Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal
X. Deportações da Europa Ocidental — França, Bélgica, Holanda,
X
DEPORTAÇÕES DA EUROPA OCIDENTAL — FRANÇA, BÉLGICA,
HOLANDA, DINAMARCA, ITÁLIA
A “dureza impiedosa”, qualidade tida em alta estima pelos governantes do Terceiro Reich, é uma característica freqüente do pós-guerra na Alemanha, que desenvolveu um verdadeiro talento para o subterfúgio ao indicar seu passado nazista como ungut — desprovido de bem —, como se não houvesse nada de errado com aqueles que são dotados dessa qualidade a não ser uma deplorável falha em agir de acordo com os exigentes padrões da caridade cristã. De toda forma, os homens enviados pelo departamento de Eichmann para outros países como “conselheiros para assuntos judeus” — a serem anexados às missões diplomáticas regulares, ou ao corpo militar, ou ao comando local da Polícia de Segurança — eram todos escolhidos porque possuíam essa virtude no mais alto grau. No começo, durante o outono e o inverno de 1941-42, sua tarefa principal parecia ser o estabelecimento de relações satisfatórias com os outros funcionários alemães nos países em questão, principalmente com as embaixadas alemãs em países só nominalmente independentes e com os comissários do Reich em territórios ocupados; em ambos os casos, havia um conflito perpétuo sobre a jurisdição na questão dos assuntos judeus.
Em junho de 1942, Eichmann convocou seus conselheiros na França, Bélgica e Holanda a fim de estabelecer planos para deportação nesses países. Himmler ordenara que a França recebesse prioridade absoluta na “varredura da Europa de Oeste a Leste”, em parte por causa da importância inerente da nation par excellence, em parte porque o governo de Vichy havia demonstrado uma “compreensão” realmente surpreendente do problema judaico e introduzira, por iniciativa própria, uma boa dose de legislação antijudaica; havia até fundado um Departamento de Assuntos Judeus especial, chefiado primeiro por Xavier Vallant e, um pouco mais tarde, por Darquier de Pellepoix, ambos anti-semitas notórios. Como concessão ao tipo francês de anti-semitismo, intimamente ligado a uma xenofobia chauvinista forte e generalizada em todos os estratos da população, a operação devia começar com os judeus estrangeiros, e como em 1942 mais de metade dos judeus estrangeiros na França era de apátridas — refugiados e emigrados da Rússia, Alemanha, Áustria, Polônia, Romênia e Hungria, isto é, de áreas sob domínio alemão ou que haviam aprovado alguma legislação antijudaica antes do início da guerra —, decidiu-se começar pela deportação de um número estimado em 100 mil judeus apátridas. (O total da população judaica do país estava, então, bem acima dos 300 mil; em 1939, antes do influxo de refugiados da Bélgica e da Holanda na primavera de 1940, havia cerca de 270 mil judeus, dos quais pelo menos 170 mil eram estrangeiros ou nascidos no estrangeiro.) Cinqüenta mil deveriam ser evacuados a toda pressa tanto da Zona Ocupada como da França de Vichy. Era um empreendimento considerável, que precisava não só da concordância do governo de Vichy, como da ajuda ativa da polícia francesa, que deveria fazer o trabalho executado na Alemanha pela Polícia da Ordem. De início, não houve nenhuma dificuldade, uma vez que, conforme apontou Pierre Laval, ministro do marechal Pétain, “esses judeus estrangeiros sempre foram um problema para a França”, e consequentemente “o governo francês estava satisfeito porque a mudança de atitude dos alemães dava à França a oportunidade de livrar-se deles”. Acrescente-se que Lavai e Pétain pensavam que esses judeus seriam reassentados no Leste; ainda não sabiam o que “reassentamento” queria dizer.
Dois incidentes em particular atraíram a atenção da corte de Jerusalém, ambos ocorridos no verão de 1942, poucas semanas depois que a operação começou. O primeiro dizia respeito a um trem que devia deixar Bordeaux em 15 de julho, e cuja viagem foi preciso cancelar porque só foram encontrados 150 judeus apátridas na cidade — insuficientes para lotar o trem, que Eichmann obtivera com grande dificuldade. Tenha ou não reconhecido esse fato como um primeiro indício de que as coisas talvez não fossem tão fáceis como todo mundo se sentia no direito de acreditar, Eichmann ficou muito exaltado com isso, dizendo a seus subordinados que era uma “questão de prestígio” — não aos olhos dos franceses, mas aos do Ministério dos Transportes, que podia tirar conclusões erradas sobre a eficiência de sua equipe — e que ele teria de “considerar se a França não deveria ser inteiramente abandonada, no que dizia respeito à evacuação”, caso o incidente se repetisse. Em Jerusalém, essa ameaça foi levada muito a sério, no sentido de comprovar o poder de Eichmann; se ele quisesse, poderia “abandonar a França”. Na verdade, era uma das ridículas gabolices de Eichmann, prova de sua “ambição”, mas dificilmente “prova de [...] seu status aos olhos dos subordinados”, a não ser na medida em que simplesmente os ameaçara de perder seus confortáveis empregos de guerra. Mas se o incidente de Bordeaux foi uma comédia de erros, o segundo serviu de base para uma das inúmeras histórias horripilantes que corriam em Jerusalém. Trata-se do episódio de 4 mil crianças separadas dos pais, já a caminho de Auschwitz. As crianças haviam sido abandonadas no ponto de embarque francês, o campo de concentração de Drancy, e em 10 de julho o representante francês de Eichmann, Hauptsturmführer Theodor Dannecker, telefonou a Eichmann para saber o que fazer com as crianças. Eichmann levou dez dias para decidir, depois ligou para Dannecker dizendo que “assim que os transportes pudessem ser novamente enviados para a área do Governo-Geral [da Polônia] ocorreria o transporte das crianças”. O dr. Servatius observou que todo o incidente realmente demonstrava que as “pessoas afetadas não foram escolhidas nem pelo acusado, nem por nenhum membro de seu departamento”. Mas o que, infelizmente, ninguém mencionou foi que Dannecker informara Eichmann de que o próprio Laval sugerira que crianças com menos de dezesseis anos fossem incluídas nas deportações; isso significava que todo o horrendo episódio não decorria de “ordens superiores”, mas era conseqüência de um acordo entre a França e a Alemanha, negociado no mais alto escalão.
