Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal
V. A segunda solução: concentração
V
A SEGUNDA SOLUÇÃO: CONCENTRAÇÃO
Foi só com a eclosão da guerra, em 1o de setembro de 1939, que o regime nazista tornou-se abertamente totalitário e abertamente criminoso. Do ponto de vista organizacional, um dos passos mais importantes nessa direção foi um decreto assinado por Himmler que fundia o Serviço de Segurança da SS, ao qual Eichmann pertencia, com a Polícia Regular do Estado, da qual fazia parte a Polícia Secreta do Estado, a Gestapo. O resultado da fusão foi o Escritório Central da Segurança do Reich (RSHA), cujo primeiro chefe foi Reinhardt Heydrich; depois da morte de Heydrich em 1942, assumiu o dr. Ernst Kaltenbrunner, velho conhecido de Eichmann desde Linz. Todos os funcionários da polícia, não só da Gestapo, mas também da Policia Criminal e da Polícia da Ordem, receberam títulos da SS, correspondentes às suas patentes anteriores, fossem ou não fossem membros do Partido, e isso significa que, no espaço de um dia, uma parte importante dos velhos postos civis foi incorporada à seção mais radical da hierarquia nazista. Ninguém, pelo que eu sei, protestou ou pediu demissão. (Embora Himmler, chefe e fundador da SS fosse, desde 1936, chefe também da Polícia Alemã, os dois aparelhos haviam continuado separados até então.) Além disso, o RSHA era apenas um dos doze Escritórios Centrais da SS, o mais importante dos quais, no presente contexto, era o Escritório Central da Polícia da Ordem, sob o comando do general Kurt Daluege, que era responsável pelo agrupamento de judeus, e o Escritório Central para Administração e Economia (o SS Wirtschafts-Verwaltungshauptamt, ou WVHA), chefiado por Oswald Pohl, encarregado dos campos de concentração e que foi depois encarregado do lado “econômico” do extermínio.
Essa atitude “objetiva” — falar dos campos de concentração em termos de “administração” e dos campos de extermínio em termos de “economia” — era típica da mentalidade da SS, e algo de que Eichmann ainda muito se orgulhava no julgamento. Devido a sua “objetividade” (Sachlichkeit), a SS se dissociou de tipos “emocionais” como Streicher, esse “tolo irrealista” e também de certos “figurões teuto-germânicos que se comportavam como se vestissem chifres e pelegos”. Eichmann tinha grande admiração por Heydrich porque ele não gostava nada dessa tolice, e não simpatizava com Himmler porque, entre outras coisas, o SS Reichsführer e Chefe da Polícia Alemã, embora chefe de todos os Escritórios Centrais da SS, deixara-se “influenciar por isso, pelo menos durante um longo tempo”. Durante o julgamento, porém, não foi o acusado, Obersturmbannführer a. D. da SS que levou o prêmio de “objetividade”; foi o dr. Servatius, um advogado de empresas e impostos em Colônia, que nunca se filiou ao Partido Nazista e que, mesmo assim, iria ensinar à corte uma lição sobre o que significa não ser “emocional”. Lição que nenhum de seus ouvintes jamais esquecerá. Esse momento, um dos poucos grandes momentos de todo o julgamento, ocorreu durante a breve exposição oral da defesa, depois da qual a corte entrou em recesso de quatro meses para redigir o julgamento. Servatius declarou o acusado inocente das acusações que o responsabilizavam pela “coleção de esqueletos, esterilizações, assassinatos por gás e questões médicas similares”, diante do que o juiz Halevi o interrompeu: “Dr. Servatius, presumo que tenha sido um deslize seu afirmar que a execução por gás é uma questão médica”. Ao que Servatius respondeu: “Era efetivamente uma questão médica, uma vez que era preparada por médicos; era uma questão de morte e a morte também é uma questão médica”. E, talvez para ter certeza absoluta de que os juízes de Jerusalém não esquecessem de que maneira os alemães — os alemães comuns, não membros da SS, nem do Partido Nazista — ainda hoje conseguem encarar atos que outros países chamam de assassinato, ele repetiu a frase em seus “Comentários sobre o julgamento da primeira instância”, preparados para a revisão do caso diante da Suprema Corte; novamente ele afirmou que não era Eichmann, mas sim um de seus homens, Rolf Günther, que “estava sempre envolvido em questões médicas”. (O dr. Servatius conhece bem as “questões médicas” do Terceiro Reich. Em Nuremberg ele defendeu o dr. Karl Brandt, médico pessoal de Hitler, plenipotenciário para “Higiene e Saúde” e chefe do programa de eutanásia.)
