Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal
XI. Deportações dos Bálcãs — Iugoslávia, Bulgária, Grécia, Romênia
XI
DEPORTAÇÕES DOS BÁLCÃS — IUGOSLÁVIA, BULGÁRIA, GRÉCIA,
ROMÊNIA
Para quem acompanhou a promotoria e leu a sentença, que reorganizou o “quadro geral” confuso e enganador, foi uma surpresa não haver nenhuma menção à linha que distinguia nitidamente os territórios controlados por nazistas no Leste e Sudeste do sistema de Estados-nação da Europa Central e Ocidental. O cinturão de populações que se estende desde o mar Báltico ao Norte até o Adriático ao Sul, toda a área que hoje fica em sua maior parte atrás da Cortina de Ferro, consistia então dos chamados Estados Sucessores, fundados pelos poderes vitoriosos depois da Primeira Guerra Mundial. Uma nova ordem política havia sido brindada aos numerosos grupos étnicos que viveram por séculos sob o domínio de impérios — o Império Russo no Norte, o Império Austro-Húngaro no Sul, e o Império Turco no Sudeste. Os Estados-nação resultantes não possuíam nada próximo da homogeneidade étnica das velhas nações européias que haviam servido de modelo para suas constituições políticas. O resultado foi que cada um desses países continha grandes grupos étnicos violentamente hostis ao governo em exercício porque suas próprias aspirações nacionais frustraram-se em favor de vizinhos só ligeiramente superiores numericamente. Se houvesse necessidade de alguma prova da instabilidade política desses Estados recém-fundados, o caso da Tchecoslováquia a fornecia de sobra. Quando Hitler marchou sobre Praga, em março de 1939, foi entusiasticamente recebido não só pelos Sudetendeutschen, a minoria alemã, mas também pelos eslovacos, que ele “liberou” oferecendo-lhes um Estado “independente”. Exatamente a mesma coisa aconteceu depois na Iugoslávia, quando a maioria sérvia, antiga senhora do país, foi tratada como inimiga, e a minoria croata recebeu seu próprio governo nacional. Além disso, como as populações dessas regiões eram flutuantes, não havia fronteiras naturais ou históricas, e as que foram estabelecidas pelos Tratados de Trianon e St. Germain eram bastante arbitrárias. Por isso a Hungria, a Romênia e a Bulgária se tornaram parceiras do Eixo em troca de generosas ampliações de seus territórios, e os judeus dessas áreas recém-anexadas jamais receberam o status de cidadãos; eles se tornaram automaticamente apátridas e portanto tiveram a mesma sorte que os refugiados da Europa Ocidental — foram invariavelmente os primeiros a ser deportados e liquidados.
O que também foi decisivo durante esses anos foi o elaborado sistema de tratados de minorias por meio dos quais os Aliados haviam tentado em vão resolver um problema que, dentro do panorama político de um Estado-nação, era insolúvel. Os judeus eram uma minoria oficialmente reconhecida em todos os Estados Sucessores, e esse status não foi forçado sobre eles, mas era resultado de solicitações encaminhadas e negociações conduzidas por seus próprios delegados na Conferência de Paz de Versalhes. Isso marcou um importante ponto de virada na história judaica, porque foi a primeira vez que os judeus ocidentais, ou assimilados, não foram reconhecidos como porta-vozes de todo o povo judeu. Para surpresa, e às vezes tristeza, de judeus “notáveis” de formação ocidental, uma grande maioria do povo desejou algum tipo de autonomia social e cultural, mesmo que não política. Legalmente, o status dos judeus europeus orientais era igual ao de qualquer outra minoria, mas politicamente — e isso viria a ser decisivo — eram o único grupo étnico na região sem uma “pátria”, isto é, sem um território em que constituíssem a maioria da população. Eles, porém, não viviam em nenhum tipo de dispersão como seus irmãos na Europa Ocidental e Central, e enquanto lá, antes de Hitler, fora um indício de anti-semitismo chamar um judeu de judeu, os judeus da Europa Oriental eram reconhecidos por amigos e inimigos como um povo distinto. Isso era muito importante para o status dos judeus do Leste que eram assimilados, o que os diferenciava absolutamente dos judeus do Ocidente, onde a assimilação de uma forma ou de outra havia sido regra. O grande corpo dos judeus de classe média, tão característico da Europa Ocidental e Central, não existia no Leste; em sua esteira encontramos uma fina camada de famílias de classe média alta que efetivamente pertencia às classes dominantes e cuja assimilação à sociedade gentia — por meio do dinheiro, do batismo, ou do casamento misto — era infinitamente maior do que a da maioria dos judeus do Ocidente.