Durante o verão e o outono de 1942, 27 mil judeus apátridas — 18 mil de Paris e 9 mil de Vichy — foram deportados para Auschwitz. Em seguida, quando restavam 70 mil judeus apátridas em toda a França, os alemães cometeram seu primeiro erro. Convencidos de que àquela altura os franceses já estavam a tal ponto habituados à deportação de judeus que não se importariam com a coisa, pediram permissão para incluir também os judeus franceses — simplesmente para facilitar as questões administrativas. Isso provocou uma virada completa; os franceses foram taxativos em sua recusa a entregar seus judeus aos alemães. E Himmler, ao ser informado da situação — não por Eichmann ou seus homens, incidentalmente, mas por um dos comandantes superiores da SS e da polícia —, imediatamente cedeu e prometeu poupar os judeus franceses. Mas já era tarde demais. Os primeiros boatos sobre os “reassentamentos” já haviam chegado à França, e mesmo que os anti-semitas franceses — e os demais também — gostassem da idéia de ver os judeus estrangeiros assentados em outro país, nem mesmo os anti-semitas estavam dispostos a ser cúmplices de assassinato em massa. Daí os franceses se recusarem a dar um passo que haviam considerado tão empenhadamente pouco antes, isto é, revogar as naturalizações concedidas aos judeus depois de 1927 (ou depois de 1933), o que tornaria cerca de outros 50 mil judeus passíveis de deportação. Além disso, começaram a apresentar tantas dificuldades à deportação de judeus apátridas e outros judeus estrangeiros que todos os ambiciosos planos de evacuação dos judeus da França tiveram de ser “abandonados”. Dezenas de milhares de pessoas apátridas foram para a clandestinidade, enquanto milhares de outras fugiram para a zona francesa ocupada pela Itália, a Côte d’Azur, onde os judeus estavam seguros, qualquer que fosse sua origem ou nacionalidade. No verão de 1943, quando a Alemanha foi declarada judenrein e os Aliados já haviam desembarcado na Sicília, não mais do que 52 mil judeus, certamente menos do que 20% do total, haviam sido deportados, e desses não mais do que 6 mil possuíam nacionalidade francesa. Nem mesmo os prisioneiros de guerra judeus do Exército francês nos campos de internação alemães foram escolhidos para receber “tratamento especial”. Em abril de 1944, dois meses depois que os Aliados aportaram na França, ainda havia 250 mil judeus no país, e todos sobreviveram à guerra. Os nazistas, afinal, não possuíam nem o pessoal, nem a força de vontade para manter a “dureza” quando encontravam oposição determinada. A verdade é que, como veremos, até os membros da Gestapo e da SS podiam combinar dureza e frouxidão.
Na reunião de junho de 1942 em Berlim, os levantamentos de candidatos a deportação imediata feitos pela Bélgica e pela Holanda apresentavam totais bastante baixos, provavelmente devido ao fato de que o total relativo à França era alto. Não mais de 10 mil judeus na Bélgica e 15 mil na Holanda deveriam ser capturados e deportados no futuro imediato. Em ambos os casos, os números foram depois ampliados significativamente, decerto em decorrência das dificuldades encontradas na operação francesa. A situação na Bélgica foi especial sob certos aspectos. O país era governado exclusivamente por autoridades militares alemãs e, como observava um relatório belga apresentado à corte, a influência da polícia “sobre os outros serviços administrativos alemães era menor do que em outros lugares”. (O governador belga, general Alexander von Falkenhauser, envolveu-se mais tarde na conspiração contra Hitler de julho de 1944.) Somente em Flandres havia uma colaboração significativa; o movimento fascista entre os valões de língua francesa, chefiados por Degrelle, tinha pouca influência. A polícia belga não cooperava com os alemães, e os ferroviários belgas não mereciam confiança nem para cuidar dos trens de deportação. Eles conspiravam para deixar portas abertas ou organizar emboscadas para que os judeus escapassem. Era muito peculiar a composição da população judaica. Antes da eclosão da guerra havia 90 mil judeus, dos quais cerca de 30 mil eram alemães refugiados, enquanto outros 50 mil vinham de diferentes países europeus. No final de 1940 cerca de 40 mil judeus tinham fugido do país, e entre os 50 mil que ficaram havia no máximo 5 mil cidadãos belgas nativos. Além disso, entre aqueles que haviam fugido estavam todos os líderes judeus mais importantes, a maioria dos quais era estrangeira, de forma que o Conselho Judeu não exercia nenhuma autoridade entre os judeus nativos. Com essa “falta de entendimento” de todos os lados, não é de surpreender que pouquíssimos judeus belgas tenham sido deportados. Porém os judeus recém-naturalizados e os apátridas — de origem tcheca, polonesa, russa e alemã, muitos dos quais recém-chegados — eram fáceis de reconhecer e muito difíceis de esconder, naquele país pequeno e completamente industrializado. No final de 1942, 15 mil deles haviam sido despachados para Auschwitz, e no outono de 1944, quando os Aliados libertaram o país, 25 mil deles haviam sido assassinados. Eichmann tinha seu “conselheiro” na Bélgica, mas o conselheiro parece não ter sido muito ativo nessas operações. Elas acabaram sendo realizadas pela administração militar, sob crescente pressão do Ministério das Relações Exteriores.
