Estação Carandiru
Santão
Na época das palestras do cinema, conheci um assaltante e receptador de nome Santão, que certa vez se desentendeu com um amigo de infância e o matou porque ele o chamou de Zoreia. De fato, Santão havia nascido sem uma orelha, mas detestava o apelido e tinha razão para isso:
— Zoreia é o cara que tem as duas orelhas, mas elas é de abano. O meu caso é diferente.
Santão era o oitavo filho de um carregador do Mercado Central com uma lavadeira da Vila Matilde. Aos sete anos já se defendia: engraxava sapato na cidade, limpava para-brisa de automóvel e vendia rosa para ajudar na despesa. Precocemente desenvolvido, aos treze mudou de rumo:
— É que despertou a curiosidade pelo mais alto: bater carteira, dar trombada e bote no bolso de transeunte.
Quando era preso na rua, os policiais não acreditavam que um mulato forte daqueles, revoltado e sem uma orelha fosse menor de idade e o encaminhavam para o DEIC, como os adultos:
— Ficava recolhido no meio das feras, apanhando da polícia que queria meus crimes e eu só tinha trombadinha, furto de loja e cavalo louco, que era arrancar a carteira da mão da pessoa no momento que ela ia pagar alguma coisa.
O corpo musculoso lhe trazia desvantagem; para a polícia, um assaltante perigoso; para os companheiros mais velhos, um ladrãozinho que só tinha tamanho.
Aos dezesseis anos, dependurado de cabeça para baixo em cinco sessões de pau de arara no presídio do Hipódromo, tomou a decisão de mudar de vida.
— Nessa aí eu falei: preciso fazer alguma coisa mais grave para ter o que dar para os homens na próxima vez que eles me pendurar.
Abandonou o centro e foi assaltar casa, supermercado e caminhão de entrega. Acabou no pavilhão Nove da Detenção, condenado a dezoito anos. Na cadeia, com o tempo conformou-se:
— Se eu continuasse do jeito que eu vinha, tinha morrido ou ficado paralítico. A vida no crime deixa a gente embriagado de sucesso.
Essa era a história dele. Quando o fato que contarei a seguir se passou, tínhamos concluído o estudo mostrando que 78% dos travestis da Casa estavam infectados pelo vírus da AIDS. Impressionado com o número, combinei com o Waldemar Gonçalves dar uma aula para os travestis. O Waldemar conversou com o grupo preso no quarto andar do Cinco e acertou para uma sexta às oito horas, no cinema.
No dia, cheguei no cinema do pavilhão Seis meia hora antes. Foi sorte, porque o céu escureceu e uma tempestade cheia de relâmpago e trovão cortou a luz da cadeia. Ninguém havia chegado. Entrei sozinho, na penumbra, e fui para a janela oposta à porta de entrada ver a chuva. Meu olhar ficou entretido com a água que caía sobre a muralha e na fachada do pavilhão Cinco.
Num dado momento, sem querer, notei um vulto. Era um mulato alto, de camiseta branca, na soleira da porta de entrada, a uns vinte metros de mim. Ficou um tempo ali, quieto, olhando na minha direção. Depois virou as costas e foi embora. Eu, de lado na janela, fingi não ter notado a presença dele.
Passou um pouco, chegaram dois outros que se encostaram nos batentes da porta. Em seguida, voltou ele e se colocou no meio dos dois, com o peso do corpo apoiado na perna direita e a outra jogada displicente para a esquerda. Os três não trocaram uma palavra. Senti medo, naquele escuro, sozinho, o temporal ensurdecedor.
Perdi a noção do tempo. O mulato de camiseta branca começou a vir devagar, na cadência da malandragem. Os outros dois continuaram parados na porta. Quando ele cruzou metade da distância que nos separava, desisti de demonstrar que estava tudo normal e virei o corpo na direção dele.
Ele empinou o queixo no rosto escuro. Fiz o mesmo, o coração disparado, e esperei-o chegar. Quando estava mais perto, mudei o peso do corpo para a outra perna e coloquei as mãos na cintura, como açucareiro, de frente para ele, queixo para o alto, em sincronismo completo com a expressão de seu rosto, agora possível de enxergar.
A dois passos de mim ele abriu um sorriso e me estendeu a mão.
— Firmeza, doutor?
— E aí, meu?
— É o seguinte, doutor, queria colaborar com o senhor nesse trabalho do cinema. Ó, o maior respeito!
— Você sabe mexer com equipamento de som?
— Dá para me ajeitar, doutor. Na rua, trabalhei com receptação de eletrônicos.
Combinamos que ele iniciaria na semana seguinte. Apertou minha mão com força e sorriu de novo. Perguntei como faria para encontrá-lo:
— É só chamar pelo Santão, todo mundo conhece.