Um dos primeiros países em que os executores da Solução Final se viram confrontados com essas condições foi o Estado títere da Croácia, na Iugoslávia, cuja capital era Zagreb. O governo croata, chefiado pelo dr. Ante Pavelic, introduziu com todo empenho uma legislação antijudaica três semanas depois de seu estabelecimento, e quando lhe perguntaram o que havia de ser feito com algumas dezenas de judeus croatas moradores da Alemanha, mandou dizer que “apreciaria que fossem deportados para o Leste”. O ministro do Interior do Reich pediu que o país estivesse judenrein em fevereiro de 1942, e Eichmann mandou o Hauptsturmführer Franz Abromeit trabalhar com o adido da polícia alemã em Zagreb. As deportações deviam ser efetuadas pelos próprios croatas, principalmente os membros do forte movimento fascista, o Ustashe, e os croatas pagaram aos nazistas trinta marcos para cada judeu deportado. Em troca, receberam toda a propriedade dos deportados. Isso estava de acordo com o “princípio territorial” oficial dos alemães, aplicável a todos os países europeus, pelo qual o Estado herdava as propriedades de todo judeu assassinado que residisse dentro de suas fronteiras, fosse qual fosse sua nacionalidade. (Os nazistas nem sempre respeitaram o “princípio territorial”; havia muitas maneiras de contorná-lo se parecesse valer a pena. Os empresários alemães podiam comprar diretamente dos judeus antes de eles serem deportados, e o Einsatzstab Rosenberg, inicialmente capacitado para confiscar todos os bens hebraicos e judeus para centros de pesquisa anti-semitas, logo ampliou suas atividades para incluir valiosas mobílias e obras de arte.) O prazo original de fevereiro de 1942 não pôde ser cumprido porque os judeus conseguiram escapar da Croácia para o território ocupado pela Itália, mas depois do golpe de Badoglio, Hermann Krumey, outro homem de Eichmann, chegou a Zagreb, e no outono de 1943 30 mil judeus haviam sido deportados para os centros de extermínio.
Só então os alemães compreenderam que o país ainda não estava judenrein. Na legislação antijudaica inicial, ele haviam observado um curioso parágrafo que transformava em “arianos honorários” todos os judeus que fizessem contribuições à “causa croata”. O número desses judeus tinha, evidentemente, aumentado muito durante os anos intermediários. Em outras palavras, os muito ricos que entregavam voluntariamente sua propriedade eram eximidos. Ainda mais interessante era o fato de o Serviço de Inteligência da SS (sob comando do Sturmbannführer Wilhelm Höttl, primeiro chamado como testemunha de defesa em Jerusalém, mas cuja declaração foi depois usada pela acusação) ter descoberto que quase metade dos membros da camarilha dominante na Croácia, do chefe do governo ao líder do Ustashe, casara-se com mulheres judias. Os quinhentos judeus sobreviventes dessa área — 5%, de acordo com um relatório governamental iugoslavo — eram claramente membros desse grupo judeu altamente assimilado e extraordinariamente rico. E como a porcentagem de judeus assimilados entre as massas no Leste foi sempre estimada em 5%, é tentador concluir que essa camada no Leste, quando possível, tinha uma probabilidade muito maior de sobreviver do que no resto da Europa.
As coisas eram muito diferentes no território vizinho da Sérvia, onde o exército de ocupação alemão, quase desde o seu primeiro dia ali, teve de lutar um tipo de guerra de guerrilha que pode ser comparado apenas à que ocorreu na Rússia por trás do front. Mencionei antes o único incidente que ligava Eichmann à liquidação de judeus na Sérvia. A sentença admitia que “as linhas normais de comando no tratamento dos judeus da Sérvia não ficam bem claras”, e a explicação é que o departamento de Eichmann não teve nenhum envolvimento nessa área porque nenhum judeu foi deportado. O “problema” foi solucionado todo no local. Com o pretexto de executar reféns, o Exército fuzilou toda a população judaica masculina; mulheres e crianças foram entregues ao comandante da Polícia de Segurança, um certo dr. Emanuel Schäfer, protegido especial de Heydrich, que os executou em caminhões de gás. Em agosto de 1942, o Staatsrat Harald Turner, chefe do ramo civil do governo militar, informou orgulhosamente que a Sérvia era “o único país onde os problemas tanto dos judeus quanto dos ciganos estavam resolvidos”, e levou os caminhões de gás de volta para Berlim. Estima-se em 5 mil os judeus que se juntaram aos guerrilheiros, e essa era a única via de escape.
