Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal
IV. A primeira solução: expulsão
IV
A PRIMEIRA SOLUÇÃO: EXPULSÃO
Se este fosse um julgamento comum, com o confronto de forças usual entre a acusação e a defesa para levantar os fatos e fazer justiça a ambos os lados, seria possível acionar agora a versão da defesa e descobrir se havia algo de consistente no grotesco relato de Eichmann sobre suas atividades em Viena, e se suas distorções da realidade não poderiam na verdade ser atribuídas a outra coisa que não a hipocrisia de um indivíduo. Eichmann ia ser enforcado por atos que já estavam estabelecidos “além de toda dúvida” muito antes de o julgamento começar, e esses fatos eram conhecidos por todos os estudiosos do regime nazista. Os fatos que a acusação tentou estabelecer foram, é verdade, parcialmente aceitos no julgamento, mas jamais pareceriam estar “além de toda dúvida” se a defesa tivesse trazido suas próprias provas para figurar no processo. Por isso, nenhum relato sobre o caso Eichmann, e não apenas sobre o julgamento de Eichmann, poderia estar completo sem que se prestasse alguma atenção a certos fatos que são bem conhecidos, mas que o dr. Servatius escolheu ignorar.
Isso é particularmente verdadeiro a propósito do turvo perfil geral e da ideologia de Eichmann diante da “questão judaica”. Durante o interrogatório, ele contou ao juiz presidente que em Viena “considerava os judeus como oponentes para os quais era preciso encontrar uma solução mutuamente justa, mutuamente aceitável [...] Essa solução, eu imaginei, seria colocar solo firme debaixo de seus pés, de forma que tivessem um lugar próprio, um solo próprio. E estava trabalhando alegremente em direção a essa solução. Eu cooperei para se chegar a essa solução, com muita alegria, porque era também o tipo de solução que era aprovada pelos movimentos do próprio povo judeu, e eu considerava isso a solução mais adequada para o assunto”. Essa era a verdadeira razão para eles se “esforçarem juntos”, a razão de seu trabalho ter sido “baseado na reciprocidade”. Era interesse dos judeus abandonar o país, embora, talvez, nem todos os judeus entendessem isso; “alguém tinha de ajudá-los, alguém tinha de ajudar esses funcionários a agir, e foi isso que eu fiz”. Se os funcionários judeus eram “idealistas”, isto é, sionistas, ele os respeitava, “tratava-os como iguais”, ouvia todas as suas “queixas e solicitações e pedidos de apoio”, e cumpria as “promessas” na medida do possível — “As pessoas tendem a esquecer isso agora”. Quem, senão ele, Eichmann, havia salvado centenas de milhares de judeus? O que, se não seu grande zelo e dom de organização, tinha lhes permitido escapar a tempo? É verdade que ele não pudera prever, na época, a iminente Solução Final, mas ele os salvara, e isso era um “fato”. (Em uma entrevista dada neste país durante o julgamento, o filho de Eichmann contou a mesma história a repórteres norte-americanos. Devia se tratar de uma lenda familiar.)
Em certo sentido, pode-se entender por que o advogado de defesa nada fez para apoiar a versão contada por Eichmann de suas relações com os sionistas. Eichmann admitiu, como já havia admitido na entrevista a Sassen, que ele “não recebeu seu encargo com a apatia de um boi sendo levado para o curral”, que ele era muito diferente daqueles colegas “que nunca tinham lido um livro básico [o Judenstaat de Herzl], meditado sobre ele e absorvido seu texto, absorvido com interesse”, e que portanto não tinham “relação interna com seu trabalho”. Eles “não passavam de burros de carga”, para quem tudo era decidido “por parágrafos, por ordens, que não se interessavam por mais nada”, que eram, em resumo, exatamente os “pequenos dentes da engrenagem” que, segundo a defesa, o próprio Eichmann havia sido. Se isso significava nada mais que prestar obediência cega às ordens do Führer, todos eles haviam sido pequenos dentes da engrenagem — até mesmo Himmler, que, conforme revela seu massagista, Felix Kernsten, não recebeu a Solução Final com grande entusiasmo, e Eichmann garantiu ao interrogador policial que seu próprio chefe, Heinrich Müller, jamais teria proposto nada tão “bruto” quanto o “extermínio físico”. Evidentemente, aos olhos de Eichmann, a teoria dos pequenos dentes não vinha ao caso. Ele certamente não fora tão importante quanto o sr. Hausner pretendia fazê-lo; afinal de contas, ele não era Hitler, nem tampouco podia comparar sua própria importância, no que dizia respeito à “solução” da questão judaica, a Müller, ou Heydrich, ou Himmler; ele não era nenhum megalomaníaco. Mas tampouco era tão pequeno quanto a defesa queria fazer que fosse.
