Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal
II. O acusado
II
O ACUSADO
Otto Adolf, filho de Karl Adolf Eichmann e Maria, em solteira Schefferling, capturado num subúrbio de Buenos Aires na noite de 11 de maio de 1960, voou para Israel nove dias depois, foi levado a julgamento na Corte Distrital de Jerusalém em 11 de abril de 1961, objeto de cinco acusações: “entre outros”, cometera crimes contra o povo judeu, crimes contra a humanidade e crimes de guerra, durante todo o período do regime nazista e principalmente durante o período da Segunda Guerra Mundial. A Lei (de Punição) dos Nazistas e Colaboradores dos Nazistas, de 1950, sob a qual estava sendo julgado, previa que “uma pessoa que cometeu um desses [...] crimes [...] está sujeita à pena de morte”. A cada uma das acusações, Eichmann declarou-se: “Inocente, no sentido da acusação”.
Em que sentido então ele se considerava culpado? Na longa inquirição da acusado, segundo ele “a mais longa que se conhece”, nem a defesa, nem a acusação, nem nenhum dos três juízes se deu ao trabalho de lhe fazer essa pergunta óbvia. Seu advogado, Robert Servatius, de Colônia, apontado por Eichmann e pago pelo governo de Israel (seguindo um precedente estabelecido nos julgamentos de Nuremberg, em que os advogados de defesa eram pagos pelo Tribunal dos poderes vitoriosos), respondeu à pergunta numa entrevista à imprensa: “Eichmann se considera culpado perante Deus, não perante a lei”, mas essa resposta nunca foi confirmada pelo próprio acusado. A defesa aparentemente teria preferido que ele se declarasse inocente com base no fato de que, para o sistema legal nazista então existente, não fizera nada errado; de que aquelas acusações não constituíam crimes, mas “atos de Estado”, sobre os quais nenhum outro Estado tinha jurisdição (par in parem imperium non habet), de que era seu dever obedecer e de que, nas palavras de Servatius, cometera atos pelos quais “somos condecorados se vencemos e condenados à prisão se perdemos”. (Goebbels declarara o seguinte, em 1943: “Ficaremos na história como os maiores estadistas de todos os tempos ou como seus maiores criminosos”.) Fora de Israel, numa reunião da Academia Católica, na Baviera, dedicada àquilo que o Rheinischer Merkur chamava “problema espinhoso” das “possibilidades e limites de se lidar com culpas históricas e políticas por meio de processos criminais”, Servatius foi um passo adiante e declarou que “o único problema criminal legítimo no caso Eichmann seria julgar seus raptores israelenses, coisa que até agora não foi feita” — incidentalmente uma declaração um tanto difícil de harmonizar com suas repetidas declarações, amplamente difundidas em Israel, afirmando que a conduta do julgamento era “uma grande conquista espiritual”, comparando-o favoravelmente aos julgamentos de Nuremberg.
A atitude de Eichmann era diferente. Em primeiro lugar, a acusação de assassinato estava errada: “Com o assassinato dos judeus não tive nada a ver. Nunca matei um judeu, nem um não-judeu — nunca matei nenhum ser humano. Nunca dei uma ordem para matar fosse um judeu fosse um não-judeu; simplesmente não fiz isso”, ou, conforme confirmaria depois: “Acontece [...] que nenhuma vez eu fiz isso” — pois não deixou nenhum dúvida de que teria matado o próprio pai se houvesse recebido ordem nesse sentido. Por isso ele repetia incessantemente (algo que já declarara nos assim chamados documentos Sassen, entrevistas dadas por ele em 1955 ao jornalista holandês Sassen, antigo homem da SS e também fugitivo da justiça, que depois da captura de Eichmann foram publicadas em parte pela revista Life, nos Estados Unidos, e pela Stern, na Alemanha) que só podia ser acusado de “ajudar e assistir” à aniquilação dos judeus, a qual, declarara ele em Jerusalém, fora “um dos maiores crimes da história da Humanidade”. A defesa não prestou a menor atenção à teoria do próprio Eichmann, mas a acusação perdeu muito tempo num mal-sucedido esforço para provar que Eichmann, pelo menos uma vez, matara com as próprias mãos (um menino judeu na Hungria), e gastou ainda mais tempo, e com maior sucesso, com um bilhete que Franz Rademacher, o perito judeu do Ministério das Relações Exteriores alemão, rabiscara num dos documentos sobre a Iugoslávia durante uma conversa telefônica, e que dizia: “Eichmann propõe o fuzilamento”. Essa era a única “ordem de execução”, se é que o era, para a qual jamais existiu um farrapo de prova.
