Estação Carandiru

Drauzio Varella · Capítulo 20 de 28

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Estação Carandiru

Mulher, motel e gandaia

 

Santão veio ajudar na montagem do equipamento. Um dia, no final de uma palestra apareceu com a seguinte conversa:

— Doutor, sem querer abusar do prestígio que eu tenho na sua amizade, será que o senhor podia espiar o Ezequiel, um considerado meu que está padecendo do pulmão, lá no Oito?

O xadrez de Ezequiel estava repleto de mulheres coloridas. Eram tantas que perdiam a individualidade, formavam um mosaico que cobria a parede e a porta. Na cama de baixo, jazia ele, sem dentes na frente, desidratado, com febre alta, dor no peito e o rosto escorrendo suor.

Ezequiel contou que havia cumprido pena por tráfico e receptação, numa penitenciária do interior. Uma noite, nesse lugar, viu dois carcereiros retirarem um preso do xadrez. No dia seguinte, o rapaz apareceu morto. A versão foi de que havia tentado fugir. Inconformado, Ezequiel denunciou os dois ao diretor do presídio. Anos mais tarde, transferido para a Colônia Penal, em regime semiaberto, Ezequiel deu de cara com os mesmos funcionários, que para lá haviam sido designados em consequência do caso anterior. Ele concluiu com pesar:

— A Colônia não é um mar de rosas como dizem.

Prevendo o pior, sete dias depois Ezequiel saiu para o trabalho e não voltou. Conformou-se:

— Eu pensei de um jeito, mas o destino traiçoeiro quis outra coisa.

Numa casinha que inundava, na beira do córrego da Vila Joaniza, ele encontrou os pais idosos passando necessidade e a irmã mais velha com quatro crianças, abandonada pelo marido. Assumiu o comando da família. Fugitivo, não tinha endereço fixo, mas aparecia na casa dos pais para almoçar ou jantar. Nem bem terminava a refeição e já estava na rua outra vez:

— Uma coisa de bom eu tenho, estou no crime faz tempo e nunca invadiram a minha casa. Não dou esse tipo de liberdade para a polícia.

Para recomeçar, um amigo emprestou-lhe duzentos gramas de cocaína. No tráfico, logo aprumou. Poucas vezes teve que dormir nos hotéis da Boca do Lixo, com as prostitutas do baixo meretrício; passava as noites na casa de mulheres usuárias da droga em São Paulo, Santos e São Vicente.

— A vida fugitiva é agitada: mulher, motel e gandaia. No meio da noite, o senhor está numa boate tomando um birinaite, toca a sirene lá longe e pronto: já acha que são os homens. Está no centro da cidade, passa um carro da polícia, dá um frio no espinhaço, onde tem cara que foge e é preso de bobeira, quando o barato nem era com ele. É uma vida desassossegada permanente.

Ganhava bem, comprava a 250 o grama e revendia a 600 ou 700. Entregava de moto, pessoalmente. Faziam-no entrar e ofereciam-lhe bebidas importadas. Confiavam tanto que até cheque lhe passavam. Ezequiel depositava-os na conta da irmã, que desde criança o protegia. Devagarinho, acertou a vida da família, uma casinha mais no alto, provisões na despensa e as crianças arrumadas pela irmã caprichosa. Para poupá-los, dizia-lhes estar no ramo de compra e venda de automóveis.

— Nesse interinho, arrumei uma namorada que trabalhava na Telesp e tinha conhecimento desse pessoal da sociedade, advogados, médicos, gerente da Bolsa de Valores e um cara que fazia propaganda na TV, gente de Primeiro Mundo que gostava de mim porque eu só vendia da pura, desbatizada. Inclusive, um cliente meu, o maior bicheiro da zona sul, cujo nome não posso nomear, dizia que eu era um moço muito honesto.

Um dia, um de seus fregueses foi preso e a situação complicou:

— Devem ter arregaçado o elemento de um jeito que ele deu eu como traficante. Entregou até a placa da minha moto que estava no nome do meu pai. Puxaram a filiação e deu eu, em dívida com a Justiça e tal.