Cada um dos Escritórios Centrais da SS, em sua organização de guerra, era dividido em seções e subseções, e o RSHA acabou tendo sete seções principais. A Seção IV era o departamento da Gestapo, chefiado pelo Gruppenführer (major-general) Heinrich Müller, cuja patente era a mesma que tinha na polícia bávara. Sua tarefa era combater “oponentes hostis ao Estado”, que eram divididos em duas categorias, tratadas por duas seções: a Subseção IV-A cuidava dos “oponentes” acusados de comunismo, sabotagem, liberalismo e assassinato, e a Subseção IV-B cuidava das “seitas”, isto é, católicos, protestantes, maçons (o posto continuava vazio) e judeus. Cada categoria dessas seções tinha um escritório próprio, designado por um numeral arábico, de forma que Eichmann acabou sendo nomeado, em 1941, para a mesa IV-B-4 no RSHA. Como o seu superior imediato, o chefe da IV-B acabou sendo uma nulidade, seu superior real era sempre Müller. O superior de Müller era Heydrich e, mais tarde, Kaltenbrunner, cada qual, por sua vez, sob o comando de Himmler, que recebia as ordens diretamente de Hitler.
Além de seus doze Escritórios Centrais, Himmler presidia um quadro organizacional inteiramente diverso, que também desempenhou um enorme papel na execução da Solução Final. Tratava-se da rede de comandantes superiores da SS e da polícia que estavam no comando das organizações regionais; sua cadeia de comando não os ligava ao RSHA, respondiam diretamente a Himmler, e sempre superaram em hierarquia a Eichmann e aos homens à disposição dele. Os Einsatzgruppen, por outro lado, estavam sob o comando de Heydrich e do RSHA — o que, evidentemente, não quer dizer que Eichmann tivesse necessariamente algo a ver com eles. Os comandantes dos Einsatzgruppen tinham também, invariavelmente, uma patente superior à de Eichmann. Técnica e organizacionalmente, a posição de Eichmann não era muito elevada; seu posto acabou sendo tão importante só porque a questão judaica adquiria, por razões puramente ideológicas, uma importância maior a cada dia, semana e mês da guerra, até haver adquirido proporções fantásticas nos anos de derrota — de 1943 em diante. Quando isso aconteceu, o seu departamento ainda era o único que lidava exclusivamente com “o oponente, o judaísmo”, mas de fato ele havia perdido o monopólio, porque então todos os departamentos e aparelhos, Estado e Partido, Exército e SS, estavam ocupados “resolvendo” o problema. Mesmo que concentremos toda a nossa atenção apenas no mecanismo da polícia e não levemos em conta todos os outros departamentos, o quadro é absurdamente complicado, uma vez que temos de somar os Einsatzgruppen com os comandantes superiores das SS e da polícia e os inspetores da Polícia de Segurança e do Serviço de Segurança. Cada um desses grupos pertencia a uma cadeia diferente de comando que acabava em Himmler, mas eram iguais uns aos outros e ninguém que pertencesse a um grupo devia obediência a um oficial superior de outro grupo. É forçoso admitir que a acusação encontrava-se em dificílima posição ao tentar se orientar em meio a esse labirinto de instituições paralelas, coisa que tinha de fazer cada vez que precisava atribuir alguma responsabilidade específica a Eichmann. (Se o julgamento ocorresse hoje, essa tarefa seria muito mais fácil, uma vez que Raul Hilberg, em seu The Destruction of the European Jews, conseguiu apresentar a primeira descrição clara dessa máquina de destruição incrivelmente complicada.)
