Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal
XIII. Os centros de extermínio no Leste
XIII
OS CENTROS DE EXTERMÍNIO NO LESTE
Quando os nazistas falavam do Leste, eles queriam dizer uma imensa área que abarcava a Polônia, os Estados Bálticos e o território russo ocupado. Estava dividido em quatro unidades administrativas: o Warthegau, que consistia das Regiões Polonesas Ocidentais, anexadas ao Reich, sob domínio do Gauleiter Artur Greiser; a Ostland, que compreendia a Lituânia, a Letônia, e a Estônia, e uma área bastante indefinida da Rússia Branca, com Riga como sítio de operações das autoridades de ocupação; o Governo-Geral da Polônia central, chefiado por Hans Frank; e a Ucrânia, sob o poder do Ministério dos Territórios Orientais Ocupados de Alfred Rosenberg. Esses foram os primeiros países sobre os quais foram apresentados testemunhos da acusação, e os últimos a serem tratados na sentença.
Sem dúvida tanto a acusação como os juízes tiveram excelentes razões para suas decisões opostas. O Leste era o cenário central do sofrimento judeu, terminal de horrores de todas as deportações, lugar de onde não havia escapatória e onde o número de sobreviventes raramente chegava a mais de 5%. O Leste, além disso, fora o centro da população judaica na Europa antes da guerra; mais de 3 milhões de judeus tinham vivido na Polônia, 260 mil nos Estados Bálticos, e mais de metade dos estimados 3 milhões de judeus russos na Rússia Branca, Ucrânia e Criméia. Como a acusação estava interessada primordialmente no sofrimento do povo judeu e nas “dimensões do genocídio” contra ele praticado, era lógico começar daí, e depois ver o quanto de responsabilidade específica por esse inferno sem trégua podia ser atribuído ao acusado. O problema era que as provas ligando Eichmann ao Leste eram “escassas”, e a culpa estaria no fato de que os arquivos da Gestapo, particularmente os arquivos sobre a seção de Eichmann, haviam sido destruídos pelos nazistas. A escassez de provas documentais deu à acusação um pretexto talvez bem-vindo de chamar uma procissão infindável de testemunhas para depor sobre os acontecimentos do Leste, embora isso dificilmente tenha sido a única razão para tanto. Conforme se insinuou durante o julgamento e se descreveu integralmente (em boletim especial divulgado em abril de 1962 pelo Yad Vashem, o arquivo israelense sobre o período nazista), a acusação estivera sob considerável pressão dos sobreviventes israelenses, que constituíam cerca de 20% da população atual do país. Eles se dirigiam espontaneamente às autoridades do tribunal e também ao Yad Vashem, que recebeu a encomenda oficial de preparar alguma prova documental, para se oferecer como testemunhas. Os casos piores de “forte imaginação”, pessoas que tinham “visto Eichmann em vários lugares onde ele nunca esteve”, foram descartados, mas 56 “testemunhas do sofrimento do povo judeu”, como foram denominadas pelas autoridades, foram finalmente chamadas ao banco, em vez das quinze ou vinte “testemunhas de fundo”, conforme planejado originalmente; 23 sessões, de um total de 121, foram dedicadas inteiramente ao “pano de fundo”, o que quer dizer que não tinham nenhuma ligação aparente com o caso. Embora as testemunhas de acusação dificilmente tenham sido re-interrogadas seja pela defesa, seja pelos juízes, o tribunal não aceitou provas que pesassem contra Eichmann a menos que recebessem alguma corroboração. (Por isso os juízes se recusaram a acusar Eichmann do assassinato do menino judeu na Hungria; ou de ter instigado a Kristallnacht na Alemanha e na Áustria, sobre a qual ele certamente nada soube na época e, mesmo em Jerusalém, sabia consideravelmente menos do que o menos informado dos