Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal
XII. Deportações da Europa Central — Hungria e Eslováquia
XII
DEPORTAÇÕES DA EUROPA CENTRAL — HUNGRIA E ESLOVÁQUIA
A Hungria, mencionada antes em relação à problemática questão da consciência de Eichmann, era constitucionalmente um reino sem rei. O país, embora sem acesso para o mar e não possuindo nem marinha nem frota mercante, era governado — ou melhor, administrado em nome do rei inexistente — por um almirante, o regente ou Reichsverweser Nikolaus von Horthy. O único sinal visível de realeza era uma abundância de Hofräte, conselheiros da corte inexistente. Outrora, o Sacro Imperador Romano fora rei da Hungria, e mais recentemente, depois de 1806, a kaiserlichkönigliche Monarchie do Danúbio fora precariamente mantida pelos Habsburgo, que eram imperadores (Kaiser) da Áustria e reis da Hungria. Em 1918, o Império Habsburgo fora dissolvido em Estados Sucessores, e a Áustria era agora uma república à espera do Anschluss, a união com a Alemanha. Otto von Habsburgo estava no exílio, e nunca seria aceito como rei da Hungria pelos magiares ferozmente nacionalistas; uma realeza autenticamente húngara, por outro lado, não existia nem como lembrança histórica. De forma que nem o almirante Horthy saberia dizer qual a situação da Hungria em termos de formas reconhecidas de governo.
Por trás das ilusões de grandeza realesca havia uma estrutura feudal herdada, com maior miséria entre os camponeses sem terra e maior luxo entre as poucas famílias aristocratas, que literalmente possuíam o país, do que em qualquer outro desses territórios vitimados pela pobreza, os enteados da Europa. Era esse pano de fundo de questões sociais não resolvidas e atraso geral que dava à sociedade de Budapeste o seu sabor específico, como se os húngaros fossem um grupo de ilusionistas que tivessem vivido durante tanto tempo à base de auto-engano que haviam perdido todo senso de incongruência. No começo da década de 30, sob influência do fascismo italiano, eles haviam fabricado um importante movimento fascista, os chamados homens da Cruz de Flecha, e em 1938 imitaram os italianos passando sua primeira legislação antijudaica; a despeito da forte influência da Igreja católica no país, as regras se aplicavam também aos judeus batizados convertidos depois de 1919, e mesmo os convertidos antes dessa data foram incluídos três anos depois. E mesmo quando o anti-semitismo absoluto, baseado na raça, se tornou política oficial do governo, onze judeus continuavam como membros da câmara alta do Parlamento, e a Hungria foi o único país do Eixo a mandar tropas judaicas — 130 mil em serviço auxiliar, mas com fardas húngaras — para o front Oriental. A explicação para essas incongruências é que os húngaros, apesar de sua política oficial, eram ainda mais enfáticos do que outros países na distinção entre judeus nativos e Ostjuden, entre os judeus “magiarizados” da “Hungria Trianônica” (estabelecida, como outros Estados Sucessores, pelo Tratado de Trianon) e aqueles dos territórios recentemente anexados. A soberania húngara foi respeitada pelo governo nazista até março de 1944, e o resultado disso foi que o país se tornou para os judeus uma ilha de segurança num “oceano de destruição”. Com o Exército Vermelho se aproximando pelos montes Cárpatos e o governo húngaro tentando desesperadamente seguir o exemplo da Itália e firmar um armistício separado, era compreensível que o governo alemão tivesse decidido ocupar o país, mas é quase incrível que a essa altura do jogo ainda estivesse “na ordem do dia resolver o problema judeu”, cuja “liquidação” era “pré-requisito para envolver a Hungria na guerra”, como disse Veesenmayer num relatório ao Ministério das Relações Exteriores de dezembro de 1943. Pois a “liquidação” desse “problema” compreendia a evacuação de 800 mil judeus, mais um grupo estimado em 100 ou 150 mil judeus convertidos.
