Estação Carandiru

Drauzio Varella · Capítulo 27 de 28

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Estação Carandiru

Paixão arrebatadora

 

Esse tal de Charuto tinha sorriso alvo e dentição perfeita, raridade no ambiente. Malandro completo no andar, falar e olhar, assaltante incorrigível, estava condenado a dezesseis anos, nesta segunda passagem pela cadeia.

Dois anos depois do entrevero com o rato, ele convenceu o Zoinho, um ladrão estrábico internado com sarna disseminada, a vender o próprio colchão para comprar crack, depois tapeou o amigo, fumou as pedras sozinho e quando um funcionário da enfermaria descobriu a venda, Charuto armou uma confusão tal que Zoinho não só assumiu a culpa de tudo, como pegou trinta dias de castigo na Isolada.

Duas semanas mais tarde, Charuto apareceu no ambulatório, com ar cerimonioso, acompanhado de um companheiro narigudo, felliniano:

— Doutor, daria para o senhor atender este considerado meu, que está com uma coceira cabulosa?

Tratava-se do incauto comprador do colchão infestado do Zoinho.

Depois disso, passei tempos sem vê-lo. Um dia, Charuto retornou com muita tosse, febre, dispneia e os olhos encovados: tuberculose pulmonar com derrame de líquido pleural à direita do tórax.

Órfão de mãe, Charuto não recebia visitas desde que chegou à cadeia, desta segunda vez, havia quatro anos. Nos primeiros meses, ainda lia jornal e pedia notícias da rua, mas logo concluiu que satisfazer a curiosidade trazia mais sofrimento e alienou-se dos acontecimentos do lado de lá da muralha, como fazem muitos homens sem família condenados a penas longas.

Dos parentes, não sentia saudades, com exceção do filho mais velho:

— O pequenininho eu não quero ver, porque ele está bem com a avó, a mãe da Rosirene. Agora, o grande eu não sei, porque ele vive com a Rosane, minha outra mulher, e ela é fumadora de crack.

Após cumprir dez anos, em sua primeira passagem pela Detenção, Charuto foi posto em liberdade. Ao sair, soube que Rosane, mãe de seu primeiro filho, tinha acabado de ser presa. Um domingo foi visitá-la na penitenciária de Tremembé. Levou o menino para ver a mãe e cinco gramas de cocaína, de presente. No ônibus de volta, com o primogênito no colo, foi abordado por uma senhora de fino trato:

— Escuta aqui, simpatia, eu também sou malandra, sabe, eu sou malandra. Vim visitar minha irmã e vi você dando um barato lá para a sua mulher. É sua mulher, não é? É o seguinte, eu trafico. Não tem condição de você arrumar umas dez gramas para mim? Pode confiar que eu sou do ramo. Sou do ramo, entendeu? Sou malandra!

Charuto sentiu firmeza. Terça-feira, pegou um ônibus até o Jabaquara e, de lá, o Jardim Míriam:

— Levei uma cara de farinha. Eu não conhecia aquela quebrada; o maior jogo duro para achar a casa.

No quarto dessa senhora, dona Joana, Charuto entregou a droga e sentou para conversar com seu Machado, um senhor que morava com ela.

Foi quando a tentação entrou pela porta dos fundos, sorrindo, de vestidinho com alça: Rosirene.

— Nega dos lábios finos, nariz empinado, bunda de escola de samba e eu no esgano, ó, saindo da cadeia, depois de tirar dez anos. Naquela hora, pensei com a minha cabeça, preciso comer essa nega de qualquer jeito! Não sei se isso já aconteceu com o senhor, doutor, amor à primeira vista! Paixão arrebentadora!

Encantado pela mulata, chamou seu Machado para um canto:

— E essa mina aí?

— Essa mina aí, está aí.

— Então, fala para essa nega que é o seguinte: vou levar ela para Santos amanhã.

Voltou na quarta-feira, mas não foi preciso viajar tão longe:

— Já saímos direto para o Flor da Lapa, a maior festa e tal, gastei dinheiro que nem água. Depois, achei que tudo bem, experimentei a fruta, já era. Apenas que ela não foi embora.

Como as condições não lhe permitiam Flor da Lapa toda noite, alugaram uma maloca num cortiço da Dino Bueno, perto da Rodoviária velha, para viver no maior amor:

— Embora que de vez em quando tinha que dar uns murros nela, que a nega era folgada pra caramba.

