Estação Carandiru

Drauzio Varella · Capítulo 10 de 28

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Estação Carandiru

Pavilhão oito

Fica atrás, à esquerda, e forma, com o Nove, o “fundão” do presídio:

— O problemático fundão.

O pavilhão é quadrado como os outros, porém enorme, as galerias chegam a ter quase cem metros de comprimento. No total, moram no Oito cerca de 1700 pessoas, mais de seis vezes a população da prisão americana de Alcatraz, desativada nos anos 60.

No segundo andar ficam as celas dos faxineiros, de 150 a duzentos homens.

Nos andares de cima, nos xadrezes que dão para o pátio interno, vivem em média seis pessoas. Já os da fachada externa do pavilhão podem ser semicoletivos e albergar dois ou três homens, ou coletivos, com dez a doze. No quinto andar há oito celas de Castigo, semelhantes às dos outros pavilhões.

No térreo, além das seções burocráticas, funcionam uma capela católica, os templos da Assembleia de Deus, a Igreja Universal, a Deus é Amor e o Centro de Umbanda.

No pátio do Oito há uma quadra esportiva e o maior campo de futebol da cadeia. No chão batido são disputados os campeonatos internos e as partidas contra os times da rua que a convite enfrentam a seleção da cadeia. Nessas ocasiões, pobre daquele que desrespeitar um visitante.

Os xadrezes do Oito, assim como os do Sete, do Cinco e do Nove, têm proprietários, prática tradicional da Detenção que será explicada mais adiante. Por isso, quem não tem de trezentos a quatrocentos reais para comprar a cela de um companheiro vai morar nas “duchas” do Oito. Nestas, anteriormente destinadas aos banhos coletivos, moram de seis a dez pessoas num espaço de três metros de comprimento por dois. Há uma ducha no terceiro, no quarto e no quinto andar.

A principal característica do Oito, no entanto, não está na planta física ou na superlotação, mas na paisagem humana. Vão para lá os reincidentes no crime; réus primários são raros. A concentração de presos conhecedores das leis da cadeia estabelece regras de comportamento bem definidas.

Rolney, um ladrão da zona sul que cumpriu doze anos no pavilhão e foi libertado, mas retornou porque ao surpreender a mulher morando — na casa que era dele — com seu melhor amigo, convidou o rival para uma cerveja no bar da favela e quando este tentou consolá-lo dizendo que a vida era assim mesmo, matou-o com dois tiros para provar que não, caracteriza o Oito da seguinte forma:

— Aqui mora quem já passou pelo jardim de infância da cadeia. Entre nós não existem meias palavras. Não pode confundir a com b. Ou é ou não é. Se não é, morreu.

Gersinho, portador do vírus da AIDS, dezenove anos, assaltante primário aceito no pavilhão porque um ladrão que o viu nascer, e que talvez tenha sido namorado de sua mãe, convidou-o para morar em seu xadrez, diz que aprendeu muito com a convivência:

— No Oito, cada qual carrega sua cruz, calado. O sofrimento dos anos de cadeia ensina o sentenciado a se trancar na própria solidão. É uma escola de sábios.

O pavilhão é para aqueles com nome feito no Crime. Geralmente, o habitante do Oito é mais velho e não se envolve em confusão. Olha, escuta e fica quieto. Não age, reage:

— Faz como a cascavel: só dá o bote quando pisam nele.