Estação Carandiru
Margô Suely
Margô passou três meses no distrito, numa cela com 32 homens, e ninguém abusou dela. Apesar da sainha agarrada, do bustiê e do silicone nas coxas, o maior respeito. Quando veio transferida para o Carandiru, conheceu um ladrão e se apaixonou. Ele foi franco com ela:
— Se quiser ser minha, é o seguinte: só minha, entendeu? Te ponho num barraco, dou conforto, mas não vai tirar eu, não. Manter mulher de cadeia custa o olho da cara. Tirou eu, já era.
O xadrez da Margô tinha um beliche, cortina bege e um tapete de talagarça com dois cisnes e uma casinha, para não pisar na friagem. Entrando, dava-se de cara com o come-quieto, um lençol azul pendurado logo atrás da porta, para assegurar a privacidade. Na janela do fundo, uma cortininha xadrez. Recortes de artistas inundavam as paredes. Sob a janela, um armário tosco servia de mesa para o fogareiro. Sobre ele, o bule de café com o bico coberto por uma galinha de crochê. Ao lado, a TV com bombril na antena.
Cigarro, guloseimas, o baseado da tardinha, a pílula para os seios e o respeito da malandragem, por conta do ladrão. Da parte dela, apenas a fidelidade total. Sair no corredor, nem pensar, seu lugar era a cela, porta fechada, come-quieto cerrado e cortina xadrez puxada para evitar galinhagem e derramamento de sangue. De vez em quando, um solzinho podia, porém nunca desacompanhada; três seguranças do ladrão desciam com ela.
Na parte de cima do beliche morava a Zizi, travesti mais velha, de rosto assimétrico devido ao deslizamento do silicone injetado na região malar. Era a doméstica, cuidava da cozinha, limpeza, lavar e passar. Nas visitas do ladrão, discreta, recolhia-se.
Margô se apaixonou porque no começo ele foi bom para ela, protetor, exigente, não deixava faltar nada. Quanto a ela, passava os dias na TV, com as revistas femininas e o esmalte de unha. As outras morriam de inveja. Um domingo de visita (não para elas, havia muito distantes da família), com sangue nos olhos, o ladrão invadiu o barraco:
— Você vai aprender a calar essa filha da puta da tua boca!
E, antes que ela entendesse, acertou-lhe um murro no queixo com tamanha força que Margô, em pé ao lado do beliche, perdeu o equilíbrio, bateu a cabeça no armário e com o cotovelo derrubou o bule do chá de erva-doce para acalmar o nervoso da Zizi. Isso porque a mulher do ladrão, mãe dos três filhos dele, na visita, disse que já sabia de tudo e que só voltaria quando ele largasse daquele degenerado!
O incidente estremeceu o relacionamento de Margô com o ladrão. As coisas nunca mais foram como antes. A crise atingiu o auge quando ela teve uma ferida íntima, dolorosa e úmida. O ladrão não se conformou:
— Sem sexo, acabou o luxo, minha filha!
Dito isso, cortou batom, pílula, baseado, reforço na despensa e, o pior para ela e a Zizi, até o cigarro.
Quando a ferida arruinou, Margô Suely veio para a enfermaria. Passou um tempo com a gente. No primeiro dia, o ladrão apareceu e foi compreensivo; depois, nunca mais, apesar dos sucessivos recados que ela mandava.
No final de uma tarde de inverno, melhorzinha, Margô recebeu alta e voltou para o pavilhão Cinco. Chegou na hora da contagem. Enfraquecida, subiu a escada com dificuldade. Na galeria do quarto andar, numa fileira de oito lâmpadas apenas duas teimavam acesas. Margô, mal agasalhada, seguiu até o fundo, virou à direita e deu de cara com um funcionário:
— Aonde pensa que vai?
— Estou chegando da enfermaria. Já falei com o seu Valdir lá embaixo, ele disse que podia subir.
— Qual é o teu xadrez?
— 417-E.
— Vai indo, ainda não tranquei.
De fato, a porta estava encostada; havia luz, som de TV e cheiro de alho frito. De dentro vinha o quentinho do fogareiro, sobre o qual se debruçava a Zizi, entretida na fritura.
— Zizi, olha eu de volta!
A outra virou-se assustada, a colher borrifando óleo quente na parede, os olhos esbugalhados, desiguais.
Margô então percebeu que havia outra personagem na cena. Na cama, vestindo as meias de lã que eram suas, estava deitada Leidi Dai, aquela putinha polaca cinco anos mais nova, por quem a malandragem, idiota, suspirava.
Chocada com a ousadia da intrusa, Margô ordenou:
— Tira a minha meia já e sai da minha cama, sua vaca!