Uma noite, Charuto foi dormir muito louco e acordou com a gritaria:

— Ô, vê se acorda que a casa está pegando fogo!

Eram os vizinhos do cortiço:

— Uma tremenda fumaceira, saí a milhão de dentro do quarto.

Rosirene tinha jogado tudo que era dele, roupas, chinelo, sapato, em cima da cama do casal e ateado fogo. A vizinhança ameaçava chamar a polícia; e ele sem saber se apagava o fogo ou acalmava os vizinhos. Se a PM chegasse, iria prendê-lo no ato; havia acabado de sair da cadeia. A incendiária, do lado de lá da rua, assistia de camarote, cínica, dando risada.

— Pô, queimou tudo, até a minha calça de baile! O maior custo para convencer os vizinhos deixar quieto, a polícia não ia querer saber.

Quando acabou o fogo, descalço, Charuto saiu para tomar ar. A mulata veio atrás. Na Dino Bueno com o Largo Coração de Jesus ele parou numa fogueira:

— Na maior neurose, querendo pegar ela de quebrada.

Sentou. Ela também, com prudência, do outro lado, em frente. Depois de um tempo, Charuto levantou devagar com um cigarro apagado no canto da boca, pegou um tição do fogo como se fosse acendê-lo e avançou na direção da Rosirene:

— Dei umas trinta tiçãozadas nela. Era fagulha para todo lado, parecia que nós estava no inferno de Satanás!

Vingado, refugiou-se num bar na famosa esquina da São João com a Ipiranga e tomou várias para rebater. Mais tarde, quando voltou para casa, encontrou a maloca em silêncio:

— A primeira coisa que eu olho na cama queimada é a nega dormindo, ó! Puta vida, vai embora daqui, já. Não vou. E, nessa de vai embora já, não vou, vai, não vou, ela acabou não fondo, e nós ficamos naquele amor aconchegado.

Viveram dois anos juntos. Esqueceu do filho e da mulher na cadeia de Tremembé, por causa dessa paixão. Amanheciam fumando pedra, escovavam os dentes com a mesma escova, pediam um comercial no bar e comiam no mesmo prato, de tão bem que se davam:

— Eu roubava, ela se virava.

Segundo ele, não adiantava: mesmo quando roubava uma quantia suficiente para passarem alguns dias despreocupados, saía de manhã e, quando voltava à tarde, cadê a Rosirene?

— Estava na Estação da Luz se virando. Sabe, elas viciam e não querem sair dali. Eu não podia fazer nada. Quer dar? É com ela mesmo. A única coisa que eu falava era: só não dá para amigo meu, que eu te quebro o pescoço.

O destino os desuniu quando ele ficou caído de tanto crack e ela voltou para a casa da mãe, com o menino que tinha nascido.

Uma noite, trombaram na Boca do Lixo e Rosirene confessou estar namorando um amigo dele, Mato Grosso, o dono das pedras, e que os dois tinham planos de mudar para Ponta Porã.

— Veja só, dando para amigo meu e ainda os dois fazendo plano!

Hoje, ele reconhece ter perdido a mulher porque não há harmonia que resista ao crack. Mesmo assim, continuava decidido a resolver o caso pela via passional.

— Quando sair da cadeia, vou matar o Mato Grosso. Ela não, porque o errado é ele, que me conhece e sabe que a mulher é minha; não tem nada que cantar ela e levar embora. É eu que ele está tirando, não ela.

A decisão de poupar Rosirene do castigo fatal, no entanto, é fruto recente da ponderação, pois quando chegou na cadeia seu desejo era atraí-la para um lugar ermo, cortar-lhe os pés fora com um machado e justificar:

— Não vou te matar porque nós temos um filho, e não quero que ele me venha falar que eu matei a mãe dele. Mais tarde, ele vai te ver sem pé, vai perguntar por que e você vai dizer: eu dei para outro cara. E, aí, ele vai saber que o pai dele agiu na razão.

Sua intenção era fazer uma malvadeza que Rosirene jamais esquecesse. Afinal, largou Rosane por causa dela. Na época, ele gostava da Rosane; a primeira vez em que esteve preso, pensou que se Rosane o abandonasse, iria enlouquecer. Até ameaçou:

— Se você não me visitar, te furo os olhos.