As distorções da realidade que Eichmann fazia eram horríveis por causa do horror com que elas lidavam, mas em princípio não eram muito diferentes das coisas usuais na Alemanha pós-Hitler. Há o caso, por exemplo, de Franz-Josef Strauss, ex-ministro da Defesa, que recentemente realizou uma campanha eleitoral contra Willy Brandt, hoje prefeito de Berlim Ocidental, que esteve refugiado na Noruega durante o período hitlerista. Strauss fez ao sr. Brandt uma pergunta amplamente difundida e aparentemente muito bem-sucedida: “O que o senhor fez durante esses doze anos fora da Alemanha? Nós sabemos o que estávamos fazendo aqui na Alemanha”. E a pergunta foi feita com total imunidade, sem que ninguém piscasse um olho, e muito menos lembrasse ao membro do governo de Bonn que aquilo que os alemães estavam fazendo na Alemanha durante aqueles anos havia ficado realmente notório. A mesma “inocência” pode ser encontrada numa recente observação casual feita por um respeitado e respeitável crítico literário, que provavelmente nunca foi membro do Partido; ao resenhar um estudo da literatura do Terceiro Reich, ele disse que seu autor pertencia “àqueles intelectuais que diante da explosão da barbárie nos desertaram sem exceção”. Esse autor era, evidentemente, judeu, expulso pelos nazistas e abandonado por gentios como o sr. Heinz Beckamnn do Rheinischer Merkur. Incidentalmente, a própria palavra “barbárie”, hoje aplicada com freqüência pelos alemães ao período hitlerista, é uma distorção da realidade; é como se os intelectuais judeus e não judeus tivessem fugido de um país que não era mais suficientemente “refinado” para eles.
Eichmann, embora muito menos refinado do que estadistas e críticos literários, podia, por outro lado, ter citado certos fatos indiscutíveis para corroborar sua história, se sua memória não fosse tão ruim, ou se a defesa o ajudasse. Pois é “indiscutível que durante os primeiros estágios de sua política judaica, os nacional-socialistas acharam adequado adotar uma atitude pró-sionista” (Hans Lamm), e foi durante esses primeiros estágios que Eichmann aprendeu suas lições sobre os judeus. Ele não estava de forma alguma sozinho ao levar a sério esse “pró-sionismo”; os próprios judeus alemães acharam que bastaria desfazer a “assimilação” por meio de um novo processo de “desassimilação”, e juntaram-se às fileiras do movimento sionista. (Não existem estatísticas confiáveis sobre esse desenvolvimento, mas estima-se que, durante os primeiros meses do regime de Hitler, a circulação do semanário sionista Die Jüdische Rundschau aumentou de entre 5 e 7 mil para aproximadamente 40 mil, e sabe-se que as organizações sionistas de levantamento de fundos receberam em 1935-36, de uma população muito diminuída e empobrecida, três vezes mais do que em 1931-32.) Isso não significa necessariamente que os judeus queriam emigrar para a Palestina; era mais uma questão de orgulho: “Use-a com Orgulho, a Estrela Amarela!”, o slogan mais popular desses anos, cunhado por Robert Weltsch, editor-chefe da Jüdische Rundschau, expressava o teor da atmosfera emocional. O ponto polêmico desse slogan, formulado como resposta ao Dia do Boicote, 1o de abril de 1933 — mais de seis anos antes de os nazistas realmente obrigarem os judeus a usar o emblema, a estrela de seis pontas amarela sobre fundo branco —, é que ele se dirigia contra os “assimilacionistas” e todas aquelas pessoas que se recusavam ajuntar-se ao novo “desenvolvimento revolucionário”, aqueles que “estavam sempre atrás de seu tempo” (die ewig Gestrigen). O slogan foi relembrado por testemunhas alemãs no julgamento, com uma boa dose de emoção. O que elas deixaram de dizer é que o próprio Robert Weltsch, um jornalista muito importante, havia declarado em anos recentes que jamais teria divulgado seu slogan se pudesse prever os desenvolvimentos futuros.
