Estação Carandiru
Veronique, a Japonesa
Na primeira vez que atendi os presos do Amarelo, como já contei, um pastor da Assembleia de Deus me pediu para atender um travesti com dores nas coxas.
Esse travesti insistia que a chamassem de Veronique. Teimava, batia o pé, mas para a malandragem ela era a Japonesa, referência aos olhos puxados de cabocla mato-grossense. Desde pequena brincava de boneca e vestia roupas da mãe. Na infância, o primeiro arroubo sexual foi por causa de um homem, como acontece com muitos meninos que mais tarde serão homossexuais.
Em Corumbá, quando completou onze anos, órfã de pai, começou a tomar hormônio feminino. Aos treze, debutou num motel com um senhor que só contratava menores. Um ano depois, cansada das surras do irmão, fugiu com uma amiga para Porto Velho. De lá, vieram para São Paulo, morar num cômodo da Barra Funda e fazer ponto na avenida de acesso à Cidade Universitária.
Nessa época, Veronique procurou uma “bombadeira”, que lhe deu um suco de maracujá para acalmar e injetou-lhe um litro de silicone industrial nas nádegas. Com o tempo, esse silicone, comprado em loja de material para construção, infiltrou-se entre as fibras dos músculos e provocou um processo inflamatório crônico, razão de seu sofrimento no Amarelo. A face posterior das coxas estava inchada, vermelha e tão dolorida que ela mal conseguia andar. Internei-a na enfermaria.
Lá, extrovertida, virou vedete. Confortava os aflitos, brincava e cantava na galeria; todos riam de seu jeito escandaloso:
— O ladrão precisa da gente neste lugar, doutor, é muito homem fechado, sem aquela coisa feminina para dar apoio. Eu escuto, dou conselho, faço carinho, depois eles me agradam: um maço, um docinho, uma joia.
Dois homens marcaram seu coração: um traficante ciumento na cadeia e um francês na avenida, que no início pensou que ela fosse mulher. Foi casada um ano com o bandido; com o francês, oito meses, ganhou pulseira de ouro, vestidos, dinheiro e um colar de pérolas que ela empenhou na Caixa.
— Teve também um turcão peludo, pai de três filhos, que se apaixonou e quis me matar com três tiros quando descobriu que eu estava de caso com um sargento da PM.
Veronique vivia armando confusão com os outros travestis do Cinco mas, passada a raiva, perdoava as companheiras:
— Tem muita competição entre nós, porque uma quer ser mais do que a outra.
Se uma fala que vai para a Itália, a amiga que não tem onde cair morta diz que foi convidada para desfilar no Japão. Se uma compra um frango, a amiga que não tem onde cair morta até se prostitui para mostrar que é chique e come frango também. Querem se engrandecer em tudo. Devido a isso que dá essas brigas de rolar no chão e arrancar cabelo. Depois, acalma e volta tudo na amizade, que a gente não é revoltada como esses ladrão, que matam o amigo. No fundo, a gente é unida porque uma precisa da outra para sobreviver.
Contam as más línguas que anos atrás no pavilhão Cinco, tarde da noite, a galeria inteira ouviu a ameaça de Veronique:
— É tempo de Natal. A Veronique aqui está a fim de ganhar um mimo de certos ladrão, para não contar as sem-vergonhices que eles pedem para ela fazer neles. A Verô está muito nervosa. Tem 24 horas para acalmar ela, se não quiser sujar a reputação de muito malandro!
No dia seguinte, um bisbilhoteiro ficou boquiaberto com a quantidade de presentes caros espalhada em cima da cama dela.
Realmente, discrição não era sua maior virtude, e muitos de seus problemas foram consequentes à falta desse requisito, fundamental na cadeia. Uma vez, o diretor de Vigilância dava atendimento aos presos em sua sala no Pavilhão Seis, quando Veronique entrou pela porta da frente, toda afetada:
— Ai, seu Jesus, socorro, o bicho está pegando.
Falou, cruzando a sala, e saiu pela porta lateral. Imediatamente, atrás, veio um ladrão com a faca no pescoço de um funcionário, ameaçando o diretor:
— Se fizer alguma coisa, ele morre. Quero bonde para Avaré!
Dias mais tarde seu Jesus, com humor, referia-se ao acontecido:
— Ela falou, mas não deu tempo de tomar providência nenhuma; foi uma alcaguetagem-relâmpago.
Numa das muitas confusões em que se meteu no Cinco, as companheiras de xadrez expulsaram-na da cela. Juntou seus pertences e não se fez de rogada:
— Vou embora mesmo, porque vocês são gentinha. Sem a Verô aqui para trazer uma guloseima, vão ter que chafurdar na quentinha, a seco. Eu sou chique, querida na cadeia, tenho convite para morar em qualquer pavilhão. Vocês, vão mofar no quarto andar do Cinco, suas fubás da zona leste!
