Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal
III. Um perito na questão judaica
III
UM PERITO NA QUESTÃO JUDAICA
Em 1934, quando Eichmann solicitou um emprego e foi atendido, o SD era uma entidade relativamente nova na SS, fundado dois anos antes por Heinrich Himmler, para funcionar como Serviço de Inteligência do Partido, e era agora liderada por Reinhardt Heydrich, antigo oficial da Inteligência da Marinha, que viria a ser, conforme diz Gerald Reitlinger, “o verdadeiro engenheiro da Solução Final” (The Final Solution, 1961). Sua tarefa inicial fora espionar membros do Partido para assim garantir à SS uma ascendência sobre o aparelho regular do Partido. Nesse ínterim, a entidade assumira outros encargos, tornando-se o centro de informação e pesquisa da Polícia Secreta do Estado, a Gestapo. Esses foram os primeiros passos da fusão entre a SS e a polícia, que, no entanto, só foi efetivada em setembro de 1939, embora Himmler ocupasse o duplo posto de Reichsführer SS e Chefe da Polícia Alemã de 1936 em diante. Eichmann, evidentemente, não podia saber desses futuros desenvolvimentos, mas aparentemente também não sabia nada sobre a natureza do SD quando ingressou nele; isso é muito possível, porque as operações do SD sempre foram altamente secretas. No que lhe dizia respeito, tudo não passava de um equívoco e, de início, “uma grande decepção. Pois pensei que isso era o que tinha lido no Münchener Illustrierten Zeitung; quando os altos oficiais do Partido saíam de carro, havia comandos de guardas com eles, homens viajando em pé nos batentes dos carros [...] Em resumo, eu tinha tomado o Serviço de Segurança do Reichsführer pelo Serviço de Segurança do Reich [...] e ninguém me corrigiu e ninguém me contou nada. Pois eu não tinha a menor noção daquilo que agora me revelavam”. A questão de ele estar ou não falando a verdade teve certa relevância no julgamento, onde se tinha de decidir se ele havia sido voluntário para a sua posição ou se havia sido convocado a ela. Seu equívoco, se é que houve algum, não era inexplicável; a SS ou Schutzstafeln tinha sido fundada como unidade especial de proteção dos líderes do Partido.
Sua decepção, porém, devia-se principalmente ao fato de ter de começar tudo de novo, de estar embaixo de novo, e seu único consolo era que outros haviam cometido o mesmo erro. Foi designado para o departamento de Informação, onde seu primeiro trabalho foi arquivar toda informação relativa à maçonaria (que, na confusão ideológica inicial do nazismo, ficou um tanto misturada ao judaísmo, ao catolicismo e ao comunismo) e ajudar a montar um museu sobre a maçonaria. Ele agora tinha grandes oportunidades de aprender o que significava essa estranha palavra que Kaltenbrunner havia disparado na discussão sobre a Schlaraffia. (Incidentalmente, uma das características dos nazistas era a disposição de fundar museus celebrando seus inimigos. Durante a guerra, diversas entidades disputaram ferrenhamente a honra de fundar museus e bibliotecas antijudaicos. Devemos a essa estranha mania a preservação de muitos tesouros culturais do judaísmo europeu.) O problema é que as coisas eram, novamente, muito, muito tediosas, e ele ficou aliviado quando, depois de quatro ou cinco meses ocupado com a maçonaria, foi transferido para um departamento novo em folha, referente aos judeus. Esse foi o verdadeiro começo da carreira que terminaria na corte de Jerusalém.
Era o ano de 1935, quando a Alemanha, contrariamente às determinações do Tratado de Versalhes, introduziu a convocação geral e anunciou publicamente planos de rearmamento, inclusive a construção de uma força aérea e uma marinha. Era também o ano em que a Alemanha, tendo deixado a Liga das Nações em 1933, preparava, nem discreta, nem secretamente, a ocupação da zona desmilitarizada do Reno. Era o momento dos discursos de paz de Hitler — “a Alemanha precisa de paz e deseja a paz”, “reconhecemos a Polônia como lar de um grande povo consciente de sua nacionalidade”, “a Alemanha não pretende nem deseja interferir nos negócios internos da Áustria, nem anexar a Áustria, nem concluir um Anchluss” — e, acima de tudo, era o ano em que o regime nazista conquistaria reconhecimento generalizado e infelizmente genuíno na Alemanha e no exterior, em que Hitler seria admirado por toda parte como um grande estadista. Na própria Alemanha, aquela era uma época de transição. Devido ao enorme programa de rearmamento, o desemprego havia sido eliminado, a resistência inicial da classe trabalhadora fora quebrada, e a hostilidade do regime, que de início voltara-se primordialmente contra “antifascistas” — comunistas, socialistas, intelectuais de esquerda e judeus em posições importantes —, ainda não se voltara inteiramente para a perseguição de judeus enquanto judeus.