Mas muito longe de todos os slogans e disputas ideológicas, naqueles dias era um fato cotidiano que apenas os sionistas tivessem alguma oportunidade de negociar com as autoridades alemãs — pela simples razão de que seu principal adversário judeu, a Associação Central de Cidadãos Alemães de Fé Judaica, à qual pertenciam 95% dos judeus organizados da Alemanha da época, especificava em suas normas que sua principal tarefa era “lutar contra o anti-semitismo”; repentinamente ela se tornara uma instituição “hostil ao estado”, e seria efetivamente perseguida — coisa que não foi — se tivesse tido a coragem de fazer o que devia fazer. Durante seus primeiros anos, a ascensão de Hitler ao poder pareceu aos sionistas sobretudo uma “decisiva derrota do assimilacionismo”. Por isso os sionistas puderam, ao menos durante algum tempo, se permitir certa medida de cooperação não criminosa com as autoridades nazistas; os sionistas também acreditavam que a “desassimilação”, combinada à emigração de jovens judeus e, esperavam eles, de capitalistas judeus para a Palestina, poderia ser uma “solução mutuamente justa”. Na época, muitos funcionários alemães tinham essa opinião, e esse tipo de conversa parece ter sido bastante comum até o fim. Um judeu alemão sobrevivente de Theresienstadt relata em uma carta que todas as principais posições do Reichsvereinigung apontadas pelos nazistas eram ocupadas por sionistas (enquanto o Reichsvertretung autenticamente judeu era composto tanto de sionistas como de não-sionistas), porque os sionistas, segundo os nazistas, “eram os judeus ‘decentes’, porque eles também pensavam em termos ‘nacionais’”. Sem dúvida, nenhum nazista de importância jamais falava em público nesse tom; do começo ao fim, a propaganda nazista foi feroz, inequívoca, inflexivelmente anti-semita, e no fim nada contava a não ser aquilo que as pessoas sem experiência nos mistérios do totalitarismo descartavam como “mera propaganda”. Nesses primeiros anos, havia um acordo mútuo altamente satisfatório entre as autoridades nazistas e a Agência Judaica para a Palestina — um Ha’avarah, ou Acordo de Transferência, que permitia que um emigrante para a Palestina pudesse transferir seu dinheiro para lá em bens alemães e trocá-los por libras ao chegar. Isso logo se tornou a única forma legal de um judeu levar consigo seu dinheiro (a única alternativa era a abertura de uma conta bloqueada, que só podia ser liquidada no exterior com uma perda de 50% a 95%). O resultado foi que nos anos 30, enquanto o judaísmo norte-americano fazia um grande esforço para boicotar mercadorias alemãs, a Palestina vivia inundada de todo tipo de bens “made in Germany”.