Assim como em praticamente todos os outros países, as deportações na Holanda começaram com os judeus apátridas, que neste caso consistiam quase inteiramente de refugiados da Alemanha, os quais o governo pré-guerra holandês declarara oficialmente “indesejáveis”. Havia cerca de 35 mil judeus estrangeiros numa população judaica total de 140 mil pessoas. Ao contrário da Bélgica, a Holanda foi posta sob administração civil e, ao contrário da França, o país não tinha governo próprio, uma vez que o gabinete fugira junto com a família real para Londres. A pequena nação estava inteiramente à mercê dos alemães e da SS. O “conselheiro” de Eichmann na Holanda era um certo Willi Zöpf (preso recentemente na Alemanha, enquanto o conselheiro francês, muito mais eficiente, o sr. Dannecker, continua em liberdade), mas ele aparentemente tinha muito pouco a dizer e mal podia fazer algo além de manter informado o departamento em Berlim. As deportações e tudo o que estava ligado a elas eram trabalho para o advogado Erich Rajakowitsch, antigo conselheiro legal de Eichmann em Viena e Praga, admitido na SS por recomendação de Eichmann. Heydrich o mandou para a Holanda em abril de 1941, onde devia prestar contas não ao RSHA de Berlim, mas ao chefe local do Serviço de Segurança em Haia, dr. Wilhelm Harsten, que por sua vez estava sob o comando do Obergruppenführer Hans Rauter, um dos comandantes superiores da SS e da polícia, e de seu assistente para assuntos judeus, Ferdinand aus der Fünten. (Rauter e Fünten foram condenados à morte por um tribunal holandês; Rauter foi executado e a sentença de Fünten, aparentemente depois de uma intervenção especial de Adenauer, foi comutada para prisão perpétua. Harsten também foi julgado na Holanda, sentenciado a doze anos de prisão, e libertado em 1957, quando entrou para o serviço público do governo bávaro. As autoridades holandesas estão considerando a possibilidade de agir contra Rajakowitsch, que parece estar vivendo na Suíça ou na Itália. Todos esses detalhes vieram à tona no último ano por meio da publicação de documentos holandeses e da reportagem de E. Jacob, correspondente holandês do Basler Nationalzeitung, um jornal suíço.) A acusação em Jerusalém, em parte porque queria piorar a situação de Eichmann a todo custo, em parte porque ficou genuinamente perdida nos labirintos da burocracia alemã, alegou que todos aqueles funcionários cumpriam ordens de Eichmann. Mas os comandantes superiores da SS e da polícia só recebiam ordens de Himmler, e é altamente improvável que Rajakowitsch ainda estivesse recebendo ordens de Eichmann naquela época, principalmente em vista do que estava ocorrendo na Holanda. A sentença, sem embarcar em polêmicas, corrigiu discretamente um grande número de erros cometidos pela acusação — embora provavelmente não todos — e expôs a constante competição existente entre o RSHA, os comandantes superiores da SS e da polícia e outros departamentos — as “tenazes, eternas, infindáveis negociações”, como disse Eichmann.
Eichmann ficou especialmente aborrecido com os arranjos da Holanda porque evidentemente era o próprio Himmler quem o estava colocando em seu lugar, além do fato de que o zelo dos cavalheiros enviados para lá criava grandes dificuldades para a organização dos transportes e geralmente zombava do “centro coordenador” de Berlim. Por isso, logo de início foram deportados 20 mil judeus, e não 15 mil, e o sr. Zöpf, de patente e posição bem inferior a todos os outros presentes, foi quase obrigado a apressar as deportações em 1943. Os conflitos sobre a jurisdição desses assuntos haveria de infernizar Eichmann em todos os momentos, e em vão ele explicaria a quem quisesse ouvir que “seria ir contra a ordem do Reichsführer SS [isto é, Himmler], além de ilógico, que àquela altura outras autoridades ficassem encarregadas de lidar com o problema judeu”. O último confronto, na Holanda, aconteceu em 1944, e dessa vez até Kaltenbrunner tentou intervir, em prol da uniformidade. Na Holanda, os judeus sefardins, de origem espanhola, haviam sido eximidos, embora judeus dessa origem houvessem sido enviados de Salônica para Auschwitz. O julgamento errou ao afirmar que o RSHA “venceu aquela disputa” — sabe Deus por que razão, cerca de 370 judeus sefardins ficaram incólumes em Amsterdã.
