Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal
XIV. Provas e testemunhas
XIV
PROVAS E TESTEMUNHAS
Durante as últimas semanas da guerra, a burocracia da SS ficou ocupada principalmente com a falsificação de documentos e com a destruição de montanhas de papel que atestavam seus anos de assassinato sistemático. O departamento de Eichmann, mais bem-sucedido que outros, queimou seus arquivos, o que, evidentemente, não lhe valeu de muito porque toda a sua correspondência havia sido endereçada a outros departamentos do Estado e do Partido, cujos arquivos caíram nas mãos dos Aliados. Sobraram documentos mais do que suficientes para contar a história da Solução Final, a maioria deles já conhecida dos julgamentos em Nuremberg e de outros julgamentos subseqüentes. A história foi confirmada por testemunhos jurados e não jurados, dados geralmente por testemunhas e acusados de processos anteriores e freqüentemente por pessoas que não estavam mais vivas. (Tudo isso, assim como uma boa dose de testemunhos baseados em boatos, foi admitido como prova de acordo com a Seção 15 da lei sob a qual Eichmann foi julgado, e que estipula que a corte “pode se desviar das regras de prova” contanto que “registre as razões que levaram” a esse desvio.) As provas documentais foram suplementadas por depoimentos tomados no estrangeiro, em tribunais alemães, austríacos e italianos da parte de dezesseis testemunhas que não podiam ir a Jerusalém porque o Procurador-Geral havia anunciado que “tencionava submetê-las a julgamento por crimes contra o povo judeu”. Embora durante a primeira sessão ele tenha declarado que “se a defesa tiver pessoas prontas a vir e testemunhar, não impedirei, não imporei obstáculo algum”, ele depois se recusou a dar imunidade a essas pessoas. (Essa imunidade dependia inteiramente da boa vontade do governo; a acusação sob a Lei [Punitiva] dos Nazistas e dos Colaboradores dos Nazistas não é obrigatória.) Como era altamente improvável que qualquer um dos dezesseis cavalheiros viesse a Israel sob qualquer circunstância — sete deles estavam presos —, essa questão meramente técnica foi de considerável importância. Serviu para refutar a alegação israelense de que a corte de Israel era, pelo menos tecnicamente, a “mais adequada para um julgamento contra os implementadores da Solução Final”, porque os documentos e testemunhas eram ali “mais abundantes que em qualquer outro país”; e a alegação sobre os documentos era duvidosa de qualquer modo, uma vez que o arquivo israelense Yad Vashem foi fundado em data comparativamente recente e não é de forma alguma superior a outros arquivos. O que logo se comprovou é que Israel era o único país do mundo em que testemunhas da defesa não podiam ser ouvidas, e onde certas testemunhas de acusação, aquelas que já haviam dado declarações em julgamento anteriores, não podiam ser interrogadas pela defesa. E isso era mais sério ainda porque o acusado e seu advogado não estavam, de fato, “em posição de obter seus próprios documentos de defesa”. (O dr. Servatius havia apresentado 110 documentos contra quinhentos apresentados pela acusação, mas dos primeiros apenas cerca de uma dúzia eram originais da defesa, e consistiam em sua maior parte de excertos dos livros de Poliakov e Reitlinger; todo o resto, com exceção das dezessete tabelas traçadas por Eichmann, havia sido escolhido do abundante material reunido pela acusação e pela polícia de Israel. Evidentemente, a defesa recebeu as migalhas da mesa do rico.) Na verdade, não tinha nem “os meios nem o tempo” de conduzir adequadamente a questão, não tinha a sua disposição “os arquivos do mundo e os instrumentos do governo”. A mesma censura havia sido feita contra os julgamentos de Nuremberg, onde a desigualdade de status entre acusação e defesa era ainda mais gritante. A principal limitação da defesa em Nuremberg, assim como em Jerusalém, era que lhe faltava o pessoal de assistentes de pesquisa necessários para examinar a massa de documentos e encontrar qualquer coisa que pudesse ser útil para o caso. Ainda hoje, dezoito anos depois da guerra, nosso conhecimento do imenso material de arquivo do regime nazista limita-se em grande parte à seleção feita com propósito de acusação.
