Estação Carandiru

Drauzio Varella · Capítulo 5 de 28

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Estação Carandiru

Pavilhão dois

É a entrada da cadeia. Vivem ali oitocentos presos que cuidam da Administração: Chefia, Carceragem, serviço de som e refeitório dos funcionários. Além dos setores de apoio, no térreo do Dois funcionam a alfaiataria, a barbearia, a fotografia, a rouparia e a laborterapia, que controla a remissão de pena à qual fazem jus aqueles que trabalham (para cada três dias trabalhados, o detento ganha um de remissão da pena).

Ao chegar na Casa, o preso desce do camburão na Divineia e vai direto para o Controle Geral do Dois, encarregado de registrá-lo, fotografá-lo e distribuí-lo para os diferentes pavilhões.

É no pátio interno do pavilhão Dois que acontece o ritual de chegada: o detento é registrado, fica de cueca na frente de todos e deposita a roupa na Rouparia. Recebe a calça cáqui, chamada de “calça jega”, e corta o cabelo modelo “tigela”, primeiro e último corte gratuito na cadeia.

O corte dos “triagens” é único. Parece, de fato, que colocaram uma tigela pequena no topo da cabeça e passaram a máquina zero da beirada para baixo. Dá ao recém-chegado um ar tosco, especialmente no caso dos mais velhos.

Despersonalizado, o novato é recolhido na Triagem Um, no térreo, uma cela de oito metros por quatro, lotada de acordo com o número de detentos que a Casa recebeu naquele dia. Dali, no dia seguinte, vai para a Triagem Dois, no terceiro andar, aguardar a distribuição, que é feita obrigatoriamente por um dos três diretores: o diretor-geral, o de Disciplina ou o de Vigilância. Fechada durante as 24 horas do dia, esta cela chega a albergar sessenta, setenta e até oitenta homens, dependendo do fluxo de entrada.

Quando ocorrem rebeliões nos distritos policiais, podem chegar cinquenta ou mais presos de uma vez só. Numa dessas, recentemente, duzentos detentos vieram transferidos. Como se queixam os funcionários, sempre cabe mais gente:

— Isso aqui é pior do que coração de mãe.

Ou, numa visão mais prosaica:

— Aqui desemboca o esgoto da cidade.

Na distribuição, o diretor reúne grupos de dez a quinze triagens que, respeitosamente, de mãos para trás, ouvem as normas da Casa:

— Vocês estão chegando na Casa de Detenção de São Paulo para pagar uma dívida com a sociedade. Aqui não é a casa da vovó e nem da titia, é o maior presídio da América Latina. Aqueles que forem humildes e respeitarem a disciplina, podem contar com os funcionários para ir embora do jeito que a gente gosta: pela porta da frente, com a família esperando. Agora, o que chega dizendo que é do Crime, sangue nos olhos, que é com ele mesmo, esse, se não sair no rabecão do Instituto Médico Legal, pode ter certeza que vamos fazer de tudo para atrasar a vida dele. Gente assim, nós temos mania de esquecer aqui dentro.

Cuidado especial é dedicado à segurança dos recém-chegados. Seu Jesus, diretor de Vigilância, tem uma forma peculiar de abordar o problema:

— Se algum dos senhores por acaso tem dificuldade de relacionamento social num dos pavilhões, não faça cerimônia, meu filho, pode abrir o coração comigo. Deixa a gente ajudar agora, antes que seus inimigos o façam.

A seguir, de um em um, para certificar-se do tipo de crime que resultou na condenação e já prevendo a invariável negativa de autoria, pergunta sério:

— Qual foi o delito que dizem que o senhor cometeu?

O critério de distribuição não é rígido, mas obedece às regras básicas. Por exemplo, artigo 213 — estupro — normalmente é encaminhado para o pavilhão Cinco; reincidentes, no Oito; primários, Nove; e os raríssimos universitários vão morar nas celas individuais do pavilhão Quatro.

Na Triagem, muitos pedem para ficar no próprio Dois. Devido à disponibilidade de trabalho e, talvez, por situar-se na frente do presídio, mais próximo da Administração, o pavilhão tem fama de tranquilo:

— Lá é mais fácil correr atrás da liberdade.