estudiosos da época; ou do assassinato de 93 crianças de Lidice, as quais, depois do assassinato de Heydrich, foram deportadas para Lódz, visto que “ainda não ficou provado além de toda dúvida, segundo as provas diante de nós, que tenham sido assassinadas”; nem de responsabilidade pelas hediondas operações da Unidade 1005, “uma das partes mais horrorizantes entre todas as provas apresentadas pela acusação”, que tinha o encargo de abrir os túmulos coletivos no Leste e sumir com os corpos a fim de eliminar os vestígios de assassinato, e que foi comandada pelo Standartenführer Paul Blobel, o qual, segundo seu próprio testemunho em Nuremberg, recebia ordens de Müller, chefe da Seção IV do RSHA; nem pelas horríveis condições em que os judeus que sobreviveram aos campos de extermínio foram evacuados para os campos de concentração alemães, principalmente para Bergen-Belsen, durante os últimos meses da guerra.) A essência do depoimento das testemunhas de fundo sobre as condições dos guetos poloneses nunca foi contestada; ao contrário, não havia quase nada no que disseram que já não se soubesse antes. Se o nome de Eichmann alguma vez era mencionado, era evidente que se tratava de boatos, “rumores”, portanto sem nenhuma validade legal. O depoimento de todas as testemunhas que o tinham “visto com seus próprios olhos” desmoronava no momento que uma pergunta era dirigida a elas, e o tribunal concluiu que “o centro de gravidade das atividades dele estava dentro do próprio Reich, do Protetorado e dos países da Europa Ocidental, do Norte, Sul, Sudeste e Centro” — isto é, em toda parte, menos no Leste. Por que, então, a corte não abreviou esses depoimentos, que se arrastaram por semanas e meses sem fim? Ao discutir essa questão, a sentença é um tanto apologética, e acaba dando uma explicação curiosamente inconsistente: “Uma vez que o acusado negou todas as acusações”, os juízes não podia dispensar as “provas do pano de fundo factual”. O acusado, porém, nunca negou esses fatos na acusação, ele só negou que fosse responsável por eles “no sentido da acusação”.
Na verdade, os juízes se depararam com um dilema muito desagradável. Bem no começo do julgamento, o dr. Servatius impugnou a imparcialidade dos juízes; em sua opinião, nenhum judeu estava qualificado para julgar os implementadores da Solução Final, e o juiz presidente respondeu: “Somos juízes profissionais, acostumados a pesar as provas apresentadas diante de nós e a realizar nosso trabalho sob os olhos do público e sujeitos à crítica pública [...] Quando a corte se dispõe a julgar, os juízes que a compõem são seres humanos, são carne e sangue, são sentidos e sentimentos. Não sendo assim, nenhum juiz teria capacidade de processar um criminoso quando se sentisse horrorizado [...] Não se pode negar que a lembrança do holocausto nazista comove cada judeu, mas enquanto este caso estiver sendo julgado diante de nós, é nosso dever refrear esses sentimentos, e esse dever haveremos de honrar”. O que era bom e justo, a menos que o dr. Servatius quisesse dizer que os judeus não possuíam uma compreensão adequada do problema que sua presença causava no meio das nações do mundo, e portanto não seriam capazes de avaliar a “solução final” a eles aplicada. Mas a ironia da situação era que, no caso de ele tender a usar esse argumento, poder-se-ia responder que o acusado, segundo seu próprio testemunho, enfaticamente repetido, havia aprendido tudo o que sabia sobre a questão judaica com autores judeus sionistas, a partir dos “livros básicos” de Theodor Herzl e Adolf Böhm. Quem, portanto, poderia estar mais bem qualificado para julgá-lo senão esses três homens que eram todos sionistas desde a mais tenra juventude?