Ninguém podia estar mais consciente dessa decisiva desvantagem para a defesa do que o dr. Servatius, que fora um dos advogados de defesa em Nuremberg. O que, evidentemente, tornava ainda mais intrigante a oferta voluntária de seus serviços. Ele respondia que para ele isso era “uma mera questão de negócios” e que ele queria “ganhar dinheiro”, mas ele devia saber, desde sua experiência em Nuremberg, que a soma a ser paga pelo governo israelense — 20 mil dólares, como ele mesmo estipulou — era ridiculamente inadequada, mesmo com a família de Eichmann em Linz pagando a ele mais 15 mil marcos. Ele começou reclamando do pagamento baixo quase desde o primeiro dia do julgamento, e logo depois expressou abertamente a esperança de poder vender qualquer “memória” que Eichmann pudesse ter escrito na prisão “para as futuras gerações”. Deixando de lado a questão de ser ou não adequado esse arranjo de negócios, suas esperanças foram frustradas quando o governo de Israel confiscou todos os papéis escritos por Eichmann na cadeia. (Eles agora foram depositados no Arquivo Nacional.) Eichmann havia escrito um “livro” no intervalo entre o recesso da corte em agosto e o pronunciamento da sentença em dezembro, e a defesa ofereceu o trabalho como “nova prova factual” na revisão do processo diante da Corte de Apelação — coisa que o livro recém-escrito evidentemente não era.
Quanto à posição do acusado, a corte podia confiar no depoimento detalhado que ele prestou à polícia israelense, suplementado por muitas notas manuscritas que ele entregou durante os onze meses necessários para os preparativos do julgamento. Nunca se levantou nenhuma dúvida de que essas declarações fossem voluntárias; a maioria delas não havia sequer brotado de perguntas. Eichmann confrontou-se com seiscentos documentos, alguns dos quais devia ter visto antes, porque haviam sido mostrados a ele na Argentina durante sua entrevista com Sassen, que o sr. Hausner, com certa razão, chamou de “ensaio geral”. Mas ele só começou a trabalhar seriamente nas memórias em Jerusalém, e quando foi chamado ao banco das testemunhas, ficou logo evidente que não perdera tempo: ele agora sabia ler documentos, algo que não soubera fazer durante o exame da polícia, e o fazia melhor do que seu advogado. O testemunho de Eichmann à corte veio a ser a prova mais importante do caso. Seus advogados o puseram no banco em 20 de junho, durante a septuagésima quinta sessão, e o interrogaram quase ininterruptamente durante catorze sessões, até 7 de julho. Nesse mesmo dia, durante a octogésima oitava sessão, começou o interrogatório da acusação, que durou mais dezessete sessões, até o dia 20 de julho. Houve poucos incidentes: Eichmann uma vez ameaçou “confessar tudo” no estilo dos processos de Moscou, e ele uma vez reclamou que tinha sido “frito até o bife queimar”, mas era usualmente bastante calmo e não falou a sério quando ameaçou se recusar a responder a qualquer outra pergunta. Ele contou ao juiz Halevi como estava “contente com essa oportunidade de separar a verdade das inverdades que haviam sido despejadas em cima dele durante quinze anos” e como estava orgulhoso de ser submetido a um interrogatório mais longo que qualquer outro conhecido antes. Depois de um breve interrogatório por seu advogado, que levou menos de uma sessão, ele foi examinado pelos três juízes, e eles conseguiram arrancar mais dele em duas e meia breves sessões do que a acusação conseguira com dezessete.
