Estação Carandiru

Drauzio Varella · Capítulo 15 de 28

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Estação Carandiru

Os funcionários

 

No início, fiquei com a impressão de que os funcionários não confiavam em mim. Depois, tive certeza. Eram arredios, mais tarde me contaram, por acharem que eu estaria ligado às associações de defesa dos direitos humanos ou teria interesses políticos.

Nos primeiros anos, descontados o Waldemar Gonçalves, que virou amigo íntimo, mais uns dois ou três, os restantes mudavam de assunto à minha chegada. Se, por curiosidade, eu fazia uma pergunta sobre a mais corriqueira ocorrência, davam respostas evasivas.

Depois de uma palestra no cinema do pavilhão Seis, cruzei com um rapaz ensanguentado a caminho da enfermaria e perguntei ao funcionário que o escoltava o que havia acontecido:

— Despencou uma telha na cabeça dele.

Outra vez, encontrei uma confusão na Divineia. Gente que entrava e saía da sala de Revista, lotada; ânimos exaltados. Certamente tinham flagrado alguém com algo proibido. Quando perguntei o que se passava a um senhor baixinho que guardava o portão de acesso à Divineia (onde anos depois encontrou a morte, prensado por um caminhão de lixo numa tentativa cinematográfica de fuga), ele respondeu sério:

— Um colega se sentiu mal com o calor.

A desconfiança não tinha motivação pessoal. Nada que eu tivesse feito ou dito poderia justificá-la. Na verdade, guardas de presídio não gostam de pessoas estranhas no ambiente de trabalho. A realidade é desconcertante numa prisão, o que parece certo muitas vezes está errado, e aparentes absurdos encontram lógica em função das circunstâncias. O visitante, ingênuo, tira conclusões precipitadas e pode fazer comentários indiscretos que eventualmente cheguem aos ouvidos da Corregedoria, encarregada de investigar abusos de autoridade, ou à redação dos jornais.

Os militantes das associações de defesa dos direitos humanos e da Pastoral carcerária da Igreja Católica de um modo geral são malvistos. Os funcionários dizem que eles só estão interessados nos direitos dos bandidos.

— Doutor, nesse tempo, o senhor já perdeu a conta de quantos colegas nossos foram aguentados em ponta de faca. Não tem humilhação pior para um pai de família. Só quem passou por isso pode contar. Alguma vez o senhor viu chegar alguém dos direitos humanos ou esses padres da Pastoral para dar apoio ao funcionário?

Respondi que, de fato, nunca tinha visto. Ele prosseguiu:

— Um homem que não fazia mal para uma mosca, como o seu Joãozinho, morreu esmagado pelo caminhão de lixo no portão da Divineia, naquela tentativa de fuga. Pergunta se alguém veio dizer uma palavra de conforto para a viúva? Agora, vai dar um tapa num ordinário sem-vergonha qualquer para ver o processo que eles armam para a gente!

Os jornalistas, por sua vez, são mestres no desagrado, conseguem inimizades entre gregos e troianos. De medo que alguma vítima antiga lhes reconheça a fisionomia e novos processos aumentem o débito com a Justiça, os presos fogem das objetivas como o diabo da cruz. Apontar-lhes uma máquina fotográfica ou câmera de TV faz com que cubram o rosto e desapareçam mais depressa do que diante da metralhadora de um PM. Os funcionários também evitam a imprensa, dizem que ela só serve para criticar e distorcer o que é dito.

Uma vez, seis detentos sequestraram um grupo de carcereiros na lavanderia, junto ao pavilhão Seis, para exigir transferência de presídio, procedimento que se tornou rotina após o massacre do Nove. Quando cheguei, a frente da cadeia, nos baixos do elevado por onde passa o metrô, estava cheia de câmeras, microfones e carros de reportagem. Ao entrar na Casa, perguntei a um dos diretores que participava das negociações a razão do alvoroço:

— São abutres, doutor. Pousam aqui quando pressentem qualquer desgraça que ajude a vender jornal.

A convivência encarregou-se de quebrar a resistência da corporação à minha pessoa, como disse seu Aparecido Fidélis, funcionário experiente, enquanto tomávamos um chope no Recanto Nordestino, ao lado da cadeia:

— Com o passar dos anos, nós percebemos que o senhor veio para somar.

A partir daí, tive ampla liberdade. Pude circular até nas áreas de segurança, do Amarelo à Masmorra. Andar sozinho pela cadeia no meio dos ladrões transmitiu-me uma sensação de autoconfiança que não ficou limitada ao espaço interno do presídio.

Hoje, há funcionários que demonstram ao me ver a mesma alegria que sinto ao encontrá-los. Conversamos sobre o trabalho, problemas de saúde, agruras financeiras (que não são poucas entre eles), dificuldades com a família e desencontros com as mulheres (que são muitas). O respeito entre nós reforçou os laços que me prenderam à Detenção.

A vida que levam é dura. Para sobreviver dignamente, o salário não dá. Os que teimam na honestidade, fazem bico como segurança em banco, supermercado, loja, boate ou casa de tolerância.

Boa parte desse trabalho é a serviço de empresas clandestinas, sem direitos trabalhistas. Nem armamento recebem, utilizam o revólver pessoal, geralmente não legalizado, uma vez que a categoria não tem direito a porte de arma. Num assalto, se forem feridos ou matarem o assaltante, a empresa pode se eximir da responsabilidade. Não existe vínculo empregatício. Se morrerem, a família que se arranje com a pensão do Estado.

A jornada de trabalho é interminável. Os que dão plantão noturno saem às sete da manhã diretamente para o bico. Cama, somente na noite seguinte, quando folgam na cadeia. O pessoal do diurno inverte. Aqueles que cumprem horário fixo, das oito às dezoito, diariamente, ficam em situação pior: cochilam algumas horas no serviço e é só. Deitar na cama, só na folga do final de semana. A ausência de casa desarticula a rotina familiar, destrói casamentos e dá ensejo a vidas duplas, dividindo-os entre a esposa e outras mulheres. Para aguentar a tensão inerente à atividade e o cansaço das noites, muitos abusam da bebida. Alcoolismo e obesidade são doenças prevalentes entre guardas de presídio. Bebem para valer, não é fácil acompanhá-los.

Uma noite, após a distribuição do quarto número do Vira Lata, o gibi erótico de prevenção à AIDS, juntei a equipe que participou do trabalho e fomos para o bar na frente da Detenção, chamado Alcatraz.

Ao chegarmos, lá pelas onze da noite, encontramos um grupo de funcionários do diurno que bebia desde a saída, às sete. Ambiente de botequim: balcão congestionado de garrafa de cerveja, pratinho com calabresa acebolada, música de vitrola automática, falatório e fumaça de cigarro. Um dos carcereiros, quando me viu, estendeu-me a mão e com a voz de quem tem uma batata quente na boca, fez um pequeno discurso:

— Doutor Varella, quanta honra esta figura científica aqui, com este humilde funça, que no entanto é uma pessoa humana que tem no coração tanta dignidade como o senhor e neste momento de confraternização faz questão absoluta de oferecer-lhe uma pinga, que o senhor terá a fidalguia de aceitar.

Apesar do vernáculo persuasivo, titubeei; a distribuição da revista havia atrapalhado a minha rotina de tal forma que eu estava apenas com o café da manhã. Aquela pinga, em jejum, não ia fazer bem. Diante da hesitação, um colega mais sóbrio do funcionário cambaleante veio em meu auxílio:

— Deixa quieto, que o doutor não é homem de tomar pinga em botequim.

A observação tocou meus brios. Respondi que honrado era eu, por beber em tão distinta companhia.

Veio um daqueles copos de bar com frisos paralelos e uma dose para lá de generosa: dois terços do copo. Com os olhares voltados para mim, dei um gole de homem, como eles. O líquido escorreu incandescente pelo esôfago, deu um tranco na boca do estômago e um baque instantâneo no cérebro. Senti o corpo arrepiar.

Aí o Waldemar sugeriu um frango a passarinho, no capricho, especialidade do Alcatraz, acompanhado de cerveja, é claro, e da voz melodiosa da Alcione cantando “Nem morta”. Quando a música acabava, alguém punha outra ficha na vitrola e a cantora repetia o “Nem morta”. A Alcione e o copo cheio pareciam moto-contínuo.

Cheguei em casa e entrei no chuveiro com o gosto do franguinho encharcado no óleo do Alcatraz e as imagens da cadeia. No meio do banho, tomei um susto com a voz da minha mulher:

— Isso é hora de ouvir samba nesse volume?

— O rádio nem está ligado!

— Lógico, acabei de desligar. Você nem percebeu?

Não é intenção transmitir uma visão romântica desses homens, mesmo porque alguns não valem defesa. Envolvem-se com os ladrões, aceitam propinas nas transferências de xadrez, cobram pedágio nas portas dos pavilhões, compactuam com o tráfico e vendem facas para defesa pessoal. Corrupção pé de chinelo, universal nos presídios. Impossível de acabar. Provavelmente participam também de contravenções mais graves, como facilitação de fugas (um diretor-geral que assumiu logo após o massacre do Nove acabou preso no COC, por envolvimento em várias delas), ou deixam entrar armas de fogo, prática arriscada que provoca atitudes agressivas nos próprios colegas postos em risco.

Os que agem assim tornam-se indistinguíveis dos ladrões, porque, como afirmam os de conduta séria:

— Quem anda com porco, come farelo.

A convivência prolongada com a malandragem, a falta crônica de dinheiro e a própria burocracia da Justiça brasileira fermentam o caldo da corrupção.

Um antigo diretor, certa vez, recebeu denúncia de que o funcionário encarregado de dar andamento à papelada dos detentos no Fórum cobrava serviço por fora. Sem dar dinheiro para ele, podia-se mofar na cadeia. O diretor passou-lhe uma descompostura, transferiu-o para vigiar o portão do pavilhão Nove e nomeou uma pessoa de sua confiança para a estratégica função, porque quando cessam as transferências para o regime semiaberto e as libertações, o ambiente fica péssimo, pronto para explodir.

Pois bem: semanas depois, em meio ao descontentamento crescente da massa carcerária, e sem conseguir fazer andar papel nenhum, o funcionário de confiança voltou ao diretor:

— Doutor, quer um conselho? Devolve fulano para a função. Só ele conhece o caminho das pedras no Fórum. Ali, sem caixinha, cria teia de aranha.