Não era, portanto, com respeito ao acusado, mas com respeito às testemunhas de fundo que era agudo e perturbador o judaísmo dos juízes, o fato de viverem em um país em que uma em cada cinco pessoas era um sobrevivente. O sr. Hausner havia reunido uma “trágica multidão” de sofredores, todos ansiosos por não perder essa oportunidade única, todos convencidos de seu direito a um dia na corte. Os juízes podiam (como fizeram) discutir com o promotor se era sábio ou mesmo apropriado usar a ocasião para “pintar quadros gerais”, mas uma vez que a testemunha subia ao banco, era de fato muito difícil interrompê-la, abreviar seu depoimento, “pela honra da testemunha e por causa dos assuntos sobre os quais falava”, como disse o juiz Landau. Quem eram eles, humanamente falando, para negar a qualquer dessas pessoas seu dia na corte? E quem teria tido a coragem, humanamente falando, de questionar a veracidade do que diziam quando elas “abriam seus corações ao subir ao banco das testemunhas”, mesmo que o que diziam só pudesse ser “considerado como subproduto do tribunal”?
Havia uma dificuldade mais. Em Israel, como na maioria dos países, uma pessoa que se apresenta na corte é considerada inocente até prova em contrário. Mas no caso de Eichmann isso era uma evidente ficção. Se ele não fosse considerado culpado antes de aparecer em Jerusalém, culpado além de toda dúvida, os israelenses jamais teriam ousado, nem desejado, raptá-lo; o primeiro-ministro Ben-Gurion, explicando ao presidente da Argentina, em carta datada de 3 de junho de 1960, por que Israel havia cometido uma “violação formal da lei argentina”, afirmou que “foi Eichmann quem organizou o assassinato em massa [de 6 milhões de pessoas do nosso povo], numa escala gigantesca e sem precedentes, em toda a Europa”. Ao contrário das prisões de casos criminosos comuns, onde a suspeita de culpa tem de ter provas substanciais e razoáveis, mas não além de toda dúvida — isso é tarefa do julgamento subseqüente —, a captura ilegal de Eichmann podia ser justificada, e foi justificada aos olhos do mundo, tão-somente pelo fato de o resultado do julgamento poder ser seguramente antecipado. Seu papel na Solução Final, como se descobria agora, havia sido extremamente exagerado — em parte devido a sua própria bazófia, em parte porque os acusados em Nuremberg e em outros tribunais pós-guerra tentaram se livrar das próprias culpas à custa dele, e principalmente porque ele tinha estado em contato próximo com funcionários judeus, uma vez que era o oficial alemão “perito em assuntos judaicos” e em nada mais. A acusação, baseando seu caso em sofrimento que não era nem um pouco exagerado, exagerou o exagero além do que se podia imaginar — ou pelo menos assim se pensava até a sentença da Corte de Apelação ser entregue, na qual se pode ler: “É fato que o acusado não havia recebido nenhuma ‘ordem superior’. Ele era seu próprio superior, e deu todas as ordens em questões que diziam respeito aos assuntos judeus”. Esse havia sido exatamente o argumento da acusação, que os juízes da Corte Distrital não aceitaram, mas que, por mais perigosa tolice que fosse, a Corte de Apelação endossou inteiramente. (Apoiada principalmente pelo testemunho do magistrado Michael A. Musmanno, autor de Ten Days to Die [1950], e juiz em Nuremberg, que viera dos Estados Unidos para ser testemunha da acusação. O sr. Musmanno foi um dos juízes do julgamento dos administradores dos campos de concentração e dos membros das unidades de extermínio móveis do Leste; e embora o nome de Eichmann tenha vindo à baila nas sessões, ele o mencionou apenas uma vez em sua sentença. Ele havia, porém, entrevistado os acusados em sua prisão em Nuremberg. E lá, Ribbentrop lhe dissera que Hitler teria sido uma boa pessoa se não tivesse sido influenciado por Eichmann. Bem, o sr. Musmanno não acreditou em tudo o que ouviu, mas acreditou que Eichmann havia recebido sua função do próprio Hitler e que seu poder “vinha por intermédio de Himmler e Heydrich”. Algumas sessões depois, o sr. Gustave M. Gilbert, professor de psicologia na Universidade de Long Island e autor de Nuremberg Diary [1947], apareceu como testemunha de acusação. Ele foi mais cauteloso que o magistrado Musmanno, que ele apresentara aos acusados em Nuremberg. Gilbert atestou que “Eichmann [...] não era considerado grande coisa pelos grandes criminosos de guerra nazistas [...] na época”, e também que Eichmann, que ambos supunham morto, não fora mencionado em discussões dos crimes de guerra entre ele e Musmanno.) Os juízes da Corte Distrital, portanto, visto que enxergavam além dos exageros da acusação e não queriam fazer Eichmann superior de Himmler e inspirador de Hitler, se viram na posição de ter de defender o acusado. A tarefa, além de desagradável, não tinha nenhuma conseqüência nem sobre o julgamento nem sobre a sentença, pois “a responsabilidade legal e moral daquele que manda suas vítimas para a morte é, em nossa opinião, nada menor e talvez maior do que a culpa daquele que faz a vítima morrer”.