Sem dúvida, um dos primeiros passos do governo nazista, em 1933, foi a exclusão dos judeus do serviço público (que na Alemanha compreendia todos os postos de professor, desde a escola primária até a universidade, e a maior parte dos ramos da indústria de entretenimento, inclusive o rádio, o teatro, a ópera e os concertos) e a sua remoção de postos públicos. Mas os negócios particulares continuaram quase intocados até 1938, e mesmo as profissões legal e médica só gradualmente foram sendo abolidas, embora os estudantes judeus fossem excluídos da maior parte das universidades e não lhes fosse permitido formar-se em parte alguma. A emigração de judeus nesses anos não foi indevidamente acelerada e transcorreu de forma ordeira, e as restrições que dificultavam, mas não impossibilitavam que os judeus levassem seu dinheiro, ou pelo menos boa parte dele, para fora do país eram as mesmas para judeus e não-judeus; e essas restrições vinham desde os dias da República de Weimar. Havia certo número de Eizenlaktionen, ações individuais que pressionavam os judeus a vender suas propriedades a preços muitas vezes ridiculamente baixos, mas isso ocorria geralmente em cidades pequenas, e na verdade, deviam-se à iniciativa “individual”, espontânea, de alguns membros das tropas de assalto, como eram os assim chamados homens da SA, recrutados entre as classes baixas, à exceção dos oficiais. A polícia, é verdade, nunca impediu esses “excessos”, mas as autoridades nazistas não estavam satisfeitas com eles, porque afetavam o valor dos imóveis em todo o país. Os emigrantes, a menos que fossem refugiados políticos, eram jovens que compreenderam que não havia futuro para eles na Alemanha. E como eles logo descobriram que não havia futuro para eles também em outros países europeus, alguns emigrantes judeus chegaram a voltar durante esse período. Quando perguntaram a Eichmann como ele conseguia conciliar seus sentimentos pessoais sobre os judeus com o anti-semitismo aberto e violento do Partido a que se filiara, ele respondeu com o provérbio: “Nada é tão quente para se comer, como era ao se cozer” — provérbio que andava na boca de muitos judeus também. Eles viviam num paraíso ilusório, no qual, durante alguns anos, até mesmo Streicher falava de uma “solução legal” para o problema judeu. Para tirá-los desse engano, foi preciso levar a cabo os pogroms organizados de novembro de 1938, a Kristallnacht ou Noite dos Cristais, em que 7500 vitrinas de lojas judaicas foram quebradas, todas as sinagogas foram incendiadas e 20 mil judeus foram levados para campos de concentração.
O cerne da questão, muitas vezes esquecido, é que as famosas Leis de Nuremberg, promulgadas no outono de 1935, não conseguiram desfazer o engano. As declarações de três testemunhas da Alemanha, antigos funcionários de alto nível da Organização Sionista, que deixaram a Alemanha logo depois de estourar a guerra, só forneceram uma amostra do verdadeiro estado de coisas durante os primeiros cinco anos do regime nazista. As Leis de Nuremberg privavam os judeus de seus direitos políticos, mas não de seus direitos civis; eles não eram mais cidadãos (Reichsbürger), mas continuavam membros do Estado alemão (Staatsangehörige). Mesmo que emigrassem, não ficariam automaticamente sem nacionalidade. Era proibido o ato sexual entre judeus e alemães, bem como a realização de casamentos mistos. Além disso, nenhuma mulher alemã com menos de 45 anos podia se empregar numa casa judaica. De todas essas estipulações, somente a última tinha alguma importância prática; as outras meramente legalizavam uma situação de fato. Daí as Leis de Nuremberg serem sentidas como estabilizadoras de uma nova situação dos judeus no Reich alemão. Para dizer o mínimo, eles já eram cidadãos de segunda classe desde 30 de janeiro de 1933; sua separação quase completa do resto da população havia sido obtida em semanas ou meses — por meio do terror, mas também por meio da conivência mais que normal de todos a sua volta. “Havia uma muralha entre os gentios e os judeus”, atestou o dr. Benno Cohn, de Berlim. “Não consigo me lembrar de ter conversado com um cristão durante todas as minhas viagens pela Alemanha.” Os judeus sentiam que agora haviam recebido leis próprias e não seriam mais postos fora da lei. Se fossem discretos, como já eram forçados a ser, poderiam viver sem ser molestados. Nas palavras da Reichsvertretung dos judeus na Alemanha (a associação nacional de todas as comunidades e organizações, fundada em setembro de 1933, por iniciativa da comunidade de Berlim, e que não era em nada controlada pelos nazistas), a intenção das Leis de Nuremberg era “estabelecer um nível em que fosse possível uma relação tolerável entre os povos alemão e judeu”, ao que um membro da comunidade de Berlim, sionista radical, acrescentou: “A vida é possível com qualquer lei. Mas não se pode viver em completa ignorância do que é permitido e do que não é. Pode-se ser também um cidadão útil e respeitado enquanto membro de uma minoria no meio de um grande povo” (Hans Lamm, Über die Entwicklung des deutschen Judentums, 1951). E como Hitler, no expurgo Röhm, de 1934, tinha acabado com o poder das SA, as tropas de assalto de camisas marrons que foram quase exclusivamente responsáveis pelos primeiros pogroms e atrocidades, e como os judeus estavam tranqüilamente inconscientes do crescente poder da SS de camisas negras, que ordenadamente se abstinha daquilo que Eichmann chamava, com desdém, de “método Sturm”, eles acreditaram, no geral, que haveria um modus vivendi possível; chegaram a se oferecer para cooperar com “a solução da questão judaica”. Em resumo, quando Eichmann começou seu aprendizado em assuntos judeus, nos quais, quatro anos depois, seria reconhecidamente um “perito”, e quando fez os primeiros contatos com funcionários judeus, tanto sionistas como assimilacionistas falavam em termos de uma grande “ressurreição judaica”, um “grande movimento construtivo do judaísmo alemão” e ainda discutiam entre eles em termos ideológicos se a emigração judaica era desejável, como se isso dependesse de suas vontades.