O diretor, um homem de senso prático que começou a vida batendo de cassetete em cabeça de bêbado criador de caso no cais de Santos, resolveu não dar murro em ponta de faca e chamou o funcionário malandro:

— Olha aqui, fulano, faz quase um mês que você abre e fecha porta para vagabundo, no Nove. Deu tempo de aprender a lição. Volta para o Fórum e faça o que for necessário para andar os papéis do pessoal, antes que a situação fique pior do que está.

Justiça seja feita, porém: há muitos guardas de presídio sérios, apesar da má fama da profissão, dos salários ridículos, do risco de contrair tuberculose, virar refém ou morrer na ponta de uma faca. Não fossem eles, seria impossível tocar a cadeia.

Seguindo a tradição do serviço público brasileiro, na Detenção são muitos os servidores inativos e pouquíssimos nas funções produtivas. Além disso, a desvalorização da carreira de guarda de presídio provocou deserção de muitos homens experientes, forçando a contratação de jovens sem treinamento adequado.

Uma vez, na Radial, junto ao portão que separa o Seis do Dois, em voz baixa o Chico Bagana, ladrão de muitas passagens pela Casa, gozador empedernido, chamou minha atenção para o novato da guarita:

— Doutor, vê se tem cabimento botar um menino desses para tomar conta da gente. Ele está amarelo de medo.

Esses fatores, aliados ao absenteísmo, criam situações surrealistas. Durante o dia, por exemplo, de dez a doze funcionários tomam conta de um pavilhão como o Oito, com mais de 1500 detentos reincidentes; à noite, o número cai para seis ou sete. Para cuidar dos 1600 presos do Cinco, a mesma precariedade.

Como um grupo tão pequeno de homens sem armas consegue controlar um presídio daquele tamanho é um dos mistérios da cadeia. Talvez o maior. A estrutura é tão frágil que a única explicação para não ocorrerem fugas espetaculares, daquelas de esvaziar pavilhão, é a dada pelo seu Reinaldo, da portaria:

— A nossa sorte é que eles não falam a mesma língua.

Reduzido à essência, o trabalho dos carcereiros consiste em dividir a malandragem, maquiavelicamente. Como diz seu Bonilha, ex-diretor do Cinco, que uma vez pagou do bolso um pacote de cigarro que um ladrão devia, só para evitar um homicídio a mais em seu pavilhão:

— Eu passo o dia jogando areia na deles.

Seu Fidélis, cadeeiro da velha guarda, diz que o segredo do ofício é tirar partido do conflito de interesses entre os detentos:

— Doutor, o Crime é uma profissão. O malandro de verdade chega aqui para tirar a cadeia em paz, voltar para a rua o mais rápido possível e assaltar, que essa é a vida dele. Ele segura os companheiros, não se envolve em plano de fuga, droga ou facada, para não comprometer o objetivo de ir embora. Sem perceber, o maior bandidão acaba nosso aliado.

A habilidade para estabelecer alianças com as pessoas certas, os líderes da massa carcerária, é essencial para o bom andamento da cadeia e para a segurança física do funcionário.

O convívio com os presidiários é capaz de criar sólidas relações de amizade. Para o homem preso, o carcereiro representa o contato com a sociedade exterior — o único, no caso dos que não recebem visitas. Um pequeno favor, o apoio numa hora difícil ou a simples paciência para escutar um desabafo despertam no detento extrema consideração pelo funcionário. O respeito mútuo é parte do equilíbrio de forças que se estabelece na cadeia e pode ser decisivo para preservar a vida nos momentos de violência irracional.

Nos dias conturbados que se seguiram ao massacre de 1992, a malandragem de moral chegava a escoltar funcionários até a saída, para evitar possíveis represálias da massa revoltada.

Ao lado das amizades certas, uma boa equipe de delatores é fundamental para a paz interna. O alcagueta é personagem tão velho quanto os presídios. Delata a troco de uma vantagem pessoal: transferência, pagamento de dívida, vingança, inveja, intriga de mulher ou para eliminar o traficante concorrente, como diz seu Florisval, que começou como carcereiro e chegou a diretor:

— Quando aparece um alcagueta, procuro ver se a informação que ele traz vale a vantagem que ele quer tirar.

Luisão, legendário ex-diretor da Casa, jura que era capaz de identificar aqueles nos quais a alcaguetagem é qualidade inata:

— Ele já nasce alcagueta, doutor.

É atividade de alto risco no mundo do crime; passível de execução sumária. Ainda assim, para desespero da malandragem, como admite pesarosamente o Sem-Chance:

— Tem sempre um cagueta na fita, doutor. É sem chance.

Numa cadeia, como os acontecimentos são descritos segundo a versão preferida de cada narrador, ninguém sabe de que lado está a verdade. Ouvir dez pessoas é escutar dez histórias, e separar o joio do trigo, um quebra-cabeça que exige preparo intelectual. O funcionário experiente registra tudo o que se passa ao redor, mesmo o insignificante. Quando surge um problema, ouve os bem-informados, chama o chefe da Faxina, debate com os colegas e convoca os delatores. Até tomar a decisão final:

— A gente pisa em ovos; qualquer deslize pode acabar em morte.

Quando quer descobrir culpados, seu Jesus, diretor de Vigilância, diz que evita movimentos bruscos:

— Eu cutuco de leve e espero para ver onde a onça vai gritar.

São espertos; na astúcia, confundem a malandragem desunida.

Uma vez o pavilhão Oito passou o dia trancado, por causa de um boato de que estava sendo cavado um túnel. Na tranca-represália, ninguém serve comida e o mau humor cresce no decorrer do dia. No final da tarde, quando seu Jesus, do alto de seus 120 quilos, cruzou o pátio do pavilhão, ouviu de uma janela:

— Vai morrer, seu Jesus!

— E você não, malandro? — respondeu de imediato.

Ao lado dos defensores de técnicas civilizadas, porém, existem funcionários mais radicais:

— O que segura uma cadeia, doutor, é pau e bonde, o resto é bobagem. Acerta o cara e transfere lá para a penitenciária de Presidente Wenceslau, quase na divisa com Mato Grosso, para ver se ele não volta mansinho.

Na Detenção, as agressões aos presos, tradição forte no sistema prisional brasileiro, não desapareceram, mas diminuíram de intensidade com o passar dos anos, pois, como diz Luisão, atualmente aposentado:

— Quando eu comecei, a moda era ser caceteiro; hoje é parar de bater. O funcionário se adapta aos tempos. O senhor leva a patroa ao baile, doutor, toca valsa, o senhor vai querer dançar samba?

Curioso é que os presos mais velhos consideram o coronel Guedes, um militar dos anos 70, época da ditadura, como o melhor diretor de todos os tempos. Falam dele com grande admiração:

— O lema era pau e cela, mas existia respeito, de nossa parte e dos funcionários. Andava sozinho pela cadeia inteira, na moral, todo mundo de mão para trás quando ele passava. O homem era fascista, não dava mole para nós nem para a Justiça, com ele tinha que cumprir a lei dos dois lados. Telefonava para as autoridades e dizia que a pena tinha acabado: ou chegava o alvará de soltura ou ele punha o elemento na rua. A juizada tinha medo do coronel.

Dadas as condições do presídio, é impossível acabar com as agressões, porque no convívio com os ladrões alguns funcionários se embrutecem de tal modo que não enxergam outra alternativa para impor ordem. Como vigiá-los na calada da noite, no canto escondido de um pavilhão escuro?

Uma vez, seu Lourival, funcionário calejado, comentou a respeito de um episódio rumoroso, no qual dois presos se queixaram ao padre de terem levado uma surra de cano de ferro e o caso foi parar na Corregedoria:

— Duvido que alguém faça concurso para guarda de presídio só para bater em detento. É o ambiente daqui que deixa a pessoa assim.

Na prisão, a violência que explode em ciclos invade a vida dos guardas. Nos acertos de contas entre a malandragem, quando um grupo decide dar cabo de alguém, os funcionários têm ordem para não interferir. Morra aquele que tiver de morrer; paciência, trabalham desarmados:

— Nessa hora não dá, doutor, é como querer apartar briga de cachorro louco.

Um funcionário de trinta e poucos anos que faz bico como segurança de um prostíbulo em Diadema, que ele garante ser lugar de respeito e insiste que eu vá visitar, contou que a imagem do primeiro preso que ele viu morrer, há cinco anos, retorna quando menos espera:

— Chegaram oito com faca e pau no xadrez do tal de Alagoas. Ele me viu e começou a gritar: me ajuda, seu Paulo, pelo amor de Deus! A única coisa que eu pude fazer foi pedir para não matarem o rapaz. Não adiantou nada. Tomou mais de vinte golpes. É feio, doutor, um ser humano berrando feito porco apunhalado e o senhor não poder fazer nada.

Com o tempo, Paulo presenciou outras mortes semelhantes, mas a impressão da primeira foi inesquecível:

— Até hoje a expressão de terror daquele rapaz volta na minha mente, num aniversário de família, na cama com a minha mulher ou na frente da TV com as crianças.

De minha parte, posso assegurar que a influência do meio está longe de ser desprezível. Apesar de médico, diversas vezes tive vontade de bater em alguém na cadeia, não por terem me faltado ao respeito, fato jamais ocorrido, mas pela revolta diante da perversidade de um preso com outro.

O REBANHO

 

Padres, pastores, médiuns, pais e mães de santo e até adoradores de Satanás frequentam o presídio para converter à palavra do Senhor as ovelhas desgarradas. A crença na ajuda divina é para muitos presos a derradeira esperança de conforto espiritual, única forma de ajudá-los a estabelecer alguma ordem no caos de suas vidas pessoais.

A pregação dos pastores protestantes, que oferecem o caminho do céu pelo conhecimento da Bíblia e de uma divisão clara entre o Bem e o Mal, obtém mais sucesso do que a dos padres católicos.

Entre os crentes da Detenção, o grupo mais coeso é o da Assembleia de Deus, que congrega perto de mil homens — mais de 10% da população da Casa. Só no pavilhão Nove há duzentos; no quinto andar do Cinco, vizinho do Amarelo, 180. Andam de manga comprida, colarinho abotoado, e para onde vão carregam o livro santo. Chamam-se de irmãos, proclamam-se tementes a Deus e repetem jargões bíblicos em tom monocórdio.