Seja como for, como eu disse antes, dada a grandeza e a urgência da tarefa, Eichmann chegou em Budapeste em março de 1944, com seu pessoal completo, que ele podia reunir com facilidade, uma vez que o trabalho já estava terminado em todos os outros lugares. Ele chamou Wisliceny e Brunner da Eslováquia e da Grécia, Abromeit da Iugoslávia, Dannecker de Paris e da Bulgária, Siegfried Seidl de seu posto de comandante de Theresienstadt, e Hermann Krumey de Viena, o qual se tornou seu representante na Hungria. De Berlim, ele trouxe todos os membros mais importantes de seu pessoal de escritório: Rolf Günther, que era seu representante principal; Franz Novak, seu oficial de deportação; e Otto Hunsche, seu perito legal. Assim, ao estabelecer seu quartel-general em Budapeste, o Sondereinsatzkommando Eichmann (Unidade de Operação Especial Eichmann) consistia em cerca de dez homens, mais alguns assistentes administrativos. Na própria noite de chegada, Eichmann e seus homens convidaram os líderes judeus para uma reunião, para convencê-los a formar um Conselho Judeu por meio do qual poderiam dar ordens e ao qual dariam, em troca, jurisdição absoluta sobre todos os judeus da Hungria. Não era um truque fácil nesse momento e nesse lugar. Era uma época, nas palavras do núncio papal, em que “o mundo todo sabia o que a deportação significava na prática”; em Budapeste, além disso, os judeus “tiveram uma oportunidade única de observar o destino do judaísmo europeu. Sabíamos muito bem do trabalho dos Einsatzgruppen. Sabíamos mais do que o necessário sobre Auschwitz”, como testemunharia o dr. Kastner em Nuremberg. Claramente, era preciso mais do que os pretensos “poderes hipnóticos” de Eichmann para convencer qualquer um de que os nazistas iriam respeitar a sagrada distinção entre judeus “magiarizados” e judeus orientais; seria preciso que o auto-engano se transformasse em grande arte para permitir que os líderes judeus húngaros acreditassem naquele momento que “aquilo não pode acontecer aqui” — “Como podem mandar os judeus da Hungria para fora da Hungria?” — e continuassem acreditando nisso mesmo quando as realidades contrariavam essa crença todos os dias da semana. A maneira como isso foi conseguido veio à luz em uma das mais notáveis incongruências pronunciadas por uma testemunha na tribuna: os futuros membros do Comitê Judeu Central (nome do Conselho Judeu na Hungria) tinham ouvido da vizinha Eslováquia que Wisliceny, que agora estava negociando com eles, aceitava dinheiro prontamente, e sabiam também que apesar de todas as propinas ele “havia deportado todos os judeus da Eslováquia [...]”. Disso o sr. Freudiger concluiu: “Compreendi que era preciso achar meios e maneiras de estabelecer relações com Wisliceny”.
O truque mais esperto de Eichmann nessas difíceis negociações foi cuidar para que ele e seus homens agissem como se fossem corruptos. O presidente da comunidade judaica, Hofrat Samuel Stern, membro do Conselho Particular de Horthy, foi tratado com excepcional cortesia e concordou em chefiar o Conselho Judeu. Ele e os outros membros do Conselho sentiram-se seguros quando lhes pediram para fornecer máquinas de escrever e espelhos, lingerie feminina e água-de-colônia, Watteaus originais e oito pianos — sete dos quais foram graciosamente devolvidos pelo Hauptsturmführer Novak, que disse: “Mas, senhores, eu não quero abrir uma loja de piano. Quero apenas tocar piano”. O próprio Eichmann visitou a biblioteca Judaica e o Museu Judaico, e garantiu a todos que todas as medidas seriam temporárias. E a corrupção, inicialmente simulada como truque, logo se tornou bem real, embora não tomasse a forma que os judeus esperavam. Em nenhum outro lugar os judeus gastaram tanto dinheiro sem nenhum resultado. Nas palavras do estranho sr. Kastner: “Um judeu que teme por sua vida e pela de sua família perde todo senso