Schäfer teve de enfrentar julgamento numa corte criminal alemã depois da guerra. Pela morte por gás de 6280 mulheres e crianças ele foi sentenciado a seis anos e seis meses de prisão. O governador militar da região, general Franz Böhme, cometeu suicídio, mas o Staatsrat Turner foi entregue ao governo da Iugoslávia e condenado à morte. É a mesma história que se repete: os que escaparam dos julgamentos de Nuremberg e não foram extraditados para os países onde cometeram seus crimes nunca foram levados à justiça ou encontraram nas cortes alemãs a maior “compreensão” possível. Vem à lembrança a infeliz República de Weimar, cuja especialidade era endossar o assassinato político se o assassino pertencia a um dos grupos violentamente anti-republicanos da direita.
A Bulgária teve mais razão do que qualquer outro país balcânico para sentir gratidão para com a Alemanha nazista em razão do considerável aumento territorial que recebeu a expensas da Romênia, da Iugoslávia e da Grécia. E no entanto a Bulgária não foi grata, e nem seu governo e seu povo foram suficientemente brandos para tornar factível a política de “dureza impiedosa”. Isso aparecia não apenas na questão judaica. A monarquia búlgara não tinha razão para se preocupar com o movimento fascista nativo, o Ratnizi, numericamente pequeno e politicamente sem influência, e o Parlamento continuava sendo um corpo altamente respeitado, que trabalhava muito bem com o rei. Por isso, eles ousaram se recusar a declarar guerra à Rússia e nunca mandaram nem mesmo uma força expedicionária de “voluntários” para o front do Leste. Porém o mais surpreendente, no cinturão de populações mistas onde o anti-semitismo florescia entre todos os grupos étnicos e havia se tornado política oficial dos governos muito antes da chegada de Hitler, os búlgaros não tinham a menor “compreensão do problema judeu”. É verdade que o Exército búlgaro havia concordado em deportar todos os judeus — um total de cerca de 1500 pessoas — dos territórios recém-anexados, que estavam sob governo militar e cuja população era anti-semita; mas é duvidoso que eles soubessem o que queria dizer de fato “reassentamento no Leste”. Um pouco antes, em janeiro de 1941, o governo havia concordado também em introduzir legislação anti-semita, a qual, do ponto de vista nazista, era simplesmente ridícula: cerca de 6 mil homens capacitados foram mobilizados para trabalhos forçados; todos os judeus batizados, independentemente da data de sua conversão, estavam isentos, e o resultado disso foi uma epidemia de conversões; outros 5 mil judeus — de um total de aproximadamente 50 mil — receberam privilégios especiais; e foi introduzido um numerus clausus para médicos e empresários judeus que era bastante alto, uma vez que tomava por base os judeus das cidades, em vez do campo em geral. Quando essas medidas foram postas em prática, os funcionários do governo búlgaro declararam publicamente que as coisas estavam agora estabilizadas para satisfação de todos. Era claro que os nazistas iam ter não apenas de esclarecê-los sobre as exigências da “solução do problema judeu”, como também ensiná-los que a estabilidade legal e o movimento totalitário não podiam ser conciliados.