Na prática, com os crentes sempre tive dificuldade para diferenciar aqueles convertidos à palavra do Senhor, dos que adotaram o mesmo estereótipo para fugir do acerto de contas com a massa carcerária. Estupradores, justiceiros, usuários de droga inadimplentes, delatores e ladrões que trapacearam na divisão do roubo às vezes fingem se converter para contar com a proteção do grupo religioso. Como usam as mesmas roupas, carregam a Bíblia e repetem o nome do Senhor a cada frase, é impossível distingui-los dos crentes de verdade.

Os próprios ladrões queixam-se da mesma dificuldade. Respeitam os crentes, porém exigem coerência. Uma vez, atendi na enfermaria um membro da Igreja Universal que apanhou dos ladrões no pavilhão Nove quando o pegaram fumando um cigarro escondido. O rapaz tinha vergões nas costas, um hematoma no olho direito e um corte de faca no braço. Meus enfermeiros justificaram a agressão:

— Quer ser crente, nós respeitamos a caminhada dele, mas não pode tirar uma para cima da gente. A cara dele é passar o dia rezando para Deus proteger nós, ladrões.

Para conquistar novos adeptos, os irmãos chegam a liquidar dívidas do recém-convertido. Tarefa muitas vezes inglória, como esclarece um dos pastores do quinto andar do Cinco, um homem em formato de barril, preso por vender lotes no meio da represa Billings e por outros golpes contra a economia popular:

— Como a própria Bíblia diz que é para apaziguar, Eclesiástico 10 e 4, a gente acerta a dívida dele. Mas, como uns e outros não é sincero, depois que pagou ele fica bravo de novo: porque eu sou isso, aquilo, sou 157 e mais não sei o quê. Enquanto está no meio dos lobos, ele é ovelhinha; chega aqui, vai querer bancar o lobo no aprisco de Deus.

No pavilhão Cinco, um pastor-chefe comanda a ala, auxiliado por três outros. Os pastores devem ser casados, ter bom testemunho e reputação ilibada com a diretoria do presídio. São escolhidos pelo tempo, após cumprirem os estágios de cooperador, diácono e presbítero. Ficam sob observação durante três ou quatro anos antes de serem indicados, segundo um diácono de olhar piedoso, cumprindo pena por assalto, tráfico de crack e participação numa chacina na favela de Heliópolis:

— São vistos se têm nível espiritual, conhecimento da Palavra e se são pessoas de oração, porque tem um que não está totalmente de pé, outro que ainda é meio bravo, outro que masturba no sexo, ou seja, não é membro em comunhão com o povo de Deus.

É árdua a trajetória dos novos convertidos, pois a marcação sobre a vida alheia é cerrada. O fiel não escapa à vigilância permanente do grupo e ao olhar onipresente do Senhor.

Valente, um rapaz com forte sotaque paranaense, condenado por sete mortes a 130 anos, justifica a necessidade do rigor:

— O problema é que às vezes tem uns camaradas aqui que é ator perigoso. Perigosíssimo, 171 bravo! Por isso, uma equipe de diáconos observa ele 24 por 48. Não é que nós é polícia e investiga, é o Espírito Santo de Deus quem avisa que aquela pessoa cometeu e tal e não quer permanecer no rebanho.

O código de comportamento é severo, a conduta do crente precisa se destacar na massa. Deve largar gíria, mulheres, vestir roupa social, andar de sapato engraxado, perder a ginga, tomar banho e pentear o cabelo. Pessoas amasiadas não podem morar na galeria da Assembleia, apenas os solteiros e os casados legalmente, no papel. Homossexuais são aceitos, porém com uma ressalva:

— Tem que abandonar a vida pecaminosa e voltar a ser cidadão normal.

Valente diz que os estupradores, odiados por todos, para os crentes são pessoas que merecem o perdão do Senhor, porque têm problemas:

— Problemas mentais e diabólicos.

Iludem-se, no entanto, os que se juntam aos crentes esperando uma vida fácil. São cheios de espinhos os caminhos que conduzem a Deus, diz o diácono de olhos piedosos:

— A rotina da Igreja na cadeia não dá tempo capcioso.

Às oito horas, assim que destrancam as portas, saem todos para a primeira oração, que dura sessenta minutos. Às nove, começa a Campanha: oito, dez pessoas reunidas nas celas, orando por mais uma hora. Metade da Campanha é oração, quinze minutos são de louvores e quinze de Palavra, quando todos falam ao mesmo tempo e as vozes se elevam a Deus. Quem passa pela galeria nesse momento tem impressão de estar na torre de Babel, com aquele falatório simultâneo. No final, os irmãos chegam a pingar de suor, afônicos, de tanto elevar-se ao Criador.

Depois dessa Campanha, inicia-se outra às dez, na qual um irmão mais velho ministra a Palavra até as onze e meia. Aí é hora do banho, para almoçar e descer depressa, porque das treze às quinze o culto é ao ar livre, para atrair novas vocações. Terminou, é subir rápido porque às quatro é a tranca e os crentes não atribulam os funcionários, por princípio.

Trancou, vêm mais orações, louvores e Palavra até as seis e meia. Aí se lavam e jantam. Depois, rezam, estudam a Bíblia ou ministram a Palavra até a hora de dormir. Cedo, porque televisão é proibido, e nas rádios não se admite pagode, samba, rock, nada, apenas as emissoras evangélicas.

A Igreja funciona como centro de recuperação, talvez o único disponível no presídio. Descontados os falsos crentes, que “jogam areia nos olhos dos irmãozinhos”, os demais são felizes, na visão do pastor:

— A gente sente Deus operando na existência deles. Aqui tem grade e muralha, não dá para fugir, mas você olha o céu e vê Deus. A presença d’Ele transmite paz e, com o coração inundado de fé, você ora com devoção para ir embora deste lugar maligno.

AMARELO

 

 

Vizinho dos crentes, no último andar do pavilhão Cinco, fica o Amarelo, um dos recantos mais lúgubres do presídio. Quinhentas e tantas pessoas, juradas de morte em sua maioria, vivem em cubículos densos de fumaça de cigarro, nos quais se espremem quatro, cinco ou às vezes mais prisioneiros. Um cheiro forte de cadeia se espalha pelo ambiente. O estado de conservação das celas é precário. Falta de água, entupimentos, goteiras e inundações acontecem com frequência. Nessas circunstâncias, os habitantes de um xadrez podem passar a noite inteira em pé, no molhado.

Para os habitantes do Amarelo a tranca é permanente, e, soltá-los, uma operação que obriga a prender o restante do pavilhão. Ainda assim, precavidos, os funcionários limitam a abertura aos sábados, dia de visita no pavilhão Seis, vizinho do Cinco. Uma hora só e pronto, sobem de volta. A medida é sensata, pois a presença das famílias no prédio ao lado garante a paz no pátio do Cinco. Apesar disso, há quem ache mais prudente abrir mão do sol e permanecer trancado:

— Seguro morreu de velho, doutor.

O Amarelo nunca foi pintado dessa cor: a denominação deriva do desbotado da pele de seus ocupantes privados do sol.

É rica a biodiversidade do setor: craqueiros insolventes, delatores, justiceiros, estupradores, perdedores de disputas individuais, gente que encontra na cadeia inimigos da rua e muitos outros que, na pior, não conseguiram comprar um xadrez decente ou venderam o que possuíam.

Uma vez, atendi um ladrão do Amarelo, com o corpo coberto de pequenas feridas contagiosas, uma calça velha e a camiseta em frangalhos, que pediu um atestado médico para a mulher, advogada, encaminhar ao Fórum. Perguntei se a esposa não poderia ajudá-lo a sair daquele lugar e ele respondeu:

— Doutor, mais do que ela faz por mim? Já me trouxe dinheiro cinco vezes, para comprar um xadrez. Fumei os cinco no cachimbo.

O crack e a tranca impiedosa são um atentado à sanidade mental dos ocupantes do Amarelo, como diz Dionísio, um ladrão com tuberculose incurável, abandonado pela mulher cansada das promessas de que ele abandonaria a droga:

— Dia e noite preso, no meio de cara chapado e neurótico da mente. O senhor dorme do lado de um desconhecido, dá cinco minutos nele e ele te voa na sua garganta. Não tem descanso, é tortura psicológica para o ser humano, doutor.

O dia no Amarelo é a mais absoluta ociosidade, os presos jogados nos colchonetes, quando os há para todos. Ninguém lê ou vê televisão. Na final da Copa de 1998, o Waldemar Gonçalves fez planos para colocar uma TV na galeria e liberá-los para ver o jogo. Não deu certo, a diretoria desaconselhou por questões de segurança.

Para ampliar o horizonte visual, os presos sobem na janela do xadrez, sentam-se com as pernas para fora e abraçam as grades. Permanecem assim por horas consecutivas, conferindo decoração singular à fachada do Pavilhão Cinco, com uma fileira de pernas pendentes do último piso. Por esse costume, são também denominados “canelinhas”, depreciativamente.

Das janelas que dão para o lado externo, os canelinhas conseguem assistir ao jogo de futebol no campo do Oito ou falar aos gritos com os transeuntes da Radial. Menos afortunados são os que ocupam os xadrezes voltados para o pátio interno, quadrado, com visão apenas para as roupas que secam nas janelas dos xadrezes em frente.

Os habitantes do lado interno estabeleceram uma simbiose curiosa com os crentes da Assembleia de Deus que fazem o culto coletivo, diário, ao ar livre, no pátio. Enquanto os irmãos oram para converter os infiéis ao caminho do Senhor, a galera do Amarelo prende um saco plástico a um tênis velho para servir de contrapeso, amarra-o a um barbante e arremessa-o para baixo, na direção dos religiosos. Fazem-no com perícia, o comprimento do barbante exato para o saco chegar a um metro do chão. Pacientes como pescadores, seguram o fio esticado até que os irmãos demonstrem publicamente, com bananas, pães, balas ou roupas, o amor que referem sentir pelo próximo.

