. O que afetava as cabeças desses homens que tinham se transformado em assassinos era simplesmente a idéia de estar envolvidos em algo histórico, grandioso, único (“uma grande tarefa que só ocorre uma vez em 2 mil anos”), o que, portanto, deve ser difícil de aguentar. Isso era importante, porque os assassinos não eram sádicos ou criminosos por natureza; ao contrário, foi feito um esforço sistemático para afastar todos aqueles que sentiam prazer físico com o que faziam. As tropas dos Einsatzgruppen tinham sido convocadas da SS Armada, uma unidade militar que não tinha em seu histórico nada além da cota normal de crimes de qualquer unidade comum dos Exército alemão, e seus comandantes foram escolhidos por Heydrich entre a elite da SS, gente com diplomas acadêmicos. Por isso o problema era como superar não tanto a sua consciência, mas sim a piedade animal que afeta todo homem normal em presença do sofrimento físico. O truque usado por Himmler — que aparentemente sofria muito fortemente com essas reações instintivas — era muito simples e provavelmente muito eficiente; consistia em inverter a direção desses instintos, fazendo com que apontassem para o próprio indivíduo. Assim, em vez de dizer “Que coisas horríveis eu fiz com as pessoas!”, os assassinos poderiam dizer “Que coisas horríveis eu tive de ver na execução dos meus deveres, como essa tarefa pesa sobre os meus ombros!”.
A memória deficiente de Eichmann em relação às frases engenhosas de Himmler pode ser indicação de que havia outros métodos, mais eficazes, para resolver o problema de consciência. Acima de tudo estava, como Hitler previra acertadamente, o simples fato da guerra. Eichmann insistiu muitas vezes na “atitude pessoal diferente” diante da morte quando “se via mortos por toda parte”, e quando todo mundo olhava a própria morte com indiferença: “Não nos importava se morreríamos hoje ou só amanhã, e havia momentos em que amaldiçoávamos a manhã que nos encontrava ainda vivos”. Nessa atmosfera de morte violenta era especialmente eficiente o fato de a Solução Final, em seus últimos estágios, não ser efetuada por fuzilamento, portanto por meio da violência, mas nos pavilhões de gás que, do começo ao fim, estavam intimamente ligados ao “programa de eutanásia”, ordenado por Hitler nas primeiras semanas da guerra e aplicado aos doentes mentais da Alemanha, até a invasão da Rússia. O programa de extermínio que começou no outono de 1941 corria, por assim dizer, em dois trilhos inteiramente diferentes. Um deles levava aos pavilhões de gás, o outro aos Einsatzgruppen, cujas operações na retaguarda do Exército, especialmente na Rússia, eram justificadas com o pretexto da guerra de guerrilha, e cujas vítimas não eram de forma alguma apenas judeus. Além dos guerrilheiros de verdade, eles cuidavam dos funcionários russos, dos ciganos, dos associais, dos doentes mentais e dos judeus. Os judeus eram incluídos como “inimigos potenciais” e, infelizmente, passaram-se meses antes que os judeus russos entendessem isso, e então já era tarde demais para escapar. (A velha geração lembrava da Primeira Guerra Mundial, quando o Exército alemão havia sido saudado como libertador; mas nem os jovens, nem os velhos tinham ouvido nada sobre a maneira “como os judeus eram tratados na Alemanha, ou em Varsóvia”; eles eram “incrivelmente mal informados”, como relatou o Serviço de Inteligência alemão da Rússia Branca (Hilberg). O mais notável é que até judeus alemães chegavam a essas regiões com a ilusão de estar sendo enviados como “pioneiros” do Terceiro Reich.) Essas unidades móveis de assassinato, das quais havia apenas quatro, cada uma do tamanho de um batalhão, com não mais de 3 mil homens, precisavam obter e obtinham a cooperação próxima das Forças Armadas; na verdade, as relações entre eles eram em geral “excelentes” e em alguns casos “afetuosas” (herzlich). Os generais demonstravam uma “atitude surpreendentemente boa quanto aos judeus”; eles não só entregavam os judeus para os Einsatzgruppen como muitas vezes emprestavam seus próprios homens, soldados comuns, para ajudar nos massacres. O número total de suas vítimas judaicas é estimado por Hilberg em torno de um milhão e meio, mas não foi resultante da ordem do Führer para exterminar fisicamente todo o povo judeu. Foi resultado de uma ordem anterior, que Hitler passou a Himmler em março de 1941, de preparar a SS e a polícia para “desempenhar serviços especiais na Rússia”.