A saída dos juízes para todas essas dificuldades foi o compromisso. A sentença se divide em duas partes, e a parte maior consiste de uma nova versão da acusação. Os juízes indicam sua abordagem, fundamentalmente diferente ao começar com a Alemanha e terminar com o Leste, o que significa que eles pretenderam se concentrar no que foi feito e não no que os judeus sofreram. Em aberta rejeição à acusação, eles dizem explicitamente que sofrimentos em escala tão gigantesca estavam “acima da compreensão humana”, matéria para os “grandes escritores e poetas”, que não cabem numa sala de tribunal, enquanto os atos e motivos que os causaram não estavam nem além de compreensão, nem além de julgamento. Eles chegaram a afirmar que usariam por base de suas conclusões a sua própria versão da acusação, e de fato ter-se-iam perdido se não tivessem realizado a enorme quantidade de trabalho que isso implicava. Compreenderam com clareza a intrincada burocracia da máquina nazista de destruição, de forma que a posição do acusado pôde ser compreendida. Em contraste com o discurso introdutório do sr. Hausner, que já foi publicado em forma de livro, a sentença pode ser estudada com proveito por aqueles que têm interesses históricos nesse período. Mas a sentença, tão agradavelmente despida de oratória barata, teria destruído inteiramente a argumentação da acusação se os juízes não tivessem encontrado razão para atribuir alguma responsabilidade a Eichmann pelos crimes do Leste, em acréscimo ao crime principal, que ele confessou, isto é, o envio de pessoas para a morte plenamente consciente do que estava fazendo.
Estavam em disputa quatro pontos principais. Havia, em primeiro lugar, a questão da participação de Eichmann no assassinato em massa levado a cabo no Leste pelos Einsatzgruppen, fundados por Heydrich numa reunião realizada em março de 1941, na qual Eichmann estava presente. Porém, como os comandantes dos Einsatzgruppen eram membros da elite intelectual da SS, enquanto suas tropas eram ou de criminosos ou de soldados comuns convocados em dever punitivo — ninguém seria voluntário —, Eichmann estava ligado a essa fase importante da Solução Final só na medida em que recebia relatórios dos assassinos, que tinha de resumir para seus superiores. Esses relatórios, embora “altamente secretos”, eram mimeografados e encaminhados para cinqüenta ou setenta outros departamentos do Reich, em cada um dos quais havia, evidentemente, algum Oberregierungsrat que os resumia para seus superiores. Havia, além disso, o testemunho do magistrado Musmanno, que afirmava que Walter Schellenberg, que havia redigido o rascunho do acordo entre Heydrich e o general Walter von Brauchitsch, do comando militar, especificando que os Einsatzgruppen deviam gozar de total liberdade na “execução de seus planos referentes à população civil”, isto é, no assassinato de civis, afirmara numa conversa em Nuremberg que Eichmann “controlava essas operações”, que as “supervisionava pessoalmente”. Os juízes, “por razões de cautela”, não quiseram depender de uma afirmação não corroborada de Schellenberg, e descartaram essa prova. Schellenberg devia ter uma péssima opinião sobre os juízes de Nuremberg e sua capacidade de se situar na labiríntica estrutura administrativa do Terceiro Reich. Por isso, tudo o que sobrou foi a prova de que Eichmann estava bem informado sobre os acontecimentos do Leste, o que nunca esteve em discussão; por fim, a sentença conclui, surpreendentemente, que essa prova era suficiente para incriminá-lo por participação efetiva.
