Estação Carandiru

Drauzio Varella · Capítulo 16 de 28

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Estação Carandiru

Inocência

 

Em inocência, a cadeia é farta. Na primeira conversa, o observador se convencerá de que ninguém é culpado. São todos vítimas de alguma armação da polícia, de um delator, do advogado sem-vergonha, do juiz, da mulher ingrata ou do azar.

Paulão é um mulato de quarenta anos, meio gordo, de sorriso agradável e barba cerrada, que vivia em movimento pela enfermaria. Durante meses, nosso contato ficou restrito ao café que ele trazia no meio da tarde, num copo com friso de ouro e uma índia com maiô de oncinha. Na primeira vez, levei a bebida à boca com uma cerimoniosa preocupação que, para minha surpresa, mostrou-se descabida: o café era forte e amargo, um alento no ambulatório interminável. Uma tarde, ele veio com o copo da indiazinha no intervalo entre dois atendimentos: — Paulão, queria agradecer essa gentileza. Toda vez, café fresquinho. Vou te trazer um pacote, não é justo você gastar do seu.

— Não faça isso, doutor, vai me entristecer. É um prazer que eu tenho.

— Quanto é tua pena, Paulão?

— Ainda não fui julgado.

— Assalto?

— Não, doutor, que é isso! Estou no aguardo do julgamento devido um rapaz que morreu na vila onde eu moro.

— Quem foi que você matou?

— Mataram meu irmão. Depois de uns dias, o assassino teve um encontro com a morte. A suspeita recaiu-se sobre a minha pessoa. Uns dizem que fui eu, mas não viram, e outros dizem que viram que eu não fui. E, nessa de uns achar que fui eu sem ver e outros ver que não, eu estou aqui na expectativa do que o juiz vai decidir.

Meses depois, no julgamento, o juiz o condenou a treze anos e quatro meses.