A ordem do Führer para exterminar todos os judeus, não só russos e poloneses, embora passada mais tarde, pode ser localizada desde muito antes. Teve origem não no RSHA, nem em nenhum outro departamento de Heydrich ou Himmler, mas na Chancelaria do Führer, no departamento pessoal de Hitler. Não tinha nada a ver com a guerra, e nunca usou como pretexto necessidades militares. Um dos grandes méritos de The Final Solution, de Gerald Reitlinger, foi demonstrar, com provas documentais indubitáveis, que o programa de extermínio dos pavilhões de gás do Leste brotou do programa de eutanásia de Hitler, e é deplorável que o julgamento de Eichmann, tão preocupado com a “verdade histórica”, não tenha prestado atenção a essa conexão factual. Isso poderia ter lançado alguma luz na questão muito debatida de saber se Eichmann, do RSHA, estava envolvido em Gasgeschichten. E improvável que estivesse, embora um de seus homens, Rolf Günther, possa ter se interessado pelo assunto por vontade própria. Globocnik, por exemplo, que preparou as instalações de gás na área de Lublin, e que Eichmann visitou, não se dirigia a Himmler, nem a nenhuma outra autoridade policial ou da SS, quando precisava de mais gente; ele escrevia para Viktor Brack, da Chancelaria do Führer, que então passava o pedido para Himmler.
A primeira câmara de gás foi construída em 1939, para implementar o decreto de Hitler datado de 1o de setembro daquele ano, que dizia que “pessoas incuráveis devem receber uma morte misericordiosa”. (Foi provavelmente essa origem “médica” da morte por gás que inspirou a surpreendente convicção do dr. Servatius de que a morte por gás devia ser considerada “assunto médico”.) A idéia em si era consideravelmente mais antiga. Já em 1935, Hitler havia dito ao médico-chefe do Reich, Gerhard Wagner, que “se a guerra viesse, ele englobaria e resolveria a questão da eutanásia, porque era mais fácil fazê-lo em tempo de guerra”. O decreto foi cumprido imediatamente no que dizia respeito aos doentes mentais, e entre dezembro de 1939 e agosto de 1941, cerca de 50 mil alemães foram mortos com monóxido de carbono em instituições cujas salas de execução eram disfarçadas exatamente como seriam depois em Auschwitz — como salas de duchas e banhos. O programa foi um fracasso. Era impossível manter a eliminação por gás em segredo da população alemã circundante; houve protestos de todos os lados, de pessoas que aparentemente ainda não tinham atingido a visão “objetiva” da natureza da medicina e da função de um médico. A eliminação por gás no Leste — ou, para usar a linguagem dos nazistas, “a maneira humana” de matar “dando às pessoas uma morte misericordiosa” — começou quase no mesmo dia em que cessou na Alemanha. Os homens que haviam sido empregados no programa de eutanásia na Alemanha foram então mandados para o Leste para construir as novas instalações para o extermínio de todo um povo — e esses homens saíram ou da Chancelaria de Hitler ou do Departamento de Saúde do Reich e só então foram postos sob a autoridade administrativa de Himmler.
Nenhuma das várias “regras de linguagem” cuidadosamente inventadas para enganar e camuflar teve efeito mais decisivo na mentalidade dos assassinos do que este primeiro decreto de guerra de Hitler, no qual a palavra “assassinato” era substituída pela expressão “dar uma morte misericordiosa”. Quando o interrogador da polícia perguntou a Eichmann se a diretiva de evitar “sofrimento desnecessário” não era um pouco irônica, uma vez que o destino dessas pessoas era a morte certa, ele nem mesmo entendeu a pergunta, tão fortemente enraizada em sua mente estava a idéia de que o pecado imperdoável não era matar pessoas, mas provocar sofrimento desnecessário. Durante o julgamento, ele mostrou sinais inconfundíveis de sincera indignação quando testemunhas falavam de crueldades e atrocidades cometidas por homens da SS — embora a corte e boa parte da platéia deixasse de perceber esses sinais, porque o esforço obsessivo de Eichmann para manter o autocontrole levou-as a pensar que ele era “impassível” e indiferente —, e não foi a acusação de ter mandado milhões de pessoas para a morte que o deixou agitado, mas só a acusação (negada pela corte) de uma testemunha que disse que ele havia espancado um menino judeu até a morte. Sem dúvida, ele chegou a mandar pessoas para a área dos Einsatzgruppen, que não aplicavam “uma morte misericordiosa” (eles sempre fuzilavam), mas provavelmente ficou aliviado quando, em estágios posteriores da operação, isso passou a ser desnecessário em vista da capacidade crescente das câmaras de gás. Ele devia achar também que o novo método indicava uma decisiva melhora na atitude do governo nazista com os judeus, uma vez que no começo do programa de eliminação por gás declarara-se expressamente que os benefícios da eutanásia estariam reservados aos verdadeiros alemães. Com a continuação da guerra, com a morte violenta e horrenda grassando a toda volta — no front da Rússia, nos desertos da África, na Itália, nas praias da França, nas ruínas das cidades alemãs —, os centros de asfixia em Auschwitz e Chelmno, em Majdanek e Belzek, em Treblinka e Sobibor, devem ter realmente parecido uma “Fundação Caritativa para Assistência Institucional”, como os chamavam os especialistas em morte misericordiosa. Além disso, a partir de janeiro de 1942, havia equipes de eutanásia em operação no Leste para ajudar os “feridos na neve e no gelo”, e embora esse assassinato de soldados feridos fosse também “altamente confidencial”, era conhecido por muita gente e certamente pelos executores da Solução Final.