Durante o interrogatório na polícia, o relato de Eichmann sobre sua chegada ao novo departamento — distorcido, é claro, mas não isento de verdade — relembra, estranhamente, esse paraíso ilusório. A primeira coisa que aconteceu foi que seu novo chefe, um certo von Mildenstein, que logo depois foi transferido para a Organisation Todt, de Albert Speer, onde ficou encarregado da construção de rodovias (ele era o que Eichmann fingia ser: engenheiro por profissão), exigiu que ele lesse Der Judenstaat de Theodor Herzl, o famoso clássico sionista, que converteu Eichmann ao sionismo, imediata e definitivamente. Ao que parece, foi o primeiro livro sério que ele leu na vida, e marcou-o para sempre. Daí em diante, conforme repetiu insistentemente, ele não pensava em nada além de uma “solução política” (por oposição à posterior “solução física”, sendo que a primeira significava expulsão e a segunda o extermínio) e em como “conseguir alguma base sólida para os judeus”. (Talvez valha a pena mencionar que, ainda em 1939, ele parece ter protestado contra os violadores do túmulo de Herzl em Viena, e há indícios de sua presença em trajes civis na comemoração do trigésimo quinto aniversário da morte de Herzl. O mais estranho é que ele não falou dessas coisas em Jerusalém, onde se gabava de suas boas relações com os funcionários judeus.) A fim de ajudar nessa empresa, ele começou a divulgar esse evangelho entre seus companheiros de SS, fazendo palestras e escrevendo panfletos. Ele então adquiriu um verniz de hebraico, que lhe permitia ler com dificuldade um jornal iídiche — nada muito complicado, uma vez que o iídiche, basicamente um velho dialeto alemão escrito com letras hebraicas, pode ser entendido por toda pessoa de língua alemã que domine algumas dezenas de palavras hebraicas. Chegou a ler mais um livro, História do sionismo (durante o julgamento sempre confundia esse livro com o Judenstaat, de Herzl), de Josef Böhm, e isso era talvez uma considerável conquista para um homem que, segundo ele próprio, sempre relutara em ler toda e qualquer coisa além de jornais, e que, para desânimo do pai, nunca recorrera aos livros da biblioteca familiar. Acompanhando Böhm, ele estudou as organizações do movimento sionista, com todos os seus partidos, grupos jovens e diferentes programas. Isso ainda não fazia dele uma “autoridade”, mas foi suficiente para que conquistasse uma indicação como espião oficial dos escritórios sionistas e de suas reuniões: vale notar que seu aprendizado sobre assuntos judeus era quase inteiramente voltado para o sionismo.
Seus primeiros contatos pessoais com funcionários judeus, todos eles bem conhecidos sionistas de longa data, foram inteiramente satisfatórios. A razão de tanto fascínio pela “questão judaica”, conforme ele próprio explicou, era seu “idealismo”; esses judeus, ao contrário dos assimilacionistas, que sempre desprezou, e ao contrário dos judeus ortodoxos, que achava tediosos, eram “idealistas” como ele próprio. Um “idealista”, segundo as noções de Eichmann, não era simplesmente um homem que acreditava numa “idéia” ou alguém que não roubava nem aceitava subornos, embora essas qualificações fossem indispensáveis. Um “idealista” era um homem que vivia para a sua idéia — portanto não podia ser um homem de negócios — e que por essa idéia estaria disposto a sacrificar tudo e, principalmente, todos. Quando ele disse no interrogatório da polícia que teria mandado seu próprio pai para a morte se isso tivesse sido exigido, não queria simplesmente frisar até que ponto se achava cumprindo ordens e pronto para executá-las; queria também mostrar o “idealista” que sempre fora. O “idealista” perfeito, como todo mundo, tinha evidentemente seus sentimentos e emoções pessoais, mas jamais permitia que interferissem em suas ações se entrassem em conflito com sua “idéia”. O maior “idealista” que Eichmann encontrou entre os judeus foi o dr. Rudolf Kastner, com quem negociou durante as deportações judaicas da Hungria e com quem firmou um acordo: Eichmann permitiria a partida “legal” de alguns milhares de judeus para a Palestina (os trens eram, de fato, guardados pela polícia alemã) em troca de “ordem e tranqüilidade” nos campos de onde centenas de milhares eram enviados para Auschwitz. Os poucos milhares salvos por esse acordo, judeus importantes e membros das associações jovens de sionistas, eram, nas palavras de Eichmann, “o melhor material biológico”. O dr. Kastner, no entender de Eichmann, sacrificara seus irmãos judeus a sua “idéia”, e assim devia ser. O juiz Benjamin Halevi, um dos três juízes do julgamento de Eichmann, foi o encarregado do julgamento de Kastner em Israel, no qual Kastner teve de se defender da acusação de cooperação com Eichmann e outros nazistas de alto escalão; na opinião de Halevi, Kastner tinha “vendido a alma ao diabo”. Agora que o próprio diabo estava no banco dos réus, ele se revelava um “idealista”, e embora possa ser difícil de acreditar, é bem possível que alguém que vendeu sua alma ao diabo também seja um “idealista”.
Muito antes de isso acontecer, Eichmann teve a primeira oportunidade de pôr em prática o que havia assimilado em seu aprendizado. Depois do Auschluss (a anexação da Áustria ao Reich), em março de 1938, ele foi mandado a Viena para organizar um tipo de emigração que era inteiramente desconhecido na Alemanha, onde até o outono de 1938 mantinha-se a ficção de que os judeus, se quisessem, tinham permissão, mas não eram forçados, a deixar o país. Entre as razões para os judeus alemães acreditarem nessa ficção estavam o programa do NSDAP, formulado em 1920, que ao lado da Constituição de Weimar gozou o curioso destino de nunca ter sido abolido inteiramente; seus Vinte e Cinco Pontos chegaram a ser declarados “inalteráveis” por Hitler. À luz de acontecimentos posteriores, suas posições anti-semitas eram de fato inofensivas: os judeus não eram cidadãos completos, não podiam ocupar cargos públicos, não podiam aparecer na imprensa, e todos os que tivessem obtido cidadania alemã depois de 2 de agosto de 1914 — data do início da Primeira Guerra Mundial — deviam ser desnaturalizados, o que os sujeitava à expulsão. (Caracteristicamente, a desnaturalização foi efetivada imediatamente, mas a expulsão maciça de cerca de 15 mil judeus, que do dia para a noite foram jogados para fora pela fronteira polonesa em Zbaszyn, onde foram prontamente internados em campos, só veio a ocorrer cinco anos depois, quando ninguém mais a esperava.) O programa do Partido nunca foi levado a sério pelos funcionários nazistas; eles se orgulhavam de pertencer a um movimento, que não devia ser confundido com um partido, e um movimento não podia se prender a um programa. Já antes da ascensão dos nazistas ao poder, esses Vinte e Cinco Pontos não passavam de uma concessão ao sistema partidário e a possíveis eleitores antiquados o bastante para querer saber qual o programa do partido a que estavam se filiando. Eichmann, como vimos, estava livre desses hábitos deploráveis, e quando disse à corte de Jerusalém que não conhecia o programa de Hitler é muito provável que estivesse dizendo a verdade: “O programa do Partido não importava, a gente sabia a quê estava se filiando”. Os judeus, por outro lado, eram antiquados o bastante para saber de cor os Vinte e Cinco Pontos e acreditar neles; tudo o que contradissesse a implementação do programa do Partido eles tendiam a atribuir a “excessos revolucionários” passageiros de membros ou grupos indisciplinados.