De fato, passou a noite no xadrez de um malandro do Sete. O rapaz, todo gentil, cedeu-lhe a cama e dormiu a seus pés, no chão. Para quê! No dia seguinte, os faxineiros viram a cena pelo guichê e levaram o caso para o encarregado da Faxina, que expulsou o cavalheiro do pavilhão:
— Onde já se viu, ladrão de respeito pôr a bicha na cama e dormir no chão! Agora inverteu tudo?
A maior ousadia de Veronique, entretanto, foi enganar o diretor de Disciplina, homem que começou a vida profissional décadas atrás abrindo e fechando porta no pavilhão Nove. Correu um boato de que havia um revólver no Oito. Conversa de arma de fogo na cadeia é sempre levada a sério, porque se for verdade, coloca a vida de todos em risco. O diretor de Disciplina trancou o pavilhão e mandou revistar de cela em cela — “operação pente-fino”. Nada! Colocou em campo a rede de informantes e aguardou, impaciente.
No outro dia, Veronique apareceu na sala dele, misteriosa feito gata:
— Seu Lopes, conheço um certo ladrão que entrega o dono do cano para o senhor em troca de um bonde para a Penitenciária. Só que tem o seguinte, ele só dá o mi depois que for transferido; tem medo de morrer se falar antes.
Aceita a proposta pelo diretor, Veronique voltou acompanhada do pretenso delator, um moreninho de cabelo ondulado, com uma pinta saliente na ponta do queixo. Ela se aproximou da mesa; ele, arisco, parou na soleira da porta:
— Seu Lopes, conta aqui para o bofe se não é verdade que se ele entregar, o senhor dá o bonde dele para a Penitenciária.
— É verdade, pode confiar; ela já falou comigo.
— Viu, medrosão, não te disse?
Seu Lopes prometeu e cumpriu. Terça-feira transferiu o bofe e avisou os colegas da Penitenciária para transmitir-lhe a informação, assim que o rapaz falasse. Quarta e quinta-feira, e nenhum telefonema. Na sexta, o diretor de Disciplina acordou irritado e foi direto para a Penitenciária cobrar a promessa:
— Qual é meu, está querendo me dar chapéu? Eu te transfiro, e você, nada?
— Como nada, seu Lopes, mandei os 200 reais do senhor pela Veronique.
Mais tarde, seu Lopes comentaria que a vida inteira é pouco para conhecer uma cadeia. Na hora, porém, enfezou-se, levou o falso alcagueta de volta para a Detenção e, no intuito de evitar vingança, transferiu Veronique para o Amarelo, onde fui encontrá-la naquela noite, chorando de dor nas coxas inflamadas.
NEGO-PRETO
Cheguei no ambulatório e o Arnaldo não estava. Sem ele, o atendimento ficava complicado por causa da burocracia com as fichas médicas e a liberação de medicamentos. Perguntei por ele:
— Está resolvendo um probleminha na enfermaria e já volta.
Arnaldo demorou e eu resolvi procurá-lo. Encontrei-o no corredor discutindo com um grupo de doentes. Conversa tensa; acusavam-no de não entregar a medicação prescrita. Um preso com o corpo queimado voltou-se para mim:
— Desculpa, doutor, estamos resolvendo um problema com o companheiro aqui que está dando mancada.
Para acalmar os ânimos eu disse que o Arnaldo trabalhava há três meses na enfermaria e que eu não tinha queixas dele. Um rapaz franzino, dos mais exaltados na roda, respondeu:
— É por isso que ele está tendo a oportunidade de se defender. Porque já tinha mano dizendo que amanhã, quando ele fosse entregar os remédios no fundo da galeria, o caminho seria sem volta.
Nesse momento, veio pela galeria um rapaz escuro e parou a um metro da rodinha. Sua aproximação foi precedida pelo silêncio dos outros:
— Não acredito que vocês estão debatendo um problema desses na presença do médico. Onde nós estamos?
A interferência dele acabou com a discussão. Um a um, os debatedores se dispersaram.
No final do ambulatório mandei chamar o rapaz que acabou com a briga. Nego-Preto a seu dispor, disse ele. Pedi-lhe que interviesse para evitar violência contra o Arnaldo. Respondeu que eu podia ficar tranquilo, a situação já estava resolvida.
Depois disso, sempre aparecia para conversar, contava casos da cadeia e falava das preocupações com a família, principalmente com o filho mais velho, adolescente sem juízo, que não obedecia à mãe.
O passado de Nego-Preto era semelhante ao dos outros, a infância nas ruas de terra da periferia, muitos irmãos e más companhias. Na década de 70, o pai esteve preso por nove anos na Detenção, e quando saiu não era o mesmo:
— Devido que ficou transtornado.