Eichmann ocupou o banco de 20 de junho a 24 de julho, um total de 33 sessões e meia. Quase o dobro desse número de sessões, 62 de um total de 121, foram gastas com cem testemunhas de acusação que, país após país, contaram suas histórias de horror. Esses testemunhos duraram de 24 de abril a 12 de junho, sendo todo o tempo intermediário usado para a apresentação de documentos, a maioria dos quais o procurador-geral lia para registro dos procedimentos da corte, e eram apresentados à imprensa todos os dias. Apenas um punhado das testemunhas era de cidadãos de Israel, selecionados entre centenas e centenas de voluntários. (Noventa eram sobreviventes no sentido estrito da palavra, que haviam superado a guerra em uma ou outra modalidade de cativeiro nazista.) Como teria sido mais inteligente resistir inteiramente às pressões (isso foi feito até certo ponto, pois não foi chamada para depor nenhuma das testemunhas em potencial mencionadas no livro Minister of Death, escrito por Quentin Reynolds com base no material fornecido por dois jornalistas israelenses e publicado em 1960) e procurar aquelas que não se apresentaram voluntariamente! Como para comprovar esse ponto, a acusação chamou um escritor, bem conhecido de ambos os lados do Atlântico, sob o nome de K-Zetnik — palavra de gíria que quer dizer interno de campo de concentração —, como autor de diversos livros sobre Auschwitz que tratavam de bordéis, homossexuais e outras “histórias de interesse humano.” Ele começou, como fazia em muitas de suas aparições públicas, com uma explicação do nome que adotou. Não era um pseudônimo artístico, disse ele. “Carregarei este nome enquanto o mundo não despertar depois da crucifixão de um povo [...] da mesma forma que a humanidade se levantou depois da crucifixão de um homem.” Ele prosseguiu com uma breve incursão pela astrologia: a estrela que “influencia nosso destino da mesma forma que a estrela de cinzas de Auschwitz continua lá, encarando nosso planeta, irradiando para o nosso planeta”. E quando ele chegou ao “poder antinatural sobre a Natureza que o havia mantido até então, e fez uma primeira pausa para respirar, até o sr. Hausner sentiu que era preciso tomar alguma atitude quanto a esse “testemunho” e, muito tímido, muito polido, interrompeu: “Será que eu poderia fazer algumas perguntas, se o senhor concordar?”. Diante do que o juiz presidente resolveu aproveitar a oportunidade: “Sr. Dinoor, por favor, por favor, escute o que o sr. Hausner e eu vamos dizer”. Em resposta, a decepcionada testemunha, talvez profundamente magoada, desmaiou e não respondeu a mais nenhuma pergunta.
Se essa foi uma exceção à regra da normalidade, não mostrou ser exceção quanto à simplicidade ou à capacidade de contar uma história, muito menos a rara capacidade de distinguir entre coisas que aconteceram com o narrador mais de dezesseis, algumas vezes vinte, anos antes, e tudo o que havia lido e ouvido e imaginado entrementes. Essas dificuldades não puderam ser evitadas, mas sem dúvida não foram minoradas com a predileção da acusação por testemunhas de alguma projeção, muitas das quais haviam publicado livros sobre sua experiência, e que agora contavam o que tinham escrito antes, ou o que haviam contado e recontado muitas vezes. A procissão começou, numa inútil tentativa de proceder em ordem cronológica, com oito testemunhas da Alemanha, todas elas sóbrias, mas que não eram “sobreviventes”; haviam sido funcionários judeus de alto escalão na Alemanha e eram agora importantes na vida pública de Israel, tendo abandonado a Alemanha antes da eclosão da guerra. Em seguida, vieram cinco testemunhas de Praga e depois apenas uma testemunha da Áustria, país sobre o qual a acusação apresentou valiosos depoimentos do falecido dr. Löwenherz, escrito durante e logo depois da guerra. Compareceram com uma testemunha cada um a França, Holanda, Dinamarca, Noruega, Luxemburgo, Itália, Grécia e Rússia Soviética; da Iugoslávia vieram duas; três da Romênia e três da Eslováquia; e treze da Hungria. Mas o grosso das testemunhas, 53, veio da Polônia e da Lituânia, onde a competência e autoridade de Eichmann eram quase nulas. (A Bélgica e a Bulgária foram os únicos países não cobertos por testemunhas.) Essas foram as “testemunhas de fundo”, assim como os dezesseis homens e mulheres que contaram à corte sobre Auschwitz (dez) e Treblinka (quatro), sobre Chelmno e Majdanek. Foi diferente com os que testemunharam sobre Theresienstadt, o velhíssimo gueto em território do Reich, único campo em que o poder de Eichmann foi realmente considerável; havia quatro testemunhas para Theresienstadt e uma para o campo de troca de Bergen-Belsen.