Mas o que aconteceu em Viena em março de 1938 foi inteiramente diferente. A tarefa de Eichmann havia sido definida como “emigração forçada” e as palavras queriam dizer exatamente isso: todos os judeus, independentemente de seus desejos ou de sua cidadania, eram forçados a emigrar — ato que em linguagem comum se chama expulsão. Sempre que pensava nesses doze anos que constituíam a sua vida, Eichmann destacava seu ano em Viena na chefia do Centro de Emigração dos Judeus Austríacos como seu período mais feliz e bem-sucedido. Pouco antes, ele fora promovido ao grau de oficial, tornando-se Untersturmführer, ou tenente, e foi condecorado por seu “conhecimento abrangente dos métodos de organização e ideologia do oponente, o judaísmo”. O posto em Viena era seu primeiro trabalho importante, e toda a sua carreira, que progredira bem lentamente, estava em jogo. Ele devia estar louco para acertar, e seu sucesso foi espetacular: em oito meses, 45 mil judeus deixaram a Áustria, enquanto não mais que 19 mil deixavam a Alemanha no mesmo período; em menos de dezoito meses, a Áustria foi “limpa” de cerca de 148 mil pessoas, aproximadamente 60% de sua população judaica, das quais todas deixaram o país “legalmente”; até mesmo depois do início da guerra, cerca de 60 mil judeus conseguiram escapar. Como ele fez isso? A idéia básica que possibilitou tudo isso evidentemente não era dele, mas, quase com certeza, foi uma diretiva específica de Heydrich, que o havia mandado a Viena. (Eichmann não foi claro quanto a essa questão de autoria, que implicitamente afirmava ser sua; as autoridades israelenses, por outro lado, presas [como afirma o Boletim do Yad Vashem] à fantástica “tese da responsabilidade absoluta de Adolf Eichmann” e da ainda mais fantástica “suposição de que uma só cabeça [a dele] estava por trás disso tudo”, ajudaram-no consideravelmente em seu empenho de se promover com os feitos alheios, coisa para a qual tinha um grande pendor.) A idéia, conforme foi explicada por Heydrich numa reunião com Göring na manhã da Kristallnacht, era simples e engenhosa: “Por intermédio da comunidade judaica, extraímos certa quantia de dinheiro dos judeus ricos que queriam emigrar. Ao pagar essa soma, e uma soma adicional em moeda estrangeira, eles possibilitavam que os judeus pobres partissem. O problema não era fazer os judeus ricos irem embora, mas se livrar da massa judaica”. E esse “problema” não foi resolvido por Eichmann. Só depois de terminado o julgamento é que se ficou sabendo, por meio do Instituto Estatal de Documentação de Guerra dos Países Baixos, que Erich Rajakowitsch, um “brilhante advogado” que Eichmann, segundo seu testemunho, “empregou para lidar com as questões legais do escritório central da emigração judaica em Viena, Praga e Berlim”, tinha dado origem à idéia dos “fundos de emigração”. Um pouco depois, em abril de 1941, Rajakowitsch foi mandado à Holanda por Heydrich a fim de “estabelecer lá um escritório central que servisse de modelo para a ‘solução da questão judaica’ em todos os países ocupados da Europa”.
Mesmo assim, restavam problemas que só poderiam ser resolvidos no curso da operação, e não há dúvidas de que foi aí que Eichmann, pela primeira vez em sua vida, descobriu em si mesmo algumas qualidades especiais. Havia duas coisas que ele sabia fazer bem, melhor do que os outros: organizar e negociar. Logo ao chegar, entabulou negociações com os representantes da comunidade judaica, que antes de mais nada ele teve de libertar das prisões e dos campos de concentração, uma vez que o “zelo revolucionário” da Áustria, ultrapassando em muito os primeiros “excessos” da Alemanha, havia resultado na prisão de praticamente todos os judeus importantes. Depois dessa experiência, os funcionários judeus não precisavam de Eichmann para convencê-los de que a emigração era desejável. Ao contrário, eles informaram Eichmann das grandes dificuldades que tinha pela frente. Além do problema financeiro, já “resolvido”, a maior dificuldade estava no número de papéis que cada emigrante tinha de reunir para poder deixar o país. Cada documento era válido apenas por determinado período, de forma que a validade do primeiro geralmente expirava muito antes de o último ser obtido. Quando Eichmann entendeu como a coisa toda funcionava, ou melhor, não funcionava, ele “se pôs a pensar” e “concebi a idéia que achei que iria fazer justiça a ambas as partes”. Ele imaginou “uma linha de montagem, na qual o primeiro documento era posto no começo, depois iam sendo inseridos os outros papéis, e no final o passaporte teria de sair como produto final”. Isso poderia ser realizado se todos os funcionários envolvidos — o Ministério das Finanças, o pessoal do imposto de renda, a polícia, a comunidade judaica etc. — trabalhassem sob um mesmo teto e fossem forçados a fazer seu trabalho na hora, na presença do solicitante, que não teria mais de correr de seção para seção e, é de se supor, seria também poupado de alguns humilhantes subterfúgios usados contra ele e de despesas certas com propinas. Quando estava tudo pronto e a linha de montagem estava fazendo seu trabalho rápida e eficientemente, Eichmann “convidou” os funcionários judeus de Berlim para inspecioná-la. Eles ficaram horrorizados: “Isto é como uma fábrica automática, como um moinho de farinha ligado a uma padaria. Numa ponta você põe um judeu que ainda tem alguma propriedade, uma fábrica, uma loja, uma conta no banco, depois ele atravessa o edifício de balcão em balcão, de sala em sala, e sai na outra ponta sem dinheiro, sem direitos, apenas com um passaporte onde se lê: ‘Você deve deixar o país dentro de quinze dias. Senão, irá para um campo de concentração’”.