Além disso, deve-se lembrar que todos esses organismos, enormemente poderosos, competiam ferozmente uns com os outros — o que em nada ajudava suas vítimas, uma vez que a ambição de todos eles era sempre a mesma: matar tantos judeus quanto possível. Esse espírito competitivo, que, evidentemente, inspirava em cada homem uma grande lealdade a seu próprio departamento, sobreviveu à guerra, só que agora funciona ao contrário: tornou-se desejo de cada homem “livrar seu próprio departamento” à custa de todos os outros. Essa foi a explicação dada por Eichmann quando se confrontou com as memórias de Rudolf Höss, comandante de Auschwitz, nas quais Eichmann é acusado de certas coisas que diz jamais ter feito ou ter estado em posição de fazer. Ele admitiu com bastante facilidade que Höss não tinha razões pessoais para sobrecarregá-lo com atos dos quais era inocente, uma vez que suas relações tinham sido bastante amigáveis; mas ele insistia, em vão, que Höss queria eximir seu próprio departamento, o Escritório Central para Administração e Economia, e jogar toda a culpa no RSHA. Algo semelhante aconteceu em Nuremberg, onde os vários acusados apresentaram um espetáculo enojante, um acusando o outro — embora nenhum pusesse a culpa em Hitler! No entanto, ninguém fazia isso simplesmente para salvar o próprio pescoço à custa de outro; os homens em julgamento representavam organizações inteiramente diferentes, com uma hostilidade antiga e profunda entre elas. O dr. Hans Globke, que já encontramos antes, tentou eximir de culpa o seu Ministério do Interior à custa do Ministério das Relações Exteriores, ao servir de testemunha de acusação em Nuremberg. Eichmann, por outro lado, sempre tentou proteger Müller, Heydrich e Kaltenbrunner, embora este último o tratasse bastante mal. Sem dúvida um dos principais erros objetivos da acusação em Jerusalém foi deixar que este caso se apoiasse demais em declarações juradas e não juradas de ex-nazistas de alto escalão, mortos ou vivos; a acusação não percebeu, e talvez não se pudesse esperar que percebesse, como esses documentos eram dúbios para o estabelecimento de fatos. Mesmo o julgamento, em sua avaliação dos testemunhos prejudiciais de outros criminosos nazistas, levou em conta que (nas palavras de uma das testemunhas de defesa) “era costume, na época dos julgamentos de crimes de guerra, atribuir o máximo de culpa possível àqueles que estavam ausentes ou presumivelmente mortos”.
Quando Eichmann tomou posse de seu novo cargo na Seção IV do RSHA, ele ainda tinha diante de si o incômodo dilema: por um lado a “emigração forçada” era a fórmula-chave oficial para solucionar a questão judaica e, por outro, a emigração não era mais possível. Pela primeira (e quase última) vez em sua vida dentro da SS, ele foi levado pelas circunstâncias a tomar a iniciativa, a tentar ver se conseguia “dar à luz uma idéia”. Na versão que contou no inquérito da polícia, fora abençoado com três idéias. Nenhuma das três, tinha de admitir, resultara em alguma coisa; tudo o que ele tentava por si mesmo invariavelmente dava errado — o golpe final veio quando teve de “abandonar” sua fortaleza privada em Berlim antes de poder pô-la à prova contra os tanques russos. Nada além de frustração; uma história infeliz como nunca se viu. A fonte inexaurível de problemas, Eichmann pensava, era que ele e seus homens nunca ficavam sozinhos, todos aqueles outros departamentos de Estado e Partido queriam a sua parte na “solução”, resultando disso que um verdadeiro exército de “especialistas judaicos” havia surgido por toda parte e todos se esforçavam para ser os primeiros num campo sobre o qual nada sabiam. Eichmann tinha o maior desprezo por essas pessoas, em parte porque eram curiosos de última hora, em parte porque tentavam enriquecer, e muitas vezes conseguiam ficar bem ricos no curso de seu trabalho, e em parte porque eram ignorantes, nunca haviam lido um ou dois “livros básicos”.
Acontece que seus três sonhos foram inspirados pelos “livros básicos”, e revelou-se também que dois dos três definitivamente não tinham sido idéia dele; com respeito ao terceiro — bem, “não sei mais se foi Stahlecker [seu superior em Viena e Praga] ou eu quem teve a idéia, mas seja como for surgiu uma idéia”. Esta última idéia foi a primeira, cronologicamente; era a “idéia de Nisko”, e seu fracasso era para Eichmann a prova mais clara do quanto a interferência fazia mal. (O culpado no caso era Hans Frank, governador-geral da Polônia.) Para entender esse plano, temos de lembrar que depois da conquista da Polônia e antes do ataque alemão à Rússia, os territórios poloneses estavam divididos entre a Alemanha e a Rússia; a parte alemã consistia nas Regiões Ocidentais, que foram incorporadas ao Reich, e a chamada Área Oriental, inclusive Varsóvia, que era conhecida como Governo-Geral. Por enquanto, a Área Oriental era tratada como território ocupado. Como a solução da questão judaica nessa época ainda era a “emigração forçada”, com o objetivo de tornar a Alemanha judenrein, era natural que os judeus poloneses dos territórios anexados, junto com os restantes judeus de outras partes do Reich, fossem empurrados para o Governo-Geral, que fosse como fosse não era considerado parte do Reich. Em dezembro de 1939, as evacuações para o Leste haviam começado e cerca de um milhão de judeus — 600 mil da área incorporada e 400 mil do Reich — começaram a chegar ao Governo-Geral.