No final dessa procissão, “o direito das testemunhas à irrelevância”, como colocou o Yad Vashem ao resumir o testemunho em seu Boletim, estava tão firmemente estabelecido que foi uma mera formalidade que o sr. Hausner, durante a septuagésima terceira sessão, pedisse a permissão da corte para “completar seu quadro”, e que o juiz Landau, que umas cinqüenta sessões antes havia protestado tão insistentemente contra essa “pintura de quadros”, concordasse imediatamente com o comparecimento de um antigo membro da Brigada Judaica, a força de combate dos judeus da Palestina que havia sido anexada ao Oitavo Exército britânico durante a guerra. Essa última testemunha de acusação, sr. Aharon Hoter-Yishai, agora um advogado israelense, havia recebido a tarefa de coordenar todos os esforços de busca de sobreviventes judeus na Europa, sob os auspícios da Aliyah Beth, organização responsável pelos arranjos de imigração ilegal para a Palestina. Os judeus sobreviventes estavam dispersos entre cerca de 8 milhões de pessoas deslocadas por toda a Europa, uma massa humana flutuante que os Aliados queriam repatriar o mais rápido possível. O perigo era que esses judeus também fossem devolvidos a seus lares anteriores. O sr. Hoter-Yishai contou como ele e seus camaradas foram recebidos quando se apresentaram como membros da “nação combatente judaica” e como “bastava desenhar com tinta uma Estrela de Davi num pedaço de papel e espetá-la num pau de vassoura” para sacudir dessas pessoas a perigosa apatia da inanição iminente. Ele contou também como alguns deles “caminharam de volta para casa dos campos de prisioneiros”, para se verem em outro campo, pois seu “lar” era, por exemplo, uma pequena cidade polonesa onde, dos 6 mil habitantes judeus anteriores, haviam sobrevivido quinze, e onde quatro desses sobreviventes foram mortos pelos poloneses ao regressar. Ele descreveu como ele e os outros tentaram retardar as tentativas de repatriação dos Aliados e como muitas vezes chegaram tarde demais: “Em Theresienstadt havia 32 mil sobreviventes. Depois de algumas semanas, encontramos apenas 4 mil. Cerca de 28 mil tinham voltado ou sido devolvidos. Desses 4 mil que encontramos lá — bem, evidentemente nenhum deles voltou a seu lugar de origem, porque nesse ínterim foi lhes apontada a estrada” — isto é, a estrada para o que era então a Palestina e logo se transformaria em Israel. Esse testemunho cheirava mais a propaganda do que qualquer coisa ouvida antes, e a apresentação dos fatos era efetivamente equívoca. Em novembro de 1944, depois que o último carregamento deixou Theresienstadt com destino a Auschwitz, só sobravam cerca de 10 mil dos internos originais. Em fevereiro de 1945, chegaram mais 6 ou 8 mil pessoas, os cônjuges judeus de casamentos mistos, que os nazistas despacharam para Theresienstadt num momento em que todo o sistema de transporte alemão já estava em colapso. Todos os outros — em torno de 15 mil — foram despejados em vagões de carga abertos ou enviados a pé em abril de 1945, depois que o campo foi tomado pela Cruz Vermelha. Havia sobreviventes em Auschwitz, membros dos grupos de trabalho originários principalmente da Polônia e da Hungria. Quando os russos libertaram o campo, em 9 de maio de 1945, muitos judeus tchecos que haviam estado em Theresienstadt desde o início deixaram o campo imediatamente e partiram para casa; estavam em seu próprio país. Quando foi suspensa a quarentena determinada pelos russos em razão das epidemias, a maioria partiu por iniciativa própria. De forma que os remanescentes encontrados pelos emissários palestinos consistiam provavelmente de pessoas que não podiam voltar por diversas razões — os doentes, os idosos, indivíduos que haviam sobrado de famílias e que não sabiam para onde voltar. E no entanto o sr. Hoter-Yishai contou a verdade pura e simples: os que sobreviveram aos guetos e campos, que saíram vivos do pesadelo do desamparo e abandono absolutos — como se o mundo inteiro fosse uma selva e eles a presa —, tinham apenas um desejo, ir para onde nunca mais vissem um não-judeu. Precisavam dos emissários do povo judeu na Palestina a fim de saber que podiam vir, legal ou ilegalmente, a torto e a direito, e que seriam bem-vindos; não precisavam deles para se convencer.