Dias mais tarde, ele estava sentado no cavalete da moto, tomando um sorvete, quando surgiram dois revólveres por trás:

— E aí, Ezequiel dos Santos, como é que vai o fugitivo?

Um dos policiais, de óculos escuros, fez a revista, enquanto o colega de barba guardava distância. Ezequiel estava desarmado.

Passado o susto inicial, ele perguntou se havia possibilidade de acerto:

— Os homens queriam oitocentos contos ou eu voltava para a cadeia. Respondi que já tinha tirado dez anos, sofrido o pão que o diabo amassou, que os velhos dependiam de mim e tal e mais a irmã e os sobrinhos, que eles não iam ganhar nada me prendendo, que eu não praticava o mal para a sociedade, só vendia para quem queria comprar. Aí, naquela de pá e pá, acabou que eles ficaram com a moto, que valia quatrocentos, em troco da liberdade.

Sem a moto, perdeu agilidade no atendimento da clientela e as vendas caíram. Contraiu dívida com o fornecedor que trazia da Bolívia.

A solução para a crise veio através do tal gerente da Bolsa de Valores, numa boate da Vila Olímpia. O rapaz cheirou uma nova partida, espreguiçou-se, pôs o braço no ombro de Ezequiel e cochichou:

— Você é gente boa, cara, só me traz farinha pura. Quer saber? Vou te dar um lance de meio milhão de dólares. Você merece!

Ezequiel, então, soube que a namorada do rapaz da Bolsa era secretária de um doleiro dos Jardins que guardava 500 mil dólares no cofre de casa. O corretor deu o endereço do doleiro, contou que ele tinha três filhos e que a esposa andava de cadeira de rodas por causa de um acidente.

— Resolvi caprichar no planejamento do plano. Passei dez dias na campana do cidadão.

Descobriu que o doleiro saía às seis do escritório e ia direto para casa. De início, pensou dominá-lo na saída, levá-lo para casa e obrigá-lo a abrir o cofre. Abandonou a ideia, por achar complicado sequestrar alguém em plena Faria Lima, no horário de movimento. Achou mais prudente entrar na residência da futura vítima, no final da tarde, manter como reféns a senhora da cadeira de rodas, as crianças e as duas empregadas, e aguardar a chegada do doleiro, que não teria alternativa.

Para executar o assalto, precisava de um parceiro e de um carro veloz. Lembrou-se do Alcindo, de Santo André, que havia cumprido pena com ele na cadeia de Presidente Wenceslau.

— O Alcindo tinha fama de melhor piloto do ABC, inclusive ganhou a alcunha de Ayrton.

Acertaram tudo para uma quarta-feira. Na véspera roubariam o carro, que ficaria escondido na casa de Alcindo. Na porta do veículo pintariam em letras brancas: “Floricultura Rosa Gardênia”, e, na hora marcada, chegariam na casa do doleiro com as flores para entregar. Os passos foram ensaiados diversas vezes. Tudo perfeito, já faziam planos para os dólares. Como no episódio da Colônia Penal, no entanto, o destino traiçoeiro mais uma vez decidiria de outra forma.

Terça-feira, saíram atrás do automóvel. Não estava fácil, Alcindo era exigente com a qualidade do veículo. Depois de muito andar, encontraram um casal discutindo num carro que pareceu adequado ao piloto. Apresentaram-se com um revólver em cada janela. O rapaz não esboçou reação, pediu-lhes apenas que deixassem a noiva em paz. Eles explicaram que lhes interessava só o automóvel e saíram por São Caetano.

Dobraram três ou quatro esquinas e, quando iam respirar aliviados, surgiu não se sabe de onde uma viatura do tático móvel com sirene e tudo. Começou a perseguição:

— Os homens vinham pendurados nas janelas, com os pneus cantando e as armas apontadas. Só não atiravam porque tinha muito carro em volta. Naquele aperto, descobri que o Alcindo, de Ayrton não tinha nada, estava mais branco que ambulância. O trânsito abria por causa da sirene e ele feito barata tonta esbarrava nos carros, só no descontrole do sistema nervoso.

