Estação Carandiru

Drauzio Varella · Capítulo 7 de 28

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Estação Carandiru

Pavilhão cinco

É o que está em pior estado de conservação. Fica do lado oposto ao Quatro, vizinho do Dois. Tem escadas com degraus desbeiçados, fiação elétrica por fora das paredes infiltradas pelos vazamentos, água empoçada e lâmpadas queimadas na galeria. Nas janelas, a malandragem hasteia mastros para secar a roupa. Clima de cortiço.

É o pavilhão mais abarrotado da cadeia. Movimento intenso nos corredores. Há momentos em que não se consegue alojar um preso a mais sequer. Moram ali 1600 homens, o triplo do que o bom-senso recomendaria para uma cadeia inteira. Para tomar conta deles, a Detenção escala de oito a dez funcionários durante o dia e cinco ou seis à noite, às vezes menos.

No primeiro andar, além da Carceragem, da enfermaria e da sala de aula com uma biblioteca pobrezinha, fica a Isolada, um conjunto de vinte celas que guardam de quatro a dez homens espremidos em cada uma. São detentos pegos em contravenções locais, como porte de arma, pinga, tráfico, desrespeito aos funcionários ou plano de fuga. Cumprem trinta dias nesse lugar abafado, escuro, com a janela coberta por uma chapa perfurada igual à da Masmorra. Tranca dura, permanente. Os trinta dias sem sol.

Seu Lupércio, com mais de oitenta anos e dezenas de entradas e saídas na Casa por fumar e vender maconha, diz que isso não é nada:

— Antigamente trancava tantos numa cela, que precisava fazer rodízio para dormir. Metade ficava em pé, quietinho para não acordar os outros. Na troca de turno é que aproveitava para urinar. Precisava comer pouco, porque não podia evacuar o intestino no xadrez. Só quarta e sábado, quando destrancava por uma hora para o banho e as necessidades. Castigo durava noventa dias, não era essa moleza de trinta como agora.

No segundo andar moram os presos integrantes da Faxina, encarregados da limpeza geral e da distribuição das refeições, além dos que trabalham nos patronatos, no judiciário e na entrega das sacolas de alimentos trazidas durante a semana, para quem tem a felicidade de contar com família.

O terceiro andar é conhecido como o dos estupradores e justiceiros, também chamados de “pés de pato”, embora nem todos os seus ocupantes pertençam a essas categorias. A experiência recomenda colocar os estupradores junto com os justiceiros, para que os dois grupos se protejam em caso de vingança da massa carcerária, que não perdoa o estupro e odeia caçadores de ladrões.

No quarto andar moram os que não conseguiram lugar melhor, outros que foram expulsos dos pavilhões devido a mau procedimento ou derrota em disputas pessoais, além de mais estupradores e justiceiros. Nesse andar, porém, o que chama a atenção do visitante é a presença dos travestis, com as maçãs do rosto infladas de silicone, calças agarradas e andar rebolado. Durante o dia, alguns fazem ponto na porta das celas.

No último andar, à direita, fica a ala da Assembleia de Deus, o grupo evangélico de presença mais forte na Casa. São inconfundíveis: jamais calçam tênis, sempre de sapato, camisa de manga comprida abotoada no colarinho e a Bíblia preta desbotada. Moram na ala mais de quinhentas pessoas que rezam dia e noite sob a supervisão de um enérgico pastor-chefe e seus auxiliares. É uma igreja e um centro de recuperação ao mesmo tempo.

Vizinho dos crentes, à esquerda, ainda no quinto andar, fica o Amarelo, um conjunto de segurança fechado 24 horas por dia. Vão para lá os que estão ameaçados de morte e alguns infelizes que, simplesmente, não têm onde morar. Vivem no Amarelo de quinhentos a seiscentos presos, quase 10% da população da Casa, pelo menos seis ou sete em cada xadrez de três metros por dois de largura.

O Cinco é o pavilhão dos sem-família, dos sem-teto e dos “humildes”. Embora homens respeitados cumpram pena nas suas dependências, no conceito da malandragem é o pavilhão da ralé. Vi ladrão barbado chorar feito criança ao ser transferido para lá.

Como na população local misturam-se justiceiros, estupradores, delatores e presos que estão em dívida com outros, os habitantes do Cinco, conscientes do perigo que correm, precisam estar preparados para se defender. Podem passar anos em paz, mas um dia a cadeia vira e eles acabam na ponta de uma faca. Como diz a malandragem:

— Aqui, quem tem mancada no Crime vive em sobressalto.

Por isso o Cinco, além de tradicional produtor de “maria-louca”, a pinga destilada clandestinamente, é considerado o pavilhão mais armado:

— O Cinco é a fábrica de faca da cadeia.