Papo Doce, um traficante do Oito merecedor do apelido, que trazia cocaína da Bolívia e ameaçava matar seus distribuidores que misturassem a droga com outros produtos porque tinha um nome a zelar no comércio, justifica a origem do Seguro:

— A existência do Amarelo acontece devido que entre nós não tem departamento de cobrança, onde que gera muita polêmica. Doutor, se eu vendo uma pedra de crack e o elemento não me paga, não posso chegar no juiz para reclamar do sucedido e nem tenho promissória para protestar. Agora, se eu deixar despercebido, fico com fama de vacilão, ninguém mais me paga e o meu fornecedor não quer saber. É uma corrente, a dívida de um provoca consequência no outro.

A segurança do Amarelo é relativa, entretanto. Seu Florisval, diretor de Disciplina, unanimemente tido por seus pares como um dos que mais conhecem a Detenção, é realista:

— A gente faz o que pode, mas infelizmente aqui não existe lugar seguro. Quando eles decidem matar alguém, é muito difícil impedir. Na cadeia, a morte não respeita geografia.

Mário Cachorro, um ladrão que estourava a janela das casas com macaco de automóvel e numa delas encontrou doze quilos em barras de ouro, sendo depois preso com uma loira no Nordeste, apresentou-se uma tarde na sala da Carceragem do Nove, dizendo-se ameaçado de morte por supostos inimigos no pavilhão, e pediu transferência para o Seguro. No Amarelo, comportamento exemplar, ganhou a confiança dos funcionários e foi integrado à equipe que servia refeições para os colegas de infortúnio.

Dias depois, chegou na Detenção um certo Ronaldinho, careca como o jogador, detido por haver estuprado mãe e filha, entre outros delitos graves. Com esse passado, avisou que não tinha possibilidade de convívio com a massa e foi direto para o Amarelo. Acontece que Mário Cachorro era filho e irmão das mulheres violentadas e havia pedido transferência para o Amarelo, antecipadamente, porque descobrira que o estuprador estava preso num distrito e seria transferido para a Detenção.

Na hora do café, Mário Cachorro abriu o xadrez do inimigo. A primeira facada vazou o olho direito do estuprador, que, em vão, tentou encontrar a porta de saída. Quando vi o corpo, chamava a atenção o número de golpes desferidos e, principalmente, os olhos vazados e dois ferimentos profundos, perfurocortantes, simétricos, nas solas dos pés. Em volta do corpo, um malandro comentou com respeito:

— O Mário Cachorro agiu com manha de gato.

Seu Jeremias, saudoso dos tempos antigos, se um dia fosse convidado pelo governador para assumir a diretoria-geral da Detenção, acabaria com o Seguro, como primeira iniciativa:

— Ia resolver o problema, devido que o elemento faz dívida de droga e pede Seguro. Isso não é proceder de homem que é homem. Se ele sabe que não tem para onde fugir, vai assumir a responsabilidade das atitudes. Sem Amarelo, iam morrer uns e outros, mas era bom porque voltava o respeito de antes.

A primeira vez que atendi o pessoal do Amarelo foi numa noite de inverno. Levei o Julinho, um auxiliar da enfermaria que mais tarde foi transferido para o pavilhão Nove, quando descobriram que ele desviava medicamentos dos presos com a provável cumplicidade de um funcionário ou dois, talvez.

Subimos ao quinto andar e improvisamos um consultório numa cela da ala dos crentes. Um a um, os doentes foram trazidos à nossa presença. Tuberculose geral: gente emagrecida, com febre, sudorese noturna e tosse, espalhando gotículas de secreção no xadrez apinhado. Naquele ambiente mal ventilado, o único que não podia se queixar das condições de vida era o bacilo de Koch.

A maioria dos doentes coçava-se de dar aflição. Tinham pequenas bolhas nas pernas, antebraços e parte inferior do tronco, o olhar cansado das noites insones. O ato de coçar rompia as vesículas, deixando vazar o conteúdo cristalino. Com a ruptura, o prurido melhorava, mas começava a arder. No local surgia, então, uma espessa crosta negra que, ao cair, deixava uma cicatriz escura, definitiva. As unhas contaminadas com o líquido das lesões semeavam novas vesículas à distância e entretinham o processo infeccioso por meses.

Quase dez da noite, terminamos. No final, cerimonioso, chegou o pastor-chefe:

— Doutor, sei que sua pessoa deve estar cansada e precisa repousar na paz do Senhor, mas tem uma travesti que está com o silicone inflamado na parte de trás do assento, do traseiro dela. Ela sofre de dores e insistiu para pedir para o doutor.

— Não! Chega. Isto aqui não tem fim. Além do mais, não entendo nada de silicone.

— Lógico, doutor, vou falar para ela ter paciência e orar com fé, para Jesus atuar na vida dela.

Sucumbi à chantagem em nome do Senhor e mandei chamá-la. Hoje agradeço ao pastor por ter me apresentado Veronique, personagem de uma outra história.

Depois dessa vez, voltei com regularidade ao Amarelo, o que me conferiu prestígio entre os funcionários porque muitos deles, por medo, recusavam-se a trabalhar naquele setor. Atendia os doentes numa salinha com um guichê aberto para a gaiola de entrada. Não havia privacidade; para examinar os doentes sem roupa tinha que fazê-los entrar no banheirinho contíguo. Esse banheiro, destinado aos funcionários de plantão, tinha uma privada e uma pia, o chão inundado e as paredes infiltradas pelo vazamento constante. Para lavar as mãos, era preciso abrir o registro na parede e pular ágil para trás, a fim de escapar da água que esguichava do cano junto a ele. A simples abertura do registro fazia a água jorrar com força na pia e na descarga da privada.

Mais recentemente, no Amarelo, passei a contar com a ajuda do Paulo Xavier, o Paulo Preto, enfermeiro do Hospital Sírio-Libanês que se dispôs a me auxiliar com os doentes. Paulo organizava o atendimento com o auxílio de um preso chamado Lúcio, um rapaz forte, com um olho de cada cor.

Lúcio era dedicado com os doentes e gentil comigo. Uma vez contou ter sido preso depois de uma briga de rua. Ele vinha desarmado, quando apareceu um arqui-inimigo com muitas mortes no currículo e um facão afiado nas mãos. Lúcio tomou três facadas, mas conseguiu pegar um pedaço de pau e rachar a cabeça do opositor. Em seguida, aproveitando-se do facão e da inconsciência do outro, decepou-lhe os dois braços para que ele nunca mais esfaqueasse ninguém.

Num sábado, Paulo Preto, Lúcio, seu Manoel, um homem de barba espessa, antigo funcionário do pavilhão, e eu, decidimos atacar a epidemia de sarna que infernizava a vida dos presos. A operação começou às sete. O pavilhão inteiro amanheceu trancado para o Amarelo descer. Nas celas do setor, os presos empilharam os pertences no chão para serem borrifados com inseticida. No pátio, junto à parede lateral do prédio, esperava-os um cano de água fria.

Junto ao cano, os ladrões fizeram fila, enquanto um preso aplicava inseticida em todas as celas. Fazia frio. Seu Manoel, com seus vinte anos de experiência, avisou:

— Pode se preparar, doutor, ladrão é como gato: tem medo de água fria.

De fato, choradeira não faltou. Diziam que estavam com tosse, tuberculose, pneumonia, outro sofria de bronquite e alguns simplesmente se negavam a entrar no banho gelado. Dirigi-me à fila e expliquei que aqueles que não se lavassem e passassem remédio, espalhariam sarna para os demais, para prejuízo de todos. O argumento os convenceu: malandro não arrisca ser acusado de prejudicar os companheiros.

Durante o banho, observei que eles entravam embaixo do cano com as costas quase encostadas na parede. Comentei o fato com seu Manoel, que explicou:

— Ladrão nunca fica de bunda para os outros, doutor.

Roxos de frio, acabada a ducha os homens apresentavam-se a um companheiro encarregado de borrifar remédio contra sarna pelo corpo inteiro. Depois de secos, aqueles que apresentavam infecções dermatológicas eram separados por Lúcio e Paulo Preto e trazidos à minha presença.

O trabalho, que envolveu mais de quinhentos homens, foi completado até o meio-dia, hora exata de trancar o Amarelo e soltar o resto do pavilhão. Prevendo alguns acessos de asma desencadeados pelo inseticida, deixei dez ampolas de cortisona para o Lúcio medicá-los e saí com o Paulo Preto. Fomos embora contentes com o sucesso da operação, dando risada da malandragem embaixo da água fria, com a bunda encostada na parede.

TUDO NA COLHER

 

 

O crack invadiu a cadeia em meados de 1992, sorrateiramente. Uma tarde, no campo de futebol do Oito, vinha um rapaz completamente chapado. Falava em tom intimidatório e gesticulava para uma figura imaginária na janela de um xadrez do segundo andar. Na porta do pavilhão, um funcionário corpulento e precocemente hipertenso fez o diagnóstico e uma previsão amarga:

— Olha aí, doutor, é o crack chegando na Detenção. Só faltava mais essa.

Fiquei surpreso. Na minha ingenuidade, crack era coisa de filme americano, problema do Bronx, em Nova York, jamais no Carandiru.

Na cadeia, o processo de preparação do crack é artesanal. Misturam cocaína com bicarbonato de sódio ou amoníaco numa colher, embaixo da qual acendem um isqueiro, para aquecer e derreter a mistura. Quando esta se liquefaz, surge na superfície uma fase oleosa que vai sendo empurrada para as bordas da colher com um palito de fósforo, para esfriar e se solidificar. A pedra resultante é fumada em cachimbos improvisados.

O processo é trabalhoso, como se queixa Tristeza, um traficante interno que passava as madrugadas no preparo e que uma vez foi pego com trezentos gramas de pedras prontas para o consumo:

— O pessoal falam que eu ganho dinheiro que nem água, mas ninguém repara no sacrifício que eu faço. Na rua é moleza, o crack já vem preparado do laboratório; aqui, é tudo na colher.

O crack entrou e varreu a cocaína injetável do mapa. É droga compulsiva, não sobra para o dia seguinte. Na crise de abstinência, se o dependente vê o pó, a pedra de crack ou alguém sob o efeito dela, passa mal: tem sudorese, taquicardia, cólicas abdominais, diarreia e vômitos.

Ronaldo, um ladrão com AIDS que fugiu do hospital penitenciário e foi preso em flagrante fumando crack na rua do Triunfo quarenta horas depois, contou que, num assalto a uma loja de tecidos na rua Augusta, quando a gerente abriu o caixa ele teve um mal-estar súbito:

— Foi bater os olhos no dinheiro, me veio a imagem de eu comprando cocaína na bocada. O estômago embrulhou na hora, saí vomitando pelo meio do assalto.