A prova era mais questionável do que deu a impressão de ser durante o julgamento, em que os juízes aceitaram a versão do promotor contra a negação categórica de Eichmann — uma negação muito ineficaz, visto que esquecera o “breve incidente [eram 8 mil pessoas] não tão marcante”, nas palavras de Servatius. O incidente ocorrera no outono de 1941, seis meses depois de a Alemanha ter ocupado a parte sérvia da Iugoslávia. O Exército vinha sendo infernizado pela guerra de guerrilha desde então, e as autoridades militares decidiram resolver dois problemas de um só golpe, fuzilando cem judeus e ciganos para cada soldado alemão morto. Sem dúvida nem os judeus nem os ciganos eram guerrilheiros, mas, nas palavras do funcionário civil do governo militar, um certo Staatsrat Harald Turner, “os judeus já estavam ali no campo [mesmo]; afinal, eles também são sérvios, e, além disso, têm de desaparecer” (citado por Raul Hillberg em The Destruction of the European Jews, 1961). Os campos haviam sido construídos pelo general Franz Böhme, governador militar da região, e só abrigavam homens judeus. Nem o general Böhme nem o Staatsrat Turner esperaram a aprovação de Eichmann para começar a fuzilar judeus e ciganos aos milhares. O problema começou quando Böhme resolveu, sem consultar a polícia adequada e as autoridades da SS, deportar todos os seus judeus, provavelmente para demonstrar que não era preciso nenhuma tropa especial, operando sob outro comando, para tornar a Sérvia judenrein. Eichmann foi informado, uma vez que se tratava de deportação, e recusou a autorização porque a ação iria interferir com outros planos; mas não foi Eichmann, e sim Martin Luther, do Ministério das Relações Exteriores, quem lembrou ao general Böhme que “em outros territórios [o que significava a Rússia] outros comandantes militares haviam se encarregado de números consideravelmente superiores de judeus sem nem sequer mencionar o assunto”. De toda maneira, se Eichmann efetivamente “propôs o fuzilamento”, o que ele disse aos militares foi apenas que deviam continuar com aquilo que já vinham fazendo, e que a questão dos reféns era exclusivamente da competência deles. Evidentemente, essa era uma questão do Exército, uma vez que só dizia respeito a homens. A implementação da Solução Final na Sérvia teve início cerca de seis meses depois, quando mulheres e crianças foram reunidos e eliminados em caminhões de gás. Durante o inquérito, Eichmann, como sempre, escolheu a explicação mais complicada e menos provável: Rademacher necessitara do apoio do Escritório Central da Segurança do Reich, território de Eichmann, para sua própria posição na questão do Ministério das Relações Exteriores, e portanto forjara o documento. (O próprio Rademacher explicou o incidente de forma muito mais razoável em seu próprio julgamento, diante de uma corte da Alemanha Ocidental, em 1952: “O Exército era responsável pela ordem na Sérvia e teve de fuzilar os judeus rebeldes”. Soava mais plausível, mas era mentira, porque sabemos — de fontes nazistas — que os judeus não eram “rebeldes”.) Se já era difícil interpretar uma observação feita por telefone como uma ordem, era ainda mais difícil acreditar que Eichmann estivesse em posição de dar ordens para os generais do Exército.
Será que ele se teria declarado culpado se fosse acusado de cumplicidade no assassinato? Talvez, mas teria feito importantes qualificações. O que ele fizera era crime só retrospectivamente, e ele sempre fora um cidadão respeitador das leis, porque as ordens de Hitler, que sem dúvida executou o melhor que pôde, possuíam “força de lei” no Terceiro Reich. (A defesa poderia ter citado, em apoio à tese de Eichmann, o testemunho de um dos mais conhecidos peritos em lei constitucional do Terceiro Reich, Theodor Maunz, então ministro da Educação e Cultura da Baviera, que afirmou, em 1943 [em Gestalt und Recht der Polizei]: “O comando do Führer [...] é o centro absoluto da ordem legal contemporânea”.) Aqueles que hoje diziam que Eichmann podia ter agido de outro modo simplesmente não sabiam, ou haviam esquecido, como eram as coisas. Ele não queria ser um daqueles que agora fingiam que “tinham sempre sido contra”, quando na verdade estavam muito dispostos a fazer o que lhes ordenavam. Porém, o tempo muda, e ele, assim como o professor Maunz, “chegara a conclusões diferentes”. O que fez estava feito, não pretendia negar; ao contrário, propunha “ser enforcado publicamente como exemplo para todos os anti-semitas da Terra”. Com isso, não queria dizer que se arrependia de alguma coisa: “Arrependimento é para criancinhas”. (Sic!)