Mais importantes para Eichmann eram os emissários da Palestina que procuravam a Gestapo e a SS por iniciativa própria, sem aceitar ordens nem dos sionistas alemães nem da Agência Judaica para a Palestina. Eles vinham a fim de convocar ajuda para a emigração ilegal de judeus para a Palestina governada pela Grã-Bretanha, e tanto a Gestapo como a SS ajudavam-nos. Eles negociaram com Eichmann em Viena e relataram que ele era “polido”, “não do tipo que grita” e que chegou a lhes oferecer fazendas e instalações para o estabelecimento de campos de treinamento vocacional para possíveis emigrantes. (“Em uma ocasião, ele expulsou um grupo de freiras de um convento para fornecer uma fazenda de treinamento para jovens judeus”, e em outra pôs à disposição “um trem especial, e oficiais nazistas acompanharam” um grupo de emigrantes que seguiam ostensivamente para fazendas de treinamento na Iugoslávia, para que atravessassem a fronteira em segurança.) De acordo com a história contada por John e David Kimche, com “a total e generosa cooperação de todos os atores principais” (The Secret Roads: The “Illegal” Migration of a People, 1938-1948, Londres, 1954), esses judeus da Palestina falavam uma língua não totalmente diferente da língua de Eichmann. Eles eram mandados para a Europa pelos assentamentos comunais da Palestina, e não estavam interessados em operações de salvamento: “Não era essa a sua função”. Eles queriam selecionar “material adequado”, e seu principal inimigo, antes do programa de extermínio, não eram aqueles que faziam da vida um inferno para os judeus nos velhos países, Alemanha ou Áustria, mas aqueles que barravam o acesso à nova pátria; esse inimigo era definitivamente a Grã-Bretanha, não a Alemanha. Na verdade, eles estavam em posição de negociar com as autoridades nazistas em bases que beiravam a igualdade, coisa que os judeus nativos não podiam fazer, uma vez que gozavam da proteção do poder mandatário; estavam provavelmente entre os primeiros judeus a falar abertamente sobre interesses mútuos e foram certamente os primeiros a receber permissão “para selecionar jovens pioneiros judeus” entre os judeus dos campos de concentração. É claro que não tinham consciência das sinistras implicações desse acordo, que ainda estavam no futuro; mas eles, de alguma forma, acreditavam que se era uma questão de selecionar judeus para a sobrevivência, os próprios judeus é que deviam fazer a seleção. Foi esse erro de julgamento fundamental que acabou levando a uma situação em que a maioria não selecionada de judeus se viu inevitavelmente confrontada com dois inimigos — as autoridades nazistas e as autoridades judaicas. No que se refere ao episódio vienense, a ridícula alegação de Eichmann afirmando ter salvo centenas de milhares de vidas de judeus, que foi caçoada na corte, encontra uma estranha sustentação no ponderado juízo dos historiadores judeus, os Kimche: “Assim começou o que deve ter sido um dos episódios mais paradoxais de todo o período do regime nazista: o homem que acabaria fazendo história como um dos arquiassassinos do povo judeu entrou para a história como ativo batalhador pelo resgate de judeus na Europa”.
O problema de Eichmann é que ele não lembrava de nenhum fato que pudesse sustentar, por mais tenuemente que fosse, a sua incrível história, e o douto advogado de defesa provavelmente nem sabia que havia alguma coisa a ser lembrada. (O dr. Servatius podia ter chamado como testemunhas de defesa os ex-agentes da Aliyah Beth, conforme era chamada a organização para a imigração ilegal na Palestina; eles certamente ainda se lembravam de Eichmann, e viviam agora em Israel.) A memória de Eichmann só funcionava a respeito de coisas que influenciaram diretamente a sua carreira. Ele se lembrava, por exemplo, da visita de um funcionário palestino em Berlim, que lhe contou como era a vida nos assentamentos coletivos, e que ele levou para jantar duas vezes, porque essa visita terminou com um convite formal para ir à Palestina, onde os judeus lhe mostrariam o país. Eichmann ficou deliciado; nenhum outro oficial nazista conseguira ir “a uma distante terra estrangeira”, e ele recebeu permissão para fazer a viagem. O julgamento concluiu que foi mandado “em missão de espionagem”, o que sem dúvida era verdade, mas isso não contradizia a história que Eichmann contou à polícia. (Não resultou praticamente nada da empreitada. Eichmann, junto com um jornalista de seu departamento, um certo Herbert Hagen, mal teve tempo de subir o monte Carmelo, em Haifa, antes que as autoridades britânicas deportassem ambos para o Egito, negando-lhes permissão para entrar na Palestina; segundo Eichmann, “o homem do Haganah” — a organização militar judaica que se transformou no núcleo do Exército israelense — foi vê-los no Cairo, e o que lhes disse lá veio a se transformar num “relatório inteiramente negativo” que, por ordem superior, Eichmann e Hagen escreveram com objetivos propagandísticos, e que foi devidamente publicado.)