— Que é isso? Casei com o teu ex-marido. Estou naonde que me pertence, bofe velha.
Margô, humilhada, virou-se para Zizi ainda petrificada com a colher:
— Zizi, cadela traidora! Vou matar vocês duas!
Atirou-se nos cabelos de Leidi Dai e bateu-lhe a cabeça contra a parede; diversas vezes.
A gritaria foi infernal. Bisbilhoteiros enfiaram a cabeça através dos guichês de suas celas. Zizi aproveitou a bagunça e correu para o xadrez do ladrão, excitadíssima:
— Saí de lá, a Margô Suely estava dando com a cabeça da Leidi na parede, com toda a força. Que horror, precisa ver o sangue! Você tem que fazer alguma coisa!
— Eu, fazer? Fazer o quê? Me meter em briga de mulher?
SEU CHICO
Seu Chico matou o cunhado, tipo à toa; matou um outro, que ganhou consideração na quadrilha com o objetivo precípuo de alcaguetar todos; e um terceiro que ele nem conta:
— Não merecia viver, doutor.
As mortes não lhe trazem remorsos:
— Se valessem arrependimento, não tinham morrido.
Seu Chico é pai de duas mocinhas e um filho que deve estar grande. Foi abandonado pela mulher, ingrata, filha de família que não presta, responsável pela entrada dele no mundo do crime, segundo sua opinião. Cumpre quinze anos de uma pena de 44. Sofre saudades dos filhos mas se conforma, acha até bom não virem para não frequentar o ambiente da cadeia.
O corpo não aparenta cinquenta anos:
— O homem preso precisa fazer exercício, para não perder a dignidade.
Desde que o prenderam, a mulher interceptou-lhe a correspondência com as crianças, como vingança pela morte do irmão. Para os filhos, disse que o pai morreu na penitenciária.
Parado de braços cruzados, cabeça raspada, caveira tatuada no antebraço direito apoiada em dois punhais, o peso do corpo uniformemente distribuído sobre os pés paralelos, sua postura denuncia o passado na marinha mercante. Época de trabalho duro na casa das máquinas, portos distantes, brigas de faca e mulheres inesquecíveis.
Na coletividade das galerias, do empedernido piolho de cadeia ao mais reles ladrão, seu nome é pronunciado com entonação respeitosa:
— Foi seu Chico que falou... Se essa fita parar no conhecimento do seu Chico, vai ser problema.
Quando seu Chico é consultado, o ladrão chega e aguarda o convite para a aproximação enquanto ele termina o que está fazendo, seja o que for. Num dado instante, dirige o olhar ao recém-chegado: é a senha.
Quem fala, gesticula, é sempre o ladrão; ele se mantém calado, o olhar perdido num ponto distante ou entretido num pequeno afazer. Depois, volta-se para o interlocutor, diz algumas frases na baixa intensidade sonora das conversas sérias entre homens presos e perde o olhar na direção inicial. Está encerrado o papo.
COZINHA GERAL
Zelão, Flavinho e Capote comandavam a Cozinha Geral com mão de ferro. Eram três marginais de dar medo, não tanto pela enorme folha corrida, mas pelo ar de revolta que estampavam no rosto. Estavam presos havia pelo menos dez anos e condenados a mais de trinta cada um.
Entre eles, falavam apenas o essencial. As palavras eram inúteis, substituídas pela agilidade dos olhares que trocavam nos momentos de decisão. Compartilhavam o mesmo xadrez e confessavam-se dispostos a entregar a vida para defender a dos outros dois, caso as circunstâncias exigissem. Ninguém ousava desafiá-los no comando dos setenta e poucos cozinheiros.
Todo o material da Cozinha ficava sob a responsabilidade dos três. Um dia, antes do almoço, desapareceu um facão de cortar carne. Procuraram, e nada. Às duas da tarde, Capote proferiu o ultimato:
— A partir das cinco horas, vai morrer um cozinheiro por dia até o facão aparecer!
Quinze minutos depois, misteriosamente, o facão despencou de uma janela do pavilhão Nove e retornou ao devido lugar.
A Cozinha talvez fosse dos mais vivos exemplos de deterioração do velho presídio. Era um grande salão com goteiras, no térreo do pavilhão Seis, cheio de água empoçada nas lacunas entre os azulejos azuis que, em petição de miséria, remendavam o piso impossível de enxugar. À direita da entrada e na parede oposta a ela, alinhavam-se oito panelas de pressão, com capacidade para duzentos litros cada. Os exaustores encaixados acima das janelas tinham parado de funcionar havia anos, de modo que em franca operação as panelas descarregavam todo o vapor no ambiente interno.