A razão de Himmler preferir trabalhar, na Holanda, por intermédio dos comandantes superiores da SS e da polícia era simples. Esses homens sabiam orientar-se no país, e o problema apresentado pela população holandesa não era, de forma nenhuma, fácil. A Holanda foi o único país em toda a Europa em que estudantes entraram em greve quando professores judeus foram despedidos, e onde uma onda de greves explodiu como reação à primeira deportação de judeus para campos de concentração — e essa deportação, ao contrário daquelas para campos de extermínio, era uma medida meramente punitiva, tomada muito antes da Solução Final ter chegado à Holanda. (Os alemães, como diz de Jong, aprenderam a lição. Daí em diante, “a perseguição era feita não com os cassetetes das tropas de assalto nazistas [...] mas com decretos publicados no Verordeningenblad [...] que o Joodsche Weekblad era forçado a publicar”. Não houve mais patrulhas policiais nas ruas e não houve greves por parte da população.) No entanto, a hostilidade generalizada da Holanda contra as medidas anti-semitas se confrontava com dois fatores que acabaram mostrando-se fatais para os judeus. Primeiro, existia um movimento nazista muito forte na Holanda, que se encarregava de medidas policiais como capturar judeus, localizar seus esconderijos e assim por diante; segundo, havia entre os judeus nativos uma tendência extremamente forte a manter uma distinção entre eles e os recém-chegados, provavelmente resultado da atitude muito pouco amigável do governo holandês para com os refugiados da Alemanha e também, provavelmente, do anti-semitismo na Holanda, que, assim como na França, era focalizado nos judeus estrangeiros. Isso tornou relativamente fácil para os nazistas formar seu primeiro Conselho Judeu, o Joodsche Raad, que durante muito tempo manteve a convicção de que só os judeus alemães e outros judeus estrangeiros seriam vítimas das deportações, e também permitiu à SS convocar, além das unidades policiais holandesas, a ajuda de uma força policial judaica. O resultado foi uma catástrofe sem paralelo em nenhum país ocidental, somente comparável à extinção dos judeus poloneses, ocorrida em condições muitíssimo diferentes e, desde o começo, completamente desesperadas. Muito embora, ao contrário da Polônia, a atitude do povo holandês tivesse permitido que um grande número de judeus se escondesse — entre 20 e 25 mil, número muito elevado para país tão pequeno —, um número extraordinariamente alto de judeus vivendo na clandestinidade (pelo menos metade deles) foi encontrado, sem dúvida graças ao empenho de informantes profissionais e ocasionais. Em julho de 1944, 113 mil judeus haviam sido deportados, a maioria deles para Sobibor, um campo na área de Lublin, na Polônia, às margens do rio Bug, onde nunca houve seleção de trabalhadores capacitados. Três quartos de todos os judeus que viviam na Holanda foram mortos, cerca de dois terços deles judeus holandeses nativos. Os últimos carregamentos partiram no outono de 1944, quando as patrulhas aliadas já estavam na fronteira holandesa. Dos 10 mil judeus que sobreviveram escondidos, cerca de 75% eram estrangeiros — porcentagem que confirma a pouca disposição dos judeus holandeses a encarar a realidade.
Na Conferência de Wannsee, Martin Luther, do Ministério das Relações Exteriores, alertou sobre grandes dificuldades nos países escandinavos, principalmente na Noruega e na Dinamarca. (A Suécia nunca foi ocupada, e a Finlândia, embora apoiasse o Eixo na guerra, foi o único país que os nazistas não chegaram sequer a abordar a propósito da questão judaica. Essa surpreendente exceção da Finlândia, com seus quase 2 mil judeus, pode ser devida à grande estima de Hitler pelos finlandeses, que talvez não quisesse submeter a ameaças e chantagens humilhantes.) Luther propôs postergar até segunda ordem as evacuações da Escandinávia, o que era óbvio no caso da Dinamarca, uma vez que o país mantinha seu governo independente, sendo respeitado como Estado neutro até o outono de 1943, embora tivesse sido, tal como a Noruega, invadido pelo Exército alemão em abril de 1940. Não existia na Dinamarca nenhum movimento fascista ou nazista digno de nota, e portanto não havia colaboradores. Na Noruega, porém, os alemães tinham conseguido encontrar apoio entusiasmado; na verdade, Vidkun Quisling, líder do partido norueguês pró-nazista e anti-semita, emprestou seu nome ao que depois se tornou conhecido como “governo quisling [governo de fachada]”. O grosso dos 1700 judeus da Noruega era de apátridas, refugiados da Alemanha; eles foram capturados e aprisionados em operações relâmpago em outubro e novembro de 1942. Quando o departamento de Eichmann ordenou que fossem deportados para Auschwitz, alguns dos próprios homens de Quisling renunciaram a seus postos no governo. Isso pode não ter sido uma surpresa para o sr. Luther e o Ministério das Relações Exteriores, mas o que foi muito mais sério, e sem dúvida totalmente inesperado, foi que a Suécia imediatamente ofereceu asilo, e em determinados casos até mesmo a nacionalidade sueca, a todos os perseguidos. Ernst von Weizsäcker, subsecretário de Estado do Ministério das Relações Exteriores, que recebeu a proposta, recusou-se a discuti-la, mas mesmo assim o oferecimento ajudava. Em certa medida, é fácil sair ilegalmente de um país — mas é quase impossível entrar no local de refúgio sem autorização e evitar as autoridades da imigração. Assim, cerca de novecentas pessoas, pouco mais de metade da pequena comunidade norueguesa, puderam entrar clandestinamente na Suécia.