Se a versão de Eichmann para a aventura Nisko for verdadeira — e não há razão para não acreditar nisso —, ele ou mais provavelmente seu superior de Praga e Viena, o Brigadeführer (brigadeiro-geral) Franz Stahlecker deve ter previsto esses desenvolvimentos meses antes. Esse dr. Stahlecker, conforme Eichmann cuidadosamente o chamava, era, em sua opinião, um homem muito elegante, gentil, muito razoável, “livre de ódio e chauvinismo de qualquer espécie”, que costumava apertar as mãos dos funcionários judeus em Viena. Um ano e meio depois, na primavera de 1941, esse fino cavalheiro foi nomeado comandante do Einsatzgruppe A, e conseguiu matar 250 mil judeus por fuzilamento em pouco mais de um ano (antes de ser morto em ação em 1942) — conforme ele próprio orgulhosamente relatou ao próprio Himmler, embora o chefe dos Einsatzgruppen, que eram unidades de polícia, fosse o chefe da Polícia de Segurança e da SD, ou seja, Reinhardt Heydrich. Mas isso foi depois, e agora, em setembro de 1939, enquanto o Exército alemão ainda estava empenhado em ocupar os territórios poloneses, Eichmann e o dr. Stahlecker começaram a pensar “particularmente” sobre a maneira como o Serviço de Segurança poderia conseguir sua fatia de influência no Leste. O que eles precisavam era de “uma área o maior possível na Polônia, a ser seccionada para a construção de um Estado judaico autônomo, na forma de um protetorado [...] Essa podia ser a solução”. E lá foram eles, de iniciativa própria, sem ordens de ninguém, em missão de reconhecimento. Foram ao distrito Radom, às margens do rio San, perto da fronteira russa, e viram “um grande território, aldeias, mercados, pequenas cidades” e “pensamos: é isto que precisamos e por que não reassentar poloneses para variar, uma vez que tem gente sendo reassentada em toda parte”; essa seria “a solução da questão judaica” — solo firme debaixo dos pés deles — pelo menos durante algum tempo.
Tudo pareceu ir muito bem de início. Foram até Heydrich e Heydrich concordou e mandou seguirem em frente. Acontece que esse projeto se encaixava muito bem com o plano geral de Heydrich para o estágio de então da questão judaica — coisa que em Jerusalém Eichmann havia esquecido inteiramente. Em 21 de setembro de 1939, ele convocou uma reunião de “chefes de departamentos” do RSHA e dos Einsatzgruppen (já operando na Polônia), na qual foram passadas diretivas gerais para o futuro imediato: concentração dos judeus em guetos, estabelecimento de Conselhos de Anciãos Judeus, e deportação de todos os judeus para a área do Governo-Geral. Eichmann compareceu a essa reunião de estabelecimento do “Centro Judeu de Emigração” — como ficou provado no julgamento por meio das minutas que o Bureau 06 da polícia israelense descobriu no Arquivo Nacional em Washington. Dessa forma, a iniciativa, seja de Eichmann, seja de Stahlecker, resultava em nada mais que um plano concreto de executar as diretivas de Heydrich. E então milhares de pessoas, principalmente da Áustria, foram deportadas precipitadamente para esse lugar esquecido por Deus que, segundo lhes explicou um oficial da SS — Erich Rajakowitsch, que mais tarde se encarregaria da deportação dos judeus holandeses —, “o Führer tinha prometido aos judeus como nova pátria. Não há moradias, não há casas. Se vocês construírem, haverá um teto sobre suas cabeças. Não há água, os poços de toda a região estão contaminados com cólera, disenteria e tifo. Se cavarem e encontrarem água, terão água”. Como se pode ver, “tudo parecia maravilhoso”, só que a SS expulsou alguns judeus desse paraíso, levando-os para o outro lado da fronteira russa, e outros tiveram o bom senso de escapar por vontade própria. “Mas então”, queixou-se Eichmann, “começaram as obstruções da parte de Hans Frank”, que eles tinham esquecido de informar, embora fosse “seu” território. “Frank reclamou com Berlim e começou um grande cabo-de-guerra. Frank queria resolver essa questão judaica sozinho. Não queria receber mais nenhum judeu em seu Governo-Geral. Aqueles que chegavam deviam desaparecer imediatamente.” E eles efetivamente desapareceram; alguns foram até repatriados, coisa que nunca havia acontecido antes e nunca aconteceu depois, e aqueles que voltaram para Viena foram registrados assim nos livros da polícia: “retornando para treino vocacional” — uma curiosa recaída no estágio pró-sionista do movimento.