A prisão de Nego-Preto ocorreu após uma sucessão de acontecimentos a partir de um assalto a uma joalheria da Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo:
— Combinamos de se encontrar os três na esquina do assalto. Nove horas, saí da favela e fui catar um carro com o revólver. O Marlon, meu vizinho de barraco, passou na casa do Escovão.
Quando entraram foi rápido. Os balconistas entregaram tudo o que reluzia e mais o dinheiro do cofre. Os três saíram sem correr, dobraram a esquina, pegaram o carro roubado e fugiram na direção de Santana. De lá, para o Parque Edu Chaves. Largaram o Opala na Fernão Dias e entraram pela favela com o produto do roubo.
No barraco, mal começou a partilha, Nego-Preto teve uma surpresa desagradável:
— Nesse intuito, que eu estou de cabisbaixo, olho de esguelha e, quem diria, ó, o Escovão está com a mão no revólver do cinto! Só que estava meio desesperado, olhando para a direita e para a esquerda, onde que eu se aproveitei deste pequeno descuido e sapequei ele. Questão de sobrevivência, se não sapeco, sapecado seria eu.
Foram três tiros. Escovão não teve tempo para revidar; do jeito que estava, ficou. Imediatamente, Nego-Preto voltou a arma para o peito de Marlon:
— Ele podia estar de piolhagem com o Escovão ou, então, tomar a liberdade de discordar da minha atitude.
Nem uma, nem outra; Marlon permaneceu estático, com os olhos assustados. Então, Nego-Preto quis saber:
— Por que você ficou quietinho enquanto eu dei os tiros nele?
— Porque ele já tinha me ligado, que ia te matar para dividir a parte de você.
A resposta deixou Nego-Preto perplexo:
— Pô, você sabia que o cara ia apertar eu e ficar com todo esses baratos aí, sendo que nós três estamos igual na fita e se um vai para a cadeia os outros dois vão junto! Você podia ter evitado este acontecimento lastimável, ter dialogado com ele para ele não tomar uma atitude feia dessas.
Nego-Preto diz que só escapou com vida por ser homem sistemático:
— Em hora de partilha eu não mosco. É olho por olho e dente por dente, que amigo é amigo, e dinheiro é a maldição do Cão.
Marlon justificou-se dizendo que Escovão vinha de vários homicídios e poderia matá-lo caso fosse denunciado. Nego-Preto não aceitou a justificativa:
— Pô, parceiro, podia ser temido, o que fosse, meu; não matou nós. Se você dá um alô, ninguém ia morrer, porque nós ia debater. Esse negócio de dar tiro nos amigos não é do meu feitio.
Diante da argumentação, Marlon fez uma autocrítica:
— Pô, Nego-Preto, nisso daí eu fui um pouco meio frágil.
— Então deixa passar despercebido; traição por crocodilagem é a coisa mais feia, é um Judas quem age assim, é pessoa que cuspiu na cara de Jesus!
Carregaram o corpo até um riacho e o caso foi mantido em segredo:
— Na favela, as pessoas têm olhos mas não veem, os ouvidos são surdos e ninguém fala.
Alguns dias depois, o corpo apareceu no rio Tietê:
— Bem inchadão, doutor, feio, todo decomposto.
Movido por razões de foro íntimo, Nego-Preto foi ao enterro:
— Devido que nós ter sido criado perto, se eu não fosse ia dar na percepção que eu seria culpado dos acontecimentos.
Com o objetivo de afastar suspeita, passou o velório inteiro do lado do corpo. Encostado no caixão, conta que as lembranças voltavam como num filme:
— Pô, parceiro, você deu mancada, meu. Coisa mais desagradável, querer ficar com tudo! Não devia de ter feito isso! Ainda mais que nós era da mesma infância, empinava pipa e roubava goiaba na casa da velha. Viu no que deu o egoísmo? Acabou sem nada; da terra, só levarás esse terço branco enrolado na mão.
Meses depois, Marlon roubou um sobrado, em Pinheiros. Deu azar, a casa era de um investigador de polícia. Foi preso e pendurado de cabeça para baixo para contar onde estavam os objetos roubados, a esta altura já vendidos:
— Numa boca de fumo na favela da Mimosa, perto da Fernão Dias, para um elemento que atendia pelo vulgo de Bom Cabelo.
Para sair do pau de arara sem entregar Bom Cabelo que pertencia a um grupo fortemente armado, Marlon preferiu dar o nome do autor da morte de Escovão.
Nego-Preto foi parar no DEIC, onde encontrou o amigo delator:
— Marlon, você me deu no assalto também, meu?
— Não, no assalto não, Negão.
O emprego do aumentativo irritou Nego-Preto:
— Negão é papagaio de carvoeiro. Você sabe que eu não gosto que me tratem assim.