Foi na Dinamarca, porém, que os alemães descobriram o quanto eram justificadas as apreensões do Ministério das Relações Exteriores. A história dos judeus dinamarqueses é sui generis, e o comportamento do povo dinamarquês e de seu governo foi único entre todos os países da Europa — ocupada, associada ao Eixo, neutra ou verdadeiramente independente. E forte a tentação de recomendar a leitura obrigatória desse episódio da ciência política para todos os estudantes que queiram aprender alguma coisa sobre o enorme potencial de poder inerente à ação não violenta e à resistência a um oponente detentor de meios de violência vastamente superiores. Sem dúvida alguns outros países na Europa eram desprovidos de um adequado “conhecimento da questão judaica”, e na verdade a maioria deles se opôs às soluções “radical” e “final”. Assim como a Dinamarca, a Suécia, a Itália e a Bulgária provaram ser quase imunes ao anti-semitismo, mas dos três países na esfera de influência alemã, só os dinamarqueses ousaram falar do assunto com seus senhores alemães. A Itália e a Bulgária sabotavam as ordens alemãs e se permitiam um complicado jogo de negociação e trapaça, salvando seus judeus graças a um tour de force de pura criatividade, mas jamais contestaram a política enquanto tal. Os dinamarqueses fizeram uma coisa completamente diferente. Quando os alemães os abordaram, bastante cautelosamente, quanto à introdução do emblema amarelo, eles simplesmente disseram que o rei seria o primeiro a usá-la, e os funcionários governamentais dinamarqueses tiveram o cuidado de esclarecer que medidas antijudaicas de qualquer ordem provocariam sua imediata renúncia. Muito decisivo na questão toda foi o fato de os alemães não conseguirem determinar nem mesmo — o que era vitalmente importante para eles — quem eram os dinamarqueses nativos de origem judaica (cerca de 6400) e quem eram os 1400 judeus alemães refugiados que haviam encontrado asilo no país antes da guerra, agora declarados apátridas pelo governo alemão. Essa recusa deve ter sido uma infinita surpresa para os alemães, visto que parecia “ilógico” um governo proteger pessoas a quem havia recusado categoricamente naturalização e mesmo permissão de trabalho. (Legalmente, a situação pré-guerra dos refugiados da Dinamarca não era diferente da dos refugiados da França, a não ser pela corrupção generalizada dos funcionários públicos da Terceira República, que permitiu que alguns deles obtivessem papéis de naturalização por meio de subornos ou “ligações”, e pelo fato de que a maioria dos refugiados da França podia trabalhar ilegalmente, sem permissão. Mas a Dinamarca, como a Suíça, não era país pour se débrouiller.) Os dinamarqueses, porém, explicaram aos funcionários alemães que uma vez que os refugiados apátridas não eram mais cidadãos alemães, os nazistas não podiam mais requisitá-los sem o consentimento dinamarquês. Esse foi um dos poucos casos em que a falta de pátria acabou sendo um privilégio, embora, evidentemente, não tenha sido a falta de Estado per se que salvou os judeus, mas, ao contrário, o fato de o governo dinamarquês decidir protegê-los. Dessa forma, nenhum dos movimentos preparatórios, tão importantes para a burocracia do assassinato, pôde ser levado a cabo, e as operações foram adiadas até depois do outono de 1943.
O que aconteceu então foi realmente surpreendente; comparado ao que aconteceu em outros países europeus, tudo resultou numa grande trapalhada. Em agosto de 1943 — depois do fracasso da ofensiva alemã na Rússia, da rendição do Afrika Korps na Tunísia e da invasão aliada na Itália — o governo sueco cancelou o acordo de 1940 com a Alemanha, permitindo que as tropas alemãs atravessassem seu território. Diante disso, os trabalhadores dinamarqueses decidiram que podiam ajudar um pouco a acelerar as coisas; irromperam tumultos nos estaleiros dinamarqueses e os trabalhadores das docas se recusaram a consertar navios alemães, entrando em greve em seguida. O comandante militar alemão decretou estado de emergência e impôs a lei marcial, e Himmler achou que aquele era o momento adequado para tocar na questão judaica, cuja “solução” estava muito atrasada. O que não estava em seus cálculos — sem contar a resistência dinamarquesa — foi que os funcionários alemães que viviam havia anos no país não eram mais os mesmos. Não só o general von Hannecken, comandante militar, recusou-se a pôr tropas à disposição do plenipotenciário do Reich, dr. Werner Best, como também as unidades especiais da SS (Einsatzkommandos) alocadas na Dinamarca muitas vezes objetaram às medidas que os organismos centrais ordenavam que fossem tomadas — segundo o testemunho de Best em Nuremberg. E o próprio Best, um velho homem da Gestapo e antigo conselheiro legal de Heydrich, autor de um livro famoso sobre a polícia e que trabalhara para o governo militar em Paris satisfazendo plenamente a seus superiores, já não merecia confiança, embora não se saiba ao certo se Berlim chegou a tomar conhecimento disso. De toda forma, desde o princípio ficou claro que as coisas não estavam indo bem, e o departamento de Eichmann mandou um de seus melhores homens à Dinamarca — Rolf Günther, que ninguém jamais acusara de não ter a necessária “dureza impiedosa”. Günther não impressionou seus colegas de Copenhague e Hannecken se recusou até mesmo a baixar um decreto exigindo que todos os judeus se apresentassem para trabalhar.