À parte esses modestos triunfos, Eichmann só se lembrava de estados de espírito e de frases de efeito que inventara para acompanhá-los; a viagem ao Egito foi em 1937, antes de sua atividade em Viena, e de Viena ele recordava pouco mais do que a atmosfera geral e seu sentimento de “animação”. Em vista de seu assombroso virtuosismo em nunca eliminar da memória um estado de espírito ou uma frase “animadora” — virtuosismo que demonstrou insistentemente durante o interrogatório da polícia —, é tentador acreditar em sua sinceridade quando falava de sua estada em Viena como de um idílio. Dada a completa falta de coerência entre seus pensamentos e sentimentos, essa sinceridade não é alterada nem mesmo pelo fato de que aquele ano em Viena, da primavera de 1938 a março de 1939, coincidiu com uma época em que o regime nazista abandonara sua atitude pró-sionista. Fazia parte da natureza do movimento nazista estar sempre mudando, radicalizando-se a cada mês que passava, mas uma das características mais notáveis de seus membros era, psicologicamente, tender a estar sempre um passo atrás do movimento — eles tinham dificuldade em acompanhar essas mudanças ou, como Hitler costumava dizer, não eram capazes de “saltar a própria sombra”.
Mais perniciosa do que qualquer fato objetivo, porém, era a própria memória deficiente de Eichmann. Havia certos judeus em Viena de quem ele se recordava muito vivamente — o dr. Löwenherz e o Kommerzialrat Storfer —, mas não eram eles os emissários palestinos que poderiam corroborar sua história. Depois da guerra, Josef Löwenherz escreveu um relato muito interessante de suas negociações com Eichmann (um dos poucos documentos novos apresentados no julgamento, ele foi parcialmente mostrado a Eichmann, que concordou inteiramente com seu conteúdo principal). Ele foi o primeiro funcionário judeu a transformar toda uma comunidade judaica numa instituição a serviço das autoridades nazistas e foi um dos raríssimos funcionários a obter uma recompensa pelos serviços prestados — permitiram-lhe ficar em Viena até o final da guerra, quando então emigrou para a Inglaterra e depois para os Estados Unidos; morreu pouco depois da captura de Eichmann, em 1960. O destino de Storfer, como vimos, foi menos afortunado, mas não absolutamente por culpa de Eichmann. Storfer substituíra os emissários palestinos, que haviam se tornado muito independentes, e sua tarefa, atribuída a ele por Eichmann, era organizar o transporte ilegal de alguns judeus para a Palestina, sem a ajuda dos sionistas. Storfer não era sionista e não demonstrava nenhum interesse por assuntos judaicos antes da chegada dos nazistas na Áustria. Mesmo assim, com a ajuda de Eichmann ele conseguiu tirar da Europa em 1940 cerca de 35 mil judeus, quando metade do continente estava ocupada pelos nazistas, e parece que fez o que pôde para esclarecer as coisas com os palestinos. (Era provavelmente isso o que Eichmann queria dizer quando acrescentou a sua história sobre Storfer em Auschwitz a misteriosa observação: “Storfer nunca traiu o judaísmo, nem com uma única palavra, Storfer, não”.) Por fim, um terceiro judeu que Eichmann nunca deixava de relembrar em suas atividades pré-guerra era o dr. Paul Eppstein, encarregado da emigração em Berlim durante os últimos anos da Reichsvereinigung — uma organização judaica central designada pelos nazistas, que não deve ser confundida com a Reichsvertretung autêntica, dissolvida em julho de 1939. O dr. Eppstein foi nomeado por Eichmann para servir de Judenältester (ancião judeu) em Theresienstadt, onde foi fuzilado em 1944.