Mesmo sob considerável pressão de seu advogado, ele não mudou essa posição. Numa discussão sobre a proposta de Himmler, feita em 1944, de trocar um milhão de judeus por 10 mil caminhões, e sobre seu papel nesse plano, perguntaram a Eichmann: “Senhor Testemunha, nas negociações com seus superiores, o senhor expressou alguma vez piedade pelos judeus e disse que havia espaço para ajudá-los?”. E ele respondeu: “Estou aqui sob juramento e tenho de falar a verdade. Não foi por piedade que dei início a essa transação” — o que estaria muito bem, a não ser pelo fato de que não foi Eichmann quem “deu início” a essa transação. Porém ele continuou, com bastante sinceridade: “Minhas razões, já expliquei hoje pela manhã”, e essas razões eram as seguintes: Himmler enviara um homem de sua confiança a Budapeste para lidar com a questão da emigração judaica. (Que, por sinal, se transformara num negócio florescente: pagando enormes somas de dinheiro, os judeus podiam comprar sua saída. Eichmann, porém, não mencionou isso.) Era o fato de “as questões de emigração ali serem tratadas por um homem que não fazia parte da Força Policial” que o deixava indignado, “porque eu tinha de ajudar e implementar a deportação, além das questões de emigração, nas quais me considerava um perito, e essas coisas foram atribuídas a um homem novo na unidade [...] Fiquei aborrecido [...] Decidi que tinha de fazer alguma coisa para que as questões de emigração ficassem em minhas mãos”.
Ao longo de todo o julgamento, Eichmann tentou esclarecer, quase sempre sem nenhum sucesso, aquele segundo ponto: “inocente no sentido da acusação”. A acusação deixava implícito que ele não só agira conscientemente, coisa que ele não negava, como também agira por motivos baixos e plenamente consciente da natureza criminosa de seus feitos. Quanto aos motivos baixos, ele tinha certeza absoluta de que, no fundo de seu coração, não era aquilo que chamava de innerer Schweinehund, um bastardo imundo; e quanto à sua consciência, ele se lembrava perfeitamente de que só ficava com a consciência pesada quando não fazia aquilo que lhe ordenavam — embarcar milhões de homens, mulheres e crianças para a morte, com grande aplicação e o mais meticuloso cuidado. Isso era mesmo difícil de engolir. Meia dúzia de psiquiatras haviam atestado a sua “normalidade” — “pelo menos, mais normal do que eu fiquei depois de examiná-lo”, teria exclamado um deles, enquanto outros consideraram seu perfil psicológico, sua atitude quanto a esposa e filhos, mãe e pai, irmãos, irmãs e amigos, “não apenas normal, mas inteiramente desejável” — e, por último, o sacerdote que o visitou regularmente na prisão depois que a Suprema Corte terminou de ouvir seu apelo tranqüilizou a todos declarando que Eichmann era “um homem de idéias muito positivas”. Por trás da comédia dos peritos da alma estava o duro fato de que não se tratava, evidentemente, de um caso de sanidade moral e muito menos de sanidade legal. (Recentemente, o sr. Hausner revelou no Saturday Evening Post coisas que “não pôde revelar no julgamento”, contradizendo assim a informação dada informalmente em Jerusalém. O que ele nos conta agora é que Eichmann havia sido descrito pelos psiquiatras como “um homem obcecado, com um perigoso e insaciável impulso de matar”, “uma personalidade pervertida, sádica”. Nesse caso, seu lugar seria o asilo de alienados.) Pior ainda, seu caso evidentemente não era de um ódio insano aos judeus, de um fanático anti-semitismo ou de doutrinação de um ou outro tipo. “Pessoalmente”, ele não tinha nada contra os judeus; ao contrário, ele tinha “razões pessoais” para não ir contra os judeus. Sem dúvida, havia fanáticos anti-semitas entre os seus amigos mais próximos, por exemplo, Lászlo Endre, secretário de Estado encarregado dos Assuntos Políticos (judeus) na Hungria, que foi enforcado em Budapeste em 1946; mas isso, segundo Eichmann, estava mais ou menos dentro do espírito do “alguns de meus melhores amigos são anti-semitas”.