Best foi para Berlim e conseguiu uma promessa de que os judeus da Dinamarca seriam mandados para Theresienstadt fosse qual fosse sua categoria — concessão muito importante do ponto de vista nazista. Foi escolhida a noite de 10 de outubro para sua captura e partida imediata — os navios já estavam prontos no porto —, e como não se podia confiar nem nos dinamarqueses, nem nos judeus, nem nas tropas alemãs estacionadas na Dinamarca, chegaram da Alemanha unidades da polícia para realizar uma busca de porta em porta. No último momento, Best lhes disse que não podiam invadir apartamentos, porque nesse caso a polícia dinamarquesa poderia interferir, e que não deviam entrar em choque com os dinamarqueses. Em decorrência, só conseguiram capturar os judeus que abriram suas portas voluntariamente. De um total de mais de 7800 pessoas, encontraram exatamente 477 que estavam em casa e dispostas a deixá-los entrar. Poucos dias antes da data fatídica, um agente de transporte alemão, Georg F. Duckwitz, provavelmente a partir de informações fornecidas pelo próprio Best, revelou todo o plano aos funcionários governamentais dinamarqueses, que por sua vez informaram rapidamente os cabeças da comunidade judaica. Estes, em marcante contraste com líderes judeus de outros países, deram a notícia abertamente nas sinagogas, por ocasião dos serviços de Ano-Novo. Os judeus tiveram tempo suficiente para sair de seus apartamentos e esconder-se, o que era muito fácil na Dinamarca porque, nas palavras da sentença, “todos os setores do povo dinamarquês, desde o rei até os simples cidadãos”, estavam prontos para recebê-los.
Talvez fosse necessário que ficassem na clandestinidade até o final da guerra se os dinamarqueses não tivessem a sorte de ter a Suécia como vizinha. Pareceu razoável embarcar os judeus para a Suécia, e isso foi feito com a ajuda da frota pesqueira dinamarquesa. O custo do transporte para as pessoas sem meios — cerca de cem dólares por pessoa — foi pago em grande parte por cidadãos dinamarqueses ricos, e talvez seja esse o fato mais assombroso, uma vez que na época a praxe era os judeus pagarem sua própria deportação, com os ricos gastando fortunas em permissões de saída (na Holanda, na Eslováquia e depois na Hungria), fosse subornando as autoridades locais, fosse negociando “legalmente” com a SS, que só aceitava moedas fortes e vendia permissões de saída da Holanda ao preço de 5 ou 10 mil dólares por pessoa. Mesmo em lugares onde os judeus encontravam simpatia e sincera disposição para ajudar, tinham de pagar por isso, e a probabilidade de os pobres conseguirem fugir eram nulas.
Levou-se a maior parte do mês de outubro para transportar os judeus ao longo das cinco a quinze milhas marítimas que separam a Dinamarca da Suécia. Os suecos receberam 5919 refugiados, dos quais pelo menos mil eram de origem alemã, 1310 eram meio-judeus, e 686 não-judeus casados com judeus. (Quase metade dos judeus dinamarqueses parece ter ficado no país, sobrevivendo à guerra na clandestinidade.) Os judeus não dinamarqueses ficaram melhor do que antes, e todos receberam permissão de trabalho. As poucas centenas de judeus que a polícia alemã conseguiu prender foram mandadas para Theresienstadt. Eram velhos ou pobres que não haviam recebido a notícia a tempo ou que não conseguiram entender seu significado. No gueto, gozavam de privilégios maiores do que os de qualquer outro grupo, devido ao “espalhafato” infinito que faziam instituições e indivíduos dinamarqueses. Quarenta e oito pessoas morreram, número não particularmente alto, em vista da média de idade do grupo. Quando tudo terminou, na opinião abalizada de Eichmann, “por várias razões a ação contra os judeus na Dinamarca foi um fracasso”, enquanto o curioso dr. Best declarou que “o objetivo da operação não era capturar um número grande de judeus, mas limpar a Dinamarca dos judeus, e esse objetivo foi alcançado”.
Política e psicologicamente, o aspecto mais interessante desse incidente é talvez o papel desempenhado pelas autoridades alemãs na Dinamarca, sua evidente sabotagem das ordens de Berlim. E o único caso que conhecemos em que os nazistas encontraram resistência nativa declarada, e o resultado parece ter sido que os que foram expostos a ela mudaram de idéia. Aparentemente eles mesmos haviam deixado de ver com naturalidade o extermínio de todo um povo. Quando encontraram resistência baseada em princípios, sua “dureza” se derreteu como manteiga ao sol, e eles foram capazes até mesmo de demonstrar um tímido começo de coragem genuína. O ideal de “dureza”, exceto talvez para uns poucos brutos semi-loucos, não passava de um mito de auto-engano, escondendo um desejo feroz de conformidade a qualquer preço, e isso foi claramente revelado nos julgamentos de Nuremberg, onde os réus se acusavam e traíam mutuamente e juravam ao mundo que sempre “haviam sido contra aquilo”, ou diziam, como faria Eichmann, que seus superiores haviam feito mau uso de suas melhores qualidades. (Em Jerusalém, ele acusou “os poderosos” de ter feito mau uso de sua “obediência”. “O cidadão de um bom governo tem sorte, o cidadão de um mau governo é azarado. Eu não tive sorte.”) A atmosfera mudara, e embora a maior parte deles deva ter percebido que estava condenada, nem um único teve a coragem de defender a ideologia nazista. Werner Best alegou em Nuremberg que desempenhara um complicado papel duplo, e que graças a ele os funcionários dinamarqueses haviam sido avisados da catástrofe iminente; provas documentais demonstraram, ao contrário, que ele próprio havia proposto a operação dinamarquesa em Berlim. Segundo Best, isso era parte do jogo. Extraditado para a Dinamarca, foi ali condenado à morte, mas apelou da sentença, com resultados surpreendentes; devido a “nova prova”, sua sentença foi comutada para cinco anos de prisão, da qual foi libertado logo depois. Deve ter conseguido provar à corte dinamarquesa que realmente se esforçara.