Quando entraram no viaduto da GM, em São Caetano, colidiram de frente com o Gol de um rapaz que levava a esposa grávida ao médico. Com o impacto, Ezequiel desmaiou.

— Acordei na porta do hospital, mas os caras me deram um rasgo, uma coronhada Luger de 9 milímetros no queixo, que eu caí fora de si outra vez.

Na mesma noite recebeu alta. Ao chegar no distrito, foi informado de que o proprietário do carro roubado era da Rota e havia telefonado para a polícia, que iniciou a perseguição. Para piorar, o rapaz do Gol abalroado, com a esposa grávida, era investigador do DEIC. A dupla coincidência tornou o castigo mais pesado:

— Perdi sete dentes e ainda tive que arrancar o único que sobrou sozinho, na frente. Me penduraram pra valer; tomei tanto bicudo de coturno no costado que tenho problema até hoje quando o tempo esfria.

Os homens chutavam e diziam:

— Se a criança do cara morrer, nós vamos acabar com a tua raça, vagabundo!

Ele jurava ter paixão por criança, que era louco pelos sobrinhos, principalmente o caçula, afilhado de batismo, e que jamais tivera intenção de matar um inocente no ventre da mãe. Não adiantava, era chute na boca, nas costelas, e máquina de choque no corpo molhado.

— Dia de azar, doutor. O cabrito para o pinote era de um cara da Rota, a trombada no Gol do investigador, ainda mais com a mulher grávida, e o Alcindo, de Ayrton, só o vulgo. Culpa minha que entrei nessa, cara criado em favela vai dirigir bem com 22 anos de idade? Nunca teve carro!

As recordações não pareciam confortá-lo:

— Está difícil, doutor. Subo a escada do pavilhão sem fôlego, arqueado como um velhinho e ainda agoniado com o sofrimento da família sem mim, passando dificuldade.

MARIA-LOUCA

 

Ezequiel curou-se da tuberculose e ficamos amigos. Era o mais respeitado destilador de maria-louca do pavilhão Oito. A fama de sua pinga atraía fregueses da cadeia inteira.

A tal de maria-louca é a aguardente tradicional do presídio. Segundo os mais velhos, sua origem é tão antiga quanto o sistema penal brasileiro. Apesar da punição com castigo na Isolada, a produção em larga escala resistiu. O alto teor alcoólico da bebida torna os homens violentos. Eles brigam, esfaqueiam-se e faltam com o respeito aos funcionários que tentam reprimi-los.

A opinião de Ezequiel sobre a própria arte não primava pela modéstia:

— Só vendo da boa e da melhor. Se eu ponho a minha pinga numa colher, o senhor apaga a luz e risca um fósforo, sai um fogo azul puríssimo. Que muitos tiram, mas nem pega fogo; sai um vinagre. Eu tiro uísque.

O milho de pipoca que a mãe lhe trazia, sem saber a que se destinava, era a matéria-prima de Ezequiel: num tambor grande comprado na Cozinha Geral, juntava cinco quilos de milho, com açúcar e cascas de frutas como melão, mamão, laranja ou maçã. Depois, cobria a abertura do tambor com um paninho limpo e atarraxava a tampa, bem firme:

— Esse é o segredo! Se vazar, o cheiro sai para a galeria e os polícias caem em cima, que eles é sujo com pinga. Diz que o cara bebe e fica folgado com a pessoa deles. Do jeito que eu fecho, doutor, pode passar um esquadrão no corredor com o nariz afilado, que pelo odor jamais percebe a contravenção praticada no barraco.

Durante sete dias a mistura fermenta.

— No sétimo, a fermentação é tanta que o tambor chega a andar sozinho, parece que está vivo.

Devido à pressão interna, todo cuidado é pouco para abrir o recipiente. Aberto, seu conteúdo é filtrado num pano e os componentes sólidos desprezados. Nessa hora, a solução tem gosto de cerveja ou vinho seco. Um golinho dessa maria-louca amortece o esôfago e faz correr um arrepio por dentro. Cada cinco litros dela, vai virar um litro de pinga, depois de destilada a mistura.