Ela, sorriu e tranquilizou-o:

— Quem falou que eu sou mulher de abandonar homem meu na cadeia?

Prometeu e cumpriu. Visitou-o, quase dez anos, todo final de semana, com as sacolas e o menino. Até ir presa. Ele é que a traiu, por causa da Rosirene:

— Fui cachorro; abandonei a Rosane presa em Tremembé; ó, maior ingratidão!

O castigo veio a cavalo quando Rosane saiu da cadeia, antes da data prevista.

Uma noite, ele dormia tranquilo num hotelzinho com a Rosirene, certo de que a outra continuava presa, quando Rosane, libertada, foi à Boca do Lixo cobrar a referida ingratidão. Perguntou sobre o paradeiro do ingrato num bar:

— Ele está dormindo com a mulher dele no Copa 70.

— Ah, mulher dele, é? Cachorro!

Entrou no quarto quebrando tudo; de cara jogou a TV no chão e avançou para cima da Rosirene, cujo tamanho era o dobro do seu. Ligeiro, ele vestiu a roupa e sumiu. Ficou num botequim, esperando a poeira baixar. Meia hora depois, apareceu o português do hotel:

— Vai ver o que aquela baixinha aprontou lá. Encheu a cara da tua mulher, espetou um alfinetão na bunda dela que tirou sangue, ainda rasgou e tacou fogo nas roupas da grandona!

Charuto tem febre e sudorese noturna; está magro e com os pulmões afetados. Ri, as recordações parecem deixá-lo feliz. Apesar da eterna gratidão à Rosane, só pensa na Rosirene:

— Doutor, se eu morrer na cadeia, não vou ficar sossegado. Tenho que ver aquela mulher de novo. Depois, vou matar o Mato Grosso, mas a primeira coisa é ver a Rosirene, só mais uma vez. Ela é linda, doutor! Tá louco, a nega me enfeitiçou.

SEM-CHANCE

 

 

Sem-Chance diz que não era ladrão nem nada. Mulato, franzino, riso aberto, o caçula da casa, chegou aos dezenove anos sem trabalhar. Os pais, na medida do possível, faziam todas as vontades dele:

— O maior dengo.

Uma ocasião brigou com a família e saiu:

— Só de bronca.

Depois de dois dias, com fome, lá na vila mesmo, parou numa fogueira onde alguns amigos se aqueciam:

— Eles também não eram ladrões, mas estavam com o pensamento de tomar o revólver do vigia da pedreira.

Sem-Chance foi com eles, não por convicção, mas por não ter para onde ir. Só para não ficar ali sozinho, na fogueira.

Entraram todos menos ele, que guardou o lado de fora. Ao perceber o movimento, o vigia entrou em pânico e começou a gritar. Um deles atirou e acertou a cabeça do coitado. Apanharam o radinho, a jaqueta de guarda noturno e o revólver e fugiram.

Esse crime deu um processo de latrocínio que estragou a vida dele. Foi condenado: doze anos e oito meses.

— Só para ver que nós não tinha maldade nenhuma, doutor, nós roubava onde todo mundo conhece nós. Nós é criado ali. É sem chance.

Atrás das grades aprendeu o que faltava, e quando saiu, em 1987:

— Comecei a roubar, bem roubado.

Assaltou firmas, padarias e gente andando na rua. Especializou-se no “gogó”, método através do qual dava uma gravata no transeunte, enquanto os parceiros limpavam a vítima. Conta que nunca matou; chegava dizendo isto é um assalto e, se a vítima não acreditasse, dava uma coronhada na cabeça para intimidar. Não roubava mulher desacompanhada, só de medo de chegar na cadeia com fama de estuprador.

— Voltei para a Detenção em agosto de 91, por causa desse barato de gogó e uns cinquenta, cem assaltos, por aí. Peguei mais dezenove anos, que o juiz não quis saber das atenuantes. Foi sem chance.

Dessa pena, já cumpriu cinco anos. Desde que chegou, ninguém lhe traz um maço de cigarros. Sobrevive às custas dos conhecidos. Vende relógios e roupas dos companheiros endividados; o proprietário pede cinco, ele anuncia por sete ou oito. Tudo o que ganha na luta acaba no cachimbo de crack.

— Eu tenho uma coisa de bom no caráter da minha pessoa: só fumo no dinheiro! O senhor nunca vai ouvir que o Sem-Chance comprou um cisco de crack no fiado. Ando pela galeria de cabeça em pé, sem rabo preso com vagabundo nenhum. Aqui dentro, comigo, é no respeito!