A cocaína pode ser cheirada, injetada ou fumada. Pela via nasal, o pó adere à mucosa do nariz e vai sendo gradualmente absorvido; o efeito é crescente, atinge um pico e depois decresce. Injetada na veia, cai direto na circulação, passa pelos pulmões e vai para o cérebro; a euforia vem depressa e acaba rápido; dá zumbido na cabeça e um baque no cérebro (daí, o nome). No crack a ação é ainda mais instantânea, porque a cocaína cai direto nos pulmões, não perde tempo na circulação venosa.

Ronaldo, que aprendeu a fumar crack com a esposa, mãe dos quatro filhos dele, diz que a qualidade da cocaína no presídio decaiu:

— Antigamente dava um tuim comprido no ouvido. Hoje, faz tuóm, um instantinho só, e já era.

O usuário de cocaína injetável não se interessa pelo efeito lento da via inalatória, forma de administração que ele considera careta. O crack, porém, provoca sensação semelhante à do baque, além de trazer vantagens: é mais barato, não deixa cicatrizes nos braços e, principalmente, não transmite AIDS.

No presídio, em poucos meses a via endovenosa ficou restrita a uns poucos baqueiros velhos, que mais tarde morreram de AIDS na enfermaria do Quatro. Silenciosamente, como entrou, o baque saiu de moda no Carandiru.

Em janeiro de 1994, repetimos o estudo de prevalência feito quatro anos antes. Encontramos 13,7% dos presos infectados pelo HIV (contra 17,3% na pesquisa de 1990). A única explicação encontrada para a queda do número de infectados nos quatro anos que separaram os dois estudos foi a redução do número de usuários de droga endovenosa. Em 1998, em 250 voluntários testados, dezoito eram HIV-positivos (7,2%).

Com o passar dos anos, muitos ex-usuários de cocaína injetável revelaram ter mudado para o crack por causa das palestras do cinema. Se for verdade, fico feliz. Talvez até o crack tenha um lado bom.

PARA DERRUBAR A MALANDRAGEM

 

O crack transtornou a cadeia, todos reconhecem. É droga traiçoeira. Nas primeiras vezes o efeito custa a passar; com a repetição diária, porém, acaba em segundos. Vicia rapidamente; na enfermaria conheci rapazes que depois do primeiro contato com a droga nunca mais conseguiram parar, nem presos nas celas de Seguro, endividados, correndo risco de vida.

Com o tempo, o usuário de cocaína desenvolve quadros de delírio persecutório toda vez que usa a droga. Na cadeia, os portadores dessa síndrome, à qual dão o nome de paranoia ou noia, andam pelas galerias apavorados, trancam o xadrez por dentro, encolhem-se feito crianças embaixo da cama, gritam ou fogem de inimigos imaginários.

Ronaldo, o pai de quatro filhos que vomitou durante o assalto e veio a morrer de tuberculose na enfermaria seis meses depois de recapturado, descrevia assim a paranoia que o torturava:

— O crack é tão devastador para a mente da pessoa que eu fumo trancado no xadrez e cismo que tem alguém debaixo da cama com a faca para me matar. Fico apavorado, quero olhar mas tenho medo de abaixar e ele me furar os olhos. Demoro para criar coragem e espio bem depressa. Lógico que não vejo ninguém, estou sozinho no xadrez fechado, mas mesmo assim fico na dúvida: tem sim, eu é que não vi direito. Abaixo mais uma vez, apesar do medo que me fure o olho, e não vejo nada. Mas não adianta, não me convenço, e olho de novo. E assim é, dez, quinze vezes. Quando o efeito vai abaixando, eu percebo que foi tudo paranoia: como é que pode ter alguém aqui, se o xadrez é minúsculo e a porta está trancada? Antes de dar outra cachimbada, olho debaixo da cama e confiro se a porta está bem fechada; chego a espiar dentro do boi. Tudo bem, vou fumar de novo e dessa vez a noia não vai me atacar. É só cachimbar, doutor, repete tudo a mesma coisa: tem alguém debaixo da cama, vai me matar, se eu olhar vai me furar a vista...

No final, Ronaldo resume a existência do usuário de crack:

— É triste o nosso destino. Se existe o inferno na Terra, é a vida de nós, craqueiros.

Impossível saber quantos fumam crack no presídio. Na estimativa dos detentos, pelo menos 60%. Uma vez, perguntei ao Lúcio, o enfermeiro do Amarelo que decepou os braços do desafeto para que ele parasse com a mania de esfaquear os outros, quantos craqueiros havia no Amarelo. Ele respondeu:

— Todos, doutor. Quando aparece um que não é, eu tiro daqui e peço para o pastor aceitar ele na galeria dos crentes.

Os carcereiros de carreira dizem com nostalgia:

— Que saudade do tempo do baseado, doutor! Tinha mais respeito entre a malandragem, o preso fumava e ficava quietinho no seu canto, pensativo, comia e ia dormir. Ninguém perdia a casa da família por causa da maconha. A gente era feliz e não sabia.

O crack abalou a estrutura do poder interno, a moral da malandragem e gerou mais violência. Na compulsão, o dependente gasta o que não pode; depois, chantageia os familiares dizendo-se ameaçado de morte. Quando a família é exaurida, vende os pertences pessoais e, nada mais tendo de valor, rouba, apanha na cara, toma facada, assume a responsabilidade de crime cometido por outros e até mata sob encomenda, em troca de uma pedra para fumar.

O vício está associado à derrocada financeira do usuário. Uma das técnicas que uso para identificar os que não usam crack é olhar o pé deles: se o tênis é novo, certeza, não é craqueiro.

Carlão, que passou um ano na rua e dois na cadeia, fumando crack sem parar e mais tarde ficou livre da droga, chegou ao extremo:

— A pedra veio para derrubar a malandragem, por causa dela vendi até o revólver, minha ferramenta de trabalho. Fui preso assaltando com a faca da cozinha da minha tia.

Dívida em cadeia não tem perdão: não pagou, foge, leva paulada ou morre. Para escapar, a única alternativa é pedir proteção aos funcionários. Estes, quando se convencem da gravidade do caso, transferem o preso para o Amarelo. No próprio Seguro o craqueiro contrai novas dívidas, perde outra vez o ambiente e vai parar na Masmorra do pavilhão Quatro, derradeira oportunidade de sobrevivência.

O pedido de socorro à polícia desmoraliza o ladrão. Uma vez, encontrei a enfermaria em alvoroço porque o Júlio, um bandidão cumprindo vinte anos pela morte de três rivais que o emboscaram num beco de favela, havia pedido refúgio no Amarelo para escapar do acerto de 38 reais com um traficante metade do tamanho dele. No final, um piracicabano sem queixo internado na enfermaria por causa de uma furunculose crônica em ambas as axilas, que o obrigava a andar com os braços abertos feito asa, resumiu com o forte sotaque da cidade natal:

— A pedra acaba com a vergonha na cara do cidadão.

Outra vez, Xanto, o ladrão do Pari que baleou o tio bêbado no peito por não saber dar tiro nas pernas de ninguém, estava revoltado com o companheiro que, na visita, ofereceu a própria mulher ao traficante para saldar uma dívida. O fato da moça trabalhar como prostituta num bar do Ipiranga não serviu de atenuante.

— Não interessa como ela ganha a vida lá fora. Aqui, para nós, ela é mulher de um companheiro e merece respeito. Entregar ela é muita sem-vergonhice de caráter.

A opinião de Xanto não era isolada. No dia seguinte à visita, o craqueiro devedor foi obrigado a juntar os pertences e mudar para o pavilhão Cinco:

— Não se fez merecedor do nosso respeito.

Filó, um traficante franzino do Oito, armador do time do pavilhão, nascido no Canindé, ao lado do campo da Portuguesa, arrombador de residências e pai de duas meninas mantidas por ele em escola particular, dava duas semanas para o craqueiro pagar a droga consumida e nem um dia mais. Em cinco anos de cadeia e tráfico, enviou muita gente para o Seguro, embora reconhecesse a inutilidade do procedimento:

— Que adianta os malucos trancados lá, de canelinha, e eu sem receber aqui?

Um dia, a roda do destino girou e Filó foi transferido para uma penitenciária do interior. Encontrou três ex-companheiros da Detenção, por ele enviados para o Amarelo. Morreu degolado, na noite de chegada.

A cadeia hoje é muito diferente da que conheci ao chegar, em 1989. O crack subverteu a ordem interna. Como as pessoas, as cadeias também mudam com o tempo.

NA PIOLHAGEM

 

A droga corre atrás do viciado, é o que diz a malandragem.

Duas visitas ao exterior convenceram-me desta realidade. A primeira foi em Rykers Island, a maior prisão de Nova York, quando passei na porta de um banheiro coletivo situado na ala que se mostra aos visitantes e senti um cheiro forte de maconha. A segunda foi na periferia gelada de Estocolmo, numa prisão-modelo vigiada por 350 funcionários treinados, exclusiva para cinquenta jovens loirinhos (sete funcionários por preso), ex-usuários de droga, que todas as manhãs, quando se abriam as celas individuais, eram obrigados a descer para a enfermaria e, na presença do médico, urinar num vidro para exame toxicológico. Volta e meia o laboratório detectava heroína, cocaína, álcool, maconha e até a prosaica cola de sapateiro na urina dos meninos, misteriosamente introduzidas no reformatório-modelo.

Supor que a droga entre na Detenção sem conivência de funcionários ou dos guardas da muralha é discordar da lógica do Pequeno, o baixinho de língua presa que matou quatro PMs:

— O sentenciado pode sair na rua para buscar cocaína, doutor?

É injusto generalizar, entretanto. A maioria dos guardas jamais se envolveu com o tráfico, apesar dos baixos salários e do desalento com a profissão. Além disso, a direção vive preparando armadilhas para surpreender os que “passam para o outro lado”, e quando pega o castigo é amargo: cinco ou seis anos de prisão, como vimos.