do dinheiro”. (Sic!) Isso foi prontamente confirmado durante o julgamento por meio do testemunho dado por Philip von Freudiger, mencionado acima, e também do testemunho de Joel Brand, que representava o corpo judeu rival na Hungria, o Comitê de Assistência e Resgate Sionista. Krumey recebeu nada menos do que 250 mil dólares de Freudiger em abril de 1944, e o Comitê de Resgate pagou 20 mil dólares meramente pelo privilégio de se encontrar com Wisliceny e alguns homens do serviço de Contra-Inteligência da SS. Nessa reunião, cada um dos presentes recebeu uma propina adicional de mil dólares, e Wisliceny tornou a mencionar o assim chamado Plano Europa, que ele havia proposto em vão em 1942 e segundo o qual Himmler estaria preparado para poupar todos os judeus, exceto os da Polônia, por um resgate de 2 ou 3 milhões de dólares. Na esperança dessa proposta, que havia sido engavetada muito antes, os judeus agora começaram a pagar prestações a Wisliceny. Até mesmo o “idealismo” de Eichmann se rendeu a essa terra de abundância nunca vista. A acusação, embora não pudesse provar que Eichmann houvesse se beneficiado financeiramente de sua função, enfatizou acertadamente o seu alto padrão de vida em Budapeste, onde pôde ficar hospedado num dos melhores hotéis, era conduzido por um chofer num carro anfíbio, presente inesquecível de seu futuro inimigo Kurt Becher, participava de caçadas e passeios a cavalo, e gozava todo tipo de luxos antes desconhecidos sob a tutela de seus novos amigos no governo húngaro.
Existia, porém, no país, um grupo considerável de judeus cujos líderes pelo menos não se permitiam tal dose de auto-engano. O movimento sionista sempre foi particularmente forte na Hungria, e agora tinha sua própria representação no Comitê de Assistência e Resgate (o Vaadat Ezra va Hazalah) recentemente formado que, mantendo contato próximo com o Departamento Palestino, havia ajudado refugiados da Polônia e da Eslováquia, da Iugoslávia e da Romênia; o comitê estava em contato constante com o Comitê Conjunto de Distribuição norte-americano, que financiava seu trabalho, e tinha conseguido também levar alguns judeus para a Palestina, legal ou ilegalmente. Agora que a catástrofe havia chegado a seu país, ele passaram a forjar “documentos cristãos”, certificados de batismo, cujos portadores tinham maiores facilidades para passar à clandestinidade. Os líderes sionistas podiam ser qualquer coisa, mas sabiam que estavam fora da lei e agiam condizentemente. Joel Brand, o infeliz emissário a quem caberia, no meio da guerra, apresentar aos Aliados a proposta de Himmler de entregar um milhão de judeus vivos em troca de 10 mil caminhões, era um dos membros mais importantes do Comitê de Assistência e Resgate e veio a Jerusalém depor sobre suas relações com Eichmann, assim como seu antigo rival na Hungria, Philip von Freudiger. Freudiger, de quem, incidentalmente, Eichmann não se lembrava absolutamente, lembrou a grosseria com que foi tratado nessas entrevistas, enquanto o testemunho de Brand confirmou grande parte do relato do próprio Eichmann sobre como havia negociado com os sionistas. Brand, um “judeu idealista”, estava agora falando com um “alemão idealista” — dois inimigos honrados se encontrando como iguais durante uma pausa da batalha. Eichmann disse a ele: “Amanhã talvez estejamos de novo no campo de batalha”. Evidentemente, tratava-se de uma horrível comédia, mas serviu para demonstrar como a queda de Eichmann por frases animadoras sem sentido real não era uma pose fabricada expressamente para o julgamento de Jerusalém. O mais interessante, não se pode deixar de notar, é que nessa reunião com os sionistas nem Eichmann, nem nenhum outro membro do Sondereinsatzkommando empregou a tática da mentira pura que haviam usado em benefício dos senhores do Conselho Judeu. Até mesmo as “regras de linguagem” foram