Claro, ninguém acreditou nele. O promotor não acreditou, porque não era essa a sua função. O advogado de defesa não lhe prestou atenção porque, ao contrário de Eichmann, ele não estava, aparentemente, interessado em questões de consciência. E os juízes não acreditaram nele, porque eram bons demais e talvez também conscientes demais das bases de sua profissão para chegar a admitir que uma pessoa mediana, “normal”, nem burra, nem doutrinada, nem cínica, pudesse ser inteiramente incapaz de distinguir o certo do errado. Eles preferiram tirar das eventuais mentiras a conclusão de que ele era um mentiroso — e deixaram passar o maior desafio moral e mesmo legal de todo o processo. A acusação tinha por base a premissa de que o acusado, como toda “pessoa normal”, devia ter consciência da natureza de seus atos, e Eichmann era efetivamente normal na medida em que “não era uma exceção dentro do regime “nazista”. No entanto, nas condições do Terceiro Reich, só se podia esperar que apenas as “exceções” agissem “normalmente”. O cerne dessa questão, tão simples, criou um dilema para os juízes. Dilema que eles não souberam nem resolver, nem evitar.
Ele nascera em 19 de março de 1906, em Solingen, uma cidade alemã às margens do Reno, famosa por suas facas, tesouras e instrumentos cirúrgicos. Quarenta e quatro anos depois, entregue a seu passatempo favorito de escrever suas memórias, descreveu esse memorável evento da seguinte maneira: “Hoje, quinze anos e um dia depois de 8 de maio de 1945, começo a conduzir meus pensamentos de volta àquele 19 de março do ano de 1906, quando, às cinco horas da manhã, entrei para a vida na Terra sob o aspecto de um ser humano”. (O manuscrito não foi liberado pelas autoridades israelenses. Harry Mulisch conseguiu estudar essa autobiografia “durante meia hora”, e o semanário judeu-alemão Der Aufbau conseguiu publicar excertos curtos dele.) Segundo suas crenças religiosas, que não haviam mudado desde o período nazista (em Jerusalém, Eichmann declarou-se um Gottgläubiger, termo nazista usado para aqueles que haviam rompido com o cristianismo, e recusou-se a jurar sobre a Bíblia), esse acontecimento devia ser atribuído a um “Portador de Sentido superior”, uma entidade de certa forma identificada com o “movimento do universo”, à qual a vida humana, em si isenta de “sentido superior”, deveria estar sujeita. (A terminologia é bastante sugestiva. Chamar Deus de Höher Sinnesträger significa, lingüisticamente, dar a ele um posto na hierarquia militar, uma vez que os nazistas haviam transformado o “recebedor de ordens”, o Befehlsträger, num “portador de ordens”, um Befelsträger, indicando assim, como no antigo termo “portador de más notícias”, a carga de responsabilidade e de importância que devia pesar sobre aqueles que executavam ordens. Além disso, Eichmann, como todo mundo ligado à Solução Final, também era oficialmente um “portador de segredos”, um Geheimnisträger, coisa que em termos de vaidade não era de se desprezar.) Mas Eichmann, não muito interessado em metafísica, silenciou sobre a existência de alguma relação mais íntima entre o Portador de Sentido e o portador de ordens e prosseguiu, considerando uma outra causa possível de sua existência, seus pais: “Eles não teriam se enchido de alegria com a chegada de seu primogênito se fossem capazes de ver que, na hora do meu nascimento, para provocar o gênio da felicidade, o gênio da infelicidade já estava tecendo os fios de dor e tristeza em minha vida. Porém um véu suave e impenetrável impedia meus pais de enxergar o futuro”.