Fumaça, tipo popular, contador de casos exagerados nos quais inevitavelmente desempenha o papel de protagonista, é testemunha de que a droga não é problema exclusivo do Carandiru:

— Em novembro, completei dezoito anos no Sistema. Já rodei diversas unidades, e em todas pude fumar meu baseado, meu cachimbo de crack (que eu parei faz dois anos, que é sem futuro) e, no tempo do baque, só não tomei porque não gosto desse barato de ficar se picando. É interessante, doutor, não ligo para sangue dos outros, mas me escurece a vista quando vejo o meu próprio.

O mesmo Pequeno da língua presa acrescenta:

— Se a cocaína corrompe a sociedade livre, por que na cadeia, cheia de ladrão, traficante e consumidor, ia ser diferente? Logo aqui, que custa o dobro da rua?

No ambulatório, quando os doentes vinham com tuberculose, eu os proibia de jogar fumaça nos pulmões, viesse ela de maconha, cigarro comum ou crack. Não havia problema em fazê-los entender que a fumaça era prejudicial aos pulmões inflamados. Nas semanas seguintes, quando lhes perguntava se haviam parado, a maioria tinha abandonado a maconha e mesmo o crack, mas o cigarro não. Conseguiam se livrar do crack, mas poucos deixavam o cigarro. Tantos foram os casos que acabei convencido de que a nicotina é a substância que mais dependência química provoca.

O preso que consegue pôr a droga para dentro pode vendê-la. Não é como na rua, em que o traficante é dono de um ponto defendido a bala. Como explica Horácio, um paraplégico filho de portugueses, abandonado pela mulher depois de perder os movimentos das pernas ao bater de moto roubada, uma loira na garupa, contra a traseira de um caminhão:

— O cabeção despeja para os que trabalham para ele. Se ele compra o quilo a 4 mil, vai repassar para nós, intermediários, a 7 ou 8 mil, para dobrar o capital. Eu vou querer vender a grama por 10, por conta do risco. Se rodar é crime hediondo; isso apavora o sentenciado que já tirou um monte de cadeia.

Lenildo, um ladrão que nunca traficou na rua, mas que na cadeia começou a fazê-lo para sustentar as duas mulheres, três filhos e a mãe que sofre de reumatismo, diz que não é fácil escapar vivo no comércio do crack:

— Tem que ser duro na queda, medir o que fala e pesar a consequência do que possa acontecer. Uma vacilada e eu acabo meus dias na ponta de uma bicuda, como aquele mano que o senhor examinou o corpo na semana passada. Só eu contei mais de trinta facadas. Tá louco, doutor, deu vontade de abandonar o Crime!

De fato, eu havia visto o corpo. Era um moço bem forte, moreno, com uma tatuagem no peito: são Jorge num cavalo empinado diante do dragão pondo fogo pela boca. O santo, com estilo, cravava a lança na goela do monstro. Na cintura do guerreiro havia um ferimento perfurante, outro junto à cauda em seta do dragão, mais um resvalando o penacho do capacete do santo e muitos outros golpes. Talvez fossem mesmo mais de trinta.

Tudo consequência de uma transação rotineira. Um consumidor habitual veio comprar 5 reais de pedra para pagar domingo. Desconfiado da insolvência do outro, o rapaz da tatuagem disse que estava sem mercadoria. O comprador contrariado comentou o caso com os amigos. Decidiram enviar um laranja para propor o mesmo tipo de operação ao rapaz da tatuagem que, sem desconfiar, vendeu fiado. Nunca poderia ter dado ao laranja o crédito negado ao freguês antigo. Erro fatal.

Casos semelhantes são tão frequentes que eu não entendia por que eles mesmos não proibiam terminantemente as vendas a fiado. Uma vez tentei reunir alguns líderes da malandragem para lhes propor a adoção de tal medida. Fui desanimado pelo Sarará, um negro loiro com muitas passagens pela Casa:

— Não tem chance de dar certo, doutor. O viciado fica devendo 20 reais e entrega a televisão por esse preço. Dá muito lucro. É o mesmo princípio de que os bancos da rua, o senhor fica devendo 20 mil e eles tomam a sua casa que vale 100. Ninguém acaba com um negócio desses.

Lenildo, que se orgulha de manter as casas das duas mulheres e a da mãe sem nada faltar, explica que o comércio do crack obriga o traficante a tomar medidas extremas, mesmo contra a vontade:

— Eu pego sessenta gramas do cabeção e fico devendo 400 contos. Faço uns papelzinhos, vendo aqui, ali, uns me pagam e outros pedem para esperar o fim de semana. Chega segunda-feira o meu fornecedor quer receber. Se eu não pago, ele vai pôr os óculos na minha atitude.

Diante dessa perspectiva, a preservação da própria vida fala mais alto:

— Então, para que não venha a rodar uma faca para cima de mim que tenho família para adiantar, vou soltar a faca no devedor, dar paulada, jogar água fervendo, para que aquele veja que eu tomei uma atitude diante deste. E assim, um vai vivendo perante a desgraça do outro.

Existem situações, entretanto, em que é mais vantajoso assumir o prejuízo:

— O comprador não pagou? Deixa quieto. Só que aí, na piolhagem, qualquer tipo de acontecimento, numa perca que eu tenha, é ele que vai soltar a faca no meu lugar, justamente para abater aquela dívida. Senão sobra para ele, lamentavelmente.

Apesar da repressão, os meandros do tráfico permeiam o presídio. Cada “cabeção” comanda um grupo de vendedores, que controla os dependentes sequiosos de droga.

— Faz uma rede invisível, secreta, como a máfia.

ÓCIO

 

Mente ociosa é moradia do demônio, a própria malandragem reconhece. Ao contrário do que se imagina, a maioria prefere cumprir pena trabalhando. Dizem que o tempo passa mais depressa, e à noite:

— Com o corpo cansado, a saudade espanta.

Poderiam, também, aprender um ofício e voltar para casa com alguma perspectiva. Soltá-los mais pobres e ignorantes do que quando entraram não ajuda a reabilitá-los.

Sérvulo, um ladrão de Guaianases, encarregado da enfermaria do Oito que nos dias de atendimento me pedia para trazer dois ou três doentes e aparecia com dez, de cada um dos quais, descobri mais tarde, ele cobrava dois maços de cigarro para conseguir a consulta, vê outra vantagem no trabalho:

— A cadeia seria menos perigosa, com essas mentes malignas ocupadas.

Para servir de estímulo, a lei estabelece que cada três dias trabalhados abatem um dia da pena a cumprir, matemática nem sempre respeitada para quem não tem advogado constituído. Ainda assim, muitos disputam os poucos empregos disponíveis. Outros, no entanto, são mais ortodoxos:

— Trabalhar? Nem na rua, com o meu pai pegando no pé. Aqui dentro, jamais. Questão de princípio.

Um venezuelano naturalizado brasileiro, que ia buscar droga na selva amazônica e depois matava os entregadores por sair mais em conta do que pagá-los, é radical:

— Trabalhar para a sociedade, só depois de morto, se me cremarem e colocarem minhas cinzas num daqueles relógios de ampulheta.

Justiça seja feita, porém: com exceção das atividades ligadas à segurança, as demais tarefas da cadeia são executadas pelos presos — cozinham, distribuem as refeições, lavam tudo, recolhem toneladas de lixo, consertam, levam e trazem, organizam campeonatos de futebol e a Campanha do Agasalho.

A rotina do Casarão é tocada pelos detentos, sem eles seria o caos.

Algumas empresas empregam mão de obra local para costurar bolas de couro, chinelos, colocar espiral em cadernos, varetas em guarda-chuvas, parafusos nas dobradiças e trabalhos similares. Teoricamente, os presos deveriam receber pelos serviços prestados, o que poderia ajudar a família desamparada ou servir de poupança para quando fossem libertados. Na prática, porém, a burocracia para retirar o dinheiro recebido é tanta que muitos aceitam o pagamento em maço de cigarro, a moeda tradicional.

Como trabalho é privilégio de poucos, passam o dia encostados, contam mentiras nas rodinhas do pátio, levantam peso na academia, jogam capoeira no cinema, andam para baixo e para cima, inventam qualquer bobagem para se entreter e, principalmente, arrumam confusão.

O tal venezuelano preocupado com o destino de suas cinzas chama a atenção do visitante que passa desavisado entre os grupos que se formam no campo de futebol do Oito:

— É tanta história de assalto, revólver e troca de tiro, doutor, que precisa passar abaixado entre eles por causa das balas perdidas.

Ao lado do trabalho organizado, que reduz a pena, existe uma economia informal. São os que trabalham sem carteira assinada: lavam roupa para fora, costuram, cortam cabelo, constroem barcos à vela com distintivo dos times de futebol, cozinham (há uma pastelaria numa cela do terceiro andar do pavilhão Oito e uma sorveteria no pavilhão Dois), destilam pinga e armam bancas na galeria — mantimentos, tênis usado, roupa, rádio de pilha, aparelho de TV e foto de mulher pelada.

As compras são à base de troca, pagas com maços de cigarro ou, disfarçadamente, com dinheiro mesmo. O comércio interno é fundamental para a vitalidade da economia; por intermédio dele os bens são redistribuídos, as mercadorias circulam e as dívidas podem ser liquidadas. Num lugar em que os homens recebem apenas comida e a calça jega, todo o resto fica por conta deles:

— Existe custo de vida na cadeia.

Oriundos das camadas mais pobres da sociedade brasileira, nem todos contam com ajuda externa. Ao contrário, a maioria precisa sustentar mulher, filhos e pais idosos, razão pela qual gente que em liberdade nunca se envolveu com droga vira traficante de cadeia para manter a integridade da estrutura familiar.

Nas celas de Seguro e na Isolada, cheias de fumaça de cigarro, trancados o tempo todo, os homens passam o dia conversando e, quando o assunto acaba, olham para a parede. Na experiência de seu Jeremias, pai de muitos filhos com a mesma mulher, a ociosidade pode enlouquecer o homem:

— Antigamente, no tempo da solitária, vi muito nego entrar bom e sair de lá para o manicômio.

Numa dessas celas, na escuridão total, ele passou três meses sozinho. Para se ocupar, jogava uma bolinha de gude na parede e tateava o chão até encontrá-la. Chegou a repetir a operação 177 vezes no mesmo dia:

— Mas, graças a Deus, saí de lá com juízo.