As autoridades alemãs deviam ter alguma suspeita das dificuldades que havia à frente. Em janeiro de 1942, Eichmann escreveu uma carta ao Ministério das Relações Exteriores na qual declarava que “havia suficientes possibilidades para a recepção dos judeus na Bulgária”; ele propôs que o governo búlgaro fosse abordado, e garantiu ao Ministério das Relações Públicas que o adido policial em Sófia cuidaria “da implementação técnica da deportação”. (Esse adido de polícia parece não ter sido também muito entusiasta em seu trabalho, pois logo depois Eichmann mandou um de seus próprios homens, Theodor Dannecker, de Paris para Sófia como “conselheiro”.) É muito interessante observar que essa carta ia diretamente contra a notificação que Eichmann havia mandado à Sérvia poucos meses antes, declarando que nenhuma instalação para a recepção dos judeus havia ainda sido providenciada e que nem mesmo judeus do Reich poderiam ser deportados. A alta prioridade dada à tarefa de tornar a Bulgária judenrein só pode ser explicada se supusermos que Berlim recebeu informações precisas de que era preciso agir rapidamente para conseguir o que quer que fosse. Bem, os búlgaros foram abordados pela embaixada alemã, mas só seis meses depois é que deram o primeiro passo na direção de medidas “radicais” — a introdução do emblema judeu. Para os nazistas, isso resultou numa grande decepção. Em primeiro lugar, como relataram aplicadamente, o emblema era uma “estrela muito pequena”; segundo, a maioria dos judeus simplesmente não a usava; e, terceiro, aqueles que efetivamente a usaram receberam “tantas manifestações de apoio da população desorientada que acabaram orgulhosos de seu emblema” — como Walter Schellenberg, chefe da Contra-Inteligência do RSHA, escreveu num relatório transmitido ao Ministério das Relações Exteriores em novembro de 1942. Diante disso, o governo búlgaro revogou o decreto. Sob pressão alemã, o governo búlgaro finalmente decidiu expulsar todos os judeus de Sófia para as áreas rurais, mas essa medida definitivamente não foi o que os alemães exigiam, uma vez que dispersava os judeus em vez de concentrá-los.
Essa expulsão efetivamente marcou um importante ponto de virada em toda a situação, porque a população de Sófia tentou impedir que os judeus fossem para a estação ferroviária e em seguida fizeram uma manifestação diante do palácio do rei. Os alemães achavam que o rei Boris era em parte responsável por manter em segurança os judeus da Bulgária, e é quase certo que agentes da Inteligência alemã o mataram. Mas nem a morte do monarca, nem a chegada de Dannecker, no começo de 1943, mudou em nada a situação porque tanto o Parlamento como a população continuaram claramente do lado dos judeus. Dannecker conseguiu chegar a um acordo com o Comissário de Assuntos Judeus búlgaro para deportar 6 mil “judeus importantes” para Treblinka, mas nenhum desses judeus jamais deixou o país. O acordo em si é digno de nota porque demonstra que os nazistas não tinham esperança de convocar a liderança judaica para seus propósitos. O Rabino-Chefe de Sófia não foi encontrado, escondido que estava pelo Metropolita Stephan de Sófia, que havia declarado publicamente que “Deus havia determinado a sorte dos judeus, e os homens não tinham o direito de torturar judeus e persegui-los” (Hilberg) — o que era consideravelmente mais do que o Vaticano jamais fez. Finalmente, aconteceu na Bulgária a mesma coisa que aconteceria na Dinamarca meses depois — os funcionários alemães locais ficaram inseguros e não mais mereciam confiança. Isso era verdade tanto para o adido de polícia, membro da SS, que deveria agrupar e prender os judeus, quanto para o embaixador alemão em Sófia, Adolf Beckerle, que em junho de 1943 havia alertado o Ministério das Relações Exteriores para a situação sem esperanças, porque “os búlgaros conviviam havia muito com povos como o armênio, o grego e o cigano para conseguir avaliar o problema judeu” — o que, evidentemente, era uma tolice total, visto que o mesmo podia ser dito, mutatis mutandis, de todos os países da Europa Oriental e do Sudeste. Foi Beckerle também quem informou o RSHA, em tom claramente irritado, que nada mais podia ser feito. E o resultado foi que nem um único judeu búlgaro havia sido deportado ou tinha morrido de causa não natural quando, em agosto de 1944, com a aproximação do Exército Vermelho, as leis antijudaicas foram revogadas.
Não conheço nenhuma tentativa de explicar a conduta do povo búlgaro, que é única no cinturão de populações mistas. Mas vem à mente Georgi Dimitrov, o comunista búlgaro que estava por acaso na Alemanha quando os nazistas subiram ao poder e que eles resolveram acusar pelo Reichstagsbrand, o incêndio misterioso do Parlamento de Berlim em 27 de fevereiro de 1933. Ele foi julgado pela Suprema Corte alemã e confrontou-se com Göring, que o interrogou como se estivesse encarregado do julgamento; e foi graças a ele que todos aqueles acusados, exceto van der Lubbe, tiveram de ser absolvidos. Foi tal a sua conduta que ele conquistou a admiração do mundo inteiro, da Alemanha inclusive. “Sobrou um homem na Alemanha”, as pessoas costumavam dizer, “e ele é búlgaro.”