Claro que isso era, essencialmente, verdadeiro, mas não era toda a verdade do processo. Esses judeus não podiam ser deixados “sem dinheiro” pela simples razão de que na época nenhum país os aceitaria sem dinheiro. Eles precisavam, e recebiam, seu Vorzeigegeld, a quantia que tinham de mostrar para conseguir seus vistos e para passar pelos controles de imigração do país que fosse recebê-los. Para isso, precisavam de moeda estrangeira, que o Reich não tinha nenhuma intenção de gastar com judeus. Essa necessidade não podia ser suprida pelas contas bancárias de judeus em países estrangeiros, as quais, de todo modo, era difícil movimentar por serem ilegais havia anos; Eichmann então mandou funcionários judeus ao estrangeiro para solicitar fundos das grandes organizações judaicas, e esses fundos eram vendidos à comunidade judaica de futuros emigrantes com lucro considerável — o dólar, por exemplo, era vendido a dez ou vinte marcos quando no mercado seu valor era de 4,20 marcos. Foi principalmente dessa maneira que a comunidade adquiriu não apenas o dinheiro necessário para os judeus pobres e as pessoas que não tinham conta no exterior, como também os fundos de que precisava para suas atividades enormemente expandidas. Eichmann não conseguiu possibilitar esse arranjo sem enfrentar considerável oposição das autoridades financeiras alemãs — o Ministério e o Tesouro —, que afinal de contas não podiam deixar de saber que essas transações levariam à desvalorização do marco.
Falar demais foi o vício que arruinou Eichmann. Era bazófia pura quando ele disse aos seus homens nos últimos dias da guerra: “Eu vou dançar no meu túmulo, rindo, porque a morte de 5 milhões de judeus [ou “inimigos do Reich” conforme ele sempre afirmou ter dito] na consciência me dá enorme satisfação”. Ele não dançou, e se tinha alguma coisa na consciência, não era assassinato, mas sim o fato de ter esbofeteado o dr. Josef Löwenherz, chefe da comunidade judaica de Viena, que depois se tornou um de seus judeus favoritos. (Ele se desculpou na frente de seus funcionários na época, mas esse incidente sempre o incomodava.) Era um absurdo se responsabilizar pela morte de 5 milhões de judeus, total aproximado das perdas sofridas pelo esforço combinado de todos os departamentos e entidades nazistas, e ele sabia disso muito bem, mas continuava repetindo a frase maldita ad nauseam para todo mundo que quisesse ouvir, até doze anos depois, na Argentina, porque dava-lhe “uma excepcional sensação de ânimo pensar que estava saindo do palco assim”. (O ex-Legationsrat Horst Grell, testemunha da defesa, que conheceu Eichmann na Hungria, disse que em sua opinião Eichmann estava se exibindo. Isso devia ser óbvio para todos que o ouviam pronunciando essa frase absurda.) Era bazófia pura quando ele pretendia ter “inventado” o sistema de guetos ou ter “concebido a idéia” de despachar todos os judeus europeus para Madagascar. O gueto de Theresienstadt, cuja “paternidade” Eichmann pleiteava, foi fundado anos depois de o sistema de guetos ter sido adotado nos territórios ocupados do Leste, e o estabelecimento de um gueto especial para certas categorias privilegiadas era, assim como o sistema de guetos, “idéia” de Heydrich. O plano de Madagascar parece ter “nascido” nas instalações do Ministério das Relações Exteriores, e a contribuição de Eichmann acabou devendo muito a seu amado dr. Löwenherz, que ele convocara para registrar “algumas idéias básicas” sobre como fazer para, terminada a guerra, transferir cerca de 4 milhões de judeus da Europa para a Palestina — visto que o projeto Madagascar era altamente confidencial. (Quando, no julgamento, ele se viu confrontado com o relatório de Löwenherz, Eichmann não negou sua autoria; foi um dos poucos momentos em que ele pareceu genuinamente envergonhado.) O que acabou levando a sua captura foi sua compulsão a contar vantagem — ele estava “cheio de não passar de um viajante anônimo entre mundos” — e essa compulsão deve ter ficado mais forte à medida que o tempo passava, não só porque ele não tinha nada que considerasse digno de ser feito, como também porque a era pós-guerra atribuíra tanta “fama” inesperada a ele.
Mas vangloriar-se é um vício comum, e uma falha mais específica, e também mais decisiva, no caráter de Eichmann era sua quase total incapacidade de olhar qualquer coisa do ponto de vista do outro. Em nenhum ponto essa falha foi mais notável do que em seu relato do episódio de Viena. Ele, seus homens e os judeus estavam todos “se esforçando juntos” e cada vez que havia alguma dificuldade os funcionários judeus vinham correndo até ele para “desabafar seus corações”, contar-lhe todo “seu sofrimento e dor”, e pedir sua ajuda. Os judeus “desejavam” emigrar, e ele, Eichmann, estava ali para ajudá-los, porque aconteceu de, ao mesmo tempo, as autoridades nazistas terem expressado o desejo de ver o Reich judenrein. Os dois desejos coincidiam, e ele, Eichmann, podia “fazer justiça a ambas as partes”. No julgamento, ele jamais cedeu um milímetro quando chegava nessa parte da história, embora concordasse que hoje, quando “os tempos mudaram tanto”, os judeus podem não gostar mais de se lembrar desse “esforço conjunto” e ele não queria “ferir seus sentimentos”.