A pressa de Eichmann em conseguir algum território para “seus” judeus pode ser mais bem entendida no panorama de sua própria carreira. O plano Nisko “nasceu” durante a época de seu rápido progresso, e é mais do que possível que ele se considerasse futuro governador-geral de um “Estado Judeu”, como Hans Frank na Polônia, ou futuro Protetor, como Heydrich na Tchecoslováquia. O fracasso total da empresa, porém, deve ter lhe ensinado uma lição sobre as possibilidades e necessidade de uma iniciativa “privada”. E como ele e Stahlecker haviam agido dentro do quadro das diretivas de Heydrich e com sua permissão explícita, essa repatriação única de judeus, muito claramente uma derrota temporária para a polícia e a SS, deve também ter ensinado a ele que o poderio sempre crescente de sua posição não chegava a ser onipotência, que os ministérios do Estado e outras instituições do Partido estavam bem dispostas a lutar para manter seus minguantes poderes.
A segunda tentativa que Eichmann fez de “colocar solo firme debaixo dos pés dos judeus” foi o projeto Madagascar. O plano de evacuar 4 milhões de judeus da Europa para a ilha francesa no litoral sudeste da África — uma ilha com 4 370 000 habitantes nativos e área de aproximadamente 365 mil quilômetros quadrados de terra pobre — surgiu no Ministério das Relações Exteriores e foi depois transmitido para o RSHA porque, nas palavras do dr. Martin Luther, encarregado dos negócios judeus em Wilhelmstrasse, só a polícia “tinha experiência e facilidades técnicas para executar a evacuação dos judeus em massa e garantir a supervisão dos evacuados”. O “Estado Judeu” deveria ter um governador policial sob a jurisdição de Himmler. O projeto em si tinha uma história estranha. Confundindo Madagascar com Uganda, Eichmann sempre afirmou ter tido “um sonho um dia sonhado pelo protagonista da idéia do Estado Judeu, Theodor Herzl”, mas o certo é que seu sonho já havia circulado antes — primeiro pelo governo polonês, que em 1937 se deu ao trabalho de examinar a idéia, terminando por descobrir que seria inteiramente impossível embarcar seus quase 3 milhões de judeus sem matá-los, e, um pouco depois, pelo ministro das Relações Exteriores francês Georges Bonnet, que tinha o plano mais modesto de despachar os judeus estrangeiros da França, em número de cerca de 300 mil, para aquela colônia francesa. Ele chegou a consultar seu equivalente alemão Joachim von Ribbentrop sobre o assunto em 1938. De toda forma, em 1940 Eichmann foi informado de que sua história de emigração fora inteiramente suspensa, de que devia elaborar um plano detalhado para a evacuação de 4 milhões de judeus para Madagascar — e esse projeto parece ter ocupado a maior parte de seu tempo até a invasão da Rússia, um ano depois. (Quatro milhões é um número surpreendentemente baixo para tornar a Europa judenrein. Esse número evidentemente não incluía os 3 milhões de judeus poloneses que, como todos sabem, foram massacrados desde os primeiros dias da guerra.) Parece improvável que alguém além de Eichmann e alguns outros luminares menores tenha levado a sério a coisa toda, pois à parte o fato de o território ser sabidamenente inadequado, sem falar do fato de ser, afinal de contas, uma possessão francesa, o plano teria exigido espaço de viagem para 4 milhões de pessoas no meio da guerra, e num momento em que a Marinha britânica detinha o controle do Atlântico. A finalidade do plano Madagascar sempre foi servir de capa sob a qual os preparativos para o extermínio físico de todos os judeus da Europa Ocidental seriam levados a cabo (não houve necessidade de nenhuma capa para o extermínio dos judeus poloneses!) e a sua grande vantagem com respeito ao exército de anti-semitas treinados que, por mais que tentassem, sempre estavam um passo atrás do Führer, é que ele familiarizava todos os envolvidos com a idéia preliminar de que nada serviria senão a completa evacuação da Europa — nenhuma legislação especial, nenhuma “desassimilação”, nenhum gueto bastaria. Um ano depois, quando o projeto Madagascar foi declarado “obsoleto”, todo mundo estava psicologicamente, ou melhor, logicamente preparado para o passo seguinte: uma vez que não havia território para onde pudessem ser “evacuados”, a única “solução” era o extermínio.