A Itália era o único aliado real da Alemanha na Europa, tratada como igual e respeitada como Estado soberano independente. A aliança repousava, em princípio, nos mais altos interesses comuns, ligando duas novas formas de governo similares, se não idênticas, e a verdade é que Mussolini foi muito admirado nos círculos nazistas alemães. Mas quando a guerra eclodiu e a Itália, depois de alguma hesitação, juntou-se ao empreendimento alemão, aquilo ficou sendo coisa do passado. Os nazistas sabiam muito bem que tinham mais em comum com a versão stalinista de comunismo do que com o fascismo italiano, e Mussolini, por sua vez, não tinha muita confiança na Alemanha nem muita admiração por Hitler. Tudo isso, no entanto, pertencia aos segredos dos superiores, principalmente na Alemanha, e as profundas e decisivas diferenças entre as formas totalitária e fascista de governo nunca foram inteiramente compreendidas pelo mundo em geral. Em nenhuma outra área elas foram mais conspicuamente reveladas do que no tratamento dispensado à questão judaica.
Antes do golpe de Estado de Badoglio, no verão de 1943, e da ocupação alemã de Roma e do Norte da Itália, Eichmann e seus homens não tinham permissão para agir no país. Eles se confrontavam com a maneira italiana de não resolver nada nas zonas ocupadas pela Itália na França, na Grécia e na Iugoslávia, porque os judeus continuavam fugindo para essas zonas, onde tinham certeza de obter asilo temporário. Em níveis muito mais altos do que os de Eichmann, a sabotagem italiana à Solução Final assumiu proporções sérias, principalmente devido à influência de Mussolini sobre outros governos fascistas da Europa — a França de Pétain, a Hungria de Horthy, a Romênia de Antonescu e até mesmo a Espanha de Franco. Se a Itália conseguiu não matar seus judeus, os países satélites alemães poderiam tentar fazer o mesmo. Por isso Dome Sztojai, o primeiro-ministro húngaro que os alemães forçaram Horthy a aceitar, sempre quis saber, em relação a todas as medidas antijudaicas, se os mesmos regulamentos se aplicavam à Itália. O chefe de Eichmann, Gruppenführer Müller, escreveu uma longa carta sobre o assunto para o Ministério das Relações Exteriores apontando isso tudo, mas os cavalheiros das Relações Exteriores não podiam fazer muita coisa a respeito, porque sempre se depararam com a mesma resistência sutilmente velada, as mesmas promessas nunca cumpridas. A sabotagem era ainda mais enfurecedora por ser declarada, quase zombeteira. As promessas eram feitas pelo próprio Mussolini ou por outros funcionários de alto escalão, e se os generais simplesmente deixavam de cumpri-las, Mussolini os desculpava com base em sua “formação intelectual diferente”. Só ocasionalmente os nazistas se depararam com uma recusa direta, como quando o general Roatta declarou ser “incompatível com a honra do Exército italiano” entregar os judeus do território de ocupação italiana na Iugoslávia às autoridades alemãs competentes.
Sempre que os italianos pareciam estar cumprindo as promessas, a situação podia ficar bem pior. Um exemplo disso ocorreu depois do desembarque dos Aliados no Norte da África francesa, quando toda a França estava ocupada pelos alemães exceto a zona italiana no Sul, onde cerca de 50 mil judeus haviam encontrado segurança. Sob considerável pressão alemã, foi fundado um “Comissariado de Assuntos Judeus” italiano, cuja única função era registrar todos os judeus da região e expulsá-los da costa mediterrânea. Vinte e dois mil judeus foram efetivamente capturados e removidos para o interior da zona italiana, com o resultado, segundo Reitlinger, de que “mil judeus da classe mais pobre passaram a viver nos melhores hotéis de Isère e Savoie”. Eichmann então mandou Alois Brunner, um de seus homens mais duros, para Nice e Marselha, mas, quando ele chegou, a polícia francesa destruíra todas as listas de judeus registrados. No outono de 1943, quando a Itália declarou guerra à Alemanha, o Exército alemão conseguiu finalmente ocupar Nice, e o próprio Eichmann correu para a Côte d’Azur. Ali lhe disseram — e ele acreditou — que entre 10 e 20 mil judeus viviam na clandestinidade em Mônaco (o minúsculo principado com um total de cerca de 25 mil residentes cujo território, como disse o New York Times Magazine, “caberia confortavelmente no Central Park”), o que fez o RSHA dar início a uma espécie de programa de busca. Parece uma piada tipicamente italiana. Os judeus, de todo jeito, não estavam mais lá; haviam fugido para a Itália propriamente dita, e os que ainda estavam escondidos nas montanhas circundantes conseguiram passar para a Suíça ou para a Espanha. O mesmo aconteceu quando os italianos tiveram de abandonar sua zona na Iugoslávia; os judeus partiram com o Exército italiano e encontraram refúgio em Fiume.