O segundo ponto, que trata da deportação dos judeus dos guetos poloneses para os centros de extermínio próximos, parecia mais relevante. Era de fato “lógico” concluir que o perito em transporte estaria em atividade no território do Governo-Geral. No entanto, sabemos de muitas outras fontes que os comandantes superiores da SS e da polícia estavam encarregados do transporte em toda essa área — para tristeza do grande chefe do Governo-Geral, Hans Frank, que em seu diário reclama infindavelmente da interferência nesse assunto, sem nunca mencionar o nome de Eichmann. Franz Novak, oficial de transporte de Eichmann, ao testemunhar pela defesa, corroborou a versão de Eichmann: ocasionalmente, é claro, eles tinham de negociar com o gerente da Ostbahn, a Ferrovias Orientais, porque os carregamentos vindos das regiões ocidentais da Europa tinham de ser coordenados com operações locais. (Wisliceny fez um bom relato dessas operações em Nuremberg. Novak costumava entrar em contato com o Ministério dos Transportes, que por sua vez tinha de conseguir autorização do Exército para que os trens entrassem no palco da guerra. O Exército podia vetar transportes. O que Wisliceny não contou, e que é talvez mais interessante, é que o Exército usava esse direito de veto só nos anos iniciais, quando as tropas alemães estavam na ofensiva; em 1944, quando as deportações da Hungria congestionavam as linhas de retirada de todos os exércitos alemães em fuga desesperada, nenhum veto ocorreu.) Mas quando, por exemplo, o gueto de Varsóvia foi evacuado em 1942, à razão de 5 mil pessoas por dia, o próprio Himmler conduziu as negociações com as autoridades ferroviárias, e Eichmann e seu departamento não tinham nada a ver com isso. A sentença finalmente aceitou o depoimento dado por uma testemunha no julgamento de Höss, afirmando que alguns judeus da área do Governo-Geral haviam chegado a Auschwitz junto com os judeus de Bialystok, uma cidade polonesa incorporada a uma província alemã da Prússia oriental, dentro, portanto, da jurisdição de Eichmann. No entanto, nem no Warthegau, que estava em território do Reich, era o RSHA, mas o Gauleiter Greiser, que estava encarregado do extermínio e da deportação. E embora em janeiro de 1944, Eichmann tenha visitado o gueto de Lódz — o maior do Leste e o último a ser liquidado —, mais uma vez foi o próprio Himmler que, um mês depois, foi ver Greiser e ordenou a liquidação de Lódz. A menos que se aceite a ridícula alegação da acusação de que Eichmann tinha sido capaz de inspirar ordens de Himmler, o mero fato de Eichmann despachar judeus para Auschwitz não podia de forma alguma provar que todos os judeus que chegaram lá haviam sido enviados por ele. Em vista da insistente negativa de Eichmann e da completa falta de provas corroborativas, as conclusões do julgamento sobre esse ponto pareceram, infelizmente, constituir um caso de in dubio contra reum.