suspensas, e a maior parte do tempo falou-se em termos diretos. Além disso, quando a questão era de negociações sérias — sobre a quantia de dinheiro que poderia comprar uma permissão de saída, sobre o Plano Europa, sobre a troca de vidas por caminhões — não só Eichmann, mas todos os envolvidos, Wisliceny, Becher, os cavalheiros do serviço de Contra-Inteligência que Joel Brand costumava encontrar toda manhã num café, todos eles dirigiam-se aos sionistas como coisa natural. A razão disso era que o Comitê de Assistência e Resgate possuía os contatos internacionais necessários e podia apresentar moeda estrangeira com facilidade, enquanto os membros do Conselho Judeu não tinham nenhum apoio além da dúbia proteção do regente Horthy. Ficou claro também que os funcionários sionistas na Hungria tinham recebido maiores privilégios do que a costumeira imunidade temporária de prisão e deportação brindada aos membros do Conselho Judeu. Os sionistas tinham liberdade de ir e vir praticamente como quisessem, estavam isentos de usar a estrela amarela, recebiam permissão para visitar campos de concentração na Hungria e, um pouco depois, o dr. Kastner, fundador do Comitê de Assistência e Resgate, podia até viajar pela Alemanha nazista sem nenhum documento de identificação revelando que era judeu.
Para Eichmann, com toda a sua experiência de Viena, Praga e Berlim, a organização do Conselho Judeu foi uma questão de rotina, que não tomou mais de duas semanas. A questão agora era se ele próprio conseguiria atrair a ajuda de funcionários húngaros para uma operação dessa magnitude. Para ele, isso era algo novo. No curso normal dos eventos, a coisa seria tratada pelo Ministério das Relações Exteriores e seus representantes, neste caso, pelo novo plenipotenciário indicado pelo Reich, dr. Edmund Veesenmayer, a quem Eichmann teria mandado um “conselheiro judeu”. Eichmann não tinha nenhum pendor para desempenhar o papel de conselheiro, um posto que em nenhum lugar levou além da patente de Hauptsturmführer, ou capitão, enquanto ele era Obersturmbannführer, tenente-coronel, duas patentes acima. Seu maior triunfo na Hungria consistiu em estabelecer contatos próprios. Havia três homens em questão, primordialmente: Lászlo Endre, que, graças a um anti-semitismo que até Horthy considerava “insano”, havia sido recentemente escolhido para secretário de Estado Encarregado de Assuntos Políticos (Judeus) no Ministério do Interior; Lászlo Baky, também subsecretário no Ministério do Interior, encarregado da Gendarmeria, a polícia húngara; e o oficial de polícia tenente-coronel Ferenczy, diretamente encarregado das deportações. Com a ajuda deles, Eichmann podia ter certeza que tudo, a expedição dos decretos necessários e a concentração dos judeus nas províncias, seria providenciado com a “velocidade da luz”. Em Viena foi realizada uma conferência especial com os funcionários da Ferrovia Estatal Alemã, uma vez que esse assunto implicava o transporte de cerca de meio milhão de pessoas. Höss, em Auschwitz, foi informado dos planos por seu próprio superior, o general Richard Glücks da WVHA, e ordenou que fosse construído um novo ramal da ferrovia, levando os vagões a poucos metros dos crematórios; o número dos comandos de morte encarregados das câmaras de gás foi aumentado de 224 para 860, de forma que estava tudo pronto para matar entre 6 e 12 mil pessoas por dia. Quando os trens começaram a chegar em maio de 1944, pouquíssimos “homens capacitados” foram selecionados para trabalhos forçados, e esses poucos foram trabalhar na fábrica de detonadores da Krupp em Auschwitz. (A fábrica da Krupp recém-construída perto de Breslau, na Alemanha, a Berthawerk, arrebanhava trabalhadores judeus onde os pudesse encontrar e mantinha esses homens em condições que não eram superadas nem pelos grupos de trabalhos dos campos de extermínio.)