O texto alemão do interrogatório policial gravado, realizado de 29 de maio de 1960 a 17 de janeiro de 1961, com cada página corrigida e aprovada por Eichmann, constitui uma verdadeira mina de ouro para um psicólogo — contanto que ele tenha a sabedoria de entender que o horrível pode ser não só ridículo como rematadamente engraçado. Parte do humor não pode ser transmitido em outra língua, porque está justamente na luta heróica que Eichmann trava com a língua alemã, que invariavelmente o derrota. É engraçado quando ele usa o termo “palavras aladas” (geflügelte Worte, um coloquialismo alemão para designar citações famosas dos clássicos) querendo dizer frases feitas, Redensarten, ou slogans, Schlagworte. Era engraçado quando, durante a inquirição sobre os documentos Sassen, feita em alemão pelo juiz presidente, ele usou a frase “kontra geben” (pagar na mesma moeda), para indicar que havia resistido aos esforços de Sassen para melhorar suas histórias; o juiz Landau, desconhecendo evidentemente os mistérios dos jogos de cartas (de onde provém a expressão), não entendeu, e Eichmann não conseguiu achar nenhuma outra maneira de se expressar. Vagamente consciente de uma incapacidade que deve tê-lo perseguido ainda na escola — chegava a ser um caso brando de afasia — ele pediu desculpas, dizendo: “Minha única língua é o oficialês [Amtssprache]”. Mas a questão é que o oficialês se transformou em sua única língua porque ele sempre foi genuinamente incapaz de pronunciar uma única frase que não fosse um clichê. (Será que foram esses clichês que os psiquiatras acharam tão “normais” e “desejáveis”? Serão essas as “idéias positivas” que um clérigo espera encontrar nas almas para as quais ministra? A melhor oportunidade para Eichmann demonstrar esse lado positivo de seu caráter em Jerusalém surgiu quando o jovem oficial de polícia encarregado de seu bem-estar mental e psicológico deu-lhe um exemplar de Lolita para relaxar. Dois dias mais tarde, Eichmann devolveu o livro, visivelmente indignado; “Um livro nada saudável” — “Das ist aber ein sehr unerfreuliches Buch” — disse ele a seu guarda.) Sem dúvida, os juízes tinham razão quando disseram ao acusado que tudo o que dissera era “conversa vazia” — só que eles pensaram que o vazio era fingido, e que o acusado queria encobrir outros pensamentos que, embora hediondos, não seriam vazios. Essa idéia parece ter sido refutada pela incrível coerência com que Eichmann, apesar de sua má memória, repetia palavra por palavra as mesmas frases feitas e clichês semi-inventados (quando conseguia fazer uma frase própria, ele a repetia até transformá-la em clichê) toda vez que se referia a um incidente ou acontecimento que achava importante. Quer estivesse escrevendo suas memórias na Argentina ou em Jerusalém, quer falando com o interrogador policial ou com a corte, o que ele dizia era sempre a mesma coisa, expressa com as mesmas palavras. Quanto mais se ouvia Eichmann, mais óbvio ficava que sua incapacidade de falar estava intimamente relacionada com sua incapacidade de pensar, ou seja, de pensar do ponto de vista de outra pessoa. Não era possível nenhuma comunicação com ele, não porque mentia, mas porque se cercava do mais confiável de todos os guarda-costas contra as palavras e a presença de outros, e portanto contra a realidade enquanto tal.
Confrontado durante oito meses com a realidade de ser interrogado por um policial judeu, Eichmann não teve a menor hesitação em explicar a ele, com consideráveis detalhes, e repetidas vezes, porque tinha sido incapaz de atingir uma patente mais alta na SS e porque isso não era culpa sua. Ele tinha feito tudo, até pedido para ser enviado para o serviço militar ativo — “Para o front, eu disse a mim mesmo, assim o Standartenführer (coronelato) chega mais depressa”. Na corte, ao contrário, ele fingiu ter pedido a transferência a fim de escapar de deveres assassinos. Ele não insistiu muito nisso, porém, e a corte estranhamente não o confrontou com suas afirmações ao capitão Less, a quem ele também dissera que esperava ser nomeado para os Einsatzgruppen, as unidades de morte móveis no Leste, porque quando elas foram formadas, em março de 1941, sua função pessoal estava “morta” — não havia mais emigração e as deportações ainda não haviam começado. Havia, por fim, a sua maior ambição — ser promovido ao posto de chefe de polícia em alguma cidade alemã; de novo, nada feito. O que torna tão engraçadas essas páginas do interrogatório é que tudo isso foi dito no tom de alguém que tem certeza de encontrar simpatia “normal, humana” por uma história infeliz. “Tudo o que eu preparava e planejava dava errado, tanto meus assuntos pessoais como meus prolongados esforços para conseguir terra e solo para os judeus. Não sei, parece que estava tudo encantado; tudo o que eu queria e desejava e planejava fazer, o destino impedia de alguma forma. Eu ficava frustrado em tudo, absolutamente tudo.” Quando o capitão Less pediu sua opinião sobre provas prejudiciais e possivelmente mentirosas fornecidas por um ex-coronel da SS, ele exclamou, repentinamente gaguejante de raiva: “Fico muito surpreso com esse homem ter conseguido ser um Standartenführer da SS, isso me deixa muito surpreso mesmo. É completamente, completamente impensável. Não sei o que dizer”. Ele não disse essas coisas com espírito de desafio, como se quisesse, ainda agora, defender os padrões que nortearam sua vida no passado. As simples palavras “SS”, ou “carreira”, ou “Himmler” (que ele sempre chamou por seu longo título oficial: Reichsführer SS e Chefe da Polícia Alemã, embora de forma alguma o admirasse) detonavam nele um mecanismo que se tornara completamente inalterável. Nem a presença do capitão Less, um judeu da Alemanha e muito pouco propenso a pensar que os membros da SS progrediam na carreira por meio do exercício de alguma alta qualidade moral, conseguia desmontar esse mecanismo.