O terceiro ponto a ser considerado era a culpa de Eichmann pelo que acontecia nos campos de extermínio, nos quais, segundo a acusação, ele gozava de grande autoridade. O fato de os juízes terem descartado todos os depoimentos acumulados das testemunhas sobre esses assuntos denota o alto grau de independência e justiça dos juízes. Seu argumento aqui era sólido e demonstrava plena compreensão de toda a situação. Eles começaram explicando que havia duas categorias de judeus nos campos, os chamados “judeus em transporte” (Transportjuden), que constituíam o grosso da população e que nunca haviam cometido um crime, mesmo aos olhos dos nazistas, e os judeus “sob custódia” (Schutzhaftjuden), mandados para os campos de concentração alemães por alguma transgressão e que, sob o princípio totalitário de dirigir o terror do regime contra os “inocentes”, viviam consideravelmente melhor do que os outros mesmo quando mandados para o Leste a fim de tornar judenrein os campos de concentração do Reich. (Nas palavras de sra. Raja Kagan, uma excelente testemunha sobre Auschwitz, esse era “o grande paradoxo de Auschwitz. Os que eram capturados cometendo algum crime eram mais bem tratados que os outros”. Não ficavam sujeitos à seleção e, como regra, sobreviveram.) Eichmann nada tinha a ver com os Schutzhaftjuden; mas os Transportjuden, sua especialidade, eram, por definição, condenados à morte, exceto 25% dos indivíduos especialmente fortes, que podiam ser selecionados para trabalhos forçados em alguns campos. Na versão apresentada pelo julgamento, porém, essa questão não era mais levada em conta Eichmann sabia, claro, que a esmagadora maioria de suas vítima era condenada à morte; mas uma vez que a seleção para trabalhos era feita por médicos da SS no local, e como as listas de deportados eram geralmente feitas pelos Conselhos Judeus dos países nativos ou pela Polícia da Ordem, mas nunca por Eichmann e seus homens, a verdade é que ele não tinha autoridade para dizer quem ia morrer ou quem ia viver; talvez ele nem tivesse como saber. A questão é se Eichmann mentiu ao dizer: “Nunca matei nenhum judeu ou, no final das contas, nunca matei nenhum não-judeu [...] Nunca dei ordens para matar judeu nenhum, nem para matar não-judeu nenhum”. A acusação, incapaz de entender um assassino de massa que nunca matara (e que no caso específico não devia nem ter coragem para isso) tentava o tempo inteiro provar assassinatos individuais.
Isso nos leva à quarta e última questão referente à autoridade geral de Eichmann sobre os territórios orientais — a questão de sua responsabilidade pelas condições de vida nos guetos, pela indizível miséria vivida ali, e pela liquidação final, que foi o assunto do depoimento da maioria das testemunhas. Mais uma vez, Eichmann estava plenamente informado, mas nada disso tinha a ver com seu trabalho. A acusação fez um grande esforço para provar que tinha, com base no fato de Eichmann ter admitido abertamente que de vez em quando tinha de decidir, com base nas sempre mutáveis diretivas sobre esse assunto, o que fazer com judeus de nacionalidade estrangeira que estavam retidos na Polônia. Isso, disse ele, era uma questão de “importância nacional”, envolvendo o Ministério das Relações Exteriores, e estava “além do horizonte” das autoridades locais. A respeito desses judeus, havia duas tendências diferentes em todos os departamentos alemães: a tendência “radical”, de ignorar todas as distinções — judeu era judeu, ponto final — e a tendência “moderada”, que achava melhor deixar esses judeus “no gelo” para fins de troca. (A idéia de trocar judeus parece ter sido de Himmler. Depois que os Estados Unidos entraram na guerra, ele escreveu a Müller, em dezembro de 1942, que “todos os judeus com relações importantes nos Estados Unidos devem ser postos em um campo especial [...] e mantidos vivos”, acrescentando: “esses judeus são para nós reféns preciosos. O número que tenho em mente é 10 mil”.) Nem é preciso dizer, Eichmann era da tendência “radical”, posicionando-se contra todas as exceções, por razões administrativas e também “idealistas”. Mas quando, em abril de 1942, escreveu ao Ministério das Relações Exteriores que “no futuro cidadãos estrangeiros seriam incluídos nas medidas tomadas pela Polícia de Segurança dentro do gueto de Varsóvia”, onde judeus com passaportes estrangeiros haviam, antes, sido cuidadosamente eliminados, ele dificilmente estava agindo como “um tomador de decisões em favor do RSHA” no Leste, e certamente não possuía “poderes executivos” lá. Menos ainda podiam tais poderes de autoridade derivar do fato de ele ter sido usado ocasionalmente por Heydrich e Himmler para transmitir certas ordens aos comandantes locais.