Depois que perdeu a mãe, para a família ele não existe mais:

— Para a sociedade, eu não passo de um reles, rejeitado que nem cachorro sarnento. Se aqui na cadeia os manos não tratar eu como considerado, não vou ser nada para ninguém, sou um zero no mundo. Vou perder a identidade própria do ser humano. É sem chance.

Tratei-o de uma tuberculose grave, instalada nos gânglios linfáticos. Tinha ínguas volumosas no pescoço e axilas. Magrinho, quase morreu. Depois de um mês, já sem febre e com apetite, teve alta da enfermaria. Insisti com ele sobre a importância de manter a regularidade do tratamento e que era fundamental dar um tempo com o crack.

No pavilhão, ele fez exatamente o oposto e voltou pior, com a doença disseminada nos pulmões, falta de ar ao mínimo esforço e caquexia. Na recidiva o bacilo veio agressivo e resistente à medicação. Em poucos dias ficou fraco, dispneico, caído na cama o dia inteiro. Ainda assim, sorria quando eu chegava para examiná-lo.

Uma tarde, fui vê-lo antes do ambulatório. A cela estava invadida por uma luz bonita, alaranjada, reflexo do sol na mulher pelada da parede. Em coma, encolhido no catre, pele e osso, ele parecia uma criança. Migalhas de pão espalhavam-se em volta da boca ressecada. Atrás delas, um batalhão de formigas apressadas andava em zigue-zague pelo rosto agônico de Sem-Chance.

SEU VALDOMIRO

 

Seu Valdomiro é um mulato de rosto vincado e cantos grisalhos na carapinha. Em seu olhar de homem preso, às vezes brilha uma luz que ilumina o rosto inteiro. Os setenta anos e as histórias de cadeia ao lado de bandidos lendários como Meneghetti, Quinzinho, Sete Dedos, Luz Vermelha e Promessinha fizeram de seu Valdo um homem de respeito no presídio.

Na caminhada, cumpriu pena em diversas unidades. Numa delas, após quatro meses de solitária na escuridão total, quebrada só quando abriam o guichê da cela para passar o prato de comida, que ele precisava engolir depressa para se antecipar ao assanhamento das baratas, seu Valdo simulou ter perdido o juízo. Para convencer os carcereiros da insanidade, rasgou uma nota de cinco e comeu os próprios excrementos:

— Tive que fazer essa sujeira para sair daquele lugar. Na solitária daquele tempo, a gente aprendia o limite de um ser humano.

Seu Valdo nasceu numa ladeira de terra do Pari, perto do largo Santo Antônio, neto de uma avó racista que discriminava a mãe dele, de pele negra:

— Meu pai, por ser assim de mente fraca nas influências, se largou e eu fiquei ao léo dará, com a mãe e duas irmãs pequenas.

Naquelas circunstâncias, a mãe juntou os três filhos e voltou para a casa da mãe dela na alameda Glete. A acolhida foi calorosa:

— A minha avó materna, que justamente tinha um puteiro, recebeu nós de braços abertos.

A casa dessa avó, na zona do baixo meretrício de São Paulo, era um predinho de três andares, no qual trabalhavam doze mulheres. No fundo ficava a casa deles, normal.

— Com o dinheiro que a vovó ganhou administrando o puteirinho, compramos um parque de diversões e, nisso, começamos a correr trecho.

Seu Valdo era grandão, já tinha dezesseis anos, tomava conta do estande de tiro ao alvo e vivia amigado com a Betina, ex-funcionária do predinho da alameda Glete.

Um dia, por traição do destino, o parque pegou fogo e a família voltou para uma pequena chácara da avó previdente, perto da represa de Guarapiranga, na periferia de São Paulo.

Seu Valdo foi trabalhar como desentupidor de fossa, levantou uma casinha e levou vida de trabalhador até que os acontecimentos mudaram o rumo das coisas. A mulher foi a causa de tudo, segundo ele:

— Devido que era muito ciumenta, até dos meus cachorros. Eu adoro cachorro e nem podia tratar deles direito que ela enfezava, dizia que eu punha mais atenção nos bichos do que propriamente na figura dela. Veja que absurdo, doutor, um ser humano rivalizado com um animal.