Em outras palavras, os únicos judeus de que Eichmann se lembrava eram aqueles que tinha completamente em seu poder. Ele esqueceu não apenas os emissários palestinos, mas também seus relacionamentos berlinenses anteriores, que conhecera quando ainda estava vinculado ao trabalho de Inteligência e não tinha poderes executivos. Ele nunca mencionou, por exemplo, o dr. Franz Meyer, antigo membro da Executiva da Organização Sionista na Alemanha, que veio ser testemunha de acusação quanto a seus contatos com o acusado de 1936 a 1939. Até certo ponto, o dr. Meyer confirmou a história de Eichmann: em Berlim, os funcionários judeus podiam “encaminhar reclamações e pedidos”, havia uma espécie de cooperação. Às vezes, Meyer disse, “íamos pedir alguma coisa, e havia momentos em que ele pedia coisas para a gente”; na época, Eichmann estava “nos escutando genuinamente e tentava sinceramente entender a situação”; seu comportamento era “bastante correto” — “ele costumava me chamar de ‘senhor’ e me convidava a sentar”. Mas em fevereiro de 1939, tudo isso havia mudado. Eichmann mandou chamar os líderes do judaísmo alemão a Viena para explicar seus novos métodos de “emigração forçada”. E lá estava ele, sentado numa grande sala do andar térreo do Palácio Rothschild, reconhecível, é claro, mas completamente mudado: “Imediatamente eu disse a meus amigos que não sabia se estava diante do mesmo homem. Era tão terrível a mudança [...] Ali estava um homem que se comportava como se fosse senhor da vida e da morte. Ele nos recebeu com insolência e grosseria. Não nos deixou chegar nem perto de sua mesa. Tivemos de ficar de pé”. A acusação e os juízes concordavam que Eichmann havia sofrido uma genuína e definitiva alteração de personalidade ao ser promovido para um posto com poderes executivos. Mas o julgamento mostrou que aqui, também, havia “recidivas”, e que a questão não era assim tão simples. Uma testemunha declarou que, em entrevista com ele em Theresienstadt, em março de 1945, Eichmann novamente mostrou-se muito interessado nos assuntos sionistas — a testemunha era membro de uma organização juvenil sionista e tinha uma autorização de entrada para a Palestina. A entrevista foi “realizada em linguagem muito agradável e a atitude era gentil e respeitosa”. (Estranhamente, o advogado de defesa jamais mencionou essa testemunha e suas declarações em seu discurso final.)
Pode haver dúvidas sobre a mudança de personalidade de Eichmann em Viena, mas não há dúvidas de que essa nomeação marcou o verdadeiro começo de sua carreira. Entre 1937 e 1941, ele recebeu quatro promoções; em catorze meses, passou de Untersturmführer para Hauptsturmführer (isto é, de segundo-tenente a capitão); e em um ano e meio mais passou a Obersturmbannführer, ou tenente-coronel. Isso aconteceu em outubro de 1941, logo depois de lhe ser atribuído o papel na Solução Final que acabaria por levá-lo à Corte Distrital de Jerusalém. E aí, para seu maior desespero, ele “encalhou”; a seu ver não havia nenhuma outra patente disponível na seção em que trabalhava. Mas isso ele não tinha como saber durante os quatro anos em que foi galgando postos mais depressa e mais alto do que jamais pensara. Em Viena havia mostrado seu valor, e agora era reconhecido não só como perito na “questão judaica”, o labirinto de organizações judaicas e partidos sionistas, mas também como “autoridade” em emigração e evacuação, como um “senhor” que sabia como fazer as pessoas se mexerem. Seu maior triunfo veio logo depois da Kristallnacht, em novembro de 1938, quando os judeus alemães estavam histéricos para escapar. Göring, provavelmente por iniciativa de Heydrich, decidiu estabelecer em Berlim um Centro para a Emigração Judaica, e na carta que contém suas diretivas, o escritório vienense de Eichmann era mencionado especificamente como modelo a ser usado no estabelecimento de uma autoridade central. O chefe da seção de Berlim não seria Eichmann, e sim o seu futuro chefe, e objeto de admiração, Heinrich Müller, outra descoberta de Heydrich. Heydrich tinha acabado de remover Müller de seu trabalho como oficial da polícia regular bávara (ele não era nem membro do Partido e havia sido seu oponente até 1933), e o chamou para a Gestapo de Berlim, porque sabia que era uma autoridade no sistema policial soviético. Para Müller também isso significou o começo da carreira, embora ele tenha tido de começar com uma tarefa comparativamente pequena. (Müller, ao contrário da gabolice de Eichmann, era conhecido por sua “conduta de esfinge”, e conseguiu desaparecer completamente; ninguém sabe de seu paradeiro, embora haja rumores de que primeiro a Alemanha Oriental, e agora a Albânia, contrataram seus serviços de perito em polícia russa.)