Marlon explicou que não disse por mal, e o outro continuou:
— Pô, mano, mas você vai me dar logo no homicídio? Era melhor ter me dado num dos assaltos.
— Eu te dei no homicídio porque os irmãos do Escovão estavam pensando que era eu que tinha matado ele. De fato, nós saímos juntos da casa dele para o assalto. Foi quando que eu apareci de volta e ele retornou finado.
Nego-Preto mais uma vez foi magnânimo:
— Pô, meu, estou desconsolado! Podia te envolver no homicídio, mas não é meu feitio. Já que você me deu, vou confirmar teu depoimento: que matei ele sozinho, joguei no rio e você está limpo.
Na verdade, a benevolência também atendeu a interesses menos altruísticos; se contasse tudo à polícia, iria responder ainda pelo roubo do carro e o assalto à joalheria. Além disso, tirar Marlon do processo poderia trazer vantagens futuras:
— Tenho a cópia de tudo, onde consta que ele me entregou, mas eu não delatei ele. Se um dia ele cruzar o meu caminho na cadeia querendo levar uma, vai ser a minha vez de falar: você é que vai levar uma, porque está em dívida comigo!
Mesmo assim, Nego-Preto diz que não costuma vingar-se dessa forma, por causa de seus princípios:
— Eu não uso dessas artimanhas, para não denegrir a imagem do sentenciado, onde que vou ver ele ser espancado, ser tomado, roubado e escurrado. Este não é o meu ser. O meu feitio é ter olho e não enxergar, ter boca e calar.
O juiz não acreditou na história de que ele matou o comparsa em legítima defesa. Condenou-o também por ocultação de cadáver e, como agravante, julgou frieza criminosa sua atitude de comparecer ao enterro e postar-se pensativo diante do caixão. Pegou dezenove anos e seis meses.
Uma tarde, quando cruzei o pátio do pavilhão, ele conversava sério com um rapaz novinho, de pele mais clara do que a dele. Era o filho mais velho, que acabava de chegar à Detenção, condenado a três anos e dois meses por assalto a mão armada.
OLHO POR OLHO
Charuto entrou com o dedo enterrado numa cebola cozida. A mão esquerda amparava a outra; nesta, os dedos estavam dobrados, com exceção do indicador, esticado, a metade distal introduzida num túnel aberto na cebola quente, de sair fumaça.
Sentou-se à minha frente, com cara de dor, e desembainhou o dedo ofendido. Estava bem inchado; na última falange, logo abaixo da linha de inserção da unha, havia dois cortes profundos, transversais, simétricos em relação à linha média, no meio de um hematoma pulsátil.
— Mordida de rato?
— É, doutor, atingiu o osso.
Ratos de várias raças infestavam o presídio. No escuro, circulavam nas galerias, corredores e interior das celas. Na Cozinha Geral, após a distribuição da janta, mal os faxinas acabavam de enxugar o chão esburacado, o exército murino invadia o território e saqueava a despensa. Ao clarear o dia, inimigos da luz, escondiam-se nos esgotos até cair outra noite, inexpugnáveis.
— Foi meia hora atrás.
— Mordida de rato de dia?
— Estava trabalhando, ó, doutor, desentupindo aquele esgoto que entope no pavilhão Dois, quando aconteceu o acidente.
Charuto tirou a tampa de ferro que cobre a abertura do esgoto que sempre entope, em frente à fachada do Dois. O buraco estava até a boca de tranqueira e comida velha boiando. Desceu naquela água imunda, até os joelhos, e começou a tirá-la com um balde. Quando a manilha grossa apareceu, Charuto enfiou a mão pela lateral, para retirar um saco plástico que atrapalhava o desentupimento. Nesse momento sentiu uma dor lancinante, assim descrita:
— Pegou horrível na ponta do dedo, fina, ardida, e espalhou como um choque pelo braço; deu até amargor na boca.
Puxou a mão, no reflexo; veio junto o rato pendurado no dedo indicador, mordendo fixo. Era preto, enorme:
— Pensei até que fosse um cachorrinho desses de madame.
No desespero, a mão desenhou um círculo no ar e bateu o rato contra o cimento, mas a pega estava tão firme que não soltou. Infernizado com a dor que até choque dava, o rato travado no osso, Charuto levantou o braço o mais alto que pode e despencou o animal no chão; com toda força.
— Só aí, com perdão da palavra, foi que o desgraçado largou. Ficou esperneando as patinhas para cima.
— Morreu?
— Que nada, doutor, o bicho é o demônio!
Foi então que Charuto, cego de ódio, agarrou o inimigo com as duas mãos, segurou-lhe a boca para não levar outra mordida e vingou-se:
— Cravei os dentes na mente do infeliz. Mordi duro, até ele parar de debater. Depois escovei os dentes, e já era.