A Grécia, ocupada ao Norte pelos alemães e ao Sul pelos italianos, não apresentava problemas especiais e podia, portanto, esperar sua vez para ficar judenrein. Em fevereiro de 1943, dois especialistas de Eichmann, os Hauptsturmführers Dieter Wisliceny e Alois Brunner, chegaram para preparar tudo para a deportação dos judeus de Salônica, onde se concentravam dois terços dos judeus gregos, cerca de 55 mil pessoas. Isso estava de acordo com o plano “dentro do quadro da Solução Final do problema judeu na Europa”, como dizia sua carta de indicação da IV-B-4. Trabalhando em íntima colaboração com um certo Kriegsverwaltungsrat dr. Max Merten, que representava o governo militar da região, eles imediatamente estabeleceram um Conselho Judeu, com o Rabino-Chefe Koretz no comando. Wisliceny, que chefiava o Sonderkommando für Judenangelegenheiten em Salônica, introduziu o emblema amarelo, e logo fez saber que não seriam toleradas exceções. O dr. Merten mudou toda a população judaica para um gueto, do qual podia ser facilmente removida, uma vez que ficava perto da estação ferroviária. As únicas categorias privilegiadas foram os judeus com passaportes estrangeiros e, como sempre, o pessoal do Judenrat — não mais que poucas centenas de pessoas, que acabaram despachadas para o campo de troca de Bergen-Belsen. Não havia meio de escape a não ser a fuga para o Sul, onde os italianos, como em outras partes, se recusavam a entregar os judeus para os alemães, mas a segurança da zona italiana duraria pouco. A população grega era, na melhor das hipóteses, indiferente, e até mesmo alguns grupos guerrilheiros viam a operação “com aprovação”. Dentro de dois meses, toda a comunidade havia sido deportada, os trens partindo para Auschwitz quase diariamente, levando de 2 mil a 2500 judeus cada um, em vagões de carga. No outono do mesmo ano, quando o Exército italiano já entrara em colapso, completou-se rapidamente a evacuação de cerca de 13 mil judeus da parte Sul da Grécia, inclusive Atenas e as ilhas gregas.
Em Auschwitz, muitos judeus gregos foram empregados nos chamados comandos de morte, que operavam as câmaras de gás e o crematório, e ainda estavam vivos em 1944, quando os judeus húngaros foram exterminados e o gueto de Lódz foi liquidado. No final daquele verão, quando corria o boato de que a execução por gás seria interrompida e as instalações desmontadas, eclodiu uma das raríssimas revoltas de campo; os comandos de morte tinham certeza de que agora eles também seriam eliminados. A revolta foi um desastre completo — sobrou apenas um sobrevivente para contar a história.
Parece que a indiferença dos gregos para com o destino de seus judeus de alguma forma sobreviveu a sua libertação. O dr. Merten, testemunha da defesa no julgamento de Eichmann, afirma hoje, com certa inconsistência, que não sabia de nada e que salvou judeus do destino que ignorava. Ele voltou tranqüilamente à Grécia depois da guerra como representante de uma agência de viagens; foi preso, mas logo solto e recebeu permissão de voltar à Alemanha. Seu caso é talvez único, uma vez que julgamentos de crimes de guerra em outros países que não a Alemanha sempre resultaram em severas punições. E seu testemunho pela defesa, que ele prestou em Berlim na presença de representantes tanto da defesa quanto da acusação, certamente foi único. Ele afirmou que Eichmann tinha sido muito prestativo numa tentativa de salvar cerca de 20 mil mulheres e crianças em Salônica, e que todo o mal vinha de Wisliceny. No entanto, ele acabou afirmando que antes de prestar testemunho ele havia sido procurado pelo irmão de Eichmann, um advogado de Linz, e por uma organização alemã de ex-membros da SS. O próprio Eichmann negou tudo — ele nunca estivera na Salônica, e jamais tinha prestado auxílio ao dr. Merten.