De vez em quando, a comédia despenca no horror, e resulta em histórias — provavelmente verdadeiras — cujo humor macabro ultrapassa facilmente todo invento surrealista. A história do infeliz Kommerzialrat Storfer, de Viena, contada por Eichmann durante seu interrogatório na polícia, era desse tipo. Eichmann recebeu um telegrama de Rudolf Höss, comandante de Auschwitz, revelando que Storfer havia chegado e solicitava urgentemente ver Eichmann. “Eu disse comigo mesmo: tudo bem, esse homem sempre se comportou bem, vale a pena [...] Eu mesmo vou lá e vejo qual é o assunto dele. E vou até Ebner [chefe da Gestapo em Viena], e Ebner diz assim — só me lembro vagamente — ‘Se ele pelo menos não fosse tão desastrado; ele se escondeu e tentou escapar’, alguma coisa assim. E a polícia o prendeu e mandou para o campo de concentração, e segundo as ordens do Reichsführer [Himmler], ninguém podia sair, depois de entrar num deles. Nada se podia fazer. Nem o dr. Ebner, nem eu, nem ninguém podia fazer alguma coisa a respeito. Fui para Auschwitz e pedi a Höss para ver Storfer. ‘Claro, claro [Höss disse], ele está num dos grupos de trabalho forçado.’ Com Storfer, depois, bom, foi normal e humano, tivemos um encontro normal, humano. Ele me falou de todo o seu sofrimento, sua dor: eu disse: ‘Bom, meu querido amigo [Ja, mein lieber guter Storfer], sobrou para nós! Que falta de sorte!’. E eu disse também: ‘Olhe eu não posso mesmo ajudar você, porque as ordens do Reichsführer são de ninguém sair. Não posso tirar você. O dr. Ebner também não pode. Soube que você cometeu um grande erro, que você se escondeu ou quis se trancar, coisa que, afinal, você não precisava fazer’. [Eichmann queria dizer que Storfer, como funcionário judeu tinha imunidade da deportação.] Não me lembro a resposta dele. E aí perguntei como estava. E ele disse, bem, perguntou se não podia ser dispensado do trabalho, que era trabalho pesado. E eu então disse a Höss: ‘Storfer não vai ter de trabalhar!’. Mas Höss disse: ‘Todo mundo trabalha aqui’. Então eu disse: ‘Certo, vou escrever uma nota para solicitar que Storfer fique cuidando dos caminhos de cascalho com uma vassoura’, havia uns caminhos de cascalho lá ‘e que ele tem direito de sentar com sua vassoura num dos bancos’. [Para Storfer] eu disse: ‘Está bom assim, sr. Storfer? Está bom, para o senhor?’. Com isso ele ficou muito contente, e apertamos as mãos e ele recebeu a vassoura e sentou no banco. Isso foi uma grande alegria interior para mim, poder ao menos ver esse homem, com quem trabalhei durante tantos anos, e ver que podíamos conversar.” Seis semanas depois desse encontro normal, humano, Storfer foi morto — aparentemente não na câmara de gás, mas fuzilado.
Trata-se de um caso exemplar de má-fé, de auto-engano misturado a ultrajante burrice? Ou é simplesmente o caso do criminoso que nunca se arrepende (Dostoiévski conta em seu diário que na Sibéria, em meio a multidões de assassinos, estupradores e ladrões, nunca encontrou um único homem que admitisse ter agido mal), que não pode se permitir olhar de frente a realidade porque seu crime passou a fazer parte dele mesmo? No entanto, o caso de Eichmann é diferente do criminoso comum, que só pode se proteger com eficácia da realidade do mundo não criminoso dentro dos estreitos limites de sua gangue. Bastava a Eichmann relembrar o seu passado para se sentir seguro de não estar mentindo e de não estar se enganando, pois ele e o mundo em que viveu marcharam um dia em perfeita harmonia. E a sociedade alemã de 80 milhões de pessoas se protegeu contra a realidade e os fatos exatamente da mesma maneira, com os mesmos auto-engano, mentira e estupidez que agora se viam impregnados na mentalidade de Eichmann. Essas mentiras mudavam de ano para ano, e freqüentemente se contradiziam; além disso, não eram necessariamente as mesmas para todos os diversos níveis da hierarquia do Partido e para as pessoas em geral. Mas a prática do auto-engano tinha se tornado tão comum, quase um pré-requisito moral para a sobrevivência, que mesmo agora, dezoito anos depois do colapso do regime nazista, quando a maior parte do conteúdo específico de suas mentiras já foi esquecido, ainda é difícil às vezes não acreditar que a hipocrisia passou a ser parte integrante do caráter nacional alemão. Durante a guerra, a mentira que mais funcionou com a totalidade do povo alemão foi o slogan “a batalha pelo destino do povo alemão” [der Schicksalskampf des deutschen Volkes], cunhado por Hitler ou por Goebbels, e que tornou mais fácil o auto-engano sob três aspectos: sugeria, em primeiro lugar, que a guerra não era guerra; em segundo, que fora iniciada pelo destino e não pela Alemanha; e, em terceiro, que era questão de vida ou morte para os alemães, que tinham de aniquilar seus inimigos ou ser aniquilados.