A infelicidade começou cedo; começou na escola. O pai de Eichmann, primeiro contador da Companhia de Bondes e Eletricidade de Solingen, e, depois de 1913, funcionário da mesma empresa na Áustria, em Linz, teve cinco filhos, quatro homens e uma mulher, dos quais, ao que parece, só Adolf, o mais velho, não conseguiu terminar a escola secundária, nem se formar na escola vocacional para engenharia na qual foi matriculado então. Ao longo de toda a sua vida, Eichmann enganou as pessoas sobre suas primeiras dificuldades, escondendo-se atrás das honradas dificuldades financeiras de seu pai. Em Israel, porém, durante as primeiras sessões com o capitão Avner Less, o interrogador da polícia que passaria aproximadamente 35 dias com ele e que produziria 3564 páginas datilografadas a partir de 76 fitas gravadas, Eichmann estava efervescente, cheio de entusiasmo com essa oportunidade única “de revelar tudo [...] o que sei” e, ao mesmo tempo, ascender ao posto de acusado mais cooperativo de todos os tempos. (Seu entusiasmo logo arrefeceu, embora não tenha se extinguido totalmente, quando se viu confrontado com perguntas concretas baseadas em documentos irrefutáveis.) A melhor prova de sua ilimitada confiança inicial, evidentemente desperdiçada com o capitão Less (que disse a Harry Mulisch: “Eu fui o padre confessor de Eichmann”), foi que pela primeira vez na vida ele admitiu seus desastres iniciais, embora devesse ter consciência do fato de que estava assim contradizendo a si mesmo em diversos itens de sua ficha oficial no nazismo.
Bem, os desastres eram comuns: como ele “não era exatamente um aluno dos mais estudiosos” — nem, podemos acrescentar, um dos mais dotados — seu pai o tirou primeiro da escola secundária, depois da escola vocacional, muito antes da formatura. Daí a profissão que aparece em todos os seus documentos oficiais: engenheiro de construção, coisa que tinha a mesma ligação com a realidade quanto a declaração de que nascera na Palestina e de que era fluente em hebraico e iídiche — outra mentira deslavada que Eichmann gostava de contar tanto a seus companheiros da SS quanto às suas vítimas judaicas. Era nessa mesma veia que ele fingia ter sido despedido de seu trabalho de vendedor na Companhia de Óleo a Vácuo da Áustria devido a sua filiação ao Partido Nacional Socialista. A versão que ele confidenciou ao capitão Less era menos dramática, embora tampouco verdadeira: fora despedido porque era uma época de desemprego, e os funcionários solteiros eram os primeiros a perder o trabalho. (Essa explicação, que de início pareceu plausível, não é muito satisfatória, porque ele perdeu o emprego na primavera de 1933, quando já fazia dois anos que estava noivo de Veronika, ou Vera, Liebl, sua futura esposa. Por que não se casou com ela antes, quando ainda tinha emprego? Ele acabou se casando com ela em março de 1935, provavelmente porque, tanto na SS como na Companhia de Óleo, homens solteiros não tinham segurança do emprego e não podiam ser promovidos.) Claro que a pretensão sempre foi um de seus vícios capitais.
Enquanto o jovem Eichmann ia mal na escola, seu pai deixou a Companhia de Bondes e Eletricidade e abriu um negócio próprio. Comprou uma pequena empresa de mineração e determinou que seu pouco promissor filho trabalhasse nela como mineiro comum, mas só até conseguir para ele um emprego no departamento de vendas da Companhia Oberösterreichischen Elektrobau, onde Eichmann ficou mais de dois anos. Ele tinha agora quase 22 anos, sem nenhuma perspectiva de carreira; a única coisa que aprendeu, talvez, foi vender. O que aconteceu então foi o que ele mesmo chamou de seu primeiro triunfo, do qual temos, mais uma vez, duas versões diversas. Num relato autobiográfico escrito à mão que apresentou em 1939 para conquistar uma promoção na SS, ele afirmou o seguinte: “Trabalhei durante os anos de 1925 e 1927 como vendedor da Companhia Elektrobau austríaca. Deixei essa posição de livre e espontânea vontade porque a Companhia de Óleo a Vácuo de Viena me ofereceu uma representação no Norte da Áustria”. A palavra-chave aqui é “ofereceu”, uma vez que, segundo a história que contou ao capitão Less em Israel, ninguém lhe ofereceu nada. A mãe dele havia morrido quando ele tinha dez anos de idade, e seu pai se casara de novo. Um primo de sua madrasta — homem que ele chamava de “tio” — presidente do Automóvel Clube austríaco, casado com a filha de um empresário judeu na Tchecoslováquia, usara seus contatos com o diretor-geral da Companhia de Óleo austríaca, um judeu chamado sr. Weiss, para conseguir para seu infeliz parente um emprego de vendedor viajante. Eichmann ficou adequadamente agradecido; os judeus de sua família estavam entre as suas “razões particulares” para não odiar os judeus. Em 1943 ou 1944, quando a Solução Final estava a pleno vapor, ele ainda não tinha esquecido: “A filha desse casal, meio-judia segundo as Leis de Nuremberg [...] me procurou para obter permissão para emigrar para a Suíça. Evidentemente, eu atendi ao pedido, e o mesmo tio também me procurou pedindo que interferisse em prol de um casal judeu vienense. Só menciono isso para demonstrar que pessoalmente não tinha ódio dos judeus, pois toda a minha formação por parte de pai e mãe foi estritamente cristã; minha mãe, devido a seus parentes judeus, tinha opiniões diferentes das que eram correntes nos círculos da SS”.