O gênio da esposa era um suplício. Ciúmes de outras mulheres, então:

— Virgem, Deus o livre!

Se ele cumprimentava uma vizinha, ela xingava de mulher da vida em diante, e cada vez que ele se atrasava, eram quatro horas de falatório, no mínimo. O gênio da esposa criava problema com maridos e irmãos das moças ofendidas. Ele só fazia apaziguar; tarefa inglória:

— Não tem jeito, doutor, mulher quando engata no ciúme é o Cão vestido de saia. De noite, o senhor quer dormir para trabalhar cedo e a peste não para. O senhor bebe uma cachaça depois do serviço, chega em casa disfarçando na hortelã, ela fareja o bafo e pronto! Já acha que estava com outra, que homem tudo não vale nada. E vai o filho de Deus provar que não!

Um dia, mudou-se para a vizinhança uma mulata assim descrita por ele:

— Maravilhosa, doutor, duas pernas torneadas por Deus e um rebolado de parar a feira.

Na rua, quando a mulata vinha de lá, seu Valdo, discretíssimo, abaixava a cabeça. O comedimento tinha justificativa:

— Para não atiçar a jaguatirica em casa.

E também, admite, para não despertar a ira do marido, afamado como baiano ciumento, criador de vários casos por causa da mulata.

Um domingo de sol, seu Valdo no portão de casa estreava o primeiro óculos escuros de sua vida, quando passou a morena requebrante. Distraído, ele nem percebeu que, atrás dele, Betina chegou na janela para bater o pano de pó:

— Para quê, doutor! A onça invocou que eu estava de olho comprido na mulher do baiano. Deu a volta sorrateira, meiga como quem vai me fazer um carinho, e foi básica: zap! Agarrou no meu membro. Veja só o desrespeito!

Num instante, Betina avaliou a dureza em questão e concluiu que seu Valdo era um ordinário sem-vergonha e não valia o feijão que ela enchia na marmita dele.

A gritaria atraiu os vizinhos. Seu Valdo não sabia onde esconder a cara. Por fim, convencido da impossibilidade de acalmar a esposa, mandou-se para o botequim, morto de vergonha dos conhecidos.

— A estrupício ainda veio atrás até a esquina falando um monte, tudo na voz esganiçada.

No bar ele encontrou o Joca, que lhe pagou um rabo de galo para acalmar e o convidou para uma partida de sinuca. Experiente no taco e com as mulheres, Joca aconselhava o companheiro quando chegou o baiano. Não tinha achado bonito o papel de seu Valdo:

— O que você aprontou com a Cida?

— Nunca nem olhei para a sua esposa, cidadão. Até peço desculpas à sua pessoa, mas o acontecido não é motivo para ofensa. Minha mulher é ciumenta possessa e sempre dá vexame. A vila inteira reconhece o feitio dela.

— Tua própria senhora disse na frente de todo mundo que você não tira os olhos da Cida quando passa. Vou te ensinar a respeitar a mulher do próximo, seu preto vagabundo!

O baiano puxou a peixeira. Joca, amigo de verdade, não gostou da ofensa e sacou o revólver:

— Ele é preto sim. E por acaso você é muito branco? Agora: vagabundo não, que ele tem carteira assinada. Se der um passo à frente, quem morre é você, baiano!

O baiano vinha cego de ciúmes ou era valente de fato. Mesmo baleado ainda tentou esfaquear seu Valdo. Só não conseguiu porque este lhe deu uma pancada na fronte, com a parte grossa do taco de bilhar.

O baiano morreu no hospital. Joca, que andava procuradíssimo pela polícia, fugiu para o Nordeste. E seu Valdo:

— Trouxa, dois dias depois se apresentei na delegacia, pobre, sem advogado, alegando legítima defesa.

Dia de visita, um mês mais tarde na Casa de Detenção, anunciaram o nome de seu Valdo para receber uma pessoa na entrada do pavilhão. Morto de ódio, diz ele, no caminho até a porta decidiu esganar a Betina, aquela mulher possessiva responsável pela desgraça que o atingira.

No portão, entretanto, não era Betina quem o aguardava:

— Era a morena, a pivô da tragédia, de vestido vermelho, olhos trêmulos e lábios rútilos. Me abriu um sorriso tão alvo, doutor, que encantou meu coração. E nesse dia abençoado começou o nosso amor, que pela vontade de Deus resiste até hoje.