Não que Eichmann, o maior revelador de verdades de todos os tempos, chegasse a suspeitar da existência de tais planos sinistros. O que teria levado o projeto Madagascar ao fracasso foi falta de tempo, e tempo foi o que se perdeu com as intermináveis interferências de outros departamentos. Em Jerusalém, tanto a polícia como a corte tentaram sacudi-lo dessa complacência. Eles o confrontaram com dois documentos referentes à reunião de 21 de setembro de 1939, mencionada acima; um deles, uma carta teletipada de Heydrich que continha certas diretivas para os Einsatzgruppen, fazia pela primeira vez uma distinção entre um “objetivo final, que exige períodos de tempo mais longos” e que devia ser tratado como “altamente confidencial”, e “os estágios para se obter esse objetivo final”. A expressão “solução final” ainda não aparecia, e o documento silencia sobre qual seria esse “objetivo final”. Daí Eichmann poder dizer, sim, que o “objetivo final” era o seu projeto Madagascar, que nessa época estava sendo chutado de um para outro departamento alemão; para uma evacuação em massa, a concentração de todos os judeus constituía um “estágio” preliminar necessário. Mas depois de ler o documento, Eichmann disse imediatamente que estava convencido de que “objetivo final” só podia significar “extermínio físico”, e concluiu que “essa idéia básica já estava enraizada nas mentes dos altos líderes, ou dos homens máximos”. Isso podia efetivamente ser verdade, mas ele então teria de admitir que o projeto Madagascar talvez não fosse mais que embuste. Bem, ele não o fez; nunca alterou sua história sobre Madagascar, e talvez simplesmente não pudesse mudá-la. Era como se essa história corresse numa outra fita em sua memória, e era essa memória gravada que surgia como prova contra a razão e os argumentos e a informação e as demonstrações de todo tipo.
Sua memória o informava que houvera uma pausa nas atividades contra os judeus da Europa Ocidental e da Europa Central entre a eclosão da guerra (em seu discurso ao Reichstag de 30 de janeiro de 1939, “profetizou” que a guerra traria o “aniquilamento da raça judaica na Europa”) e a invasão da Rússia. Sem dúvida, já nessa época os vários departamentos do Reich e dos territórios ocupados estavam fazendo o possível para eliminar “o oponente, o judaísmo”, mas não havia uma política unificada; parecia que cada departamento tinha a sua própria “solução” e que lhe era permitido aplicá-la ou usá-la contra as soluções de seus competidores. A solução de Eichmann era um Estado policial, e para isso ele precisava de um território suficientemente grande. Todos os seus “esforços fracassaram por causa da falta de entendimento entre as cabeças envolvidas”, por causa de “rivalidades”, querelas, brigas, porque todo mundo “batalhava pela supremacia”. E quando já era tarde demais, a guerra contra a Rússia “explodiu de repente, como uma tempestade”. Esse foi o fim de seus sonhos, assim como o fim da “era de busca de uma solução no interesse de ambos os lados”. Foi também, como reconheceu nas memórias que escreveu na Argentina, “o fim de uma era em que existiam leis, ordens, decretos para o tratamento de indivíduos judeus”. E, segundo ele, era mais que isso, era o fim de sua carreira, e embora isso soasse despropositado em vista de sua “fama” atual, não se podia negar que talvez tivesse razão. Pois sua aspiração — seja na realidade da “emigração forçada”, seja em seu “sonho” de um Estado judeu governado por nazistas — a exercer uma autoridade final em todos os assuntos judeus agora “caía para o segundo plano no que dizia respeito à Solução Final, pois o que agora se iniciava era transferido a diferentes unidades, e as negociações eram conduzidas por outro Escritório Central, sob o comando do ex-Reichsführer SS e Chefe da Polícia