Na destilação, o líquido é transferido para uma lata grande com um furo na parte superior, no qual é introduzida uma mangueirinha conectada a uma serpentina de cobre. A lata vai para o fogareiro até levantar fervura. O vapor sobe pela mangueira e passa pela serpentina, que Ezequiel esfria constantemente com uma caneca de água fria. O contato do vapor com a serpentina resfriada provoca condensação, fenômeno físico que impressionava o bigorneiro, nome dado ao destilador da bebida:

— Olha a força do choque térmico! Aquilo que é vapor se transforma num líquido!

Na saída da serpentina emborcada numa garrafa, gota a gota, pinga a maria-louca. Cinco quilos de milho ou arroz cru e dez de açúcar permitem a obtenção de nove litros da bebida.

— Sai limpíssima, é a coisa mais gostosa do mundo. Do bom e do melhor. Pinga minha não dá sede de madrugada, nem vontade de urinar, e não incha os pés.

Quando começou, Ezequiel era um dos poucos bigorneiros do Oito. Trabalhava muito, das oito da noite às três e meia da madrugada, porque isso não é trabalho que se faça à luz do dia. Ganhou prestígio:

— Vendia o litro por uma paranga de 10 contos. Hoje qualquer vagabundo tira pinga, sai um vinagre azedo e custa os olhos da cara: 30, 40 contos o litro. Os caras perdeu a noção.

Cuidadoso, Ezequiel nunca foi pego por desleixo na prática de seu ofício:

— As três vezes que a casa caiu, foi por crocodilagem.

Na primeira, passou noventa dias num cubículo com mais oito, no calor do verão. Nas duas outras, pegou apenas trinta dias. Os tempos haviam mudado, a mãe até armou um esquema para visitá-lo nos finais de semana.

Orgulhoso de seu trabalho, Ezequiel só abandonou a maria-louca quando caiu gravemente enfermo. Malandro esperto, nunca se interessou pelo lucro fácil da cocaína:

— Doutor, eu tenho quatro inquéritos de 157, tudo assalto. Nunca fui pego com droga. Se eu entrar em cana mexendo com crack aqui dentro, vou cair no 12, tráfico. Já se trata de um artigo diferente, adquirido na própria cadeia. Crime contínuo; crime como fantasia, o juiz poderá argumentar. Vai querer tirar eu como irrecuperável e negar todos os benefícios.

O pavilhão Oito, dos reincidentes, é por tradição o maior produtor da maria-louca que abastece a cadeia, seguido pelo Cinco. Nele, em maio de 1998, numa única batida foram encontrados mil litros da bebida. Diante do meu espanto ao saber da quantidade apreendida, um funcionário comentou:

— Pode parecer muito, doutor, mas não se esqueça de que são 7 mil presos.

De fato, os mil litros de maio não quebraram a marca de uma apreensão anterior: 1200 litros destilados, prontos para a venda.

MIGUEL

 

 

Miguel assaltava com o parceiro, Antônio Carlos. Confiavam tanto um no outro, que assumiram o compromisso mútuo de cuidar das duas famílias caso um deles fosse preso. Num assalto a um supermercado, conseguiram um bom dinheiro e aplicaram em cocaína. Prosperaram e continuaram no ramo, pequenos comerciantes de Taboão da Serra.

Um dia, vinham com dois companheiros na carroceria de uma caminhonete carregada de móveis, com dois quilos de cocaína escondidos num armário, e encontraram uma barreira policial. No tiroteio, perdeu a vida um dos companheiros da carroceria. Miguel foi dar pessoalmente a notícia à viúva.

A moça ouviu pálida, em silêncio. Depois chorou comovida. Miguel disse que também estava triste. Entregou-lhe a parte do marido no trabalho e, qualquer coisa, Antônio Carlos e ele estariam à disposição.

Foi embora encantado com a beleza da morena. Nem na TV tinha visto pernas tão bonitas, sonhava com elas à noite. Por causa dessa moça, Miguel largou da família e viveu um grande amor pela primeira vez, ele aos 38 anos, ela, com 22.