Em certo sentido, o cerne da questão era ainda pior do que a corte de Jerusalém pensava ser. A sentença argumentava que Heydrich havia recebido autoridade central sobre a implementação da Solução Final, sem nenhuma limitação territorial, portanto Eichmann, seu delegado-chefe nesse campo, era alguém igualmente responsável em todas as partes. Isso era bem verdade para o quadro geral da Solução Final, mas embora Heydrich tivesse chamado para a Conferência de Wannsee, com finalidade de coordenação, um representante do Governo-Geral de Hans Frank, o subsecretário de Estado dr. Josef Bühler, a Solução Final não se aplicava de fato aos territórios orientais ocupados, pela simples razão de que o destino dos judeus de lá nunca pesou na balança. O massacre dos judeus poloneses foi decidido por Hitler não em maio ou junho de 1941, data da ordem para a Solução Final, mas em setembro de 1939, como os juízes descobriram pelo testemunho prestado em Nuremberg por Erwin Lahousen, da Contra-Inteligência alemã: “Já em setembro de 1939, Hitler havia decidido matar os judeus poloneses”. (Consequentemente, a estrela judaica foi introduzida pelo Governo-Geral imediatamente depois da ocupação do território, em novembro de 1939, só sendo introduzida no Reich alemão em 1941, na época da Solução Final.) Os juízes tinham diante deles também as minutas das duas conferências do começo da guerra, uma das quais convocada por Heydrich em 21 de setembro de 1939, como reunião de “chefes de departamento e comandantes de unidades móveis de extermínio” e na qual Eichmann, então ainda um mero Hauptsturmführer, havia representado o Centro para a Emigração Judaica de Berlim; a outra teve lugar em 30 de janeiro de 1940, tratando de “questões de evacuação e reassentamento”. Em ambas as reuniões, foi discutido o destino de populações nativas inteiras dos territórios ocupados — isto é, a “solução” dos poloneses assim como a “questão judaica”.
Já nessa data, a “solução do problema polonês” estava bem adiantada: relatórios revelavam que não restara mais que 3% da “liderança política”; e para “tornar inofensivos esses 3%”, eles teriam de “ser mandados para campos de concentração”. O nível médio da intelligentsia polonesa tinha de ser registrado e aprisionado — “professores, clero, nobreza, legionários, oficiais fora de serviço etc.” — enquanto os “poloneses primitivos” deviam ser anexados ao contingente alemão de “trabalhadores migratórios” e “evacuados” de suas pátrias. “O objetivo é: o polonês tem de se tornar o trabalhador eternamente sazonal e migratório, sua residência permanente deve ser na região de Cracóvia.” Os judeus tinham de ser reunidos em centros urbanos e “acomodados em guetos onde possam ser facilmente controlados e de onde convenientemente evacuados mais tarde”. Esses territórios orientais que haviam sido incorporados ao Reich — Warthegau, Prússia ocidental, Dantzig, a província de Poznan e a Silésia Superior — tinham de ser imediatamente limpos de todos os judeus; junto com 30 mil ciganos eles deveriam ser enviados em trens de carga para o Governo-Geral. Com sua autoridade de “Comissário do Reich para o Fortalecimento do Povo Alemão” Himmler finalmente deu ordens para a evacuação de grandes porções da população polonesa desses territórios recentemente anexados ao Reich. A implementação dessa “migração organizada de povos”, como a chamou a sentença, foi atribuída a Eichmann como chefe da Subseção IV-D-4 no RSHA, cuja tarefa consistia em “emigração, evacuação”. (É importante lembrar que essa “política demográfica negativa” não era de forma nenhuma improvisada como resultado das vitórias alemãs no Leste. Ela havia sido delineada, já em novembro de 1937, no discurso secreto dirigido por Hitler aos