Ele se esforçou bastante para provar este ponto: jamais abrigara no peito nenhum mau sentimento por suas vítimas e, mais ainda, nunca fizera segredo desse fato. “Expliquei isso ao dr. Löwenherz [chefe da Comunidade Judaica de Viena] assim como expliquei também ao dr. Kastner [vice-presidente da Organização Sionista de Budapeste]; acho que contei a todo mundo, todos os meus homens sabiam disso, todos me ouviram dizer isso em algum momento. Até mesmo na escola primária, eu tinha um colega de classe com quem passava meu tempo livre, e ele vinha à nossa casa; era de uma família de Linz de nome Sebba. Na última vez que passeamos pelas ruas de Linz, eu já estava com o emblema do NSDAP [o Partido Nazista] na lapela e ele não disse nada.” Se Eichmann fosse um pouco menos caprichoso ou o interrogatório da polícia menos discreto (a polícia evitou fazer um segundo interrogatório, talvez temendo perder sua cooperação), sua “ausência de preconceito” teria aparecido sob mais um aspecto. Parece que em Viena, onde fora tão excepcionalmente bem-sucedido em arranjar a “emigração forçada” dos judeus, ele teve uma amante judia, uma velha relação de Linz. Rassenschande, a relação sexual com judeus, era talvez o maior crime que um membro da SS podia cometer, e embora durante a guerra o estupro de moças judias tenha se tornado o passatempo favorito do front, não era nada comum um oficial superior da SS ter um caso com uma mulher judia. Por isso, ao denunciar violenta e repetidamente Julius Streicher, o louco e obsceno diretor do Der Stürmer, e seu pornográfico anti-semitismo, Eichmann talvez tivesse motivos pessoais, que expressavam mais que o desprezo rotineiro que um SS “iluminado” devia demonstrar pelas paixões vulgares de luminares menores do Partido.
Os cinco anos e meio que passou na Companhia de Óleo a Vácuo devem ter sido os mais felizes da vida de Eichmann. Ele ganhava bem numa época de severo desemprego, e ainda morava com os pais, exceto quando estava viajando. A data em que esse idílio terminou — Pentecostes de 1933 — estava entre as poucas que ele nunca esqueceria. Na verdade, as coisas tinham mudado para pior um pouco antes. No final de 1932, ele foi inesperadamente transferido de Linz para Salzburg, muito contra a sua vontade: “Perdi toda alegria em meu trabalho, não gostava mais de vender, de fazer visitas”. Essas súbitas perdas de Arbeitsfreude, Eichmann iria sofrê-las ao longo de toda a sua vida. A pior delas ocorreu quando ele soube da ordem do Führer de “exterminar fisicamente os judeus”, tarefa em que ele iria desempenhar importante papel. Isso também foi uma coisa inesperada; ele próprio “nunca havia pensado [...] numa solução violenta” e descreveu sua reação com as mesmas palavras: “Eu tinha perdido tudo, toda alegria no meu trabalho, toda iniciativa, todo interesse; estava, por assim dizer, acabado”. Coisa semelhante deve ter acontecido em 1932, em Salzburg, e em seu próprio relato fica claro que ele não deve ter se surpreendido muito ao ser despedido, embora não se tenha de acreditar nele quando disse que tinha ficado “muito contente” ao ser despedido.