Uma tarde, quando a união ia para o segundo ano, Antônio Carlos, que morava na quadra de baixo, apareceu na casa de Miguel. A morena tinha ido visitar a mãe. A conversa foi truncada, esquisita, até Miguel interromper:

— Qual é, Antônio Carlos? Vamos entrar no assunto que te trouxe.

— Tua mulher te passa pra trás com um polícia.

— Quem falou?

Antônio Carlos deu o nome do motel onde eles se encontravam e disse que tinha visto os dois, pessoalmente, namorando na viatura da delegacia, numa travessa do largo do Taboão.

O coração de Miguel acusou a punhalada. Matar o investigador passou por sua cabeça, mas abandonou a ideia; teria que fugir da cidade. Dar fim à vida dela? Como? Não é fácil matar a mulher amada, constatou.

Com um nó apertado no peito, Miguel dobrou as roupas dela, pôs a mala do lado de fora e passou o trinco na porta. Quando a morena chegou, bateu forte:

— Que é isso, Miguel, ficou maluco?

No início, ele nem respondeu, mas ela insistiu, disse que tinha direito de saber o que aquilo representava. Se ele estava apaixonado por outra, ela iria embora mesmo, que ela não era de dividir homem com vagabunda nenhuma. Depois, queixou-se de que os vizinhos ouviam tudo, e ele abriu a porta.

Na sala, ela se assustou com o estado trêmulo do marido. Tirou o copo de bebida da frente dele e despejou na pia. Em voz baixa, procurou acalmá-lo até conseguir que ele falasse:

— Você é puta, sem-vergonha. Larguei da mãe dos meus filhos, te dei conforto, carinho e amizade e você pagou com a moeda da traição. Estou sabendo do polícia que você encontra no motel atrás do posto de gasolina na Raposo Tavares, faz mais de um ano, enquanto o trouxa aqui arrisca a pele para rechear teu guarda-roupa.

A morena ouviu impassível. Depois, interrompeu o silêncio:

— Quem foi que te contou?

— Não interessa.

— É lógico que sim. Uma pessoa conta uma história que destrói o nosso lar e eu não tenho direito de saber quem é ela?

Ele disse que não, que ela não prestava, não valia um pãozinho da padaria, e que tinha sorte dele ser bom, caso contrário cometeria um desatino. Ela, de mãos frias, ignorava as ofensas. Apenas queria saber:

— Quem foi que te contou?

Com a persistência das mulheres, insistiu nesse ponto até Miguel confessar:

— Foi o Antônio Carlos. Por quê?

— Então, você vai fazer ele repetir na minha cara. Depois, pego minha mala e vou para a minha mãe.

Antônio Carlos repetiu a história inteira na frente dela e do marido, referiu-se até a detalhes que havia poupado do amigo:

— Vi você morder a orelha dele, na viatura!

Ela escutou calada, no sofá, até terminar a narrativa. Caiu outro silêncio, novamente quebrado por ela:

— Você falou tudo, mas esqueceu a parte melhor.

— Como assim?

A morena, que tinha o olhar perdido nos bibelôs da cristaleira enquanto ouvia o relato, levantou do sofá, postou-se diante de Antônio Carlos e, direto nos olhos dele:

— Você não contou que me pediu para abandonar o Miguel e fugir com você. E que eu não aceitei porque amo meu marido, e sou amiga da tua mulher.

Antônio Carlos chamou-a de mentirosa, disse que não fosse o respeito pelo amigo arrebentava a cara dela. Xingou-a de mente diabólica. Ela não respondeu. Como estátua, pegou a mala e foi embora.

Antônio Carlos virou-se para o amigo:

— Miguel, você não acreditou nessa pilantra, acreditou? A gente tem quatro anos de parceria e nunca partiu de mim qualquer crocodilagem.

— Deixa quieto, Antônio Carlos.

Antônio Carlos notou uma ponta de hesitação no tom do parceiro.

Enquanto acontecia essa conversa, a morena tocava a campainha na casa do difamador. Uma loira oxigenada apareceu na janela. Era Dina, mulher dele.

Conversaram em pé, na sala:

— Dina, o Antônio Carlos é veado?

— Que pergunta, Marli!