Alemã”. As “diferentes unidades” foram selecionadas entre grupos de matadores que operavam na retaguarda do Exército no Leste, e cujo dever especial consistia em massacrar a população civil nativa, e, especialmente, os judeus; e o outro Escritório Central era o WVHA, sob comando de Oswald Pohl, que Eichmann tinha de consultar para descobrir qual era o destino final de cada embarque de judeus. Isso era calculado de acordo com a “capacidade de absorção” das diversas instalações de assassinatos e também de acordo com as solicitações de trabalhadores escravos por parte de numerosas empresas industriais que haviam descoberto ser lucrativo estabelecer filiais nas vizinhanças de alguns desses campos de extermínio. (Ao lado de indústrias não muito importantes da SS, famosas empresas alemãs como a I. G. Farben, a Krupp Werke, e a Siemens-Schuckert Werke abriram fábricas perto dos campos de extermínio de Auschwitz e de Lublin. A cooperação entre a SS e os empresários era excelente; Höss, de Auschwitz, confirmou as relações sociais muito cordiais com os representantes da I. G. Farben. Quanto às condições nas fábricas, a idéia era, claramente, matar por meio do trabalho; segundo Hilberg, morreram pelo menos 25 mil dos aproximadamente 35 mil judeus que trabalhavam numa das fábricas da I. G. Farben.) No que dizia respeito a Eichmann, a questão era que a evacuação e a deportação não constituíam mais os últimos estágios da “solução”. Seu departamento havia se tornado meramente instrumental. Daí ele ter toda razão de ficar muito “amargurado e decepcionado” quando o projeto Madagascar foi engavetado; e a única coisa que o consolou foi sua promoção a Obersturmbannführer, ocorrida em outubro de 1941.
A última vez que Eichmann se lembrava de ter experimentado algo pessoal foi em setembro de 1941, três meses depois da invasão da Rússia. Isso foi logo depois de Heydrich, ainda chefe da Polícia de Segurança e do Serviço de Segurança, tornar-se Protetor da Boêmia e da Morávia. Para celebrar a ocasião, ele convocou uma entrevista coletiva e prometeu que, dentro de oito semanas, o Protetorado estaria judenrein. Depois da entrevista, discutiu o assunto com aqueles que teriam de efetivar o cumprimento de sua palavra: Franz Stahlecker, então comandante local da Polícia de Segurança de Praga, e o subsecretário de Estado Karl Hermann Frank, antigo líder dos Sudetos, que logo depois da morte de Heydrich iria sucedê-lo como Reichsprotector. Na opinião de Eichmann, Frank era um sujeito baixo, que odiava os judeus “à maneira de Streicher”, que “não sabia nada de soluções políticas”, uma dessas pessoas que “autocraticamente e, deixem-me dizer, na embriaguez de seu poder, simplesmente dava ordens e comandos”. Mas fora isso a conferência foi agradável. Pela primeira vez, Heydrich demonstrou “um lado mais humano” e admitiu, com uma bela franqueza, que tinha “permitido perder-se pela língua”, “o que não surpreendia quem conhecia Heydrich”, uma “personalidade ambiciosa e impulsiva”, que “muitas vezes deixava as palavras escaparem da boca mais depressa do que gostaria de admitir depois”. De forma que o próprio Heydrich disse: “Existe uma confusão, e o que vamos fazer agora?”. Ao que Eichmann respondeu: “Existe apenas uma possibilidade, se você não puder recuar daquilo que anunciou. Abrir um espaço para onde se possa transportar os judeus do Protetorado, que hoje estão dispersos”. (Uma pátria judaica, um ponto de reunião dos eLivross da Diáspora.) E então, felizmente, Frank — que odiava os judeus à maneira de Streicher — fez uma proposta concreta, e esse espaço foi providenciado em Theresienstadt. Diante disso, Heydrich, talvez também embriagado de poder, simplesmente ordenou a evacuação imediata da população tcheca nativa de Theresienstadt, para abrir espaço para os judeus.