Assim, muito ocasionalmente, era possível ficar contente de o juiz Landau ter perdido sua batalha, e o primeiro desses momentos aconteceu antes mesmo de a batalha começar. Pois a primeira testemunha de fundo do sr. Hausner não parecia ter se oferecido. Era um velho, usando na cabeça o tradicional solidéu judeu, pequeno, muito frágil, com cabelos brancos ralos e barba comprida, de porte muito ereto; seu nome, em certo sentido, era “famoso”, e dava para entender por que a acusação queria começar o quadro com ele. Era Zindel Grynszpan, pai de Herschel Grynszpan, que em 7 de novembro de 1938, com a idade de dezessete anos, tinha ido até a embaixada alemã em Paris e assassinado com um tiro o terceiro secretário, o jovem Legationsrat Ernst vom Rath. O assassinato detonou os pogroms na Alemanha e na Áustria, a chamada Kristallnacht de 9 de novembro, que foi efetivamente o prelúdio da Solução Final, mas Eichmann não teve nada a ver com a preparação disso. Os motivos do ato de Grynszpan nunca foram esclarecidos, e seu irmão, que a acusação também mandou pai a o banco das testemunhas, foi especialmente relutante em falar sobre o assunto. A corte concluiu que foi um ato de vingança pela expulsão do território alemão de cerca de 17 mil judeus poloneses, entre eles a família Grynszpan, nos últimos dias de outubro de 1938, mas todo mundo sabe que essa explicação é improvável. Herschel Grynszpan era um psicopata incapaz de terminar a escola, que durante anos vadiou em Paris e Bruxelas, sendo expulso de ambos os lugares. Seu advogado na corte francesa que o processou apresentou uma confusa história de relações homossexuais, e os alemães, que depois conseguiram sua extradição, nunca o levaram a julgamento. (Havia boatos de que ele sobrevivera à guerra — como para confirmar o “paradoxo de Auschwitz”, onde os judeus que haviam cometido crimes eram poupados.) Vom Rath era uma vítima especialmente inadequada, deixado na sombra pela Gestapo devido a suas posições abertamente antinazistas e sua simpatia pelos judeus; a história de sua homossexualidade foi provavelmente fabricada pela Gestapo. Grynszpan pode ter agido como um instrumento insensato para os agentes da Gestapo em Paris, que podem ter pretendido matar dois coelhos com uma cajadada só — criando um pretexto para os pogroms da Alemanha e livrando-se de um oponente do regime nazista — sem perceber que não se podia ter ambas as coisas, ou seja, era passível caluniar vom Rath como homossexual por ter tido relações com garotos judeus e ao mesmo tempo fazer dele um mártir e vítima do “judaísmo mundial”.
Seja como for, o fato é que o governo polonês decretou no outono de 1938 que todos os judeus poloneses residentes na Alemanha perderiam a nacionalidade em 29 de outubro; provavelmente o governo polonês já estava de posse da informação de que o governo alemão pretendia expulsar todos esses judeus para a Polônia e queria impedir isso. É mais do que duvidoso que gente como o sr. Zindel Grynszpan tenha sabido que o decreto existia. Ele havia chegado à Alemanha em 1911, um jovem de 25 anos, e abrira uma quitanda em Hannover, onde teve oito filhos. Em 1938, quando a catástrofe o derrubou, ele já vivia na Alemanha havia 27 anos e, como tanta gente assim, jamais tinha se dado ao trabalho de mudar seus documentos ou pedir naturalização. Agora ele vinha contar sua história, respondendo cuidadosamente às perguntas feitas pelo promotor; falava com clareza, firme, sem bordados, usando um mínimo de palavras.