Nunca faltou um elemento de farsa, nem mesmo quando a Itália fez seus esforços mais sérios para se ajustar ao amigo e aliado poderoso. Quando Mussolini, por pressão alemã, introduziu uma legislação antijudaica no final dos anos 30, estipulou as exceções costumeiras — veteranos de guerra, judeus com altas condecorações e similares — mas acrescentou uma categoria mais, ou seja, ex-membros do Partido Fascista, junto com seus pais e avós, suas esposas e filhos e netos. Não conheço nenhuma estatística a esse respeito, mas o resultado deve ter sido a isenção da maioria dos judeus italianos. Dificilmente existiria uma família judaica sem pelo menos um membro filiado ao Partido Fascista, e isso ocorreu numa época em que os judeus, como outros italianos, vinham aderindo havia vinte anos ao movimento fascista, porque os cargos do serviço público só estavam abertos para seus membros. E os poucos judeus que tinham se oposto ao fascismo por princípio, principalmente os socialistas e os comunistas, já não estavam no país. Mesmo os anti-semitas italianos convictos pareciam incapazes de levar a coisa a sério, e Roberto Farinacci, chefe do movimento anti-semita italiano, tinha um secretário judeu a seu serviço. Sem dúvida essas coisas também haviam acontecido na Alemanha; Eichmann mencionou, e não há por que duvidar dele, que havia judeus até entre os homens da SS, mas a origem judaica de gente como Heydrich, Milch e outros era assunto altamente confidencial, conhecido apenas por um punhado de pessoas, enquanto na Itália essas coisas eram feitas abertamente e, por assim dizer, inocentemente. A chave para o enigma era, claro, que a Itália era um dos poucos países da Europa onde as medidas antijudaicas foram decididamente impopulares desde que, nas palavras de Ciano, “levantaram um problema que felizmente não existia”.
A assimilação, essa palavra tão mal usada, era um fato moderado na Itália, que tinha uma comunidade de não mais do que 50 mil judeus nativos, cuja história recuava até os tempos do Império Romano. A assimilação não era uma ideologia, algo em que as pessoas acreditassem, como em todos os países de língua alemã, ou um mito e um auto-engano óbvio, como na França. Para não ser sobrepujado pela “dureza impiedosa”, o fascismo italiano tentara livrar o país dos judeus estrangeiros e apátridas antes da eclosão da guerra. A medida nunca obtivera grande sucesso devido à pouca inclinação generalizada dos pequenos funcionários italianos para “endurecer”, e quando as coisas se tornaram questão de vida ou morte eles se recusaram, sob pretexto de manter sua soberania, a abandonar aquela parte de sua população judaica; em vez disso, internaram-nos em campos italianos, onde eles ficaram em segurança até os alemães ocuparem o país. Essa conduta dificilmente pode ser explicada apenas por condições objetivas — a ausência de uma “questão judaica” —, pois evidentemente aqueles estrangeiros criavam um problema na Itália, assim como em todo Estado-nação europeu baseado na homogeneidade étnica e cultural de sua população. O que na Dinamarca foi resultado de um sentido autenticamente político, numa compreensão inata das exigências e responsabilidades da cidadania e da independência — “para os dinamarqueses [...] a questão judaica era política, não humanitária” (Leni Yahil) —, na Itália foi decorrência da humanidade geral quase automática de um povo antigo e civilizado.
A humanidade italiana, além disso, passou no teste do terror que baixou sobre seu povo durante o último ano e meio da guerra. Em dezembro de 1943, o Ministério das Relações Exteriores alemão dirigiu a Müller, patrão de Eichmann, um pedido formal de ajuda: “Em vista da falta de zelo demonstrada nos últimos meses pelos funcionários italianos na implementação das medidas antijudaicas recomendadas pelo Duce, nós, das Relações Exteriores, consideramos urgente e necessário que a implementação [...] seja supervisionada por funcionários alemães”. Diante disso, famosos matadores de judeus da Polônia, como Odilo Globocnik, dos campos de extermínio da área de Lublin, foram despachados para a Itália. Nem o chefe da administração militar pertencia ao Exército: ele era um antigo governador da Galícia polonesa, Gruppenführer Otto Wächter. Aquilo acabou com as brincadeiras. O departamento de Eichmann expediu uma circular a suas filiais determinando que “os judeus de nacionalidade italiana” fossem imediatamente sujeitos às “medidas necessárias”, e o primeiro golpe seria desfechado sobre 8 mil judeus de Roma, que deviam ser presos pelos regimentos da polícia alemã, uma vez que a polícia italiana não merecia confiança. Eles foram avisados a tempo, muitas vezes por antigos fascistas, e 7 mil escaparam. Diante disso, os alemães, cedendo como sempre que encontravam resistência, aceitaram que os judeus italianos, mesmo não pertencendo às categorias isentas, não fossem sujeitos a deportação, mas meramente concentrados em campos italianos; essa “solução” deveria ser suficientemente “final” para a Itália. Aproximadamente 35 mil judeus do Norte da Itália foram capturados e presos em campos de concentração próximos da fronteira austríaca. Na primavera de 1944, quando o Exército Vermelho ocupou a Romênia e os Aliados estavam a ponto de entrar em Roma, os alemães quebraram sua promessa e começaram a despachar judeus da Itália para Auschwitz — cerca de 7500 pessoas, das quais não mais de seiscentas regressaram. Mesmo assim, isso totalizava muito menos do que 10% de todos os judeus que na época viviam na Itália.