Eichmann foi enviado até lá para supervisionar as coisas. Grande decepção: a cidade-fortaleza boêmia às margens do Eger era pequena demais; na melhor das hipóteses poderia ser um campo de transferência para uma certa porcentagem dos 90 mil judeus da boêmia e da Morávia. (Para cerca de 50 mil judeus tchecos, Theresienstadt veio realmente a ser um campo de transferência a caminho de Auschwitz, enquanto outros, estimados em 20 mil, chegavam diretamente ao destino.) Sabemos, de fontes melhores do que a memória deficiente de Eichmann, que desde o começo Heydrich planejara que Theresienstadt servisse como um gueto especial para certas categorias privilegiadas de judeus, principalmente, mas não exclusivamente, da Alemanha — funcionários judeus, pessoas importantes, veteranos de guerra com altas condecorações, inválidos, os cônjuges judeus de casamentos mistos, e os judeus alemães de mais de 65 anos de idade (daí o apelido de Altersghetto). A cidade acabou se revelando pequena demais até mesmo para essas categorias restritas, e em 1943, cerca de um ano depois de seu estabelecimento, começaram os processos de “rarear” e “afrouxar” (Auflockerung) que foram paulatinamente aliviando a superpopulação — por meio do transporte para Auschwitz. Mas sob um aspecto a memória de Eichmann não o enganou. Theresienstadt era de fato o único campo de concentração que não estava sob a autoridade do WVHA, permanecendo responsabilidade sua até o final. Seus comandantes eram homens de seu pessoal e sempre seus inferiores hierárquicos; era o único campo em que ele tinha pelo menos parte do poder que a acusação de Jerusalém lhe atribuía.
A memória de Eichmann, saltando os anos com grande facilidade — ele adiantou dois anos a seqüência de eventos quando contou ao interrogador da polícia a história de Theresienstadt —, certamente não se submetia à ordem cronológica, mas não era também simplesmente caótica. Sua memória era como um armazém, cheio de histórias humanas do pior tipo. Quando ele pensou em Praga, veio à tona aquela ocasião em que foi admitido à presença do grande Heydrich em pessoa, o qual revelou ter um “lado mais humano”. Algumas sessões depois, ele mencionou uma viagem a Bratislava, na Eslováquia, onde estava por acaso quando Heydrich foi assassinado. O que ele se lembrava era que estava lá como hóspede de Sano Mach, ministro do Interior no governo marionete plantado pelos nazistas na Eslováquia. (Nesse governo católico fortemente anti-semita, Mach representava a versão alemã do anti-semitismo; recusava-se a permitir exceções para os judeus batizados e foi um dos principais responsáveis pela deportação em massa dos judeus eslovacos.) Eichmann lembrava-se disso porque não costumava receber convites sociais de membros do governo; era uma honra. Eichmann se lembrava que Mach era um sujeito solto, agradável, que o convidou para jogar boliche. Será que não tinha mais nada a fazer em Bratislava no meio da guerra além de jogar boliche com o ministro do Interior? Não, absolutamente mais nada; ele se lembrava de tudo muito bem, como jogaram boliche, como serviram drinques pouco antes do anúncio do atentado contra a vida de Heydrich. Quatro meses e 55 fitas depois, o capitão Less, interrogador israelense, voltou a esse ponto, e Eichmann contou a mesma história com palavras quase idênticas, acrescentando que esse dia havia sido “inesquecível”, porque seu “superior havia sido assassinado”. Dessa vez, porém, viu-se confrontado com um documento que dizia que ele havia sido mandado a Bratislava para discutir “a evacuação dos judeus da Eslováquia em curso”. Ele admitiu imediatamente o erro: “Claro, claro, foi uma ordem de Berlim, eles não me mandaram lá para jogar boliche”. Será que havia mentido duas vezes, com grande coerência? Pouco provável. Evacuar e deportar judeus era coisa de rotina; o que ficou em sua cabeça foi o boliche, foi ser hóspede de um ministro, foi ficar sabendo do ataque contra Heydrich. E era característico do seu tipo de memória não se lembrar absolutamente do ano em que ocorrera esse dia memorável, no qual o “enforcador” foi fuzilado por patriotas tchecos.
Se sua memória fosse melhor, ele nunca teria sequer contado a história de Theresienstadt. Pois tudo isso aconteceu quando o tempo de “soluções políticas” já havia passado, e a era da “solução física” havia começado. Aconteceu num momento em que, conforme admitiu aberta e espontaneamente em outro contexto, ele já havia sido informado da ordem do Führer para a Solução Final. Tornar o país judenrein na data que Heydrich prometera em relação à Boêmia e à Morávia só podia significar concentração e deportação para pontos de onde os judeus poderiam ser enviados com facilidade para campos de extermínio. O fato de Theresienstadt ter servido a outro propósito, o de vitrina para o mundo exterior — era o único campo onde representantes da Cruz Vermelha Internacional eram admitidos —, era outra questão que Eichmann naquele momento devia quase certamente ignorar e que, de toda forma, estava inteiramente fora do âmbito de sua competência.