Seja qual for a razão, o ano de 1932 marcou um momento de transformação em sua vida. Foi em abril desse ano que ele se filiou ao Partido Nacional Socialista e entrou para a SS, a convite de Ernst Kaltenbrunner, um jovem advogado de Linz que depois veio a ser chefe do Escritório Central da Segurança do Reich (o Reichssicherheitshauptamt ou RSHA, conforme vou chamá-lo daqui em diante). Num de seus seis departamentos principais — o Bureau IV, sob o comando de Heinrich Müller —, Eichmann acabou sendo empregado como chefe de seção B-4. No tribunal, Eichmann dava a impressão de um típico membro da baixa classe média, e essa impressão era mais que confirmada por cada palavra que falou ou escreveu quando na prisão. Mas isso era enganoso; ele era antes o filho déclassé de uma sólida família de classe média, e um indício de sua descida na escala social é o fato de seu pai ser bom amigo do pai de Kaltenbrunner, que também era advogado em Linz, enquanto a relação dos dois filhos era bastante fria: Kaltenbrunner não deixava dúvidas de que tratava Eichmann como seu inferior social. Antes de Eichmann entrar para o Partido e para a SS, ele já havia provado ser um adesista, e o dia 8 de maio de 1945, data oficial da derrota da Alemanha, foi significativo para ele principalmente porque se deu conta de que a partir de então teria de viver sem ser membro de uma coisa ou outra. “Senti que teria de viver uma vida individual difícil e sem liderança, não receberia diretivas de ninguém, nenhuma ordem, nem comando me seriam mais dados, não haveria mais nenhum regulamento pertinente para consultar — em resumo, havia diante de mim uma vida desconhecida.” Quando criança, seus pais, desinteressados por política, inscreveram-no na Associação Cristã de Moços, da qual ele passou depois para o movimento de jovens alemães, Wandervogel. Durante seus quatro anos malsucedidos na escola secundária, ele se filiou à Jungfrontkämpfeverband, setor jovem da organização de veteranos de guerra austro-germânicos que, embora violentamente pró-germânica, era tolerada pelo governo austríaco. Quando Kaltenbrunner sugeriu que ele entrasse para a SS, Eichmann estava a ponto de se filiar a um grupo inteiramente diferente, a Loja Maçônica Schlaraffia, “uma associação de empresários, médicos, atores, funcionários públicos etc., que se reuniam para cultivar a alegria [...] Cada membro dava uma palestra de tempos em tempos, cujo teor tinha de ser o humor, humor refinado”. Kaltenbrunner explicou a Eichmann que ele teria de desistir de sua sociedade alegre porque, como nazista, não podia ser maçom — palavra que na época era desconhecida para ele. Era difícil a escolha entre a SS e a Schlaraffia (o nome vem de Schlarafenland, a terra dos glutões nos contos de fadas alemães), mas ele foi “chutado para fora” da Schlaraffia, porque cometeu um pecado que, mesmo agora, ao contar a história na prisão israelense, o deixava corado de vergonha: “Contrariando minha criação, tentei, embora fosse o mais novo, convidar meus companheiros a tomar uma taça de vinho”.
Uma folha no redemoinho do tempo, ele foi soprado para fora da Schlaraffia, a Terra do Nunca de mesas servidas por mágica e frangos assados que voam para dentro da boca — ou, mais exatamente, da companhia respeitável de novos-ricos com diplomas e carreiras garantidas e “humor refinado”, cujo pior vício era provavelmente um desejo irreprimível de pregar peças —, para as colunas em marcha do Reich dos Mil Anos, que durou exatamente doze anos e três meses. De toda forma, não entrou para o Partido por convicção nem jamais se deixou convencer por ele — sempre que lhe pediam para dar suas razões, repetia os mesmos clichês envergonhados sobre o Tratado de Versalhes e o desemprego; antes, conforme declarou no tribunal, “foi como ser engolido pelo Partido contra todas as expectativas e sem decisão prévia. Aconteceu muito depressa e repentinamente”. Ele não tinha tempo, e muito menos vontade de se informar adequadamente, jamais conheceu o programa do Partido, nunca leu Mein Kampf. Kaltenbrunner disse para ele: Por que não se filia à SS? E ele respondeu: Por que não? Foi assim que aconteceu, e isso parecia ser tudo.