“No dia 27 de outubro de 1938, uma quinta-feira, à noite, às oito horas, o policial veio e mandou que fôssemos para a Região (delegacia) Onze. Ele disse assim: ‘Vocês vão voltar imediatamente; não levem nada com vocês, apenas os passaportes’ Grynszpan foi com sua família, um filho, uma filha e a mulher. Quando chegaram à delegacia, viram “um grande número de pessoas, alguns sentados, alguns em pé, gente chorando. Eles [os policiais] gritavam, ‘Assine, assine, assine’ [...] Tive de assinar, todos tiveram. Um de nós não assinou, o nome dele, acho, era Gershon Silber, e ele teve de ficar de pé no canto durante 24 horas. Nos levaram para a sala de concertos e [...] tinha gente da cidade inteira, umas seiscentas pessoas. Lá ficamos até sexta-feira à noite, cerca de 24 horas, é, até sexta à noite [...] Eles então nos levaram em caminhões da polícia, em carros de prisioneiros, uns vinte homens por carro, até a estação de trens. As ruas estavam pretas de gente gritando: ‘Juden raus para a Palestina!’ [...] Eles nos levaram de trem para Neubenschen, na fronteira alemã-polonesa. Era a manhã do Shabat quando chegamos lá, às seis horas da manhã. Vinham trens de todos os lugares, de Leipzig, de Colônia, Dusseldorf, Essen, Biederfeld, Bremen. Éramos umas 12 mil pessoas [...] Era Shabat, 29 de outubro [...] Quando chegamos na fronteira fomos revistados para ver se alguém tinha dinheiro, e quem tivesse mais de dez marcos tinha o excedente confiscado. Essa era a lei alemã, não se podia sair da Alemanha com mais de dez marcos. Os alemães disseram: ‘Não trouxe dinheiro nenhum quando veio, não pode levar nenhum’”. Tiveram de andar quase dois quilômetros até a fronteira polonesa, uma vez que os alemães tencionavam fazê-los entrar clandestinamente em território polonês. “Os homens da SS nos chicoteavam, os que demoravam eles batiam, e sangue correndo na estrada. Eles arrancaram de nós as nossas malas, nos trataram da maneira mais brutal, foi a primeira vez que vi a louca brutalidade dos alemães. Eles gritavam com a gente: ‘Corra! Corra!’. Bateram em mim e caí numa vala. Meu filho me ajudou, e disse: ‘Corra, pai, corra, senão vai morrer! ’. Quando chegamos na fronteira aberta [...] as mulheres entraram primeiro. Os poloneses não sabiam de nada. Chamaram um general polonês e alguns oficiais para examinar nossos documentos, e viram que éramos cidadãos poloneses, que tínhamos passaportes especiais. Foi decidido que nos deixariam entrar. Eles nos levaram para uma aldeia de umas 6 mil pessoas, e éramos 12 mil. Chovia forte, as pessoas estavam desmaiando — de todo lado se viam velhos e mulheres. Era grande o nosso sofrimento. Não tinha comida, desde quinta-feira não se comia nada [...].” Foram levados para um campo militar e instalados em “estábulos, porque não havia outro lugar [...] Acho que foi no nosso segundo dia [na Polônia]. No primeiro dia, um caminhão de pão veio de Poznan, isso foi no domingo. E depois eu escrevi uma carta para a França [...] para meu filho: ‘Não escreva mais nenhuma carta para a Alemanha. Agora estamos em Zbaszyn’”.
Essa história não levou mais de dez minutos para ser contada, e quando terminou — a destruição sem sentido, sem necessidade, de 27 anos em menos de 24 horas — era de se pensar que todo mundo, todo mundo devia ter o seu dia na corte. Mas logo se descobriu, nas sessões intermináveis que se seguiram, como era difícil contar uma história, como — pelo menos fora do reino transformador da poesia — era necessário ter uma pureza de alma, uma irrefletida inocência de coração e mente que só os justos possuíam. Ninguém, nem antes, nem depois, igualou a brilhante honestidade de Zindel Grynszpan.