PENA CAPITAL

 

É universal o ódio aos estupradores. Os ladrões aceitam tudo: agressão física, estelionato, roubo, exploração do lenocínio e assassinos torpes — menos o estupro. A ojeriza a este crime é compartilhada pelos próprios funcionários e pela sociedade em geral. Na periferia de São Paulo, um homem abusou de um menino e o matou. Os jornais publicaram fotografias do assassino e da criança. Numa tarde de sexta-feira, por aparente descuido burocrático, um grupo de presos veio transferido para a Casa sem a direção se dar conta de que o criminoso estava no meio. Do momento em que ele desceu do camburão na Divineia, até sua morte no pavilhão Cinco, passaram-se exatos cinquenta minutos. Tomou tanta facada que quase lhe desarticularam o braço direito.

Marcolino, apontador de jogo do bicho e comerciante de dinheiro falso, que estava para ser libertado naqueles dias, disse que a chegada do marginal no pavilhão não foi surpresa:

— Nós estávamos para lá de prevenidos. Tinha recorte de jornal espalhado nos andares, com a foto dele escrachada. Os manos esfaqueavam e emprestavam a faca para quem vinha atrás na fila. Tomou mais de setenta golpes e, ó, acredite se quiser, morreu sem dar um grunhido. Eu achei aquilo muito esquisito, ó. Credo!

Outra vez, Gilson, um representante de vendas de trinta anos, deu carona no fusca para uma estudante de quinze e fez de tudo para levá-la ao motel. Quando se convenceu de que ela não iria, puxou o revólver e não adiantou choro, dizer que era virgem, nada. Com a menina na mira, dirigiu para um lugar ermo e a estuprou. À noite, enquanto ele assistia ao Jornal Nacional com o filhinho adormecido no colo, a esposa e a sogra lavando a louça do jantar, tocou a campainha. Era a polícia:

— Esse fusca parado na porta foi roubado hoje?

Respondeu que não. Quiseram saber, ainda, se ele havia emprestado o carro para algum amigo. Gilson negou e foi algemado.

No distrito, disse aos colegas de infortúnio que havia assaltado um feirante. No dia seguinte, na cela coletiva, um craqueiro iletrado pediu-lhe para escrever uma carta de desculpas à mãe, que havia prometido abandoná-lo definitivamente caso fosse preso outra vez. O representante, no capricho, assim iniciou a missiva: “Querida mãezinha, é de joelhos, com o coração pungente, que peço humilde perdão à senhora. Errado estou, não nego, mas arrependime ao cerne de meu ser...”.

Ao terminar a redação, o vendedor leu-a para o outro, que, emocionado com a beleza das palavras, não pôde conter o choro.

No meio da leitura, chegou o carcereiro com uma garrafa de uísque pela metade:

— Quem é fulano de tal? Qual é teu artigo?

— 157. Assalto de feirante.

— Feirante, porra nenhuma! Estuprou uma menina de quinze anos, com o revólver na cabeça da coitadinha. Se tivesse malandro com vergonha na cara nesse xadrez, te zoava bem zoado e ainda ganhava meio Drurys de presente.

Irrefutável. Trazia o boletim de ocorrência e tudo.

O rapaz da carta foi o primeiro. Ainda com lágrimas nos olhos, ficou em pé e chutou-lhe a cara. Em seguida, vieram os outros; eram dezoito no xadrez. O estuprador apanhou até perder os sentidos.

Acordou com um balde de água suja no rosto. Estava amarrado às grades da cela:

— Me fizeram segurar uma lâmpada na mão e encostaram um fio descascado na grade. A água que jogaram era para conduzir melhor a corrente. Choque de 220. Só desligavam quando a luz acendia na minha mão. Dava um tranco horrível no corpo, a língua enrolava, depois aquele clarão da lâmpada. Achei que ia morrer. Só pedi a Deus que fosse logo.

Quando se cansaram da brincadeira, o vendedor desabou semiconsciente, cheio de sangue e com o rosto deformado. Nessa hora, urinaram em cima dele.

Aí o Barriga, um ladrão que tinha sido preso entalado na claraboia do forro de uma casa na qual esperava encontrar uma fortuna em joias contrabandeadas, abaixou-lhe as calças:

— Agora vai sentir que nem a mina que você estuprou!

O representante de vendas diz que Barriga não conseguiu penetrá-lo. Cilinho, um ladrão do Cinco que matou a amante infiel e o sócio traidor que planejava fugir com ela e o dinheiro do assalto, testemunha dos fatos no distrito, desmente, discreto:

— Conseguiu sim. Mesmo no estado deplorável em que o cidadão se encontrava. Doutor, aquele barrigudo é mais macho que nós dois juntos!

A direção da cadeia tenta proteger a integridade física dos estupradores recolhendo-os no pavilhão Cinco, no Amarelo ou até na Masmorra. A segurança é relativa, porém, como assegura o Sem-Chance:

— Um dia nós descobre eles. É o curioso que bisbilhota no prontuário, é um mano que conhece o passado sujo do cara ou um funça que não simpatiza, vários modos. É sem chance.

Muitas vezes, ao estuprador é dada a oportunidade de conviver pacificamente com a massa por longos períodos. Um dia, no anonimato de uma rebelião, a turba enfurecida descarrega nele o ódio represado. Nessas ocasiões, são atirados do telhado, esfaqueados ou torturados com requintes de crueldade, como um catarinense que atendi na enfermaria com a língua queimada por uma faca em brasa e infectada pelos micróbios presentes nos excrementos que o obrigaram a ingerir a cada trinta minutos.

A imprevisibilidade do ajuste de contas torna a vida do estuprador um sobressalto permanente. Qualquer movimento fora da rotina pode prenunciar o castigo fatal.

Num ambiente em que o assassino de um pai de família indefeso merece respeito, pode parecer desproporcional a aversão ao estuprador. Seu Lupércio, que se orgulha de nunca haver roubado, embora tenha passado a maior parte da vida na cadeia por causa da maconha, e que anos atrás, no Oito, viu um branquelo, estuprador de meninas japonesas, ser empalado com cabo de vassoura introduzido à marreta, explica a filosofia:

— Não pode deixar essa gente frequentar o ambiente, porque aqui nós recebemos nossa esposa, a mãe e as irmãs. Quem cometeu uma pilantragem dessa, pode recair e faltar com o devido respeito. Eu sou contra a pena de morte no nosso país, mas sou a favor no caso de estupro.

LARANJA

 

— Laranja é o personagem patético que segura bronca alheia.

É ele que se apresenta como culpado quando o carcereiro encontra uma faca escondida, a serpentina para destilar pinga ou o corpo sem vida. Muitos são recrutados ao chegar nas celas de triagem. Para aqueles que a família traz mantimentos, não faltam amigos e um canto para morar; outros, por sorte, encontram parceiros da rua no pavilhão. Quanto aos recém-chegados desconhecidos e pobres:

— De dez xadrezes que eles pedem vaga, onze negam. Aí, para sair do esgano da Triagem, aquele humilde, despojado de condição financeira avantajada, só tem um jeito: virar laranja, porque os caras exigem que ele segure todas as ocorrências do barraco.

O contingente maior de laranjas, porém, é recrutado nas fileiras do crack. Muitos dependentes assumem delitos de terceiros em troca da droga. O traficante não precisa executar o serviço sujo.

Quando alguém perde a vida na rua Dez, os carcereiros trancam todas as celas até que o culpado apareça. A técnica é infalível, preso nenhum ousa enfrentar o pavilhão inteiro enjaulado por causa dele. No final, quem aparece para assumir a responsabilidade é quase sempre o laranja.

Embora os funcionários saibam que aquele não é o verdadeiro autor do crime ou contravenção, pouco podem fazer contra o código de silêncio que rege a vida no Crime.

Uma vez tratei um branquinho chamado Alfinete, magro feito um cabo de vassoura, que fez carreira nos semáforos da avenida Paulista. Todas as carteiras, relógios e correntinhas roubadas, ele fumou no cachimbo de crack, até ser preso. No pavilhão, usuário contumaz, consumiu 60 reais além de suas posses. Um dia, o credor chamou-o no xadrez:

— Alfinete, já faz uns dias que você me deve. Vai pagar quando?

— Neste momento, estou justamente sem condições, devido que a minha mãe não veio na visita, porque se encontra no hospital com a minha irmã que tomou um tiro no peito, na mesma fita em que o meu cunhado foi chacinado...

O outro o interrompeu:

— Alfinete, é o seguinte: no final da tarde, vai aparecer um finado na rua Dez do quarto andar. Você desce para a Carceragem e se apresenta. Diz que o cara ofendeu a senhora tua mãe que está no hospital, cuidando da filha viúva.

Alfinete assumiu a autoria do crime, na verdade cometido por seis detentos, e foi direto cumprir castigo na Isolada, no térreo do Cinco. Mais tarde, o laranja assim descreveria os trinta dias que passou nesse local, dividindo o espaço com mais cinco:

— Para mim não faltava nada, que os companheiros levavam comida, baseado para fumar e até pinga para criar coragem de encarar a quentinha.

Como a Isolada fica no térreo e a janela é fechada por uma chapa metálica perfurada, os companheiros do lado de fora, no pátio, junto à parede lateral externa do pavilhão, passavam através dos orifícios da chapa, para o interior da cela, um canudo longo na ponta do qual Alfinete sugava a maria-louca diretamente da outra extremidade, mergulhada num inocente bule de café que um dos verdadeiros autores do assassinato, distraído, segurava encostado à parede.

Alfinete assinou a confissão quando havia cumprido dois anos e três meses de uma pena de quatro. Quitou a dívida com o traficante, mas custou-lhe doze anos a mais de pena a cumprir.

Outra vez, cheguei na sala de atendimento médico e notei o clima esquisito. Os enfermeiros separavam as fichas dos doentes em silêncio e trocavam olhares enigmáticos. Perguntei-lhes o que se passava, disseram que não era nada. Dei cinco minutos e repeti a pergunta. A resposta foi idêntica. Comecei a atender os pacientes, e eles calados como túmulos. Resolvi ser mais incisivo:

— Vocês vão contar o que aconteceu ou vou ter que descobrir sozinho?

O chefe deles, um ladrão magrinho, implacável com os inimigos e cujo maior desgosto era o irmão mais novo ter entrado para a PM, sorriu amarelo:

— Caiu uma faca nossa que estava mocosada na estufa de esterilizar os instrumentos. Faca miúda, só para defesa pessoal.

