Estação Carandiru
Pavilhão quatro
Fica do lado oposto, simétrico ao Dois. Contém menos de quatrocentos presos, alojados em celas individuais, caso único na Detenção. Durante a triagem, quando o recém-chegado pede para ser designado para o Quatro, o diretor responde:
— Não diga?... No Quatro, meu filho, até eu gostaria de morar.
A intenção original era a de que fosse um pavilhão exclusivo do Departamento de Saúde. De fato, no térreo estão os xadrezes dos presos com tuberculose e no quinto andar funciona a enfermaria geral. No entanto, por necessidade de proteção aos marcados para morrer, a direção foi obrigada a criar um setor especial no térreo, a “Masmorra”, de segurança máxima — o pior lugar da cadeia.
A Masmorra fica em frente à gaiola de entrada do pavilhão. É guardada por uma porta maciça, ao lado da qual uma placa avisa que é terminantemente proibida a entrada de qualquer pessoa não autorizada. São oito celas de um lado da galeria escura e seis do outro, úmidas e superlotadas. O número de habitantes do setor não é inferior a cinquenta, quatro ou cinco por xadrez, sem sol, trancados o tempo todo para escapar do grito de guerra do Crime:
— Vai morrer!
Ambiente lúgubre, infestado de sarna, muquirana e baratas que sobem pelo esgoto. Durante a noite, ratos cinzentos passeiam pela galeria deserta.
A janela do xadrez é vedada por uma chapa de ferro fenestrada, que impede a entrada de luz. Por falta de ventilação, o cheiro de gente aglomerada é forte e a fumaça de cigarro espalha uma bruma fantasmagórica no interior da cela. Tomar banho exige contorcionismo circense embaixo do cano na parede ou na torneira da pia, com uma caneca.
A Masmorra é habitada pelos que perderam a possibilidade de conviver com os companheiros. Não lhes resta outro lugar na cadeia; nem nas alas de Seguro, como o Amarelo do Cinco, por exemplo. Mofam trancados até que a burocracia do Sistema decida transferi-los para outro presídio.
O nome “Masmorra” periodicamente chama a atenção da imprensa e das organizações de defesa dos direitos dos presos e obriga a Corregedoria a inspecionar o local. Numa dessas visitas o diretor-geral, irritado com o juiz corregedor que o culpava pela situação desumana em que viviam os habitantes da ala, propôs-lhe com firmeza:
— Doutor, vou abrir cela por cela e o senhor vai perguntar quem aceita ser transferido daqui para qualquer pavilhão da Casa. Se eles estiverem de acordo, transfiro todo mundo e fecho o setor na sua presença.
Após a abertura do segundo xadrez, o corregedor entendeu que o desejo de cada um era mudar de presídio, só que se recusavam a sair da Masmorra enquanto não cantasse a transferência, por se julgarem protegidos naquele local.
Em dia de sol, no pátio do Quatro, o visitante vai encontrar muitos presos em precárias cadeiras de roda. Quase sempre são ladrões que perderam o movimento das pernas em tiroteios, e cumprem pena no Quatro para cuidar das sondas urinárias e das escaras que não cicatrizam. Além disso, podem utilizar o elevador do pavilhão, o único que ainda funciona na cadeia. Os paraplégicos são muito respeitados pelos companheiros, que costumam auxiliá-los nas tarefas diárias.
No segundo andar, há um trecho da galeria cujas celas são identificadas com um cartão afixado: “DM”, sigla que identifica os “doentes mentais”. O critério para lhes atribuir tal rótulo é incerto, uma vez que não existe serviço especializado em psiquiatria na Casa. Alguns dos DMs já chegaram com distúrbios sérios de comportamento, outros entraram em surtos psicóticos na própria cadeia e avançaram sem motivo para esganar o companheiro, tentaram suicídio, desenvolveram quadros depressivos graves ou esgotaram o cérebro no cachimbo de crack.
Genival, um dos habitantes do setor, diz que perdeu o juízo por causa da visão de um senhor que ele matou num assalto:
— Quando a noite caía, a alma penada dele vinha me assombrar, na escada, na galeria e até no xadrez trancado. Tentei me suicidar duas vezes para escapar da perseguição.
Como nos manicômios do século XIX, passam o tempo reclusos em seus xadrezes. A medicação psiquiátrica que recebem é praticamente a mesma para todos.
A situação desses presos só não é pior por causa da dedicação comovente de um cearense de cabelo ondulado convertido a pastor do Exército da Salvação, condenado a doze anos por crimes que ele dizia fazer de tudo para esquecer, que chefiou por muito tempo um grupo de auxiliares encarregados da higiene, da medicação e de dar comida na boca dos que não conseguiam se alimentar.
A falta de médicos especializados em distúrbios psiquiátricos permite que a malandragem mau caráter simule quadros psicóticos para se refugiar entre os DMs e escapar da vingança dos inimigos.
Como diz Bigode, um homem de caráter forte, antigo no pavilhão, chefe de uma quadrilha de piratas no porto de Santos, cumprindo 213 anos:
— Para se livrar da patifaria que aprontou, ele finge que perdeu o juízo e vem parar no meio dos DMs, no Quatro. Amanhã vai para a rua e ainda tira uma que cumpriu pena na Detenção, que ele é do Crime, sangue bom.
O castigo destes pode vir através da medicação psiquiátrica prescrita, que provoca impregnação e impõe dificuldade de coordenação motora, tremores, descontrole dos esfíncteres e outras alterações neurológicas.
Por imperativos de segurança, discretamente a diretoria manda para o Quatro alguns estupradores e justiceiros, bandidos geralmente contratados por comerciantes da periferia para matar ladrões do bairro. Como o pavilhão é menos populoso, mais tranquilo, os praticantes desses delitos têm mais chance de escapar da ira coletiva. A presença oculta deles, no entanto, cria um clima de desconfiança em relação ao pessoal do Quatro:
— Ali, ninguém sabe quem é e quem não é.