Ninguém podia alegar que o testemunho de Grynszpan criara algo remotamente parecido com um “momento dramático”. Mas esse momento chegou umas semanas depois, inesperadamente, justamente quando o juiz Landau estava fazendo um esforço quase desesperado para conduzir os procedimentos dentro dos padrões de uma corte de julgamento normal. No banco estava Abba Kovner, “poeta e autor”, que não prestou testemunho exatamente, mas sim se dirigiu à platéia com a facilidade de alguém acostumado a falar em público e que não gosta de interrupções. O juiz presidente pediu que fosse breve, o que ele evidentemente não gostou, e o sr. Hausner, ao defender sua testemunha, ouviu que não podia “reclamar da falta de paciência da corte”, coisa que ele também não gostou. Nesse momento ligeiramente tenso, a testemunha mencionou o nome de Anton Schmidt, um Feldwebel, sargento, do Exército alemão — nome que não era inteiramente desconhecido para aquela platéia, pois o Yad Vashem havia publicado a história de Schmidt alguns anos antes no Boletim hebraico, e diversos jornais iídiches norte-americanos a reproduziram. Anton Schmidt estava encarregado de uma patrulha na Polônia, recolhendo soldados alemães que haviam ficado isolados de suas unidades. No curso de sua missão, ele cruzou com membros da clandestinidade judaica, inclusive o sr. Kovner, um membro importante, e ajudou os guerrilheiros judeus fornecendo-lhes documentos falsificados e caminhões militares. O mais importante de tudo: “Ele não fez isso por dinheiro”. Isso continuou acontecendo durante cinco meses, de outubro de 1941 a março de 1942, quando Anton Schmidt foi preso e executado. (A acusação tinha descartado a história porque Kovner declarou que tinha ouvido o nome de Eichmann pela primeira vez da boca de Schmidt, que lhe contou os boatos que circulavam no Exército, segundo os quais Eichmann é que “arranjava tudo”.)
Essa não era absolutamente a primeira vez que se mencionava ajuda do mundo exterior, não judeu. O juiz Halevi perguntava às testemunhas: “Os judeus receberam alguma ajuda?” com a mesma regularidade com que a acusação perguntava: “Por que não se rebelou?”. As respostas tinham sido variadas e inconclusivas — “Toda a população estava contra nós”, “dava para contar nos dedos de uma mão” os judeus escondidos por famílias cristãs, talvez cinco ou seis de um total de 13 mil — mas no geral a situação, surpreendentemente, fora melhor na Polônia do que em qualquer país da Europa Oriental. (Não havia, como eu já disse, nenhuma testemunha da Bulgária.) Um judeu, agora casado com uma mulher polonesa e morando em Israel, contou como sua mulher o tinha escondido junto com outros doze judeus durante toda a guerra; outro tinha um amigo cristão antes da guerra para cuja casa ele correu ao escapar de um campo e que o ajudou até ser mais tarde executado pela ajuda que prestou aos judeus. Uma testemunha disse que a resistência polonesa tinha fornecido armas a muitos judeus e salvado milhares de crianças abrigando-as com famílias polonesas. Os riscos eram proibitivos; havia a história de uma família polonesa inteira que foi executada da maneira mais brutal por ter adotado uma menina judia de seis anos. Mas essa história sobre Schmidt era a primeira e a última sobre um alemão, pois o único outro incidente envolvendo um alemão só foi mencionado em um documento: um oficial do Exército havia ajudado indiretamente sabotando certas ordens da polícia; nada aconteceu com ele, mas a questão foi considerada suficientemente séria para ser mencionada na correspondência entre Himmler e Bormann.