Toda a operação na Hungria durou menos de dois meses e foi interrompida subitamente no começo de julho. Graças principalmente aos sionistas, ela foi melhor noticiada do que todas as outras fases da catástrofe judaica, e Horthy recebeu um dilúvio de protestos dos países neutros e do Vaticano. O núncio papal, porém, achou adequado explicar que o protesto do Vaticano não brotava de “um falso senso de compaixão” — frase que provavelmente se tornará um monumento duradouro àquilo que o trato contínuo e o desejo de tudo conceder aos homens que pregavam o evangelho da “dureza impiedosa” fez com a mentalidade dos altos dignitários da Igreja. A Suécia mais uma vez liderou a tomada de medidas práticas, distribuindo permissões de entrada, e Suíça, Espanha e Portugal seguiram seu exemplo, de forma que no final 33 mil judeus estavam vivendo em casas especiais em Budapeste sob proteção dos países neutros. Os Aliados receberam e publicaram uma lista de setenta homens que sabiam ser os principais culpados, e Roosevelt mandou um ultimato, ameaçando que “o destino da Hungria não será igual ao de nenhuma outra nação civilizada [...] caso não parem as deportações”. E deu a entender que falava a verdade com um bombardeio aéreo excepcionalmente pesado sobre Budapeste em 2 de julho. Assim pressionado de todos os lados, Horthy deu ordem de suspender as deportações, e uma das provas mais prejudiciais para Eichmann foi o fato bastante óbvio de que ele não obedeceu à ordem “daquele velho tolo”; em meados de julho, deportou mais 1500 judeus que estavam à mão num campo de concentração perto de Budapeste. Para impedir que os funcionários judeus informassem Horthy, ele reuniu os membros dos dois corpos representativos em seu escritório, onde o dr. Hunsche os deteve, sob vários pretextos, até saber que o trem havia deixado o território húngaro. Em Jerusalém, Eichmann não se lembrava desse episódio, e embora os juízes estivessem “convencidos de que o acusado se recorda muito bem de sua vitória sobre Horthy” isso é duvidoso, uma vez que para Eichmann Horthy não era um personagem tão importante.
Esse parece ter sido o último trem a deixar a Hungria para Auschwitz. Em agosto de 1944, o Exército Vermelho estava na Romênia. Eichmann foi mandado para lá em sua missão esdrúxula. Quando voltou, o regime de Horthy reunira coragem suficiente para pedir a retirada do comando de Eichmann, e o próprio Eichmann pediu a Berlim para voltar com seus homens, uma vez que “eram supérfluos”. Mas Berlim não fez nada disso, e acertadamente, porque em meados de outubro a situação mais uma vez mudou abruptamente. Com os russos a 150 quilômetros de Budapeste, os nazistas conseguiram derrubar o governo de Horthy e apontar o líder da Cruz de Flecha, Ferenc Szalasi, como chefe de Estado. Nenhum outro transporte pôde ser mandado para Auschwitz, porque as instalações de extermínio estavam para ser desmontadas, e ao mesmo tempo a falta de braços alemã era desesperadora. Agora era Veesenmayer, o plenipotenciário do Reich, que negociava com o Ministério do Interior húngaro a permissão de mandar 50 mil judeus — homens entre dezesseis e sessenta anos e mulheres com menos de quarenta — para o Reich; em seu relatório ele acrescentou que Eichmann pretendia mandar mais 50 mil. Como não existiam mais instalações ferroviárias, isso levou às marchas a pé em novembro de 1944, que só foram interrompidas com uma ordem de Himmler. Os judeus mandados nessas marchas haviam sido presos ao acaso pela polícia húngara, a despeito das exceções às quais muitos deles tinham agora direito, a despeito também dos limites de idade especificados nas diretivas originais. Os caminhantes eram escoltados por homens da Cruz de Flecha, que os roubavam e tratavam com a mais absoluta brutalidade. E esse foi o fim. Da população original de 800 mil, cerca de 160 mil devem ter continuado no gueto de Budapeste — o campo já estava judenrein —, e dezenas de milhares desses foram vítimas de pogroms espontâneos. Em 13 de fevereiro de 1945, o país se rendeu ao Exército Vermelho.