Em março de 1939, Hitler voltou-se para a Tchecoslováquia e estabeleceu um protetorado alemão sobre a Boêmia e a Morávia. Eichmann foi imediatamente nomeado para estabelecer mais um centro de emigração de judeus em Praga. “No começo não fiquei muito contente de sair de Viena, porque depois de instalar um escritório daqueles, onde tudo já fluía serenamente e em boa ordem, não é fácil abandonar tudo.” E, de fato, Praga foi um tanto decepcionante, embora o sistema fosse o mesmo de Viena, pois “os funcionários das organizações judaicas tchecas iam a Viena e os vienenses vinham a Praga, de forma que não tive de interferir absolutamente. O modelo de Viena foi simplesmente copiado e levado para Praga. Assim, a coisa toda começou automaticamente”. Mas o centro de Praga era muito menor, e “lamento dizer, não havia gente do calibre e da energia de um dr. Löwenherz”. Mas essas razões pessoais, por assim dizer, de descontentamento eram pequenas comparadas com as outras dificuldades de natureza inteiramente objetiva. Centenas de milhares de judeus tinham deixado sua terra natal em questão de poucos anos, e milhões esperavam na fila, uma vez que os governos polonês e romeno não deixaram dúvidas em suas proclamações oficiais: também eles queriam se livrar dos judeus. E não entendiam porque o mundo haveria de ficar indignado se estavam apenas seguindo os passos de uma “grande e culta nação”. (Esse enorme arsenal de refugiados em potencial foi revelado durante a Conferência de Evian, convocada no verão de 1938 para resolver o problema do judaísmo alemão por meio de uma ação governamental. Resultou num fracasso retumbante e fez muito mal aos judeus alemães.) As avenidas para a emigração além-mar estavam agora interrompidas, assim com as possibilidades de fuga dentro da Europa tinham se esgotado antes — e isso mesmo na melhor das hipóteses, isto é, se a guerra não tivesse interferido com o programa. Eichmann dificilmente teria conseguido repetir o “milagre” vienense em Praga.
Ele sabia muito bem disso, havia realmente se transformado num perito em questões de emigração, e não se podia esperar que recebesse seu próximo encargo cheio de entusiasmo. A guerra eclodiu em setembro de 1939, e um mês depois Eichmann foi chamado a Berlim para ficar no lugar de Müller como chefe do Centro para a Emigração Judaica. Um ano antes, isso teria sido uma promoção real, mas agora era o momento errado. Ninguém em seu juízo perfeito podia mais pensar numa solução para a questão judaica em termos de emigração forçada; muito além das dificuldades de levar gente de um país para outro em tempo de guerra, o Reich havia adquirido, com a conquista dos territórios poloneses, 2 milhões ou 2 milhões e meio de judeus a mais. É verdade que o governo de Hitler ainda estava querendo deixar partir seus judeus (a ordem que suspendeu toda emigração de judeus só veio dois anos depois, no outono de 1941), e se alguma “solução final” já fora definida, ninguém dera ainda ordens nesse sentido, embora os judeus já começassem a concentrar-se em guetos no Leste e estivessem também sendo liquidados por Einsatzgruppen. Era natural que a emigração, por mais bem organizada que estivesse em Berlim, de acordo com o “princípio de linha de produção”, se esgotasse por si mesma — processo que Eichmann descreveu como “arrancar dentes [...] havia desânimo, eu diria, de ambos os lados. Do lado judeu porque era realmente difícil conseguir alguma possibilidade de emigração, e do nosso lado porque não havia movimentação, nenhum ir e vir de pessoas. Ali estávamos nós, sentados num grande e poderoso edifício, em meio a um vazio sonolento”. Evidentemente, se os assuntos judaicos, sua especialidade, continuassem sendo uma questão de emigração, ele logo perderia o emprego.