Eichmann afirmou mais de uma vez que seu talento organizacional, a coordenação de evacuações e deportações obtidas por seu departamento, havia de fato ajudado suas vítimas, havia facilitado seu destino. Se essa coisa tinha de ser feita, argumentava ele, era melhor que fosse feita em boa ordem. Durante o julgamento, ninguém, nem mesmo o advogado de defesa, prestou atenção a essa alegação, que era evidentemente da mesma categoria que sua tola e teimosa afirmação de ter salvado as vidas de centenas de milhares de judeus por meio da “emigração forçada”. E no entanto, à luz do que ocorreu na Romênia, a coisa é de se pensar. Aí também foi tudo uma mixórdia, mas não como na Dinamarca, onde até os homens da Gestapo começaram a sabotar as ordens de Berlim; na Romênia, até a SS ficou perplexa, e às vezes assustada, com os horrores dos pogroms espontâneos, antiquados, de escala gigantesca; muitas vezes eles intervieram para salvar judeus da mais pura barbárie, para que o assassinato pudesse ser feito de maneira que, segundo eles, era civilizada.
Não chega a ser exagero afirmar que a Romênia foi o país mais anti-semita da Europa pré-guerra. Já no século XIX, o anti-semitismo romeno era um fato bem conhecido; em 1878, os grandes poderes tinham tentado intervir, por meio do Tratado de Berlim, para fazer o governo romeno reconhecer os habitantes judeus como cidadãos — mesmo que continuassem de segunda classe. Não obtiveram sucesso, e no fim da Primeira Guerra Mundial todos os judeus romenos — com exceção de algumas centenas de famílias sefardins e de alguns judeus de origem alemã — ainda eram estrangeiros residentes. Foi preciso todo o esforço dos Aliados, durante as negociações de paz, para “persuadir” o governo romeno a aceitar um tratado de minoria que garantisse cidadania à minoria judaica. Essa concessão à opinião mundial foi suspensa em 1937 e 1938, quando, confiando no poder da Alemanha hitlerista, os romenos sentiram que podiam denunciar os tratados de minoria como uma imposição a sua “soberania”, privando assim de cidadania várias centenas de milhares de judeus, aproximadamente um quarto da população judaica total. Dois anos depois, em agosto de 1940, alguns meses antes de a Romênia entrar na guerra do lado da Alemanha de Hitler, o marechal Ion Antonescu, chefe da nova ditadura da Guarda de Ferro, declarou apátridas todos os judeus romenos, com exceção de algumas centenas de famílias cujos membros eram cidadãos romenos antes dos tratados de paz. Nesse mesmo mês, ele instituiu também a legislação antijudaica mais severa da Europa, sem excluir a Alemanha. As categorias privilegiadas, de veteranos de guerra e judeus que eram romenos antes de 1918, compreendiam não mais de 10 mil pessoas, pouco mais de 1% de todo o grupo. O próprio Hitler tinha consciência do risco de ser superado pela Romênia, e reclamou com Goebbels em agosto de 1941, poucas semanas depois de ter ordenado a Solução Final, dizendo que “um homem como Antonescu procede nesses assuntos de maneira bem mais radical do que nós procedemos até o presente”.
A Romênia entrou na guerra em fevereiro de 1941, e a Legião Romena tornou-se uma força militar relevante na iminente invasão da Rússia. Só em Odessa, os soldados romenos foram responsáveis pelo massacre de 60 mil pessoas. Ao contrário dos governos de outros países balcânicos, o governo romeno estava muito bem informado desde o começo sobre os massacres de judeus no Leste, e soldados romenos, mesmo depois que a Guarda de Ferro foi despejada do governo, no verão de 1941, embarcaram num programa de massacres e deportações que chegou a “apequenar a violência promovida pela Guarda de Ferro em Bucareste” em janeiro do mesmo ano — um programa de horror sem paralelo em todos os registros de atrocidades (Hilberg). O estilo romeno de deportação consistia em juntar quinhentas pessoas em vagões de carga e deixá-las morrer por sufocação enquanto o trem viajava pelo campo sem destino nem objetivo durante dias e dias; um dos fechos preferidos para essas operações assassinas era expor os corpos em açougues judeus. Além disso, os horrores dos campos de concentração romenos, fundados e administrados pelos próprios romenos porque a deportação para o Leste era impraticável, eram mais elaborados e atrozes do que qualquer coisa que se conheça na Alemanha. Quando Eichmann enviou o usual conselheiro para assuntos judeus, Hauptsturmführer Gustav Richter, para Bucareste, Richter relatou que Antonescu agora queria despachar para liquidação 110 mil judeus para “duas florestas do outro lado do rio Bug”, ou seja, em território russo dominado pela Alemanha. Os alemães ficaram horrorizados e todo mundo interveio: os comandantes do Exército, o Ministério para os Territórios Ocupados do Leste, de Rosenberg; o Ministério das Relações Exteriores de Berlim, o ministro para Bucareste, Freiherr Manfred von Killinger — este último, um ex-alto oficial da SA, amigo pessoal de Röhm e, portanto, suspeito aos olhos da SS, foi provavelmente espionado por Richter, que o “aconselhava” em assuntos judeus. Sobre essa questão, porém, estavam todos de acordo. O próprio Eichmann implorou ao Ministério das Relações Exteriores, em carta datada de abril de 1942, que detivesse esses esforços romenos “de se livrar dos judeus”, prematuros e desorganizados nesse momento; era preciso dar a entender aos romenos que “a evacuação de judeus alemães, que já está a pleno vapor”, tinha prioridade, e concluiu ameaçando pôr “em ação a Polícia de Segurança”.