Os principais culpados húngaros pelo massacre foram levados a julgamento, condenados à morte e executados. Nenhum dos responsáveis alemães, exceto Eichmann, pagou com mais que alguns anos de prisão.
A Eslováquia, assim como a Croácia, foi uma invenção do Ministério das Relações Exteriores alemão. Os eslovacos foram a Berlim negociar sua “independência” antes mesmo de os alemães ocuparem a Tchecoslováquia, em março de 1939, e nessa época eles haviam prometido a Göring que seguiriam fielmente os alemães em sua condução da questão judaica. Mas isso foi no inverno de 1938-39, quando ninguém tinha ainda ouvido falar de algo como a Solução Final. O minúsculo país, com uma pobre população camponesa de cerca de 2 milhões e meio de pessoas, compreendendo 90 mil judeus, era primitivo, atrasado e profundamente católico. Era governado nessa época por um padre católico, Josef Tiso. Até mesmo seu movimento fascista, a Guarda Hlinka, tinha feições católicas, e o veemente anti-semitismo desses fascistas clericais ou clérigos fascistas era diferente tanto em estilo quanto em conteúdo do racismo ultramoderno de seus senhores alemães. Havia apenas um anti-semita moderno no governo eslovaco, e esse era o bom amigo de Eichmann Sano Mach, ministro do Interior. Todos os outros eram cristãos, ou achavam que eram, enquanto os nazistas eram, em princípio, tão anticristãos quanto eles eram antijudeus. O fato de os eslovacos serem cristãos significava não só que eles se sentiam obrigados a enfatizar o que os nazistas consideravam uma distinção “obsoleta” entre judeus batizados e não batizados, mas também que eles pensavam toda a questão em termos medievais. Para eles a “solução” consistia em expulsar os judeus e herdar suas propriedades, mas não no sistemático “extermínio”, embora não se importassem com um assassinato ocasional. O maior “pecado” dos judeus não era pertencer a uma “raça” estranha, mas ter riqueza. Os judeus da Eslováquia não eram ricos para os padrões ocidentais, mas quando 52 mil deles tiveram de declarar suas posses porque possuíam bens com valor superior a duzentos dólares, e sua propriedade total somou 100 milhões de dólares, cada um deles deve ter parecido a encarnação de Creso para os eslovacos.
Durante seu primeiro ano e meio de “independência”, os eslovacos estiveram ocupados resolvendo a questão judaica segundo suas próprias luzes. Eles transferiram as empresas judaicas maiores para não-judeus, encenaram certa legislação antijudaica que, segundo os alemães, tinha o “defeito básico” de isentar os judeus batizados convertidos antes de 1918, planejaram estabelecer guetos “seguindo o exemplo do Governo-Geral”, e mobilizaram os judeus para trabalhos forçados. Muito cedo, em setembro de 1940, eles receberam um conselheiro judeu; o Hauptsturmführer Dieter Wisliceny, antes superior e amigo de Eichmann no Serviço Secreto, muito admirado por Eichmann (seu filho mais velho chamava-se Dieter), e agora seu igual em patente, foi anexado à legação alemã em Bratislava. Wisliceny não se casou e, portanto, não podia ser mais promovido, de forma que um ano depois foi superado por Eichmann e passou a ser seu subordinado. Eichmann achou que isso devia tê-lo indisposto, o que ajudaria a explicar porque Wisliceny havia dado provas tão danosas contra ele nos julgamentos de Nuremberg, chegando a se oferecer para descobrir onde Eichmann se escondia. Mas isso é duvidoso. Wisliceny provavelmente só estava interessado em salvar a própria pele, sendo radicalmente diferente de Eichmann. Ele pertencia ao estrato educado da SS, vivia entre livros e discos, fazia-se chamar de “barão” pelos judeus da Hungria e, no geral, estava muito mais interessado em dinheiro do que em sua carreira; consequentemente, foi um dos primeiros membros da SS a desenvolver tendências “moderadas”.