Evidentemente, isso não era tudo. O que Eichmann deixou de dizer ao juiz presidente durante seu interrogatório foi que ele havia sido um jovem ambicioso que não agüentava mais o emprego de vendedor viajante antes mesmo de a Companhia de Óleo a Vácuo não agüentá-lo mais. De uma vida rotineira, sem significado ou conseqüência, o vento o tinha soprado para a História, pelo que ele entendia, ou seja, para dentro de um Movimento sempre em marcha e no qual alguém como ele — já fracassado aos olhos de sua classe social, de sua família e, portanto, aos seus próprios olhos também — podia começar de novo e ainda construir uma carreira. E se ele nem sempre gostava do que tinha de fazer (por exemplo, despachar multidões que iam de trem para a morte em vez de forçá-las a emigrar), se ele não adivinhou antes que a coisa toda iria acabar mal, com a Alemanha perdendo a guerra, se todos os seus planos mais caros deram em nada (a evacuação dos judeus europeus para Madagascar, o estabelecimento de um território judeu na região de Nisko, na Polônia, o experimento com instalações de defesa cuidadosamente construídas em torno de seu escritório de Berlim para repelir os tanques russos), e se, para sua grande “tristeza e sofrimento”, ele nunca passou do grau de Obersturmbannführer da SS (posto equivalente ao de tenente-coronel) — em resumo, se, com exceção do ano que passou em Viena, sua vida fora marcada por frustrações, ele jamais esqueceu qual seria a alternativa. Não só na Argentina, levando a triste existência de um refugiado, mas também na sala do tribunal de Jerusalém, com sua vida praticamente confiscada, ele ainda preferiria — se alguém lhe perguntasse — ser enforcado como Obersturmbannführer a. D. (da reserva) do que viver a vida discreta e normal de vendedor viajante da Companhia de Óleo a Vácuo.
O começo da nova carreira de Eichmann não foi muito promissor. Na primavera de 1933, quando estava em viagem de serviço, o Partido Nazista e todos os seus afiliados foram suspensos na Áustria, por causa da ascensão de Hitler ao poder. Mas mesmo sem essa nova calamidade, uma carreira no Partido austríaco estava fora de questão: mesmo aqueles que se alistaram na SS ainda estavam trabalhando em seus empregos regulares; Kaltenbrunner ainda era sócio da firma jurídica de seu pai. Eichmann, portanto, decidiu ir para a Alemanha, coisa que era natural porque sua família não tinha renunciado à cidadania alemã. (Esse fato foi de alguma relevância durante o julgamento. O dr. Servatius tinha pedido ao governo da Alemanha Ocidental que extraditasse o acusado e, no caso de uma negativa, que pagasse as despesas da defesa, e Bonn recusou, afirmando que Eichmann não era cidadão alemão, o que era uma mentira patente.) Em Passau, na fronteira alemã, ele, de repente, virou de novo vendedor viajante, e quando se apresentou ao líder regional, perguntou-lhe empenhadamente se tinha “alguma ligação com a Companhia de Óleo a Vácuo bávara”. Essa foi uma de suas não raras recaídas num período anterior de sua vida; sempre que se via confrontado com os sinais de que era nazista não regenerado, em sua vida na Argentina e mesmo na prisão em Jerusalém, ele se desculpava com “Lá vou eu de novo, para a mesma cantilena [die alte Tour]”. Mas sua recaída em Passau curou-se depressa; disseram-lhe que era melhor se alistar em algum treinamento militar — “Por mim, tudo bem, por que não me transformar em soldado?” — e foi mandado em rápida sucessão para dois campos da SS na Bavária, em Lechfeld e Dachau (ele nada teve a ver com o campo de concentração dessa cidade), onde a “legião austríaca no exílio” recebia treinamento. Foi assim que se transformou numa espécie de austríaco, apesar de seu passaporte alemão. Ficou nesses campos militares de agosto de 1933 até setembro de 1934, progrediu ao grau de Scharführer (cabo) e tinha tempo de sobra para ponderar sobre sua disposição de abraçar a carreira de soldado. Segundo seu próprio relato, só numa coisa ele se distinguiu durante esses catorze meses, no treino punitivo, em que se empenhava com grande obstinação, no espírito odioso de “se meu pai não quer que minha mão congele, ele que me compre luvas”. Mas a não ser por esse dúbio prazer, ao qual deveu sua primeira promoção, ele passou um mau bocado: “A rotina do serviço militar era algo que eu não suportava, dia após dia a mesma coisa, sempre e sempre a mesma coisa”. Assim enfarado até o limite, ele ouviu falar que o Serviço de Segurança da Reichsführer SS (o Sicherheitsdienst de Himmler, ou SD, como o chamarei daqui em diante) tinha vagas abertas e resolveu candidatar-se imediatamente.