Estação Carandiru

Drauzio Varella · Capítulo 3 de 28

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Estação Carandiru

O casarão

 

A Detenção é um presídio velho e malconservado. Os pavilhões são prédios cinzentos de cinco andares (contado o térreo como primeiro), quadrados, com um pátio interno, central, e a área externa com a quadra e o campinho de futebol.

As celas ficam de ambos os lados de um corredor — universalmente chamado de “galeria” — que faz a volta completa no andar, de modo que as de dentro, lado I, têm janelas que dão para o pátio interno e as outras para a face externa do prédio, lado E.

Paredes altas separam os pavilhões, e um caminho asfaltado, amplo, conhecido como “Radial”, por analogia à movimentada avenida da zona leste da cidade, faz a ligação entre eles.

O portão de entrada dos pavilhões é guardado por um funcionário sem armas nem uniforme. Para diferenciá-los dos presos, os carcereiros vestem calça escura ou jeans. É proibido entrar no presídio com armas, exceção feita ao temido pelotão de Choque da PM, nos dias de revista geral.

As celas são abertas pela manhã e trancadas no final da tarde. Durante o dia, os presos movimentam-se com liberdade pelo pátio e pelos corredores. Cerca de mil detentos possuem cartões de trânsito para circular entre os pavilhões. São faxineiros, carregadores, carteiros, estafetas, burocratas, gente que conta com a confiança da administração, além daqueles que os conseguem por meios ilícitos. Para os funcionários, esse passa-passa torna a cadeia incontrolável, e, se cada pavilhão pudesse ser isolado como unidade autônoma, ficaria mais fácil vigiar.

Por segurança, a entrada do pavilhão é gradeada em forma de uma gaiola constituída pela porta externa e pelas internas, que bloqueiam o acesso à escada e à galeria do térreo. O mesmo sistema de gaiolas repete-se na entrada de todos os andares. Com as gaiolas trancadas, quem vem pela galeria é obrigado a abrir duas portas para ter acesso à escada do andar e, ao atingir o térreo, outras duas, na gaiola de baixo, para sair do pavilhão. Não há portas elétricas como nos filmes: o abre e fecha é no braço.

No folclore do Casarão há muitas menções às “ruas Dez”, palcos tradicionais de disputas violentas. Na verdade, rua Dez nada mais é do que o trecho da galeria oposto à gaiola de entrada do andar, do outro lado do quadrado, longe da visão dos guardas, que, para atingi-la, são obrigados a percorrer as galerias laterais, onde ficam expostos à visão dos “olheiros” estrategicamente dispostos nas duas esquinas da Dez, nos momentos mais agudos.

Não há briga de soco na rua Dez, paulada e facada é que acertam diferenças sob o olhar excitado dos circunstantes. O perdedor, quando sai vivo, desce para a Carceragem e pede transferência de pavilhão, geralmente para o Cinco. O adversário melhora a posição no ranking. Outras vezes, o condenado à morte é atraído para lá e esfaqueado por um grupo de composição variável. Nessas situações, há quem aproveite para dar um golpe a mais mesmo em alguém que nenhum mal lhe causou.

O velho Jeremias, de carapinha branca, sobrevivente de quinze rebeliões e pai de dezoito filhos com a mesma mulher, não considera a valentia o ponto forte dos agressores:

— Tantos anos na cadeia, doutor, e nunca vi ninguém matar alguém sozinho. Chega a juntar vinte, trinta, para meter a bicuda naquele que vai morrer. Pode ser forte que for, não tem defesa. A cadeia perversa a mente do sentenciado num tanto tal, que o cara está levando os golpes e muitos que não têm nada a ver com a fita pegam carona na desgraça do alheio e soltam a faca também, só de maldade. Isso aqui, é a maior covardia!

No térreo dos pavilhões ficam os setores de apoio: eletricidade, hidráulica, uma sala de atendimento médico, a Carceragem com os arquivos dos presos, a escolinha e as igrejas. Em cima das mesas não há computadores, apenas máquinas de escrever. Diante delas, sentam-se funcionários auxiliados por equipes de detentos encarregados da burocracia. Na parede, invariavelmente, há um quadro-negro com os dados numéricos do pavilhão. O fluxo de transferências e libertações é intenso.

A população da Casa é móvel: cerca de 3 mil homens são libertados ou transferidos anualmente. Construída para albergar apenas presos à espera de julgamento, a Detenção transformou-se numa prisão geral. Ao lado de ladrões primários condenados a poucos meses, ali cumprem pena criminosos condenados a mais de um século.