Quase nada aconteceu na Eslováquia durante esses primeiros anos, até março de 1942, quando Eichmann apareceu em Bratislava para negociar a evacuação de 20 mil “judeus jovens e fortes para o trabalho”. Quatro semanas depois, o próprio Heydrich veio ver o primeiro-ministro, Vojtek Tuka, e o convenceu a permitir que todos os judeus fossem reassentados no Leste, inclusive os judeus convertidos que até então estavam isentos. O governo, com um padre em sua chefia, não se importou nada em corrigir o “defeito básico” da distinção entre cristãos e judeus com base em religião, ao saber que “os alemães não reclamavam nenhuma parte da propriedade desses judeus, a não ser o pagamento de quinhentos Reichsmarks em troca de cada judeu recebido”; ao contrário, o governo pediu ao Ministério das Relações Exteriores alemão maiores garantias de que “os judeus removidos da Eslováquia e recebidos [pelos alemães] permaneceriam nas áreas orientais para sempre, e não teriam a oportunidade de voltar à Eslováquia”. Com a finalidade de acompanhar essa negociações no nível mais alto, Eichmann fez uma segunda visita a Bratislava, que coincidiu com o assassinato de Heydrich, e em junho de 1942 52 mil judeus foram deportados pela polícia eslovaca para os centros de extermínio na Polônia.
Ainda restavam 35 mil judeus no país, e todos pertenciam às categorias originalmente isentas — judeus convertidos e seus parentes, membros de certas profissões, jovens dos batalhões de trabalhos forçados, alguns empresários. Foi nesse momento, quando a maioria dos judeus já havia sido “reassentada”, que o Comitê Judeu de Assistência e Resgate de Bratislava, corpo irmão do grupo sionista húngaro, conseguiu subornar Wisliceny, que prometeu ajudar diminuindo o ritmo das deportações e que propôs também o chamado Plano Europa, que haveria de evocar de novo em Budapeste. É pouco provável que Wisliceny fizesse qualquer outra coisa além de ler livros e ouvir música, e, é claro, aceitar tudo o que pudesse receber. Mas foi justamente nesse momento que o Vaticano informou ao clero católico o verdadeiro sentido da palavra “reassentamento”. Daí em diante, como relatou o embaixador alemão Hans Elard Ludin ao Ministério das Relações Exteriores em Berlim, as deportações ficaram muito impopulares, e o governo eslovaco começou a pressionar os alemães para conseguir permissão de visitar os centros de “reassentamento” — coisa que, evidentemente, nem Wisliceny nem Eichmann podiam conceder, uma vez que os judeus “reassentados” não estavam mais entre os vivos. Em dezembro de 1943, o dr. Edmund Veesenmayer foi a Bratislava para ver o padre Tiso; ele foi enviado por Hitler e suas ordens diziam especificamente que devia dizer a Tiso “para descer à terra” (Fraktur mit ihm reden). Tiso prometeu internar entre 16 e 18 mil judeus em campos de concentração e abrir um campo especial para cerca de 10 mil judeus batizados, mas não concordou com as deportações. Em junho de 1944, Veesenmayer, agora plenipotenciário do Reich na Hungria, apareceu de novo e exigiu que os judeus restantes do país fossem incluídos nas operações húngaras. Tiso recusou de novo.
Em agosto de 1944, com a aproximação do Exército Vermelho, uma grande revolta eclodiu na Eslováquia, e os alemães ocuparam o país. Por essa época, Wisliceny estava na Hungria, e provavelmente já não merecia mais confiança. O RSHA mandou Alois Brunner a Bratislava para prender e deportar os judeus restantes. Brunner primeiro prendeu e deportou os funcionários do Comitê de Assistência e Resgate, e depois, dessa vez com a ajuda de unidades da SS alemã, deportou mais 12 ou 14 mil pessoas. Em 4 de abril de 1945, quando os russos entraram em Bratislava, talvez 20 mil judeus tivessem sobrevivido à catástrofe.