Durante os poucos minutos que Kovner levou para contar sobre a ajuda recebida de um sargento alemão, baixou um silêncio sobre o tribunal; era como se a multidão tivesse espontaneamente decidido observar os costumeiros dois minutos de silêncio em honra de um homem chamado Anton Schmidt. E nesses dois minutos, que eram como uma explosão de luz em meio à impenetrável, insondável escuridão, um único pensamento se recortava claro, irrefutável, além de qualquer questão — como tudo seria tão absolutamente diferente nesse tribunal, em Israel, na Alemanha, em toda a Europa, e talvez em todos os países do mundo, se mais dessas histórias pudessem ser contadas.
Evidentemente havia explicações para essa devastadora carência, e elas foram repetidas muitas vezes. Darei aqui a essência delas nas palavras de uma das poucas memórias de guerra subjetivamente sinceras publicadas na Alemanha. Peter Bamm, um médico alemão do Exército que serviu no front russo, narra em Die Unsichtbare Flagge (1952) o assassinato de judeus em Sebastopol. Eles eram capturados pelos “outros”, como ele chama as unidades móveis de assassinato da SS, para distingui-las dos soldados comuns, cuja decência é louvada no livro, e eram colocados na parte fechada de uma prisão que havia sido da GPU, contígua às acomodações dos oficiais, onde a unidade de Bamm estava aquartelada. Eles eram então forçados a embarcar num caminhão de gás, dentro do qual morriam em poucos minutos, depois do que o motorista transportava os corpos para fora da cidade e os descarregava em fossas. “Sabíamos disso. Não fizemos nada. Qualquer um que protestasse seriamente ou fizesse alguma coisa contra a unidade de assassinato teria sido preso em 24 horas e desaparecido. Faz parte dos refinamentos dos governos totalitários de nosso século que eles não permitam que seus oponentes morram a morte grandiosa, dramática dos mártires. O Estado totalitário deixa seus oponentes desaparecerem em silencioso anonimato. É certo que qualquer um que tivesse ousado morrer para não tolerar silenciosamente o crime teria sacrificado sua vida em vão. Isso não quer dizer que tal sacrifício teria sido moralmente sem sentido. Teria apenas sido praticamente inútil. Nenhum de nós tinha convicções tão profundas a ponto de tomar para si um sacrifício praticamente inútil em prol de um sentido moral superior.” Nem é preciso dizer que o autor não se dá conta do vazio de sua enfática “decência” na ausência do que chama de “sentido moral superior”.
Mas o vazio da respeitabilidade — pois a decência nessas circunstâncias não é mais do que respeitabilidade — não era o que vinha à tona no exemplo do sargento Anton Schmidt. Era mais a falha trágica do argumento em si, que de início soava tão desesperadamente plausível. É verdade que a dominação totalitária tentou estabelecer esses buracos de esquecimento nos quais todos os feitos, bons e maus, desapareceriam, mas assim como estavam fadadas ao fracasso todas as tentativas nazistas, feitas de junho de 1942 em diante, de eliminar os vestígios dos massacres — por meio da cremação, da queima em poços abertos, do uso de explosivos e lança-chamas e máquinas trituradoras de ossos — assim também todos os esforços de fazer seus oponentes “desaparecerem em silencioso anonimato” foram em vão. Os buracos de esquecimento não existem. Nada humano é tão perfeito, e simplesmente existem no mundo pessoas demais para que seja possível o esquecimento. Sempre sobra um homem para contar a história. Portanto, nada pode ser “praticamente inútil”, pelo menos a longo prazo. Seria de grande utilidade prática para a Alemanha de hoje, não meramente para o seu prestígio no estrangeiro, mas para a sua condição interna tristemente confusa, se houvesse mais dessas histórias para contar. Pois a lição dessas histórias é simples e está ao alcance de todo mundo. Politicamente falando, a lição é que em condições de terror, a maioria das pessoas se conformará, mas algumas pessoas não, da mesma forma que a lição dos países aos quais a Solução Final foi proposta é que ela “poderia acontecer” na maioria dos lugares, mas não aconteceu em todos os lugares. Humanamente falando, não é preciso nada mais, e nada mais pode ser pedido dentro dos limites do razoável, para que este planeta continue sendo um lugar próprio para a vida humana.