Muitas vezes se disse que a asfixia dos doentes mentais teve de ser suspensa na Alemanha por causa dos protestos da população e de uns poucos dignitários corajosos das Igrejas; no entanto, nenhum protesto desse tipo foi feito quando o programa voltou-se para a asfixia de judeus, embora alguns dos centros de extermínio estivessem localizados no que era então território alemão, cercados por populações alemãs. Aqueles protestos, porém, ocorreram no começo da guerra; não se levando em conta os efeitos da “educação da eutanásia”, a atitude em relação à “morte indolor por asfixia de gás” muito provavelmente se alterou no curso da guerra. Esse tipo de coisa é difícil de provar; não há documentos de apoio, por causa de segredo de todo o empreendimento, e nenhum dos criminosos de guerra mencionou a questão, nem mesmo os defensores no Julgamento dos Doutores em Nuremberg, cheios de citações tiradas da literatura internacional sobre o assunto. Talvez eles tivessem esquecido o clima da opinião pública em que matavam, talvez nunca tenham se interessado em saber, uma vez que sentiam, erroneamente, que sua atitude “objetiva e científica” era muito mais avançada que as opiniões das pessoas comuns. Porém, umas poucas histórias inestimáveis, encontradas em diários de guerra de homens confiáveis, inteiramente conscientes do fato de que sua reação de choque não era mais partilhada por seus vizinhos, sobreviveram à decadência moral de toda uma nação.
Reck-Malleczewen, que mencionei antes, conta de uma mulher da Baviera, uma “líder” que fazia discursos animadores aos camponeses no verão de 1944. Ela parecia não perder muito tempo com “armas milagrosas” e com a vitória, encarando francamente a perspectiva de derrota, que não devia preocupar nenhum bom alemão porque o Führer “em sua grande bondade preparou para todo o povo alemão uma suave morte por asfixia de gás no caso de a guerra ter um final infeliz”. E o escritor acrescenta: “Oh, não, não estou imaginando coisas, essa bela dama não é uma miragem, eu a vi com meus próprios olhos: uma mulher de pele amarela beirando os quarenta, com olhos enlouquecidos [...] E o que aconteceu? Os camponeses bávaros pelo menos a jogaram no lago local para esfriar sua entusiástica prontidão para a morte? Eles não fizeram nada disso. Foram para casa, sacudindo as cabeças”.
Minha próxima história é ainda mais adequada, uma vez que fala de alguém que não era “líder”, talvez não fosse nem membro do Partido. Aconteceu em Königsberg, na Prússia Oriental, um canto inteiramente diferente da Alemanha, em janeiro de 1945, poucos dias antes de os russos destruírem a cidade, ocuparem suas ruínas e anexarem toda a província. Essa história é contada pelo conde Hans von Lehnsdorff, em seu Ostpreussisches Tagebuch (1961). Ele havia ficado na cidade como médico para cuidar de soldados feridos que não podiam ser evacuados e foi chamado a um dos vastos centros de refugiados do campo, que já estava ocupado pelo Exército Vermelho. Lá, foi perseguido por uma mulher que lhe mostrou uma veia varicosa que tinha havia anos e que queria tratar agora, porque tinha tempo. “Tentei explicar que seria mais importante para ela sair de Königsberg e deixar o tratamento para depois. ‘Aonde você quer ir?, perguntei a ela. Ela não sabe, mas sabe que serão todos levados para o Reich. E acrescenta, surpreendentemente: ‘Os russos nunca vão nos pegar. O Führer nunca vai permitir. Antes disso ele nos põe na câmara de gás’. Olho em volta, disfarçando, mas ninguém parece achar a frase fora do comum.” Dá para sentir que a história, como toda história verdadeira, está incompleta. Devia haver uma outra voz, de preferência feminina, que, suspirando profundamente, respondesse: “E agora todo aquele gás tão bom e tão caro é desperdiçado com judeus!”.