— Desculpa, mas ele veio para o Miguel com uma história que eu saio com um polícia, que nunca existiu. Veio com tudo, para destruir meu casamento. Então eu pensei: ou ele quer que eu vá embora para ficar com o Miguel ou quer que ele vá para ficar comigo.

— Que é isso? O Antônio Carlos tem nojo de bicha.

— Então, minha filha, é de eu que ele está a fim.

Pegou o ônibus e foi para a casa da mãe.

Antônio Carlos era mulherengo, e Dina, um poço de ciúmes. Uma vez engalfinhou-se com uma prostituta das relações dele, e foram necessários dois homens e uma senhora para separar. Quando Antônio Carlos entrou em casa, Dina cravou-lhe as unhas no rosto:

— Ordinário, sem-vergonha, sempre falei que você tinha um quê por ela. Mas você dizia que eu era louca. Nem mulher de amigo você respeita mais, cachorro?

Na manhã seguinte, Antônio Carlos bateu na porta de Miguel:

— Dormiu com gato?

— Você não acredita. Tua mulher saiu daqui, foi para minha casa e pôs na cabeça da Dina que eu estou a fim dela. Quando cheguei a Dina voou com as unhas na minha cara.

Miguel inspecionou os ferimentos no rosto do parceiro e disse:

— Antônio Carlos, o corvo da desconfiança pousou na nossa amizade. Daqui por diante, cada um segue seu destino.

O amigo tentou argumentar, explicar que a sociedade era vantajosa para ambos, mas foi inútil. No dia seguinte, Miguel foi buscar Marli na casa da mãe. Ela aceitou voltar com a condição de que passassem uma borracha no acontecido e voltassem à harmonia de antes. Ele prometeu e cumpriu, parcialmente. Passou a segui-la, inventava viagens e aparecia em casa no meio da noite; até pôs um capanga na esperança de surpreendê-la. Nada: o comportamento dela era exemplar.

Um ano depois, bem estabelecido nos negócios, mudaram para uma casa maior, passada no nome de Marli, porque ele não podia ter nada em seu nome. A fase de suspeição havia chegado ao final. Quanto ao parceiro, não se encontraram mais. Antônio Carlos tinha sido preso e condenado a cumprir pena na Casa de Detenção.

Nessa ocasião, Miguel levantou 40 mil dólares num sequestro e resolveu triplicar o dinheiro. Disse para a mulher que comprariam um sítio depois do golpe.

Chegou de ônibus em Santa Cruz de la Sierra. De lá, pegou uma jardineira dessas em que as pessoas entram com engradado de galinha e desceu na praça principal do povoado, em frente ao hotel da mãe do vendedor de cocaína.

Miguel pagou 50% do valor da encomenda e o boliviano mandou refinar a cocaína. Levou dois dias, mas ele não se aborreceu. Aproveitou para uma pescaria no barco do irmão do fabricante, um sujeito contador de casos engraçados. A droga foi entregue do lado brasileiro. Para fugir da rota mais vigiada, Miguel pegou ônibus para Brasília, depois Belo Horizonte, São Paulo e Santos, onde vendeu a cocaína. Vestia terno azul-marinho e camisa abotoada, na mão uma Bíblia, que leu durante todo o percurso:

— Só para desbaratinar.

Chegou em casa com quase 100 mil dólares. Abriu o portão e atravessou o corredor escuro. O cachorro latiu e veio fazer festa. Bebeu água no filtro e foi para o quarto. A morena dormia de calcinha e camiseta regata. Deitou-se ao lado daquele corpo quente e mordeu-lhe com delicadeza o pescoço. Miguel estava feliz, outra vez.

Na manhã seguinte, ela acordou cedo e foi comprar pão. Ligou do orelhão da padaria:

— O passarinho voltou para a gaiola. Trouxe um saco de alpiste.

A polícia surpreendeu Miguel no vaso sanitário. O amante de Marli chefiou a operação. Depois, viajou com ela para o Nordeste.

Miguel chegou na Detenção e chafurdou no crack. Pegou tuberculose, não tratou direito e morreu magrinho, na enfermaria. De tristeza, disse o Antônio Carlos, que cuidou do amigo até o último dia de vida.