membros do Alto Comando alemão — veja-se o chamado Protocolo Hössbach. Hitler havia dito que rejeitava todas as idéias de conquistar nações estrangeiras, que o que ele queria era um “espaço vazio” [volkloser Raum] no Leste para o assentamento de alemães. Seu público — Blomberg, Fritsch e Räder, entre outros — sabia muito bem que não existia esse “espaço vazio”, portanto devem ter entendido que uma vitória alemã no Leste resultaria automaticamente na “evacuação” de toda a população nativa. As medidas contra os judeus orientais não foram apenas resultado de anti-semitismo, mas parte de uma política demográfica abrangente, no curso da qual, se a Alemanha tivesse vencido a guerra, os poloneses teriam sofrido a mesma sorte que os judeus — genocídio. Não se trata de simples conjectura: os poloneses da Alemanha já estavam sendo forçados a usar um emblema distintivo no qual a letra P substituía a estrela judaica, e essa, como vimos, era sempre a primeira medida a ser tomada pela polícia ao instituir o processo de destruição.)
Uma carta expressa, mandada para os comandantes das unidades móveis de extermínio depois da reunião de setembro, estava entre os documentos apresentados ao tribunal e foi de especial interesse. Ela se refere apenas à “questão judaica nos territórios ocupados” e distingue entre o “objetivo final”, que devia ser mantido secreto, e as “medidas preliminares” para chegar a ele. Entre estas últimas, o documento menciona expressamente a concentração de judeus na vizinhança das linhas férreas. E característico que a expressão “Solução Final da questão judaica” não apareça; o “objetivo final” era provavelmente a destruição dos judeus poloneses, evidentemente bem conhecida para aqueles presentes à reunião; novo era somente o fato de os judeus que viviam nas províncias recém-anexadas ao Reich terem de ser evacuados para a Polônia, pois isso era efetivamente o primeiro passo na direção de uma Alemanha judenrein, portanto na direção da Solução Final.
No que diz respeito a Eichmann, os documentos mostravam claramente que mesmo nesse estágio ele não tinha quase nada a ver com o que acontecia no Leste. Aí também seu papel era o de um perito em “transporte” e “emigração”; no Leste, não era preciso nenhum “perito judeu”, nenhuma “diretiva” especial, e não existiam categorias privilegiadas. Até mesmo os membros dos Conselhos Judeus eram invariavelmente exterminados quando os guetos eram liquidados. Não havia exceções, pois o destino dos trabalhadores escravos era apenas uma forma diferente, mais lenta, de morte. Portanto a burocracia judaica, cujo papel nesses massacres administrativos foi considerado tão essencial que a instituição dos “Conselhos de Anciãos Judeus” foi imediatamente decidida, não desempenhou nenhum papel na captura e concentração de judeus. Todo o episódio aponta para o desfecho dos loucos fuzilamentos em massa na retaguarda dos exércitos. Parece que os comandantes do Exército protestaram contra os massacres de civis, e que Heydrich chegou a um acordo com o Alto Comando alemão, estabelecendo o princípio de uma limpeza completa e definitiva de judeus, da intelligentsia polonesa, do clero católico e da nobreza, mas determinando que, dada a magnitude de uma operação em que 2 milhões de judeus seriam “limpados”, eles fossem primeiro concentrados em guetos.
Se os juízes tivessem absolvido Eichmann inteiramente dessas acusações ligadas às histórias horripilantes repetidas insistentemente pelas testemunhas do julgamento, eles não teriam chegado a um julgamento diferente de culpado, e Eichmann não teria escapado da pena capital. O resultado teria sido o mesmo. Mas eles teriam destruído inteiramente, e sem nenhum compromisso, o caso tal qual apresentado pela acusação.