Por mais relutantes que os alemães estivessem em conceder à Romênia a mais alta prioridade na Solução Final jamais planejada originalmente para qualquer país balcânico, eles teriam de intervir se quisessem impedir que a situação deteriorasse em caos sangrento, e, por mais que Eichmann tenha gostado de ameaçar com o uso da Polícia de Segurança, seu treinamento não era exatamente voltado para salvar judeus. Por isso, em meados de agosto — quando os romenos já haviam matado quase 300 mil de seus judeus praticamente sem ajuda alemã — o Ministério das Relações Exteriores concluiu um acordo com Antonescu “para a evacuação dos judeus da Romênia por meio de unidades alemãs”, e Eichmann começou negociações com as ferrovias alemãs para obter vagões suficientes para transportar 200 mil judeus para os campos de extermínio da área de Lublin. Mas agora, com tudo pronto e essas grandes concessões feitas, os romenos repentinamente deram meia-volta. Como um raio em céu limpo, chegou a Berlim uma carta do confiável sr. Richter, dizendo que o marechal Antonescu havia mudado de idéia; como informava o embaixador Killinger, o marechal agora queria se livrar dos judeus “de maneira confortável”. O que os alemães não tinham levado em conta era de que se tratava não só de um país com uma porcentagem extremamente alta de simples assassinos: a Romênia era também o país mais corrupto dos Bálcãs. Lado a lado com os massacres, surgira um florescente negócio de venda de exceções, no qual cada ramo da burocracia, nacional e municipal, havia se envolvido alegremente. A especialidade do próprio governo eram as taxas gigantescas, baixadas ao acaso sobre certos grupos ou comunidades inteiras de judeus. Descobriu-se então que era possível vender judeus no exterior, em moeda forte, de forma que os romenos se tornaram adeptos fervorosos da emigração judaica — a 1300 dólares por cabeça. Foi assim que a Romênia veio a ser uma das poucas vias de escape para a emigração judaica para a Palestina durante a guerra. E com a aproximação do Exército Vermelho, Antonescu ficou ainda mais “moderado” e disposto a deixar os judeus partirem sem nenhuma compensação.
Fato curioso é que Antonescu, do começo ao fim, não era mais “radical” que os nazistas (como pensava Hitler), mas estava simplesmente um passo à frente das medidas alemãs. Ele foi o primeiro a privar os judeus de uma nacionalidade, ele começou os massacres em larga escala abertamente e sem vergonha numa época em que os nazistas ainda estavam ocupados com seus primeiros experimentos. Ele teve a idéia de vender judeus mais de um ano antes de Himmler oferecer “sangue em troca de caminhões”, e foi ele que, como Himmler também faria, acabou suspendendo a coisa toda como se não passasse de uma piada. Em agosto de 1944, a Romênia rendeu-se ao Exército Vermelho, e Eichmann, especialista em evacuação, foi mandado imediatamente para a área a fim de salvar alguns “alemães étnicos”, sem sucesso. Cerca de metade dos 850 mil judeus da Romênia sobreviveu, grande número dos quais — várias centenas de milhares — encontrou seu destino em Israel. Ninguém sabe quantos judeus restam hoje no país. Os assassinos romenos foram todos devidamente executados, e Killinger cometeu suicídio antes que os russos conseguissem pôr as mãos nele; só o Hauptsturmführer a. D. Richter, que na verdade nunca teve oportunidade de entrar na dança, viveu pacificamente na Alemanha até 1961, quando se tornou uma vítima tardia do julgamento de Eichmann.