Nas horas que precediam as refeições, a fumaça era tanta que a Cozinha parecia o inferno de Dante. Mal se conseguia discernir a figura dos homens que circulavam de botas de borracha e o cabelo coberto por um pano que lhes caía sobre os ombros, à moda dos soldados da Legião Estrangeira nos filmes. A fumaça era tão densa que, por segurança, aqueles que se deslocavam com faca na mão, precisavam fazê-lo com a superfície de corte voltada para dentro e a ponta para baixo.
Os panelões achavam-se assentados sobre uma sapata de cimento construída para deixá-los num plano superior ao rés do chão. Esse amplo degrau em forma de L estava revestido pelos mesmos azulejos encardidos. No desnível entre o degrau e o resto do piso existia um sulco profundo por onde corria, a céu aberto, um riacho caudaloso que recolhia a água desprezada e a conduzia direto para a abertura do esgoto junto à porta de entrada.
Nos cantos do salão, encostados às colunas, estacionavam os carros de madeira com arcabouço metálico e os tachos usados no transporte da alimentação servida de cela em cela. Arroz e feijão eram despejados diretamente dos sacos nas panelas de pressão e serviam de base para a mistura de pedaços de carne com batata e cenoura cozida, junto com a farinha acrescentada para dar consistência ao prato.
Cozinha é ponto nevrálgico em qualquer presídio. O diretor de Disciplina diz que num lugar superpovoado como a Detenção, pior ainda:
— Se faltar comida, isso aqui explode em menos de 24 horas.
Para evitar tragédias a direção entregava o comando da Cozinha aos próprios detentos, um dos muitos exemplos de autogestão para compensar a falta crônica de funcionários.
As sucessivas administrações nunca foram ingênuas a ponto de imaginar que esse sistema evitaria o desvio de mantimentos da despensa para o mercado negro, com a inestimável colaboração de alguns funcionários, pois isso ocorre em todas as prisões do mundo. O que a direção pretendeu ao atribuir a responsabilidade de chefia aos próprios detentos foi criar um mecanismo de controle sobre a quantidade desviada, de modo a evitar roubos que comprometessem o abastecimento.
Por isso, os encarregados de impor ordem ao ambiente e guardar as facas de corte não podiam ser pessoas quaisquer; deviam ser homens temidos, respeitados pela massa, como Zelão, Flavinho e Capote, caso contrário a despensa seria pilhada pelos mais audaciosos.
Zelão praticou mais de duzentos assaltos e matou dois ex-companheiros de quadrilha; é magro, cabelo curto por igual, cordial no trato e tem fama de violento na reação. Flavinho, bandido da zona sul, chegou aos dezoito anos com três mortes e um respeitável currículo de fugas da Febem; baixo e magro, sua figura não inspira respeito, a menos que, contrariado, seus olhos negros fixem os do interlocutor. O terceiro, Capote, que adquiriu fama e perdeu os dentes da frente por resistir a sucessivos interrogatórios policiais sem delatar os companheiros, jura que amadureceu na cadeia e tem remorso de haver roubado gente humilde. Quando sair, pretende se regenerar; promete que só encostará o revólver na cabeça de políticos corruptos. Seu maior desejo é um dia assaltar dois ex-governadores de São Paulo.
Como a marcenaria do pavilhão Seis funcionava no mesmo andar do velho cinema onde fazíamos as palestras sobre AIDS, à distância diversas vezes observei Zelão, Flavinho ou Capote conversando com o marceneiro-chefe, seu Chico, o velho marinheiro que matou o cunhado e os outros dois que não mereciam viver. A dinâmica dessas conversas secretas respeitava o ritual descrito nas consultas que a malandragem fazia ao ex-marinheiro: os encarregados da cozinha aguardavam de seu Chico a permissão para se aproximar, falavam em voz baixa, ouviam seus conselhos e retiravam-se. Estava claro que, da marcenaria, seu Chico comandava a Cozinha Geral.
Em 1995, a direção da Casa desativou a Cozinha e contratou uma empresa para fornecer refeições. Estava inaugurada a época da quentinha. Segundo a malandragem:
— Duro de encarar, doutor.
REENCONTRO
Numa tarde chuvosa, tocou o telefone na Carceragem do Oito. Um funcionário atendeu e trouxe o recado em voz baixa para o seu Pires, o diretor do pavilhão:
— Telefone para o seu Chico, é voz de moça.
Como o regulamento proíbe ligações externas para detentos, o diretor foi ver quem era:
— Quem quer falar com o seu Chico? Aqui não pode atender telefonema de fora!