A estonteante disposição de Eichmann, primeiro na Argentina, depois também em Jerusalém, a admitir seus crimes devia-se menos a sua capacidade criminosa de auto-engano do que à aura de sistemática hipocrisia que constituía a atmosfera geral, aceita por todos, do Terceiro Reich. “Claro” que ele havia desempenhado um papel no extermínio dos judeus; “claro” que se “não os tivesse transportado, eles não teriam sido entregues aos açougueiros.” “O que existe aí para admitir?”, ele perguntava. Agora, continuava, “gostaria de fazer as pazes com [seus] antigos inimigos” — sentimento que partilhava não só com Himmler, que o expressou durante o último ano da guerra, e também com o líder das frentes de trabalhos forçados, Robert Ley (que, antes de se suicidar em Nuremberg, havia proposto o estabelecimento de um “comitê de conciliação” formado pelos nazistas responsáveis pelos massacres e por sobreviventes judeus), e que partilhava também, inacreditavelmente, com muitos alemães comuns, que sabidamente se expressaram exatamente nos mesmos termos no final da guerra. Esse ultrajante clichê não era mais expedido de cima para eles, era uma frase feita autofabricada, tão vazia de realidade quanto aqueles clichês que orientaram a vida do povo durante doze anos; e dava quase para ver a “excepcional sensação de ânimo” que tomava conta de Eichmann no momento em que brotava de seus lábios.
A cabeça de Eichmann estava cheia até a borda de frases assim. Sua memória resultou bem pouco confiável a respeito do que realmente aconteceu; num raro momento de exasperação, o juiz Landau perguntou ao acusado: “O que você consegue lembrar?” (se não se lembrava das discussões na chamada Conferência de Wannsee, que debateu os vários métodos de morte), e a resposta, claro, foi que Eichmann se lembrava bastante bem dos momentos decisivos de sua carreira, mas isso não coincidia, necessariamente, com os momentos decisivos da história do extermínio dos judeus ou, na verdade, com os momentos decisivos da história. (Ele sempre teve dificuldades para se lembrar da data exata do começo da guerra e da invasão da Rússia.) Mas o xis da questão é que ele não esqueceu nem uma única frase daquelas que em algum momento lhe deram uma “sensação de ânimo”. Por isso, durante o interrogatório, toda vez que os juízes tentavam apelar para sua consciência, recebiam como resposta o “ânimo” e ficavam ultrajados e desconcertados quando descobriam que o acusado tinha a sua disposição um clichê de ânimo diferente para cada período de sua vida e cada uma de suas atividades. Na cabeça dele, não havia contradição entre “Vou dançar no meu túmulo, rindo” adequado para o fim da guerra, e “Posso ser enforcado em público como exemplo para todos os anti-semitas da Terra”, que agora, em circunstâncias muito diferentes, preenchia exatamente a mesma função de lhe dar um empurrão.
Esses hábitos de Eichmann criaram consideráveis dificuldades durante o julgamento — menos para Eichmann do que para aqueles que ali estavam para acusá-lo, defendê-lo, julgá-lo e descrevê-lo. Por tudo isso, era essencial que ele fosse levado a sério, o que era muito difícil, a menos que se procurasse a saída mais fácil para o dilema entre o horror inenarrável dos atos e o inegável absurdo do homem que os perpetrara, isto é, a menos que se declarasse um mentiroso esperto, calculista — coisa que evidentemente não era. Suas próprias convicções sobre isso estavam longe de ser modestas: “Um dos poucos dons com que o destino me abençoou é a capacidade para a verdade, na medida em que ela depende de mim”. Esse dom ele reclamava para si mesmo antes de o promotor pretender lhe atribuir crimes que não havia cometido. Nas anotações desorganizadas e confusas que fez na Argentina, preparando-se para a entrevista com Sassen, quando ainda estava, como ele mesmo chegou a dizer na época, “em plena posse de sua liberdade física e psicológica”, ele lançou um fantástico alerta para que os “historiadores futuros sejam objetivos a ponto de não se desviar da trilha da verdade aqui gravada” — fantástico porque cada linha dessas anotações revela sua total ignorância de tudo que não fosse direta, técnica e burocraticamente ligado a seu trabalho, sem falar de sua memória extraordinariamente deficiente.
Apesar de todos os esforços da promotoria, todo mundo percebia que esse homem não era um “monstro”, mas era difícil não desconfiar que fosse um palhaço. E uma vez que essa suspeita teria sido fatal para toda a empresa, além de dificilmente sustentável diante dos sofrimentos que ele e seus semelhantes causaram a milhões de pessoas, suas piores palhaçadas mal foram notadas e quase nunca reveladas na imprensa. O que fazer com um homem que primeiro declarou com grande ênfase que a única coisa que aprendeu numa vida desperdiçada foi jamais fazer um juramento (“Hoje em dia, nenhum homem, nenhum juiz poderia me convencer a fazer uma declaração sob juramento, a declarar alguma coisa sob juramento como testemunha. Eu recuso, eu recuso por razões morais. Como minha experiência me diz que, ao ser leal a seu juramento, o sujeito um dia terá de pagar as consequências, decidi definitivamente que nenhum juiz no mundo, nem nenhuma outra autoridade nunca será capaz de me fazer jurar, ou prestar testemunho sob juramento. Não farei uma coisa dessas voluntariamente e ninguém conseguirá me forçar”), e então, depois de ser informado explicitamente que, se quisesse testemunhar em sua própria defesa, poderia “fazê-lo com ou sem juramento”, declarou sem mais delongas que preferiria testemunhar sob juramento? Ou com alguém que garantiu à corte, insistentemente e com grande demonstração de sentimento, da mesma forma que havia garantido ao interrogador policial, que a pior coisa que ele poderia fazer seria tentar escapar de suas verdadeiras responsabilidades para lutar por seu pescoço ou implorar misericórdia — e depois, aconselhado por seu advogado, apresentou um documento escrito à mão com um pedido de misericórdia?
Para Eichmann, essas coisas eram questão de estados de espírito, e se conseguia encontrar, fosse na memória, fosse de momento, uma frase feita que provocasse ânimo, ele se dava por satisfeito, sem jamais tomar consciência de uma “incoerência”. Conforme veremos adiante, esse horrível dom de se consolar com clichês não o abandonou nem na hora da morte.