Eles tinham retirado a placa do fundo da estufa, escondido a faca e parafusado novamente. Era pouco provável que os funcionários descobrissem o esconderijo sem colaboração de algum informante. Quando lhes perguntei quem havia assumido a responsabilidade da contravenção, responderam que tinha sido o Peninha, um rapaz esquálido internado em fase final de evolução da AIDS, que virtualmente mal parava em pé.

Seu Lupércio, 82 anos de idade, avalia a situação penal do laranja:

— Juiz não quer saber de laranjice, condena com caneta pesada e manda tirar de ponta. Todo benefício que pede, ele nega.

Se o laranja desce para a Carceragem e assina uma dessas mortes, não tem como voltar atrás. Ao depor, no Fórum, se negar o que confessou antes, corre risco de vida ao retornar à cadeia. Mesmo que seja transferido para outro presídio, é perigoso:

— Morre também, que nós tudo se comunicamos. Todo dia chega e sai gente da cadeia, contando as novidades. É a rádio Boca de Ferro.

A potência da rádio Boca de Ferro é de tal ordem que, mesmo libertado, o laranja arrependido não terá sossego na rua:

— Aí é que morre mais ainda!

Embora o número de laranjas na cadeia tenha aumentado significativamente na era do crack, sua existência não é exclusiva dos tempos modernos, como explica o Filósofo, um moreno de óculos consertados com esparadrapo, estelionatário de muitos golpes:

— Sempre existiu esse indivíduo que segura a morte de alguém e que um dia, devido o caminho sinuoso do destino, ele próprio acabará no bico da faca de uma pessoa que, por sua própria vez, vai pôr um laranja para assumir a morte dele. E, assim, por meio da laranjice, vão-se os filhos queridos de muitas mães, deixando apenas lágrimas que rolam no rosto do sofrimento humanitário.

SANGUE-BOM

 

— Sai todo mundo do xadrez e encosta as mãos na parede da galeria.

Bebeto estava para lá do quinto sono quando os três funcionários deram essa ordem. Ficou preocupado, havia chegado na cadeia há apenas três dias, mal conhecia os companheiros. Os sete saíram em silêncio e os carcereiros vasculharam tudo. Estavam quase desistindo, quando um deles despregou o fundo de um armário junto à parede e encontrou duas facas. Bebeto surpreendeu-se:

— Eu nem tinha noção que duas bicudas daquelas cabiam naquele espaço.

De quem eram, quiseram saber os funcionários:

— Os manos na maior miguelagem, ó. Vou dizer que não é minha? Uma que os polícias não vão acreditar, outra que eu passo por cagueta, porque se não é minha, é deles.

A solidariedade custou-lhe trinta dias na Isolada. No final, acha que valeu a pena:

— Saí de lá com fama de sangue-bom. Minha caminhada ficou mais fácil na cadeia.

A lei diz que é melhor pagar por crime alheio do que delatar o companheiro. Ao acusado é permitido protestar inocência; dar o nome do responsável, jamais. No caso de punição injusta, o verdadeiro culpado arca com a dívida da gratidão, no mínimo.

Gitano, um ladrão tatuado que trabalhou na enfermaria, recebeu uma carta da mulher. Açoitado pelo ciúme, foi atrás de um gole de maria-louca no pavilhão Oito. Cidinho Bigorna, seu fornecedor, lamentou não poder atendê-lo, estavam na entressafra, após uma batida do choque da PM. Entretanto, condoído pela tristeza do amigo, Cidinho Bigorna conseguiu-lhe uma garrafa de Dreher por 50 reais. Gitano pagou vinte, assumiu trinta de dívida e levou a bebida:

— Para acertar a diferença, vendi umas doses, onde que dei azar, um companheiro ficou bêbado e desrespeitou um funça. Os homens chegaram para saber a origem do conhaque, que se eu entregasse o fornecedor, minha cara estava limpa.

Gitano explicou que o litro havia aparecido pela manhã, misteriosamente, na porta da cela. Pagou trinta dias no castigo, mas poupou Cidinho Bigorna, um ladrão que uma vez cravou o punhal com tanta força na mão de um comerciante japonês que tinha se negado a abrir o cofre, que a lâmina trespassou os ossos e enterrou na mesa. Para seu azar, a polícia chegou em seguida e, ao ver o senhor com a mão encravada na mesa, bateu tanto em Cidinho e nos dois asseclas que ele perdeu a audição do ouvido esquerdo e todos os dentes da frente.

O gesto de Gitano não passou despercebido a Cidinho:

— Sangue-bom. Se ele me dá eu, tinha complicado a situação jurídica da minha pessoa, que eu já agravei a Colônia e não posso dar mancada, senão perco o benefício. Mas não deixei passar batido, usei minha aproximação com um funça para levar uma lata de goiabada para ele, na Isolada, que ali é um mês na quentinha pura, sem recorte.

Esse tipo de reconhecimento respeitoso não se aplica aos laranjas, desprezados por assumir a culpa alheia por motivo considerado torpe: covardia, perdão de dívida ou imediata recompensa. A diferença entre o sangue-bom e o laranja é muitas vezes sutil, pois envolve a motivação que levou ao ato, como explica seu Chico, um ex-marinheiro que matou o cunhado, foi preso e não viu mais os filhos, porque, em retaliação, a mulher disse a eles que o pai havia morrido na penitenciária:

— O laranja assume em troca de vantagem imediata, é toma lá, dá cá. O sangue-bom ajuda o companheiro sem saber se um dia vai ser recompensado; merece nosso respeito porque é um altruísta.

TRAVESTIS

 

No início, com os travestis, meu problema era a identidade. Sentava-se frente à mesa um homem de seios e gestos delicados em cuja ficha eu lia Raimundo da Silva, mas que todos chamavam de Loreta. Como o médico deve se dirigir a essa pessoa? Raimundo, toma o remédio, ou Loreta, minha filha?

Logo percebi que o certo era Loreta. Tratá-las como mulher não as ofendia, muito pelo contrário.

A trajetória do travesti é marginal. Vêm todos das camadas mais pobres, e quando saem à noite, de seios crescidos e saia agarrada, são automaticamente identificados como perigosos, independentemente do que tenham feito. Presos, vão para o distrito. Os delegados procuram alojá-los em celas especiais, mas quando não há espaço, o que fazer? Espremidos no meio de homens, numa situação em que muito valente corre perigo, curiosamente o travesti encontra força na fragilidade feminina e impõe respeito.

Na Detenção, a maioria vive no quarto andar do pavilhão Cinco, mas há outros espalhados pela cadeia. Nem tudo são rosas entre elas; brigam e falam mal umas das outras, porém se unem diante do perigo, por instinto de sobrevivência.

O negro Jeremias diz que nos velhos tempos a cadeia era diferente:

— Tinha menas travesti e mais bicha.

Diz que uma delas, de cabelos compridos, conhecida como Índia, fazia as unhas do diretor, o temido coronel linha-dura.

— Era linda. Quando a irmã dela vinha na visita, não diferenciava da outra.

Quando os mais novos lhe pedem, e só nessa condição, seu Jeremias, sobrevivente de muitos conflitos, dá o seguinte conselho:

— Se você vem na galeria e vem uma bicha vindo, é melhor passar de cabeça baixa. Já vi muita morte porque foram contar que o cara olhou para a bicha do outro.

Tem razão, os maridos são possessivos. Mulher de cadeia casada jamais circula pela galeria, e para descer ao pátio, só acompanhada. Para casar, o marido deve estar em boa situação financeira, pois a ele cabe o sustento da casa; a ela, a submissão ao provedor. De forma velada, alguns condenam, mas a união é respeitada socialmente.

O parceiro passivo não é considerado do sexo masculino. Nos estudos que conduzimos, não bastava perguntar se mantinham relações homossexuais. Era preciso acrescentar: e com mulher de cadeia?

Antes das visitas íntimas, a homossexualidade era prolífica. Uma vez, dei o resultado positivo do teste de AIDS para um ladrão desdentado e perguntei-lhe se havia usado droga injetável no passado:

— Nunca. Peguei esse barato comendo bunda de cadeia. Muita bunda, doutor!

Travestis solteiros movimentam-se sem perigo no meio da malandragem, desde que saibam se colocar no devido lugar. Em caso de desavença com algum ladrão, podem se defender verbalmente, como fazem as mulheres, porém jamais chegar às vias de fato como os homens.

Uma vez, dois traficantes do Oito foram ao Cinco cobrar uma dívida e se desentenderam com os devedores e os amigos destes. Foram esfaqueados. Entre os agressores, um travesti. Problema grave: o pessoal do Oito não deixava por menos, queria invadir o Cinco. Conflito de sérias proporções — são pavilhões apinhados — contornado pela esperteza e persistência do diretor do pavilhão.

A revolta do Oito não era por causa da agressão, corriqueira em cobrança de dívida, mas pelo fato de um travesti haver participado. Zacarias, um asmático em crise, faxineiro do Oito, queixou-se ao seu Valdir, funcionário do Cinco:

— Olha a que ponto chegou a cadeia, hoje em dia até puto dá facada em ladrão!

Quando vêm para a Detenção, os travestis estão há tempos longe da família. Sem ajuda no presídio, ou casam ou continuam na prostituição, como antes na avenida. Neste caso, a preço vil, a troco de uma lata de óleo, um bom pedaço de frango ou uma pedrinha de crack.

Patrícia Evelin, de cílios postiços, foi condenada porque matou um cliente que não quis pagá-la numa travessa da avenida Indianópolis e, o que mais a revoltou, foi estúpido, enxotou-a do carro feito uma cachorra. Um dia, ao pedir uma banana a mais para o faxina que distribuía o almoço, Patrícia recebeu uma proposta indecorosa:

— Só se você der uma cara aqui, para o ladrão.

Hoje ela ri. Diz que foi o michê mais barato da vida:

— Fazer o quê, estava louca por uma banana.

A AIDS foi devastadora entre os travestis da Casa. Chegavam na enfermaria com tuberculose avançada, feridas no períneo, os seios definhados pela interrupção da pílula de hormônio e o silicone industrial infiltrado nos músculos caquéticos. Sofrimento para mulher de verdade. No final, restritos ao leito, ainda sorriam com meiguice feminina. Perdi a conta de quantos morreram.