Do outro lado, ouviu uma voz tímida:
— Meu senhor, me desculpa, eu tenho vinte anos, uma irmã de dezoito e meu irmão, dezessete. Somos filhos do seu Chico. A última vez que vi meu pai eu tinha cinco anos, e meu irmão era tão pequeno que nem lembra o rosto dele. A gente pensava que ele tinha morrido. Quando eu soube que não, reuni com os irmãos e o pastor da igreja sem minha mãe saber, e decidimos procurar o pai. Foi muito difícil falar aí, mas hoje consegui explicar direitinho para a telefonista, que ficou com dó da gente e permitiu.
A voz vinha embargada de medo. O chefe mandou chamar seu Chico.
Seu Chico entrou ressabiado na Carceragem. Deu uma olhada geral; tudo parecia na rotina, os funcionários e alguns presos dedicados ao trabalho burocrático; seu Pires, de cabelos grisalhos e um lápis atrás da orelha, lia um relatório na escrivaninha.
De frente para a janela, de costas para os outros, seu Chico disse alô e ficou mudo, por muito tempo. De onde estava, seu Pires percebeu as lágrimas nos olhos do prisioneiro.
Por vários dias o diretor do pavilhão observou o comportamento solitário do outro. Sem entender, os ladrões mantinham respeitosa distância do líder entristecido. Dias depois seu Chico o procurou em tom grave:
— Seu Pires, quero pedir um favor que faço questão de jamais esquecer.
Contou o drama daqueles anos todos, a vingança da mulher por causa da morte do irmão, as cartas devolvidas, morto para os filhos, e a conversa com a mais velha.
— Queria que o senhor me autorizasse a encontrar com eles lá fora, no coreto da Divineia. Não quero meus filhos dentro de uma cadeia.
— Assim o senhor me complica. Imagina se os outros 7 mil me pedem a mesma coisa. Em todo caso, como é uma situação especial, depois de tantos anos, vou abrir uma exceção, mas o senhor não pode ficar mais do que vinte minutos.
Na tarde marcada, seu Chico dirigiu-se ao coreto com dois detentos carregando um tapete vermelho, um vaso de flores, dois litros de guaraná, bolachas, pastéis e uma mesinha com toalha xadrez.
Tudo arrumado no coreto, o ex-marinheiro, com camisa de manga comprida para esconder a tatuagem, parou com os braços cruzados sobre o peito forte e esperou.
Passaram-se duas horas e as crianças não chegaram. Quando seu Pires decidiu, enfim, recolhê-lo, encontrou-o sentado, cotovelos apoiados nas coxas e a cabeça afundada nas mãos. Os dois homens voltaram ao pavilhão sem trocar palavra.
Na semana seguinte, no mesmo horário, novamente a telefonista: os filhos de seu Chico aguardavam na portaria. Tantos anos no presídio não impediram que seu Pires se emocionasse. Foi ele mesmo dar a notícia na marcenaria. Encontrou o prisioneiro serrando um banco, a serra cantando de ensurdecer. Desligou-a da tomada:
— Seu Chico, se arruma para ver seus filhos.
Quando os olhos incrédulos do detento fitaram os dele, descobriram um homem terno que seu Chico não conhecia. Por sua vez, os do diretor captaram no rosto anguloso do ex-marinheiro o olhar da criança que pegou um balão caído do céu.
Encontraram-se no coreto adornado às pressas com o tapete vermelho, a mesa, o lanche e o vaso de flores retiradas do altar de Nossa Senhora Aparecida, na capela do pavilhão. As duas mocinhas tinham tranças e vestidos compridos; o menino, terno azul, gravata e uma Bíblia. Abraçaram-se e choraram, os quatro, demoradamente. Repetidas vezes.
Trinta minutos depois, o encarregado da Divineia aproximou-se para levar seu Chico de volta para o pavilhão. Não teve coragem de interromper o encontro familiar e retornou da escadinha do coreto. O mesmo fez seu Pires, duas horas mais tarde.
Meses depois do reencontro, numa Revista incerta, os carcereiros encontraram no xadrez de seu Chico um arsenal de facas, entre elas uma enorme foice improvisada. A malandragem mais jovem nunca entendeu por que ele não escondia as armas em outro lugar:
— O velho era sistemático, não adotava o método moderno, tinha que ser do jeito próprio que ele estava acostumado.
Como punição seu Chico foi transferido para o interior. No mesmo movimento, Zelão e Flavinho foram para a Penitenciária do Estado. Nunca mais os vi, mas continuei recebendo notícias de seu Chico através do Capote, que continua na Casa esperando cantar a liberdade para se regenerar e, finalmente, assaltar os ex-governadores.